Carnaval: A guerra Igreja x Cultura

empire.jpg A notícia informa que a Escola-de-samba Gaviões da Fiel têm como tema deste ano a cidade de Santana de Parnaíba (Grande SP), que acolheu os bandeirantes na época dos desbravamentos. Até aí nada demais. O problema que está sendo criado pela igreja chatólica é com relação à uma das alegorias do 5º carro, denominado “Paixão de Cristo” , que fechará o desfile apresentação, nele será encenado um trecho do “Drama da Paixão” (espetáculo tradicional da cidade homenageada), que narra os últimos dias de Jesus antes da crucificação.

A Gaviões (prometo não fazer piadinha a respeito) garante que não serão apresentadas imagens sacras no carro alegórico, nem tampouco haverá apresentação de atores que representassem Cristo nem Maria, tratando-se tão-somente de uma encenação do encontro de Herodes com Pilatos. Se bem que eu acho que seria legal e bem sacro mostrando o Jóquei de Jegue levando umas porradas. Carnaval é cultura. :-D

A encrenca causada pelos chatólicos romanos é comandada pelo bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, José Benedito Simão, que declarou “nós vemos o fato como preocupante. Tem de haver um cuidado na exposição das imagens sacras. Não pode haver uma junção do sagrado com o profano”. Ahan, Sei! Simãozinho ainda afirmou: “O nu é exageradamente explorado no Carnaval, que é uma festa que tem muitas drogas e violência”. Que pecado, né? Um monte de gente pelada (mas, por lei, sem mostrar a genitalia) é algo que a igreja não pode tolerar, pois ela é de uma pureza e castidade extrema e… Ops! Esqueceram de avisar a Da Vinci, Michelângelo e Rafael (clique nas imagens para ampliá-las):

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O preclaríssimo bispo até aventou a hipótese de recorrer ao Judiciário: “se o desfile agredir os ideais da Igreja Católica, ela tem o direito, para não dizer o dever, de impedir o desfile, indo à Justiça”.

Ideais? Alguém que defendeu a escravidão, patrocinou massacres, é repleta de pedófilos, maníacos sexuais e coisas lindas do gênero se sente no direito de falar algo? Então ela vai processar o Estado, já que ele distribui remédios contraceptivos e camisinhas, não é mesmo e… Ops 2 !

Foi exatamente o que o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, afirmou que na próxima semana a Arquidiocese, através da Pastoral da Saúde, isto é, que iria ingressar na Justiça pedindo a suspensão da iniciativa da prefeitura do Recife de instalar postos de saúde nos pólos de folia do carnaval com a oferta de contraceptivo de emergência (pílula do dia seguinte).

O bispo, que como bom líder religioso é uma sumidade em asneiras, afirmou “Aborto é crime, é um dos delitos mais graves segundo o Direito Canônico e quem o comete é automaticamente excomungado”.

Aborto? Desde quando a pílula do dia seguinte é abortiva? Deve estar escrito isso na Bíblia. Um livro que fala de dragões e unicórnios não surpreende se trouxer mais besteiras desse calibre. Ainda mais com a reafirmação de tolice pelo coordenador da Pastoral, Vandson Holanda que soltou a seguinte pérola: “Ações semelhantes devem ocorrer em vários pontos do País”, disse ele. A argumentação será a de que o contraceptivo de emergência é abortivo. Lindo não?

Mas, o judiciário ainda tem pessoas com alguns neurônios e que sabe o que é um Estado laico. Uma dessas pessoas é o juiz da 6ª Vara da Fazenda Pública de Recife, Ulisses Viana Filho, pôs hoje um ponto final nessa babaquice pernambucana. Ele considerou irrelevantes as opiniões religiosas que condenam o uso de preservativos ou contraceptivos sem qualquer respaldo da comunidade científica. “A República Federativa do Brasil é um estado laico e não uma teocracia”, afirmou, ao destacar também que “de acordo com opinião expressa nos órgãos de comunicação escrita, o medicamento não será distribuído aleatoriamente, mas tão-somente para mulheres vítimas de abusos sexuais ou de acidentes verificados no uso das ‘camisinhas'”. Não foi dessa vez, Dom Zezinho. :-D

Voltando ao Sudeste e à questão dos sambistas, o pessoal da gaviões não deu uma titica pro que falaram. O carnavalesco Mauro Quintaes declarou que “Com o carro Paixão de Cristo, nós pretendemos mostrar a encenação, que acontece em Santana do Parnaíba, para divulgar o calendário cultural da cidade, que é o grande foco do nosso desfile”.

Em carnavais passados, a Igreja já meteu o bedelho nos desfiles de Escola-de-Samba (talvez por arrecadar mais dinheiro e “fiéis” do que ela. Será que as missas um dia sairão com o som do Zeca Pagodinho?). Um dos casos mais famosos ocorreu em 1989, quando a Arquidiocese do Rio de Janeiro impediu que a Beija-Flor desfilasse com a imagem de um Cristo Redentor mendigo. O carnavalesco Joãozinho Trinta, à frente da escola naquela ocasião, decidiu ir para a avenida com a imagem coberta por um pano (e no meio descobriu a imagem só de sacanagem, deixando a Igreja puta da vida).

No ano 2000, a TPF (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade) e a Arquidiocese paulistana impediram que a Águia de Ouro apresentasse ao público a escultura da Virgem Maria segurando uma criança indígena no colo. Mesmo porque, índios não tinham alma e, assim como os negros, podiam ser escravizados.

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Particularmente, acho frescura. Qualquer um que tenha visto uma estatueta de Iris e Hórus… Bem, não falo nada. Ela está aqui do lado. Tirem suas conclusões (clique na imagem para ampliá-la).

Como cariocas não poderiam ficar atrás de paulistas, numa eterna briga bairrista, um carro que representa o Holocausto, a morte de mais de seis milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial, é motivo de polêmica neste ano no Carnaval do Rio. A Viradouro, com um enredo sobre o arrepio, diz que vai manter a alegoria, apesar dos pedidos da Federação Israelita do Rio, no melhor estilo “tampar o Sol com a peneira”.

O carro traz esculturas de corpos e sapatos amontoados. Sérgio Niskier, da Federação Israelita, declarou que “colocar um carro com a representação do Holocausto com passistas é inadequada. O tratamento do Holocausto para quem tem marcas na pele é muito difícil e não deve ser feito desta forma”.

A Viradouro se defendeu, alegando que o carro é uma forma de protesto contra o nazismo; o carnavalesco Paulo Barros declarou que “ o carnaval também é um meio para que a gente faça esse alerta para o mundo inteiro”.

“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.” – Martin Luther King.


Com a participação de Fátima Tardelli

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