Os segredos lunares de um robozinho soviético

Há uma categoria especial de objetos no universo que são, ao mesmo tempo, completamente inúteis e absolutamente indispensáveis. O retrorrefletor de laser do Lunokhod 1 é um deles. Não produz energia, não coleta amostras, não fotografa crateras, não faz absolutamente nada além de devolver a luz que recebe, exatamente de onde ela veio. É, em essência, um espelho glorificado preso a um rover soviético abandonado numa planície lunar. E foi justamente esse dispositivo de elegância quase monástica que, quarenta anos depois de todo mundo ter desistido de encontrá-lo, voltou a piscar para a Terra como se dissesse: “ainda estou aqui, obrigado por perguntar.” Continuar lendo “Os segredos lunares de um robozinho soviético” →

Idiota age como idiota e xinga astronautas dizendo que eles não foram ao Espaço

Sexta-feira, finalzão de semana, todo mundo pronto pra sextar (exceto eu porque é dia 22 e o salário é uma longe lembranaç). O cérebro humano deveria estar descansando, hidratando, talvez contemplando uma pizza sinistra de ótima (já pedi a minha) e decisões ruins perfeitamente aceitáveis para depois das oito da noite. Seria assim, mas fomos novamente arrastados para o grande esgoto radioativo da civilização digital, já que depois da invenção de celulares com câmeras, o bando de Morlocks saiu debaixo da pedra e fica atazanando pessoas.

Um desses imbecis decidiu abordar os astronautas da missão Artemis II no Capitólio dos Estados Unidos para acusá-los de nunca terem ido ao Espaço. A esta altura, a Seleção Natural já deve estar preenchendo formulário de desistência, e Darwin ergue os ombros e diz “mas nunca falei que a seleção era para gente mais esperta”.

Voando até a Fronteira Final da Idiotice, esta é a sua SEXTA INSANA! Continuar lendo “Idiota age como idiota e xinga astronautas dizendo que eles não foram ao Espaço” →

A sonda poupando energia para continuar viajando audaciosamente

A humanidade enviou ao Espaço Interestelar uma sonda lançada quando Jimmy Carter era presidente dos Estados Unidos, o Brasil vivia sob ditadura militar e Guerra nas Estrelas (Fuck you e seu “Star Wars”) tinha acabado de estrear nos cinemas, e agora, quase meio século depois, os engenheiros da NASA precisam fazer exatamente o que qualquer pessoa faz quando o carregador do celular está sobrecarregado: desligar algumas coisas para economizar energia.

A Voyager 1, o objeto mais distante já construído pelo ser humano, está a cerca de 25 bilhões de quilômetros da Terra, ou seja, 170 vezes a distância da Terra ao Sol (chamamos isso de UA, Unidade Astronômica). E ainda assim, essa relíquia dos anos 1970 cruza a Fronteira Final com a dignidade de quem sobreviveu a tudo, mas depende de uma fonte de energia que perde cerca de quatro watts por ano. Para quem não tem noção do que isso significa: é como se, a cada doze meses, você perdesse a capacidade de acender uma lâmpada de pisca-pisca de Natal. Continuar lendo “A sonda poupando energia para continuar viajando audaciosamente” →

A Terra daqui a um bilhão de anos

Há um tipo de pensamento que costuma aparecer em momentos silenciosos, quase sempre à noite, quando a pressa do dia já perdeu a força: o que será deste lugar quando não estivermos mais aqui? Não daqui a cem anos, nem a mil. Muito além disso. Um tempo tão distante que qualquer traço humano já terá sido apagado, como pegadas na areia depois da maré. Imaginar a Terra nesse futuro remoto é, ao mesmo tempo, fascinante e desconfortável. É olhar para um mundo familiar e perceber que ele não nos pertence tanto quanto gostamos de acreditar. Continuar lendo “A Terra daqui a um bilhão de anos” →

O que o Universo demorou bilhões de anos, cientistas fizeram no laboratório facilmente mais uma vez

Existe um clube extremamente exclusivo dentro da tabela periódica. Não é o dos elementos radioativos, que pelo menos têm a decência de aparecer em quantidade suficiente para causar preocupação. Também não é o dos gases nobres, que basicamente vivem de esnobar qualquer tentativa de interação química. É um grupo bem mais ingrato: os chamados p-núcleos.

Estamos falando de cerca de 35 isótopos ricos em prótons que são, ao mesmo tempo, mais pesados que o ferro e absurdamente raros. Tão raros que, durante décadas, a Ciência simplesmente não sabia explicar de onde eles vinham. Não era falta de interesse, e sim falta de pista mesmo. Agora, pela primeira vez, pesquisadores conseguiram reproduzir em laboratório uma das reações nucleares responsáveis pela formação do mais leve desses elementos, o selênio-74. A boa notícia é essa. A má notícia é a clássica: entender um pedaço do problema só deixou mais evidente o tamanho do resto. Continuar lendo “O que o Universo demorou bilhões de anos, cientistas fizeram no laboratório facilmente mais uma vez” →

Artigos da Semana 301

Enquanto o mundo está o mesmo de sempre com arranca-rabo de todo lado eleições com novos parasitas mantendo as mesmas políticas de sempre e um festival de inutilidades postadas nos jornais, vocês devem me agradecer por trazer coisas que realmente importam,e elas estão aqui, nos artigos da semana:

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A vez da irmã mais nova visitar a Lua

Se você cresceu achando que ir à Lua era basicamente “apontar o foguete e acelerar até chegar”, a NASA tem uma notícia ligeiramente desconcertante: nos anos 60, era quase isso mesmo. O programa Apollo, aquele monumento tecnológico erguido no meio da Guerra Fria, operava na base do que engenheiros chamam, com admirável eufemismo, de “brutalidade elegante”: gastar uma quantidade obscena de energia para resolver o problema rápido. O foguete Saturno V tinha a mesma sutileza filosófica de um rinoceronte em choque com um muro, mas chegava lá. Mais de meio século depois, a NASA olha para o mesmo destino e decide fazer algo que soa quase ofensivo para o espírito apressado do século XXI: dar uma volta maior, mais lenta, mais calculada. E não, isso não é regressão, é sofisticação; e a diferença entre as duas abordagens se esconde num detalhe que a maioria das pessoas nunca percebe no telão da transmissão ao vivo: o caminho. Continuar lendo “A vez da irmã mais nova visitar a Lua” →

A Terra não dorme mais e os satélites estão de prova

Eu vi uma foto da Mari hoje e fiquei com inveja. Inveja da noite escura, de poder ver as estrelas. Ela consegue ver um mundaréu de estrelas e eu, por morar em capital, só consigo ver algumas, e isso é muito, muito ruim. Os astronautas como os da Estação Espacial Internacional veem nosso planeta à noite, uma esfera azul e silenciosa pontilhada de luzes. É belo, poético e, se você prestar atenção, ligeiramente alarmante. Aquelas luzes não estão diminuindo. Estão crescendo. E um novo estudo confirmou, com a mais detalhada análise de satélites já feita, que o planeta está ficando progressivamente mais brilhante durante a noite, embora não de forma uniforme, e não pelos motivos que você talvez imaginasse. Continuar lendo “A Terra não dorme mais e os satélites estão de prova” →

Confundiram um pedregulho voador com um míssil

No domingo (08/03) à tarde, enquanto boa parte da Europa estava tranquilamente de pantufas e ocupada arranjando um motivo para não entrar em guerra com o Irã, um objeto de alguns metros de diâmetro cruzou o céu. Geral ficou com o símbolo do cobre na mão, e se você acha que eu escrevi isso porque tenho medinho de escrever cu, errou redondamente, tão redondo quanto o seu cu. Quer dizer, acho que ele é assim, não sei, não me interessa.

O que me interessa mesmo é que um pedregulhão espacial, com bilhões de anos de estrada acumulados, muita milhagem a ponto de estar em sala VIP de Guarulhos (que merda, eu sei) e absolutamente nenhum interesse em geopolítica, decidiu que Koblenz, cidade simpática no estado alemão da Renânia-Palatinado, seria um destino razoável. O Cosmos, como de costume, não consultou ninguém. Continuar lendo “Confundiram um pedregulho voador com um míssil” →

Uma década com a Espinha Dorsal da Noite

Há muitos milhares de anos, os seres humanos aprenderam uma coisa: levantar os olhos para a noite e esperar que o universo se revelasse. Entre madrugadas silenciosas, frio cortante e nuvens imprevisíveis, a Via Láctea surgia como um rio de luz atravessando a escuridão. O que começou como curiosidade tornou-se ritual. A cada ano, a galáxia voltava ao céu, nunca igual, nunca exatamente no mesmo lugar, e esse retorno constante transformou observação em contemplação. Continuar lendo “Uma década com a Espinha Dorsal da Noite” →