Vampiros, bactérias e histeria popular

No final do século XIX, os habitantes de Rhode Island enfrentavam um inimigo peculiar: uma força misteriosa que os consumia lentamente, sugando-lhes a vida com a voracidade de um parasita invisível. Não se tratava, naturalmente, de vampiros no sentido romântico que hoje conhecemos: aqueles galãs góticos de capa esvoaçante e dentição impecável (hoje em dia estão preferindo retratar como ativista de faculdade de Humanas, mas prefiro os vampiros aristocratas).

O antagonista desta história era também elusivo, misterioso, um quê de místico e algo de sobrenatural: a Mycobacterium tuberculosis, a bactéria causadora da tuberculose.

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Artigos da Semana 266

As minhas férias de duas semanas acabaram e eu estou chateado. Amanhã terei que aturar meus alunos, mas se isso me for alguma vingança, eles terão que me aturar também. Espero que valha o sacrifício. Enquanto vocês estão aí de boa vida, já que ninguém aqui trabalha porque vive de rendimentos, leiam o que foi postado durante a semana.

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A Epidemia da Aldgate Pump

Imagine uma cidade onde as pessoas bebem, cozinham e tomam banho com o mesmo líquido que carrega os resíduos de… outras pessoas. Sim, eu sei que você tá bem pensando no Brasil (e nem o critico por isso, já que não está muito longe da verdade), mas o caso de hoje é um pouquinho… diferente, ainda mais porque adicionamos o fator “cemitério” na equação. Junta tudo isso e uma bomba d’água bem localizada em via pública e pronto, taí o problemão!

Esta é uma história que se passa na Londres Vitoriana, lugar nobre, cosmopolita e perfeito exemplo de civilização (segundo eles, claro). Nesse tempo, a água da Aldgate Pump era considerada fresca, borbulhante, magnífica, mas com uns detalhezinhos ruins, como estar cheia de ossos humanos dissolvidos. Continuar lendo “A Epidemia da Aldgate Pump”

A mutação que nos deu cérebros maiores e também um câncer mais esperto

Você já deve ter ouvido aquela história de que, na Evolução, sempre há um preço a pagar. Tipo: ganhamos polegares opositores, mas perdemos a habilidade de viver pelados em temperaturas abaixo de 10 °C. Agora, um grupo de cientistas da Universidade da Califórnia, em Davis, descobriu um novo “custo evolutivo” pra nossa conta: uma mutação genética que pode ter ajudado nosso cérebro a crescer, mas que, de brinde, deixou o câncer mais esperto que nosso sistema imune.

A vilã da vez? Uma proteína com nome de chef medieval: Fas Ligand, ou simplesmente FasL. Continuar lendo “A mutação que nos deu cérebros maiores e também um câncer mais esperto”

Nördlingen: quando o Cosmos resolve fazer piada com a história

Existe uma pequena cidade na Alemanha que conseguiu o feito raro de ser simultaneamente a coisa mais fantástica e mais absurda do mundo. Nördlingen não é apenas uma cidade medieval perfeitamente preservada, pois, isso seria banal demais até para os padrões alemães. Não, ela teve que ir além e se instalar no meio de uma motherfucking cratera de meteoro de 15 milhões de anos, construir suas casas com pedras cravejadas de diamantes microscópicos e ainda por cima servir de campo de treinamento para astronautas da NASA. É como se alguém tivesse decidido misturar Game of Thrones com Armageddon e jogado um pouco de 2001: Uma Odisseia no Espaço só para dar aquele toque de sofisticação científica. Continuar lendo “Nördlingen: quando o Cosmos resolve fazer piada com a história”

Quando a IA buscou, localizou e encontrou espermatozoides escondidos

Imagine procurar por uma única pessoa específica em todas as praias do mundo, sem saber em qual continente ela está, se é que está em algum lugar. Agora imagine que essa pessoa seja invisível na maior parte do tempo. Bem-vindos ao universo da azoospermia, onde a natureza decide brincar de esconde-esconde com espermatozoides, e onde um casal acabou de quebrar o recorde mundial de persistência reprodutiva: 18 anos tentando engravidar. Dezoito. Anos. Para colocar isso em perspectiva, quando eles começaram a tentar, o iPod ainda era novidade e Mark Zuckerberg ainda era apenas um universitário desajeitado em Harvard.

Mas esta não é uma história sobre desistência. É sobre como a inteligência artificial acabou de se tornar a melhor parteira do século XXI, transformando o que parecia uma missão impossível em uma gravidez real, com bebê previsto para dezembro. E não, não estamos falando de ficção científica; estamos falando de uma revolução silenciosa que está acontecendo bem debaixo dos nossos narizes, ou melhor, bem debaixo dos microscópios. Continuar lendo “Quando a IA buscou, localizou e encontrou espermatozoides escondidos”

Ciência comprova indica: corpo cheio de microplásticos é um saco!

A gente já sabia que o plástico estava em todo lugar. No oceano, no ar, no sal de cozinha, no peixe que comemos, no pulmão, no sangue, no fígado, no cérebro… e agora, como se não bastasse, ele resolveu invadir os bastidores mais íntimos da existência humana: lá, onde tudo começa e tudo se resolve.

Sim, pois, é. Os safadinhos microplásticos estão agora oficialmente na terra prometida da fertilidade: esperma e ovários. Agora, o termo “saco plástico” ganha outras conotações. Continuar lendo “Ciência comprova indica: corpo cheio de microplásticos é um saco!”

Artigos da Semana 259

Enquanto está havendo (mais um) arranca-rabo pelo Oriente Médio, com as mesmas figurinhas carimbadas de sempre, devemos lembrar que se faz guerra por qualquer, desde comida, silos nucleares e até uma… barba. Foi um dos artigos desta semana, além de termos pólens, timelapse, macaco ladrão, rio sacaneando a atmosfera e até, OH-NO!!, políticos corruptos. mas como assim?

Vou fazer mais pipoca!

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Grãos de pólen lembram daquilo que esquecemos

Se você está espirrando muito nos últimos dias, pode culpar as plantas. Todo ano elas liberam uma chuva invisível de grãos de pólen — partículas minúsculas que são, basicamente, o “DNA ambulante” da reprodução vegetal. Para quem tem alergia, é uma tortura. Para os cientistas, uma dádiva, e isso porque o pólen é muito mais do que um gatilho de espirros. Ele é um registro microscópico do mundo como ele já foi. Cada grão tem uma casca resistente que o protege por eras — até mesmo milhões de anos. E quando ficam enterrados no fundo de lagos, rios ou oceanos, esses grãos viram fósseis que contam com detalhes como era o ambiente, a vegetação e até o que andavam fazendo os seres humanos por ali.

Essa é a missão dos palinólogos: cientistas que investigam esses arquivos microscópicos da história da Terra. E o que eles já descobriram com a ajuda do pólen é de fazer qualquer um repensar aquela crise alérgica de primavera. Continuar lendo “Grãos de pólen lembram daquilo que esquecemos”

Rios muy amigos botando gás carbônico pra fora e ferrando nossa vida


à meia-noite eu vou aquecer o seu planeta!

Durante muito tempo, os cientistas acreditaram que havia uma espécie de cofre subterrâneo onde o carbono antigo dormia em paz, intocado há milênios. Um descanso digno, protegido por camadas de solo, rochas e otimismo geológico. Mas acontece que esse carbono resolveu acordar, bocejar e, de forma nada discreta, dar um pulinho nos rios — e, de lá, voltar direto para a atmosfera em forma de CO₂. Sim, senhoras e senhores, o passado voltou. E está no ar.

Um estudo mostrou que mais da metade do carbono que os rios liberam na atmosfera não é material orgânico fresquinho, recém-chegado da decomposição de folhinhas caídas, como se imaginava. Não. É carbono velho. Muito velho. Tipo aposentado há milênios, do tipo que veio de camadas profundas do solo ou de rochas que vêm sendo intemperizadas desde quando mamutes ainda estavam de pé. Continuar lendo “Rios muy amigos botando gás carbônico pra fora e ferrando nossa vida”