Um novo projeto!

O mundo anda chato do lado de cá. Eu sento, escrevo um artigo ou outro, alguns de vocês leem, pouquíssimos compartilham. No dia seguinte, eu vejo algo que possa ser interessante, escrevo artigo, posto, alguns de vocês leem, pouquíssimos compartilham. Depois eu fico escrevendo um imenso texto, posto, alguns de vocês leem, pouquíssimos compartilham. Tá tudo muito chato.

Então, pensei cá comigo: e que tal fazer algo diferente? Então lancei um novo projeto: textos voltados para gringos.

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Quando ratos foram réus num julgamento e um advogado malandro os salvou

O recinto está preparado, a audiência se iniciará em poucos minutos. Os gentis-homens se posicionam com suas graves roupas, adequadas ao ofício que exercem. Chapéus bem arrumados, meias bem esticadas, túnicas bem alinhadas, casacões postos. Um deles passa a mão grossa pelo largo rosto e ajeita a barba; e com sobrancelhas fechadas, olhos diminutos e atentos farejando uma vítima, um réu, um culpado. O home que chega então anuncia que o réu não poderá tomar o lugar que lhe deve e um advogado é indicado. Outro grave homem se senta e espera que se dê início à sessão, pois ali o réu maldoso, o mal encarnado, o facínora será julgado.

A sessão tem início e o julgamento começa à revelia do ausente réu; a saber: um rato, e este talvez seja um dos mais estranhos julgamentos, mas não é o único de sua espécie. Continuar lendo “Quando ratos foram réus num julgamento e um advogado malandro os salvou”

A Verdadeira História das Luvas Cirúrgicas

Há coisas que a gente aceita como óbvias sem nunca se perguntar de onde vieram, e a luva cirúrgica é uma delas. Hoje, a ideia de um cirurgião enfiando as mãos nuas dentro de um paciente soa tão absurda quanto pedir a um eletricista que trabalhe descalço numa poça d’água. Mas até o fim do século XIX era exatamente assim que a medicina funcionava: sem luvas, sem lavagem de mãos entre um paciente e outro, e com uma taxa de mortalidade cirúrgica que beirava os 50%.

Esta é a história de como um romance salvou a cirurgia moderna. Continuar lendo “A Verdadeira História das Luvas Cirúrgicas”

Abriram uma múmia… e encontraram Homero lá dentro

Há descobertas arqueológicas que mudam datas. Há outras que mudam mapas. E há, muito raramente, aquelas que desafiam tudo o que pensávamos saber sobre o passado: arqueólogos encontraram um fragmento da Ilíada de Homero cuidadosamente colocado dentro de uma múmia egípcia de cerca de 1.600 anos, usado de forma intencional durante o processo de embalsamamento. Não se trata de um texto que caiu acidentalmente na tumba. É literatura grega elevada à condição de amuleto ritual, algo tão inesperado quanto imaginar Os Lusíadas enterrado junto a um antepassado para acompanhá-lo na eternidade. Continuar lendo “Abriram uma múmia… e encontraram Homero lá dentro”

Starchild: a cabeçona misteriosa que deixou ufeiros em polvorosa

O calor opressivo estava batendo como um malho numa bigorna na longínqua década de 1930. Para muitos, seria algo para deixar morgando num alpendre com 300 ventiladores, ou trancado em casa com ar-condicionado no talo, mas para uma adolescente era um dia normal. Talvez por ser de origem mexicano-americana, já acostumada com o calor, a adolescente não estava desconfortável com o verão ao visitar parentes num pequeno vilarejo do interior de Chihuahua, naquele tipo de família binacional que atravessa a fronteira com a naturalidade de quem atravessa a rua.

Entediada com a vida rural e proibida pelos pais de se aproximar dos barrancos e minas abandonadas da região, a jovem fez exatamente o que qualquer adolescente proibida faria: fingiu sair para colher cerejas e foi explorar um desfiladeiro que lhe chamara a atenção. E esta decisão iria causar um impacto no que se sabe sobre Ciência, Arqueologia e até mesmo a busca por civilizações extraterrestres, e isso graças a uma cabeça de proporções descomunais. Continuar lendo “Starchild: a cabeçona misteriosa que deixou ufeiros em polvorosa”

Enshitification: a palavra de ordem justificando o que nossos avós diziam

Sabe quando os mais velhos dizem que antigamente tudo era melhor? Eles não estavam errados. Olhe ao redor e preste atenção. Da geladeira ao Sistema Operacional, dos carros até um forno, em que é preciso logins, e senhas, e IA, muita IA, cheio de IA e para que? Para você sentar na frente da TV e colocar um programa preferido, driblando comerciais. Uma pesquisa te dá tudo, menos o que você está pesquisando. Isso tem um nome: Enshitification, o, como eu prefiro traduzir livremente: esmerdalhamento das coisas. Continuar lendo “Enshitification: a palavra de ordem justificando o que nossos avós diziam”

Artigos da Semana 314

Esta semana acaba  Copa do Mundo e eu estou desesperançado. Não terei mais 3 jogos por dia com seleções buscando a glória máxima. Ah, sim, ainda teve a o Brasil, também. Enfim. Pelo menos, a certeza é que continuamos colocando aqui os melhores artigos de vários assuntos, e eu continuo com a série O Apocalipse Tecnológico Moderno, algo que você não lerá em blogs de tecnologia, já que eles apenas viraram vitrine de empresinha ou press release ou coisas sem sentido.

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A última canção de um império: o Epitáfio de Seikilos

Há uma sala no Museu Nacional da Dinamarca onde a luz entra devagar, como se meros fótons tivessem consciência da importância do local. Caminhando por corredores silenciosos, chega-se perante uma pequena coluna de mármore. Ao redor, o silêncio educado e um pouco solene que só existe em museus e em velórios. Ali é o Departamento de Antiguidades, e a coluna está cercada de outros fragmentos gregos e romanos que também sobreviveram por acaso ou por teimosia. Vasos que perderam a alça. Estátuas que perderam o nariz. Moedas que perderam o brilho mas não o perfil do imperador. É uma sala de sobreviventes, uma espécie de sala de espera na qual cacos do passado aguardam, pacientemente, que alguém pare, incline a cabeça e leia… e escute.

A coluna ali presente canta silenciosamente por meio de letras gregas entalhadas há muito tempo, junto aos símbolos que indicam a melodia. Uma voz que atravessou o tempo que traz a sensação de que a pedra sussurra, baixinho, para quem se debruça sobre o vidro. Aquela coluna é o Epitáfio de Seikilos. Continuar lendo “A última canção de um império: o Epitáfio de Seikilos”

Biosfera 2: quando ignorar a Química quase leva a uma extinção em massa

Em 26 de setembro de 1991, oito pessoas se trancaram voluntariamente dentro de uma redoma de vidro e aço no meio do deserto do Arizona e, de quebra, quase morreram sufocadas pelo próprio otimismo. Não havia vírus, não havia sabotagem, não havia nenhum vilão de filme B espreitando pelos corredores. Havia, isso sim, um adversário muito mais chato e muito mais eficiente: o concreto. Bem-vindos à Biosfera 2, o experimento de US$ 150 a 200 milhões que prometia ensaiar a colonização de Marte e acabou dando uma aula magistral sobre como a Terra, com todos os seus bilhões de anos de rodagem, ainda sabe humilhar qualquer tentativa humana de replicá-la em escala reduzida. Continuar lendo “Biosfera 2: quando ignorar a Química quase leva a uma extinção em massa”

O Zoológico da Masmorra

O Reiuno Unido recebe cerca de 37 a 38 milhões de turistas internacionais por ano.Claro, quem passa por Londres não deixa de passar pela Torre de Londres, e muitos que passaram por Londres no passado iam parar na Torre, mas contra a vontade. Acontece que a Torre tem um quê de pitoresco que as pessoas normalmente não sabem. Há uma pergunta que os guias turísticos da Torre de Londres deum modo geral não fazem, mas que merece ser feita: o que você faria se soubesse que, por mais de seiscentos anos, aquele complexo de pedra e terror que serviu de prisão, palácio e depósito das joias da Coroa também funcionou como zoológico?

A resposta correta é perguntar se os animais tinham celas melhores que os presos humanos. A resposta provável é que sim. Continuar lendo “O Zoológico da Masmorra”