O professor que virou um crocodilo corredor

Existe uma imagem que o mundo ocidental tem do crocodilo: aquele matusquela cabisbaixo nas margens lamacentas de um rio africano, imóvel como um tronco mal-humorado, esperando pacientemente que algum gnu distraído chegue perto o suficiente para se arrepender. Pois bem, essa imagem tem lá seus 200 milhões de anos de atraso. Porque antes que a preguiça se tornasse a filosofia oficial do grupo, houve quem corresse. E RÁPIDO!

Pesquisadores identificaram uma nova espécie de crocodilomorfo do período Triássico, encontrada em Gloucester, no sudoeste da Inglaterra, com cerca de 215 milhões de anos de existência e uma silhueta que não tem absolutamente nada a ver com o que imaginamos hoje quando pensamos em crocodilo. O bicho tinha pernas longas e esguias, corpo leve e uma constituição física adaptada para a velocidade em terra firme. Não vivia na água, nem ficava como um Zé Ruela esperando a presa. O serzão malvadão caçava. Continuar lendo “O professor que virou um crocodilo corredor” →

A IA que fuxica o seu DNA como um detetive

Se o seu fígado pudesse falar, provavelmente diria algo como: “Oi, estou aqui me deteriorando faz um tempão, mas ninguém presta atenção em mim até eu resolver mandar uma cirrose de brinde.” E teria toda a razão. A fibrose hepática, estágio inicial do dano no fígado, é uma dessas doenças que prefere o silêncio ao drama, instalando-se discretamente no organismo enquanto o paciente acha que está apenas “um pouco cansado”. Quando os sintomas resolvem aparecer, frequentemente já é tarde para revertê-la. É o tipo de vilão que não usa capa nem faz discurso ameaçador, simplesmente avança. Continuar lendo “A IA que fuxica o seu DNA como um detetive” →

Cosplay de Zé Colmeia põe macacada pra correr na Índia

Segunda-feira. O dia em que a humanidade retorna ao trabalho com a mesma energia de um gato sendo empurrado para dentro de uma banheira com água gelada. Café do trabalho horrível, porque o pó é vagabundo, a cafeteira tá suja e a Tia do Café odeia todo mundo. Some-se a isso boletos acumulados e aquela suspeita persistente de que a civilização inteira é um grande projeto que saiu do controle, feito por algum débil mental, mas ninguém teve coragem de cancelar. Então, você abre o noticiário esperando algum escândalo político ou desastre geopolítico de bom nível… e descobre que, no interior da Índia, agricultores estão combatendo macacos vestindo fantasias de urso. A semana mal começou e a espécie humana já entrou em modo experimental. Continuar lendo “Cosplay de Zé Colmeia põe macacada pra correr na Índia” →

Artigos da Semana 296

O entrevero lá no Oriente Médio já é notícia de ontem e ninguém mais liga. Entra aiatolá, se atola o aiatolá, bomba daqui, bm da dali, tudo a mesma coisa. Só tem uma coisa que não é a mesma coisa: meus artigos, que sempre é algo novo e diferente.

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A ovelha que guardou o segredo da peste por 4 mil anos

A Peste Negra do século XIV ganhou os livros, as pinturas macabras, as danças da morte e uma carreira invejável no imaginário do horror coletivo, com direito a matar um terço da Europa e inspirar séculos de paranoia sanitária. Mas havia uma outra praga, mais velha, mais misteriosa e muito menos fotogênica, que varou a Eurásia dois milênios antes, matou gente de Portugal até a Mongólia, e saiu de cena sem deixar um bilhete de explicação. Por anos, os cientistas coçavam a cabeça diante de um problema elegantemente inconveniente: essa praga mais antiga não se espalhava por pulgas como a medieval, mas aparecia em esqueletos humanos separados por milhares de quilômetros. Como? Via correio? Magia? Os historiadores da ciência precisavam de uma pista, e ela veio, com quatro mil anos de atraso e cheiro de rebanho, de uma ovelha. Continuar lendo “A ovelha que guardou o segredo da peste por 4 mil anos” →

O maravilhoso (pelos motivos errados) Unicórnio de Madgeburgo

Existe uma categoria especial de erro humano que vai além do simples engano. É aquele tipo de equívoco tão monumental, tão fantástico, tão confiante em si mesmo, tão documentado e celebrado por pessoas inteligentes que acaba se tornando, séculos depois, uma espécie de obra de arte às avessas. O Unicórnio de Magdeburgo pertence a essa categoria. É um incrível exemplo de um fabuloso somatório de “deve ser assim, então é assim” Continuar lendo “O maravilhoso (pelos motivos errados) Unicórnio de Madgeburgo” →

O morceguinho nanico que humilhou os maiores predadores

Quando se fala em predador assassino você pensa em leões, tigres, onças e seres humanos. Não é que você esteja errado, só não sabe de tudo, e acaba esbarrando em algo profundamente desconcertante ao descobrir que um ser do tamanho de um brigadeiro caça com mais eficiência do que um leão. O responsável por essa pequena humilhação zoológica atende pelo nome científico de Trachops cirrhosus, o morcego-de-lábios-franjados, habitante das florestas úmidas do Panamá. Durante décadas, os cientistas sabiam que ele caçava sapos, mas nunca tinham conseguido observar a caçada de verdade, no escuro, na floresta, sem interferir no comportamento do animal.

Até agora. Continuar lendo “O morceguinho nanico que humilhou os maiores predadores” →

Artigos da Semana 295

Tá tendo arranca-rabo no Oriente Médio de novo. Estou com preguiça de tecer maiores considerações. Vejam o que eu postei durante a semana.

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Caverna na Romênia guarda um pesadelo pré-histórico

Nas profundezas de um lugar esquecido da Romênia, o mal aguarda. A alguns metros abaixo do solo, ela está lá, insaciável, faminta, implacável… e presa no gelo. A monstruosidade que tem cinco mil anos de idade, quando a Idade do Bronze ainda estava engatinhando, os egípcios construíam pirâmides, e nessa caverna já estava dormindo, confortavelmente congelada, uma bactéria com um currículo perturbador: resistência a mais de dez classes de antibióticos modernos, incluindo os remédios que usamos hoje para tratar tuberculose, infecções urinárias e colite.

Ela não estava tentando nos matar, estava só esperando. E agora os cientistas a encontraram, e a notícia é daquelas que você lê e fica olhando pro teto durante alguns minutos. Continuar lendo “Caverna na Romênia guarda um pesadelo pré-histórico” →

A pele sintética que roubou os truques do polvo

Os polvos são mestres do disfarce. Numa fração de segundo, essas criaturas marinhas podem transformar a aparência de sua pele para se camuflar perfeitamente em recifes de coral, rochas ou até no fundo arenoso do oceano. É como se tivessem um Photoshop biológico embutido, capaz de alterar cor, textura e até padrões tridimensionais da superfície corporal através de um sistema complexo de músculos e nervos. Agora, pesquisadores decidiram copiar essa proeza evolutiva, mas em versão sintética.

Eles criaram uma pele inteligente feita de hidrogel que pode mudar de aparência, textura e forma sob comando, esconder informações como um agente secreto e ainda fazer origami sozinha. Ah, e de bônus, conseguiram esconder a Mona Lisa dentro dela. Porque ciência também precisa de drama, aparentemente. Continuar lendo “A pele sintética que roubou os truques do polvo” →