Como a “mão esquerda” pode acabar com a vida das pessoas

Toda a vida na Terra, da bactéria ao seu cunhado que não larga o churrasco, compartilha uma esquisitice: tem lateralidade. Os aminoácidos que montam as proteínas são canhotos, enquanto os açúcares e a espiral do DNA e do RNA são destros, e ninguém sabe ao certo por que a natureza escolheu esse time. A “vida-espelho” seria uma célula construída com a versão invertida de tudo isso, algo como o universo paralelo de Star Trek, só que com bactérias de barbicha. O problema é que um organismo assim passaria despercebido por sistemas imunes, predadores e vírus.

Desde então, cientistas, governos e organismos internacionais discutem moratórias e leis preventivas. Sobrou, porém, uma pergunta de obviedade incômoda: se alguém construísse uma dessas criaturas, como é que a gente saberia? Pois uma equipe acaba de propor o primeiro método de triagem para flagrar vida-espelho, e o truque usa a mesma física dos óculos que você veste para ver blockbuster em 3D. Continuar lendo “Como a “mão esquerda” pode acabar com a vida das pessoas” →

Harriet Cole: a funcionária mais antiga da Universidade Drexel

A funcionária mais antiga da Drexel University, na Filadélfia, nunca tirou férias, jamais pediu aumento e não faltou um único dia desde o século XIX. A própria instituição a apresentou ao público, em 2012, como sua servidora de mais longa data, e dá para entender o orgulho: poucas folhas de pagamento ostentam alguém que trabalha em regime de alfinetes.

Hoje, essa funcionária executa o seu trabalho no Student Activities Center, entre a cozinha dos estudantes e as mesas de pingue-pongue, com os nervos pintados de branco, os olhos no lugar e um nome que a anatomia mundial pronuncia como se fosse de família: Harriet. Há perguntas no ar: Quem ela foi? Quem teve a gentileza de lhe perguntar se topava virar patrimônio científico? São questões que levaram mais de um século para serem tratadas com seriedade. As respostas, como costuma acontecer quando alguém resolve abrir uma caixa de arquivo, são bem menos reluzentes que o cartão-postal. Continuar lendo “Harriet Cole: a funcionária mais antiga da Universidade Drexel” →

Artigos da Semana 327

A semana começou louca, evoluiu para a insânia, tornou-se estupendamente idiota e foi corada com uma excelente divulgação científica. De tédio vocês não morrem aqui, se é que ainda tem gente lendo para se divertir. Bem, vamos ao que foi postado durante a semana.

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Por que a ferida do diabético não fecha?

Você tá cansado de saber que um dos grandes problemas que os diabéticos possuem é não poder se entupir de deliciosos doces. Ah, sim, tem a parte das feridas não cicatrizarem, o que pode ser muito, muito ruim! Este tipo de ferida crônica da diabetes é algo bizarro, porque o organismo tem todo o material de reparo à disposição e, ainda assim, a obra não anda. Mais de 131 milhões de pessoas no mundo convivem com essas úlceras, os custos anuais em saúde chegam a cerca de 755 bilhões de dólares e, quando tudo desanda, o desfecho inclui amputação e morte. Por que isso acontece?

Uma recente pesquisa propõe que tudo gira em volta das células do sistema imunológico, as coordenadoras de qualquer reação a uma lesão. A literatura vinha dando pouca atenção a como cada população imune muda ao longo das fases da cicatrização numa ferida diabética, o que equivale a avaliar um filme olhando uma cena só. Continuar lendo “Por que a ferida do diabético não fecha?” →

Cientistas invocam o MAL para salvar paciente

A maioria das pessoas sabe o próprio tipo sanguíneo de cor, como o número do calçado, e dá o assunto por encerrado. Só que a superfície de um glóbulo vermelho lembra mais um condomínio lotado do que uma ficha de cadastro, e é nesse território, cheio de marcadores moleculares que quase ninguém conhece, que a história de hoje se passa.

Pois um grupo de cientistas britânicos resolveu um enigma que durava meio século. O antígeno AnWj foi identificado em 1972, ano de O Poderoso Chefão e da última missão Apollo à Lua, e desde então ninguém sabia qual gene o fabricava nem qual proteína o carregava. A resposta veio com brinde: um sistema sanguíneo inédito, batizado de MAL. Continuar lendo “Cientistas invocam o MAL para salvar paciente” →

Ozempic: a substância que veio para cuidar do diabético, virou modinha e agora é terapeuta, oncologista e neurocientista

Toda droga de sucesso estrondoso tem uma origem meio acanhada, quase burocrática, que ninguém lembra depois que ela vira fenômeno cultural. A aspirina nasceu para dor de cabeça e hoje disputa currículo com prevenção cardiovascular. O Viagra foi desenvolvido para angina e terminou revolucionando outro tipo de circulação sanguínea, bem mais comentado em rodas de amigos do que em congressos de Cardiologia. E há uma nova entrada nesse hall meio acidental dos remédios que fugiram do próprio currículo, o Ozempic e seus primos farmacêuticos, os agonistas do GLP-1. Continuar lendo “Ozempic: a substância que veio para cuidar do diabético, virou modinha e agora é terapeuta, oncologista e neurocientista” →

A Verdadeira História das Luvas Cirúrgicas

Há coisas que a gente aceita como óbvias sem nunca se perguntar de onde vieram, e a luva cirúrgica é uma delas. Hoje, a ideia de um cirurgião enfiando as mãos nuas dentro de um paciente soa tão absurda quanto pedir a um eletricista que trabalhe descalço numa poça d’água. Mas até o fim do século XIX era exatamente assim que a medicina funcionava: sem luvas, sem lavagem de mãos entre um paciente e outro, e com uma taxa de mortalidade cirúrgica que beirava os 50%.

Esta é a história de como um romance salvou a cirurgia moderna. Continuar lendo “A Verdadeira História das Luvas Cirúrgicas” →

Robô assiste robô cirurgião operando uma pessoa roboticamente

Imagine confiar a remoção da sua vesícula biliar a um bípede metálico de um metro e meio, pilotado à distância por alguém que talvez esteja de chinelos em casa. Pois é exatamente isso que uma equipe de engenheiros e cirurgiões da Universidade da Califórnia em San Diego acabou de fazer, com sucesso, inaugurando uma era em que a ficção científica perde a exclusividade sobre robôs vestindo (ou quase vestindo) jaleco.

Em resumo: pela primeira vez na história, dois robôs humanoides teleoperados realizaram cirurgias completas em um teste pré-clínico. Em uma delas, um robô trabalhou como assistente de um cirurgião humano numa remoção de vesícula biliar. Na outra, mais audaciosa, dois robôs humanoides operaram sozinhos, em dupla, sem nenhum humano de bisturi na mão. Continuar lendo “Robô assiste robô cirurgião operando uma pessoa roboticamente” →

O câncer que se recusa a morrer

A Humanidade vem gastando bilhões de dólares procurando a fonte da juventude eterna enquanto um punhado de células malignas na sua pele já descobriu a fórmula há muito tempo, de graça, sem pedir licença e sem nenhuma intenção de compartilhar a receita. O melanoma, aquele tipo de câncer de pele que adora se esconder atrás de uma pinta desconfiada, é uma das formas mais eficientes que a natureza já produziu de driblar a morte celular. E por décadas os cientistas sabiam que ele fazia isso, só não sabiam exatamente como.

Agora, um grupo de pesquisadores da Universidade de Pittsburgh encontrou a peça que faltava nesse quebra-cabeça bioquímico. A descoberta não é apenas mais um tijolo na parede do conhecimento sobre câncer: é o tipo de achado que explica por que essas células insistem em não respeitar o prazo de validade biológico que todas as outras respeitam. Continuar lendo “O câncer que se recusa a morrer” →

Quem não tem colírio usa óculos escuros… ou espinafre

A Ciência tem um talento raro para resolver problemas de jeitos que nenhum ser humano mentalmente equilibrado imaginaria. Se alguém te dissesse que um tratamento para síndrome do olho seco poderia transformar células da córnea em algo vagamente parecido com mini-usinas fotossintéticas movidas a espinafre, você provavelmente concluiria que a pessoa passou tempo demais olhando para lâmpadas fluorescentes. Pois foi exatamente isso que pesquisadores da National University of Singapore fizeram, e o resultado é tão estranho quanto fascinante. Continuar lendo “Quem não tem colírio usa óculos escuros… ou espinafre” →