A ciência precisa combater a pseudociência: uma declaração de 32 cientistas e filósofos russos

filosoforusso.jpgOs representantes de muitas ciências e disciplinas — astrônomos, físicos, químicos, biólogos, filósofos, advogados, psicólogos — estão preocupados pelo crescente disseminação da astrologia, medicina alternativa, quiromancia, numerologia e pseudo-ciências místicas na Rússia e outros países do mundo. Desejamos atrair a atenção do público à ameaça de uma atitude não crítica em relação às profecias e conselhos dos “praticantes modernos das ciências ocultas”, professadas tanto em particular como na mídia. Aqueles que acreditam na dependência do destino humano em corpos celestes, substâncias mágicas ou feitiçaria precisam entender que a ciência não pode de maneira alguma oferecer apoio a estas crenças. Continuar lendo “A ciência precisa combater a pseudociência: uma declaração de 32 cientistas e filósofos russos”

Falsas ciências e teorias pseudocientíficas

”pseudocientifica.jpg”Por Valdir Gomes
Jornalista, pós-graduando em Comunicação Social na Universidade Metodista de São Paulo (Umesp)

Cientistas e jornalistas da área científica de vários países têm alertado nos últimos anos sobre a invasão das chamadas pseudociências (ou falsas ciências) nos meios de comunicação e acadêmicos. O astrônomo americano Carl Sagan, o físico brasileiro Marcelo Gleiser, o biomédico Renato Sabbatini (articulista de ciência do Correio Popular, de Campinas), o jornalista Ricardo Bonalume Neto, da Folha de S.Paulo, e o jornalista e acadêmico espanhol Manuel Calvo Hernando, entre outros, têm se dedicado à crítica de fenômenos paranormais, místicos e “alternativos”.

Atualmente, cientistas que se dedicam à divulgação da ciência têm se organizado em sociedades de combate à proliferação de teorias pseudocientíficas, como o Csicop – Commitee for the Scientific Investigation of Claims of the Paranormal e a Sociedade Brasileira de Céticos e Racionalistas, principalmente porque essas teorias têm uma relação muito perigosa com a ciência legítima, por motivos que explicarei mais adiante.

Mais do que combater a pseudociência, acredito ser de extrema importância também explicar o que são e como funcionam as falsas ciências. Como afirmou Sagan (O mundo assombrado pelos demônios, Companhia das Letras, 1996, pág. 30): “Se alguém nunca ouviu falar de ciência (muito menos de como ela funciona), dificilmente pode ter consciência de estar abraçando a pseudociência”. Particularmente, chamo a atenção para o caminho inverso: conhecer a pseudociência, para saber discernir entre o verdadeiro e o simulacro.

Para uma conceituação de pseudociência, faz-se necessário, primeiramente, partir da própria formação da palavra. Conhecer a morfologia de um termo, comparando-o a outro da mesma origem, pode ser um bom caminho para o entendimento de um fenômeno e suas implicações. O prefixo grego “pseudo” significa “falso”; anteposto a determinadas palavras em língua portuguesa, como elemento aglutinador, tem o objetivo de indicar que algo a que nos referimos apresenta-se de uma forma enganosa, que se utiliza de uma aparência simulada para ganhar credibilidade de quem o observa.

Dessa forma, a comparação com termos à primeira vista similares pode ajudar a clarear de vez as idéias. “Anticiência”, por exemplo, define um movimento contrário à ciência, no sentido de negação valorativa. Um terceiro termo, “protociência”, designa uma ciência em seu estágio primário de evolução, que tenta estabelecer legitimidade e conquistar reconhecimento na comunidade científica. Diferentemente da “pseudociência”, a “protociência” já se delineia nos cânones científicos e seu estatuto de ciência depende do tempo necessário para que suas hipóteses e experimentos demonstrem consistência e comprovem a eficiência dos conceitos e teorias, criando-se, a partir daí, seu rol de leis e pressupostos específicos, amparados em leis e pressupostos gerais já sedimentados. Embora ambas surjam de especulações, conhecimento intuitivo e estruturas conceituais questionáveis, geralmente é a protociência que mais tem condições de oferecer uma proposta de criatividade e curiosidade capaz de gerar interesse de pesquisa e produção de conhecimento racional. No entanto, quando a insistência nas especulações tornam as teorias e práticas pseudocientíficas uma ameaça até à saúde pública, combatê-las é o melhor caminho para o equilíbrio da própria ciência e da sociedade. O que pode acontecer é a inclusão da protociência (ou ciência de fronteira) como alvo desse ataque, impedindo sua evolução como conhecimento racional.

As teorias pseudocientíficas apresentam-se como uma proposta de conhecimento aparentemente sustentada por bases sólidas de investigação, seleção, comparação, apuração e explicação de fatos e objetos. Costuma responder com maior rapidez aos questionamentos, porque age eliminando etapas indispensáveis à construção de um conhecimento sólido e objetivo. Agindo assim, ela acaba atingindo o público também rapidamente, difundindo seus argumentos, influenciando e confundindo a opinião pública antes mesmo de a resposta científica entrar em cena para lançar uma explicação mais racional sobre os fenômenos. No entanto, quando chega o momento de apresentar publicamente justificativas e resultados para as teorias expostas – muitas sequer experimentadas –, as pseudociências tendem a escapar para o campo das argumentações subjetivas.

Embora a disseminação do conhecimento científico e o grande avanço da ciência possam nos fazer acreditar que teorias pseudocientíficas se enfraqueçam e desapareçam por si mesmas, devido às suas características e ao suporte teórico frágil que as sustentam, o que percebemos é o surgimento contínuo de novas disciplinas e teorias ditas “científicas”, mas questionáveis do ponto de vista da metodologia científica. Para tirar a prova, basta uma consulta ao Dicionário Cético (Skeptic’s Dictionary), elaborado pelo filósofo Robert Todd Carroll, fonte confiável de crítica e análise de práticas científicas e não-científicas e de fenômenos diversos, como alquimia, cirurgia psíquica, crenças, iridiologia, vampiros, raptos por extraterrestres e homeopatia, entre as mais de 320 definições que apresenta.

Cada vez mais propagadores da pseudociência insistem em tirá-la da obscuridade, usando termos, métodos e conceitos das ciências genuínas, o que causa mal-estar na comunidade científica e confusão de conceitos e valores na sociedade – o grande alvo das falsas ciências, em grande parte encorajadas pelos meios de comunicação de massa. É em geral pela mídia que as pessoas tomam contato com superstições e pseudociências. A partir daí, pela importância e credibilidade que atribuem aos meios de comunicação, em especial à TV, passam a acreditar em astrologia, quiromancia, clarividências e terapias alternativas de toda natureza. Terminam, então, por buscar conselhos e apoio para tomar decisões muita vezes vitais, ouvindo pseudo-estudiosos que se dizem autoridades em conhecimentos, muitos deles até desprovidos de qualquer lógica.

Certamente, as comunidades científica e acadêmica concordam sobre os danos que a pseudociência podem causar. Trata-se de uma volta ao obscurantismo, que deve ser encarada e combatida pelos homens da ciência e da comunicação, especialmente por jornalistas e divulgadores científicos, se não quisermos uma regressão social às superstições e ao charlatanismo medievais. Talvez o maior combustível da pseudociência ainda seja o desconhecido, o não-teorizado, o não-pesquisado; acredito que o surgimento e proliferação das teorias pseudocientíficas estarão sempre ligados à existência do “mistério” e do não-resolvido. Na medida em que as fronteiras do conhecimento avançam, amplia-se proporcionalmente o horizonte do desconhecido e, logo, do misterioso. Este é um dos axiomas da ciência.


Texto originalmente publicado em 20/05/1999 no Observatório da Imprensa em http://www.observatoriodaimprensa.com.br/ofjor/ofc200599.htm.

Ernst Mayr

ernstmayr.jpg(1904-2005)

Chegar aos 100 anos de idade é algo raro entre os seres humanos. Ainda mais raro é chegar a essa idade lúcido e saudável. Muito mais raro é completar um século de vida lúcido, saudável e com força e disposição suficientes para continuar brigando pelas próprias idéias. Trata-se de algo verdadeiramente excepcional e que deveria ser saudado por todos nós, mesmo quando não concordamos inteiramente com as idéias do aniversariante.

Em 5 de julho de 2004, foi assim: o biólogo evolucionista Ernst Mayr (1904-2005) completou 100 anos de idade – lúcido, saudável e discutindo e escrevendo sobre ciência, mais precisamente sobre biologia. Continuar lendo “Ernst Mayr”

Abu Ali Hasan Ibn al-Haitham (Alhazen)

alhazen.jpgAbu Ali Hasan Ibn al-Haitham, mais conhecido como Alhazen, foi um cientista árabe da virada do milênio passado (965-1039) que passou a maior parte da sua vida no Egito, naquela época governado pelo todo-poderoso e também muito temperamental califa Al-Hakim. Continuar lendo “Abu Ali Hasan Ibn al-Haitham (Alhazen)”

A formiga de Langton

<img src=”https://ceticismo.net/wp-content/uploads/2006/11/langtonsant.jpg&#8221; alt=”langtonsant.jpg” style=”margin:4px;” align=”left” border=”0″ />Imagine um plano completamente branco, dividido em quadrados de mesmo tamanho. Sobre ele, uma formiguinha avança um quadrado por vez, enquanto uma série de três regras simples se aplica a ela e ao plano.<!–more–> A primeira regra diz que quando a formiguinha encontrar um quadrado preto deverá fazer uma curva de noventa graus para a esquerda. A segunda regra diz que quando a formiguinha encontrar um quadrado branco deverá fazer uma curva de noventa graus para a direita. A terceira e última regra diz que quando a formiguinha sair de um quadrado ele deverá mudar de cor, de branco para preto ou de preto para branco, conforme o caso. Este sisteminha teórico, conhecido como Formiga de Langton (Langton’s Ant), foi criado nos anos oitenta por Chris Langton, estudioso de sistemas de vida artificial (simulação em computador de organismos vivos) e máquinas de Turing (modelos abstratos de funcionamento de computadores).

<img src=”http://www.burburinho.com/img/nn030720.gif&#8221; align=”right” border=”0″ height=”290″ hspace=”10″ width=”200″ />A formiguinha imaginária de Langton é um excelente exemplo de como regras simples podem gerar sistemas complexos. Quando deixada desacompanhada num plano completamente branco, seguindo as três regras básicas do seu universo, a formiga começa a criar padrões aparentemente simétricos em sua primeira centena de movimentos. Logo em seguida, porém, fica impossível reconhecer qualquer padrão de movimento e ela perambula aparentemente a esmo durante seus próximos dez mil movimentos. E quando tudo parece indicar que nenhuma forma reconhecível voltará a ser criada, a formiga começa a desenhar uma espécie de auto-estrada retilínea e com padrões decorativos, seguindo na mesma direção rumo ao infinito. Não existe qualquer regra no sistema instruindo a formiguinha a se comportar como um inseto bêbado durante dez mil movimentos ou a construir uma rodovia (mirmecovia?) depois disso. Trata-se de comportamento emergente, resultados complexos surgidos de regras simples.

Um observador atento não teria muita dificuldade em descobrir as regras do sistema, bastando para isso uma análise de causas e conseqüências. Mas o mesmo observador não teria como prever que, depois de milhares de movimentos desordenados, a formiguinha fosse iniciar a construção de uma auto-estrada. Observando o sistema em sua fase caótica, poderia concluir (erroneamente) que se trata de um sistema essencialmente caótico. Observando o sistema em sua fase ordenada, poderia concluir (erroneamente) que se trata de um sistema essencialmente ordenado. Mesmo num ambiente extremamente simples (um plano branco) e uma diminuta coleção de regras (apenas três), os resultados podem ser imprevisíveis. Quando acrescentamos mais alguns elementos, como alguns quadrados pretos pelo caminho ou uma segunda formiga, qualquer tentativa de determinar o futuro do sistema, ou mesmo de parte dele, é completamente infrutífera. Sim, podemos executar a simulação e descobrir o que sempre acontece numa determinada situação. Mas não temos como prever os resultados de situações novas.

E qual a importância disto tudo? Imagine que o sistema em questão é um pouco mais elaborado. Em vez de um plano, temos um espaço tridimensional. Em vez de uma simples formiguinha, temos milhões de elementos diferentes interagindo. Em vez de três regras simples, temos uma coleção bem maior de regras um pouco mais complicadas, e que ainda não conhecemos na totalidade, como gravidade, eletricidade, magnetismo, relatividade e mecânica quântica, entre outras. Sim, estamos falando do nosso universo. Se não conseguimos prever o comportamento de uma formiguinha imaginária num sistema extremamente simples, será possível compreender na totalidade algo cuja complexidade é infinitamente maior?

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Fonte: <a href=”http://www.burburinho.com/20030720.html”>http://www.burburinho.com/20030720.html</a></em&gt;

Obsessão pela ferramenta

ferramentas.jpgQuando me perguntam que câmara fotográfica eu uso, gosto de responder: qualquer uma. A reação é quase sempre de surpresa, já que a resposta esperada é alguma marca famosa e sua defesa incondicional. Porque muita gente confunde as ferramentas com o que podemos fazer com elas. Continuar lendo “Obsessão pela ferramenta”

O único debate válido sobre Design Inteligente

Moderador: Estamos aqui hoje para debater este assunto controverso que é Evolução versus Design Inte… (Cientista puxa um bastão de basebol)

Moderador: Ei, o que você está fazendo?

(Cientista quebra a patela do proponente do Design Inteligente)

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Design da evolução

Cientistas estão retraçando os passos por meio dos quais a evolução obteve seus sucessos. Estão descobrindo que o mesmo kit de ferramentas genéticas pode construir estruturas tanto simples quanto complexas.

Olhos, asas – a natureza está repleta de estruturas complexas. Os cientistas vêm descobrindo como elas surgiram. Das minúsculas criaturas marinhas aos seres humanos, genes iguais são responsáveis pela estruturação do corpo, revelando a trajetória evolutiva dos primórdios elementares às formas mais intricadas. Continuar lendo “Design da evolução”

Os répteis marinhos do passado

Organismos que viveram no passado geológico do nosso planeta podem ter formas bem diferentes e até mesmo extravagantes quando comparados com as espécies que vivem atualmente. Isto não é novidade para ninguém – estão aí dinossauros como o Maxakalisaurus , pterossauros como o Feilongus e formas intermediárias entre os peixes e os primeiros tetrápodes (vertebrados que conquistaram a terra firme) como o Tiktaalik , para citar só alguns exemplos. Mas poucos organismos surpreendem mais do que os ictiossauros. Continuar lendo “Os répteis marinhos do passado”

Cem bilhões de neurônios

Por Roberto Lent

Se alguém lhe disser que tem uma inflamação em um nervo, você certamente reagirá com uma careta: mau sinal… Mas para os neurocientistas que estudam a regeneração neural, a inflamação se tornou um fator de bons augúrios.

Desde o início do século 20 se conhecia uma diferença fundamental entre o sistema nervoso periférico – nervos e gânglios que ficam entre os órgãos do corpo – e o sistema nervoso central – composto pelas estruturas alojadas dentro do crânio e da coluna vertebral. Continuar lendo “Cem bilhões de neurônios”