A Terra daqui a um bilhão de anos

Há um tipo de pensamento que costuma aparecer em momentos silenciosos, quase sempre à noite, quando a pressa do dia já perdeu a força: o que será deste lugar quando não estivermos mais aqui? Não daqui a cem anos, nem a mil. Muito além disso. Um tempo tão distante que qualquer traço humano já terá sido apagado, como pegadas na areia depois da maré. Imaginar a Terra nesse futuro remoto é, ao mesmo tempo, fascinante e desconfortável. É olhar para um mundo familiar e perceber que ele não nos pertence tanto quanto gostamos de acreditar. Continuar lendo “A Terra daqui a um bilhão de anos” →

Artigos da Semana 302

Me ausentei um pouco pelo feriadão entrecortado. Tenho certeza que vocês estão ávidos dando F5 em notícias que não farão a menor diferença na vida de vocês. Ok, eu entendo. Crise tá aí, um monte de gente teve que pagar imposto de renda e agora estão em casa fingindo serem mais bem informados enquanto outros estão se divertindo.

Ah, sim Vocês leram o que eu postei durante a semana? Não vai mudar a vida de vocês mas guerra do Irã também não vai.

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O surpreendente Homem de Cheddar

Em 1903, alguns trabalhadores escavavam tranquilamente dentro de uma caverna no desfiladeiro de Cheddar, em Somerset, quando encontraram algo que não deveria estar ali, pelo menos não à vista. Um corpo. Não enterrado com cuidado, não acompanhado de objetos, não transformado em memória. Apenas um esqueleto, encolhido, esquecido, preservado pelo acaso e pela pedra durante cerca de dez mil anos.

Ele já estava ali antes de qualquer coisa que hoje chamamos de civilização europeia. Antes da invenção da escrita, antes das pirâmides, antes de Stonehenge. Ainda assim, quando o encontraram, fizeram o que sempre se faz: deram um nome e encaixaram numa narrativa confortável. Chamaram-no de Homem de Cheddar e decidiram, sem muito debate, que ele era o “primeiro britânico”. Continuar lendo “O surpreendente Homem de Cheddar” →

Artigos da Semana 301

Enquanto o mundo está o mesmo de sempre com arranca-rabo de todo lado eleições com novos parasitas mantendo as mesmas políticas de sempre e um festival de inutilidades postadas nos jornais, vocês devem me agradecer por trazer coisas que realmente importam,e elas estão aqui, nos artigos da semana:

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Lacus Eburodunensis: o lago que conservou Roma melhor do que Roma

Roma conquistou o mundo conhecido, pavimentou estradas por toda a Europa, chegou às margens do Reno com suas legiões e seus gladii (plural de gladius ou “gládio”) e, então, numa tarde qualquer do século I da nossa era, afundou um carregamento inteiro num lago suíço. Sem sobreviventes, sem registro, sem testemunha. Dois mil anos depois, mergulhadores vasculham o fundo lodoso do Lacus Eburodunensis – hoje conhecido como lago Neuchâtel – e encontram praticamente tudo intacto, como recém-saído da olaria. A História tem um senso de humor que os professores preferem não comentar. Continuar lendo “Lacus Eburodunensis: o lago que conservou Roma melhor do que Roma” →

Política precisa ter filtro, mas alguns candidatos interpretaram isso errado

Há uma tradição respeitável entre políticos do mundo inteiro: mentir. É quase um requisito da profissão, está implícito no contrato não escrito que o eleitor assina ao depositar seu voto na urna. Mas mentir com a própria cara, literalmente, usando inteligência artificial para substituir a sua fisionomia por outra pessoa trinta anos mais jovem e depois insistir, diante de provas fotográficas, que aquilo é você? Isso já ultrapassa os limites do cinismo convencional e adentra um território novo: o da desfaçatez estética com pretensão ontológica. Continuar lendo “Política precisa ter filtro, mas alguns candidatos interpretaram isso errado” →

O prédio que girou 90 graus enquanto os funcionários ficavam pendurados no telefone

Eu sempre digo que nossos avós eram o máximo. Vocês podem dizer “ain, é bom viver no futuro”. Nossos avós CONSTRUÍRAM o futuro. Os caras eram capazes de maravilhas, e isso porque eram arrogantes e queriam fazer o impossível, só que não sabiam que o que estavam fazendo era impossível, por isso fizeram. Um exemplo disso se deu em outubro de 1930, quando 600 funcionários chegaram ao trabalho num edifício, fizeram o que tinham que fazer, foram embora, no final do expediente, com o mesmo edifício estando Ok, só que estava em outro lugar. Literalmente.

O prédio tinha se mudado durante o dia. Não metaforicamente, não em sentido figurado para alguma tese de teoria organizacional. O edifício de concreto, tijolo e aço de 11 mil toneladas tinha percorrido dezenas de metros e girado 90 graus (!), enquanto lá dentro as telefonistas continuavam atendendo chamadas, a água saía das torneiras e o gás aquecia os radiadores. Um dos funcionários relatou, anos depois, que sequer percebeu o movimento. Bom trabalho, 1930. Bom trabalho. Continuar lendo “O prédio que girou 90 graus enquanto os funcionários ficavam pendurados no telefone” →

Artigos da Semana 300

Hoje é dia do coelhinho (se eu fosse como tu…). Você deve ter pego em muitos ovos, se enchido de barras de chocolate até transbordar e outros duplos sentidos que na verdade é um sentido só: comemorar a Páscoa. Vamos ver o que foi postado durante a semana que não teve nada a ver com Páscoa, mas enfim…

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A caganeira que causou uma guerra

Existem ocorrências minúsculas, até mesmo displicentes, que acabam por escalonar em algo bem maior, algo que ninguém ligaria os pontos diretamente sem saber o que aconteceu pelo meio. Chamamos isso de “Efeito dominó”, aquela situação em que uma peça cai, empurra a próxima, que empurra a seguinte, e de repente você está olhando para uma catástrofe que começou com um detalhe ridículo. A História é cheia desses momentos, mas poucos chegam ao nível do que aconteceu na noite de 7 de julho de 1937, perto de Pequim, quando um simples soldado raso deflagrou, sem querer, uma guerra que matou entre 15 e 20 milhões de pessoas e evoluiria de forma catastrófica em uma guerra muito maior.

Esta é a história de Shimura Kikujiro e como uma caganeira inadvertidamente causou a Segunda Guerra Sino-Japonesa. Continuar lendo “A caganeira que causou uma guerra” →

O ponto final de um adeus

Neil Gaiman diz que deuses morrem quando não possuem mais devotos, gente que os venera, gente que acredita neles. É a mesma coisa com escritores. Alguns logram de ser imortais, com fiéis leitores que apreciam as linhas deitadas antes, hoje e sempre. Outros escritores caem no vazio do esquecimento, perecem dia após dia, somem num soçobrar inaudível, indistinto e imperceptível. É um ponto no meio de um texto.

E some. O último ponto é um ponto final.

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