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Judas, o maior personagem do Cristianismo

Sábado de Aleluia é dia dele. O dia daquele que morreu por fazer a coisa certa. Aquele que foi odiado, pisado e ainda hoje é xingado, achincalhado e sofre bullying. Sem ele, a História do mundo seria diferente. Guerras não existiriam, conquistas não seriam feitas, debates não teriam aparecido, toda a nossa cultura não estaria aqui. Nem mesmo outras religiões apareceriam. Sim, sem ele o mundo seria muito diferente, para melhor ou pior, não se sabe.

O nome desse personagem tão terrível, mas tão necessário é conhecido por todos das nações cristãs. Sendo sinônimo de traidor, apesar de eu considerar ser algo injusto, sem ele não haveria o Vaticano, não haveria as milhões de obras de arte, não haveria nem o Jimmy Swaggart (ok, nem tudo é perfeito) . Estamos falando de Judas, o Iscariotes.

Ninguém sabe nada sobre Yehudhah ish Qeryoth, da mesma forma que não se sabe nada sobre Jesus. Eu não perderei meu tempo discutindo a historicidade dos personagens. O que vemos na composição dos textos canônicos é que logo de início da relação dos discípulos, ele é mencionado sempre no final. A bem da verdade, Judas não era um apóstolo. Lucas era um apóstolo, porque este último pregou a fé cristã, mas Judas… Judas é um dos caras que eu mais gostei. Era o cético, o questionador. O cara que fazia o papel de sheitan, o acusador.

Percebam na passagem que Jesus é ungido em Betânia, quando "uma mulher com um frasco de alabastro, contendo um perfume muito caro (…) o derramou sobre a cabeça de Jesus quando ele se encontrava reclinado à mesa". Os discípulos ficam indignados (Mateus cap. 26). Mas, em Marcos, cap. 14, alguns discípulos chiaram sobre o gasto desnecessário. Em João cap. 12, Judas é o bode expiatório da parada, criticando que esse perfume poderia ser vendido e dado aos pobres. João, o espírito-de-porco gospel não parece gostar nadinha de Judas, o cara que questionou o óbvio: Um pregador itinerante que defende dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (gf. Mateus 22:15-22, Marcos 12:13-17 e Lucas 20:20-26) aproveitando placidamente ganhar perfuminho de uma mulher, que usa seus cabelos para espalhar o perfume. Não soa esquisito, não? Judas é o questionador e faz a incômoda pergunta em João 12:5: Por que este perfume não foi vendido, e o dinheiro dado aos pobres? Seriam trezentos denários" (discute-se se deveriam ser denários mesmo ou siclos, mas eu já disse que não enveredarei pelo caráter histórico das passagens).

João, dá uma alfinetada no versículo seguinte: "Ele não falou isso por se interessar pelos pobres, mas porque era ladrão; sendo responsável pela bolsa de dinheiro, costumava tirar o que nela era colocado". Mas é uma pergunta óbvia. Se você já trabalhou num escritório de contabilidade ou precisa pedir verba, o pessoal que libera a grana iria perguntar isso, também (em outros moldes, claro). João, o antissemita, mostra Judas um FDP, e conduz seu leitor a achar que tudo o que Judas faz ou fala está errado, pois Jesus nunca está errado, mesmo quando se contradiz. então, OS OUTROS devem doar suas togas, seus bens etc, mas quando ELE é paparicado com perfume caro, então tá certo? Isso é a humildade de um pobre carpinteiro? Aliás, carpinteiros não eram tão pobres assim, não. Ok?

Judas toma um esporro de Jesus no versículo 7 e 8: Deixe-a em paz; que o guarde para o dia do meu sepultamento. Pois os pobres vocês sempre terão consigo, mas a mim vocês nem sempre terão".

Pô, sou humildão, mas vocês têm que ficar me bajulando ou vou embora. Como coisa que faria diferença pro pessoal, mas o autor diz que faria diferença, então tá.

Aliás, prestem atenção: "A mim, vocês nem sempre terão". Jesus sabe que os dias dele estão contados, e sabe quem será. Isso vem até na cena da Ceia, quando ele reparte o pão e mostra quem será que o trairá.

Ou não!

Em Mateus, 26:19, "[Jesus] disse: O que põe comigo a mão no prato, esse me há de trair". Ou seja, quem tava com a mão no prato naquele momento era o X-9 dos fariseus. Mas, João, o Apóstolo Espírito-de-Porco, não falou isso. Em João 13:26, "Jesus respondeu: É aquele a quem eu der o bocado molhado. E, molhando o bocado, o deu a Judas Iscariotes, filho de Simão".

Reflexão: Você é um discípulo que ama o seu mestre. Seu mestre faz muitas coisas boas e está mudando a vida das pessoas. O mestre diz que será traído e diz na lata quem será. O que você faz?

(A) Fica de boa, achando que não é nada demais.
(B) Banca o desentendido, fingindo que não ouviu nada.
(C) Acha que seu mestre está viajando mais do que de costume.
(D) Acha que o mestre não quis dizer o que estava dizendo.
(E) Olha pro "traidor" e dá um arroxo dele pra ele falar o que tá havendo e impedir a traição, fugindo com o mestre dali, poupando dor a várias pessoas e a morte de seu Senhor.
(F) Todas as alternativas, exceto a (E).

No versículo a seguir, João diz que "depois do pedaço de pão, Satanás entrou em Judas. Então Jesus lhe disse: ‘O que tens a fazer, executa-o depressa’ "

Satanás, da raiz hebraica "Sheitan", o acusador. Jesus sabia o que Judas ia fazer e mesmo assim o mando IR FAZER. Ou seja, Satanás, meu rabo! Jesus foi quem instruiu Judas a fazer isso, ou ele não seria Jesus. No jardim de Getsêmani tem a cena do beijo gay, digo, a cena que Judas entrega Jesus às autoridades, conforme está relatado em Mateus 26:47-50, Marcos 14:43-45 e Lucas 22:47-48.

Senão, vejamos: todo mundo conhecia Jesus, todo mundo vinha ter com ele. Ele andava sempre à frente do pessoal, e as autoridades eram que nem polícia carioca que não sabe quem é o facínora? Precisaram que um dos seus o identificasse? Algo como "é um cara altão, que sai na frente, falando com todo mundo, com cabelo hippie, barba hipster e que não para de falar" não pareceu ser suficiente, foi preciso um beijo.

Só que João, mais uma vez, faz das suas, dizendo que foi Jesus quem se apresentou, em João 18:4-9 lemos: "Quando, pois, lhes disse: Sou eu, recuaram, e caíram por terra. Tornou-lhes, pois, a perguntar: A quem buscais? E eles disseram: A Jesus Nazareno. Jesus respondeu: Já vos disse que sou eu; se, pois, me buscais a mim, deixai ir estes; para que se cumprisse a palavra que tinha dito: Dos que me deste nenhum deles perdi."

Jesus mesmo se entregou. Ele mesmo disse quem era. Mas João, o Apóstolo Do Contra, ainda assim disse que Judas o traiu. Só se fez a descrição antes, como coisa que as autoridades precisassem, mas a história precisa de uma reviravolta, como toda boa obra de ficção.

Depois disso, Judas viu que fez merda. Alguns acham que ele pensou que os discípulos se revoltariam, baixariam a porrada nos guardas e iniciariam mais uma revolta judaica.

Quase acertou!

Nos versículos a seguir, Pedro, o Apóstolo Kickboxer, mete a mão numa espada e corta fora a orelha de um dos guardas e Jesus dá um esporro, já que Jesus parece meu chefe: só sabe dar esporro. Ele cura o guarda e fala que aquilo tinha que acontecer, pois, caso contrário, uma "legião de anjos seria enviado para protegê-lo". Claro, é um migué, pois não viria nada de qualquer jeito, o que fica provado pois quando estava pregado no pau-de-arara romano, Jesus reclama com o papai dele, perguntando por que o abandonou (sim, Jesus blasfemou!).

Depois disso, Judas ficou sentido e resolveu se desfazer da grana. Em Mateus 27 é dito que "Judas, o traidor, vendo-o então condenado, tomado de remorsos, foi devolver aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos as trinta moedas de prata. Os príncipes dos sacerdotes tomaram o dinheiro e disseram: Não é permitido lançá-lo no tesouro sagrado, porque se trata de preço de sangue. Depois de haverem deliberado, compraram com aquela soma o campo do Oleiro, para que ali se fizesse um cemitério de estrangeiros."

Mas Atos 01, Lucas – mais uma vez provando o quão bom historiador era — diz que foi o próprio Judas: "Homens irmãos, convinha que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo predisse pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam a Jesus; porque foi contado conosco e alcançou sorte neste ministério. Ora, este adquiriu um campo com o galardão da iniquidade; e, precipitando-se, rebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram"

Judas comprou um terreno só para se matar. Sim, claro. Faz muito sentido. E isso para que? Para ferrar o cara de vez, já que o Javé tinha proibido que alguém se matasse (talvez, com pena de ser apedrejado até a morte se tentasse).

Atentem para "cumprisse a Escritura". Então havia uma profecia que Judas iria fazer isso? E isso por causa da Providência Divina, que decidiu milênios antes que Judas seria um traidor, respeitando o livre arbítrio. Sim, claro!

Então, sejamos diretos: sem a "traição", que foi decisão divina, não haveria u mártir, não haveria uma seita, não haveria uma religião, não haveria um império teocrático, não haveria nada! O islã não apareceria da forma que apareceu, não haveriam as Cruzadas, a Noite de São Bartolomeu, não haveria Martinho Lutero, não haveria o Bible Belt, não haveria a Cruz Vermelha, não haveria as obras de Miquelângelo, Da Vinci,  Bernini, Caravaggio, Rafael, Saramago, Joseph Campbell, Paulo Coelho etc. Nada do que vemos hoje existiria, o mundo seria diferente. Claro, os artistas ainda seriam o que eram, mas suas obras seriam outras. Giordano Bruno não teria ido para a fogueira, mas não se sabe se Mendel faria suas pesquisas sobre Hereditariedade. É impossível saber como o mundo seria sem a traição de Judas e a obra heroica que ele originou.

E ainda querem punir, dilapidar, escrachar, vilipendiar a ação de Judas? Ele foi o cara mais importante do Cristianismo, não Jesus! Ele foi uma ovelha sacrificial, algo lançado no fogo para garantir que o Poder de Deus fosse fundamentado na Terra, pois o próprio Jesus não estava fazendo muita diferença entre os zilhões de pregadores apocalipsistas que haviam na região. Jesus então seria apenas mais um. O toque de traição e retorno triunfal mudou a história e a História.

Não importa se o Cristianismo fez mais mal do que bem ou mais bem do que mal. Ele existe e faz diferença na história mundial. Sem Judas, não haveria Cristianismo e, quem sabe, o mundo talvez fosse melhor… ou talvez fosse pior. Outras religiões apareceriam ou muitas não desapareceriam e estaríamos sacrificando pessoas em honra a Cuculmatz. Não que eu ache que Cortez nos fez um grande favor, só digo que muita coisa é diferente por causa do judeu que foi pro pau, que nem mesmo sabemos quem foi ou se sequer existiu.

Judas, o Iscariotes é a personagem mais importante do Novo Testamento, e seu nome será lembrado por todos, sejam cristãos ou não. Maquiavélico se refere a um adjetivo pejorativo e é devido ao que Maquiavelli escrevera, no ponto que ele não tinha dito nenhuma mentira. Chamar alguém de "Judas" como acusação de traidor não tirará a importância do personagem. Assim, no sábado de aleluia, não deveríamos malhar o Judas, e sim venerá-lo como Mártir do Senhor.

Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

  • Almeida

    Realmente Judas foi um herói, o apóstolo que melhor compreendeu Jesus e que o entregou para ser executado a pedido dele mesmo. Aliás, o evangelho de Judas narra exatamente isso.

  • 1karamazov

    O que seriam dos mártires sem os vilões? O personagem mais importante das histórias e mitologias sempre é o cara do mal, afinal, se ninguém fizer algo de errado, não vai precisar de ninguém pra salvar a humanidade. Seria Jesus o Superman que anda de jegue e Judas o Koringa da antiguidade? Naahhh, Superman é mais legal, tem visões de raio X com quais consegue ver peitos 😈

    Apesar de ser fão do blog só tô comentando agora, valeu André!!

    indissiocrasico.wordpress.com

  • SAULO NOGUEIRA

    Então Jesus é mais “fodão” do que Judas, pois o seu próprio “evangelho” diz que foi Jesus quem mandou ele o trair.

    Administrador André respondeu:

    É, mas nenhum cristão venera Judas por causa disso.

    Aliás: se Jesus mandou Judas o trair, Judas não o traiu. 😉

    JCFerranti respondeu:

    @SAULO NOGUEIRA, Jesus não mandou Judas traí-lo, mas entregá-lo as autoridades!

    Administrador André respondeu:

    Por isso eu digo que Judas não o traiu. Não houve traição.

    SAULO NOGUEIRA respondeu:

    @André, O problema de Judas não foi somente a traição, mas sua covardia. Dentro da concepção reformada, pecado é pecado, não existe pecado mais “feio” do que outro, mas as consequências são diferentes. O pecado que Pedro cometeu, foi tão “grave” quanto o de Judas. Pedro cometeu apostasia, ou seja, Pedro negou a fé e mentiu quando perguntado se fazia parte do grupo dos doze. Mas Pedro se arrependeu, foi reintegrado ao grupo dos Apóstolos e se tornou um dos maiores missionários da Igreja primitiva. Esse mesmo destino poderia ter sido o de Judas. Se ele se arrependesse verdadeiramente e pedisse perdão pela sua traição, poderia ter se tornado um dos grandes nomes da Igreja cristã primitiva. De qualquer forma alguém teria que fazer o que Judas fez, só que ele poderia ter se redimido, pois Jesus estaria disposto a perdoá-lo.

    JCFerranti respondeu:

    @SAULO NOGUEIRA,
    1º Mas Judas não se matou por arrependimento do que fez? Então se arrependeu de verdade, ou não?
    2º Judas foi condenado por se acovardar ou por suicídio?

    SAULO NOGUEIRA respondeu:

    @JCFerranti,
    “1º Mas Judas não se matou por arrependimento do que fez? Então se arrependeu de verdade, ou não?”

    Não, Judas sentiu apenas remorso (metamelomai) e não arrependimento (Metanoia).

    “2º Judas foi condenado por se acovardar ou por suicídio?”

    Primeiramente por ter traído o Mestre, mas sua condenação final foi devido a sua falta de arrependimento e ao seu suicídio.

    JCFerranti respondeu:

    @JCFerranti, Desculpa, mas isso me parece mais um problema de semantica do que de atitude em si!
    Remorso = “Putz, fiz merda!” != Arrependimento = “Foi malz!”

    Almeida respondeu:

    @SAULO NOGUEIRA,
    De qualquer forma alguém teria que fazer o que Judas fez, só que ele poderia ter se redimido, pois Jesus estaria disposto a perdoá-lo.

    Não sei não. .. Jesus praguejou Judas dizendo que seria melhor pra ele que ele nunca tivesse nascido, conforme diz Mateus 26, 23-24.

    SAULO NOGUEIRA respondeu:

    @Almeida,
    Mas Jesus não diz isso somente para Judas, mas para qualquer pessoa causadora de escândalos e até pior:

    “Mas, qualquer que escandalizar um destes pequeninos, que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar.
    Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!”

    (Mateus 18:6-7)

  • Narciso L. Junior

    Me lembrou a música do Raul Seixas que falava exatamente isso, https://www.youtube.com/watch?v=zL51SCxMvYQ , e também do tal ”Evangelho segundo Judas”(afinal que fim levou?), estranho o silencio da igreja em torno do tema.

  • Thiago Almeida Avelino

    Bacana o texto. Foda é que toda essa tramóia do sacrifício de Jesus pela humanidade não tem um pingo de sentido. Lamentável.