Inácio de Antióquia: A questionável história de um mártir

Um dos perfeitos exemplos de devoção, amor a uma causa e estabelecimento da profissão de fé são os mártires. Eles se entregaram ao flagelo, ao sofrimento e à morte para mostrar o quanto seu amor a Jesus Cristo era maior e mais importante que tudo na vida, inclusive a própria vida. Um dos mais conhecidos e venerados mártires cristãos é Inácio de Antióquia, que mesmo preso e sendo levado ao seu destino em Roma, onde seria jogado aos leões, manteve-se sereno e resignado, professando sua fé e exortando as pessoas a seguirem o Salvador, Jesus Cristo, o verbo feito carne. Mas quem é esse Inácio de Antióquia que desperta tanta veneração? O que a História sabe sobre ele? Vamos buscar a verdade, pois ela nos libertará.

O que se sabe sobre Inácio de Antióquia poderia ser escrito num selo, e ainda sobraria espaço. Segundo História Eclesiástica, Livro 3, no curto capítulo 22, Eusébio de Cesareia diz que Inácio era o segundo bispo de Antióquia, tendo substituído Evódio, que fora escolhido pelo próprio apóstolo Pedro para comandar a igreja em Antióquia. Evódio morreu no ano 69, e Antióquia era uma importante cidade, helenística, cosmopolita, multicultural e uma das principais sedes do cristianismo entre judeus e pagãos fora de Jerusalém.

Em uma viagem de Trajano por Antióquia, o imperador tomou conhecimento de Inácio e mandou levá-lo para Roma pelos idos entre os anos 98 e 107. Ele foi acorrentado e mandado de navio para Roma, e quando seus seguidores souberam disso, trataram de ir primeiro e ficaram esperando por ele no porto. No caminho, Inácio de Antióquia escreveu várias cartas; a saber: a epístola a Policarpo de Esmirna, aos esmirniotas, aos efésios, aos filadélfos, aos magnésios (moradores da região de Magnésia, na Ásia Menor), aos romanos e aos trálios.

Inácio conseguiu despachar essas cartas às pressas enquanto estava sendo levado sob guarda armada para Roma, onde seria julgado por Trajano. Em suas cartas vemos o quão grande é sua fé, como podemos ver um trecho de sua epístola aos Romanos.

Eu suplico a vocês: Não mostrem comigo uma caridade inoportuna. Permitam-me ser pasto das feras, pelas quais me será possível alcançar a Deus. Antes, excitem os leões, para que se convertam em meu sepulcro. Assim serei um verdadeiro discípulo de Cristo. Sou trigo de Deus. Quero ser triturado e moído pelos dentes das feras, a fim de me converter em pão puro de Cristo.
Desde a Síria até Roma, luto contra as feras, por terra e por mar, de noite e de dia, acorrentado a dez leopardos, a um destacamento de soldados; quando se lhes faz bem, tornam-se piores ainda. Todavia, por seus maus tratos, eu me torno discípulo melhor, mas nem por isso sou justificado.

Todas as cartas são de um teor devocional neste estilo, sempre alegando que estava se entregando aos seus algozes e como se sentia feliz em morrer para sustentar a fé que tinha em Jesus Cristo, de forma que qualquer psicólogo identificaria uma crise esquizofrênica com delírio persecutório. Mesmo assim, Inácio foi a julgamento para ser decidido o que fazer a respeito de suas atividades cristãs, às quais ele não renegou. Foi torturado, martirizado e jogado aos animais selvagens na arena (alguns dizem leões, mas varia conforme o relato), e mesmo perante a morte iminente, Inácio estava citando seu louvor a Jesus Cristo, seu Salvador. Um genuíno soldado da Igreja, venerado até hoje, um exemplo de devoção a ser seguido. O problema é que…

É uma fraude.

Todos os relatos a respeito de Inácio é por meio de suas cartas e biografias posteriores, principalmente no que é conhecido como “Martirológios”, relatos mitológicos a respeito de mártires da Igreja. Emprego o termo “mitológico” no sentido de mythós, ou seja, relatos heroicos sem muita base factual, mas ainda hoje há quem acredite piamente que os relatos martirológicos são exatamente como aconteceram, mas, se formos ver bem, as fontes não são apenas espúrias. São pura invenção, puros relatos de fervor devocional e pouco objetivos, sem corroboração por outras fontes.

Antes de nos dedicarmos a Inácio, vejamos o Historiador da Igreja: Eusébio de Cesareia.

Eusébio nasceu no ano de 265 E.C., embora alguns considerem ter sido em 270; como passou a vida toda em Cesareia Marítima – a maior cidade romana na Palestina – é ali que atribuem o seu nascimento, mas não há certeza. A data de seu nascimento só pode ser inferida de sua obra, pois ele narra a perseguição dos cristãos sob o reinado do imperador Valeriano (258-260) como sendo algo do passado, e os eventos seguintes como sendo contemporâneos seus.

Eusébio foi nomeado bispo de Cesareia em algum momento entre os anos de 313 e 315, falecendo entre 339 e 340. Com certeza, sua família era de família cristã, mas não se sabe nada a respeito dela. Eusébio escreveu muitas obras, sendo a principal a “História Eclesiástica”, em que relata em diversos livros, constituindo de textos históricos, apologéticos, de exegese bíblica e doutrinários. Escreveu mais de 120 volumes, a maioria dos quais perdidos, alguns são conhecidos apenas por traduções. Dos originais, mesmo, restam nada mais do que fragmentos. Unidos, formam um compêndio do início do Cristianismo primitivo, em que nove dos dez foram publicados antes do Édito de Milão, quando Roma aceita de uma vez por todas o Cristianismo como religião lícita, em 311, e o décimo livro foi publicado em 325, quando do Concílio de Niceia. Chegou a ver Constantino, a quem ele teceu inúmeros elogios, declarar que o Cristianismo passava a ser religião oficial do Império. Por isso, Eusébio de Cesareia é considerado um dos Pais da Igreja Cristã, e seu historiador.

O problema das obras de Eusébio é que você espera um relato preciso, acurado e não-passional, tal qual as obras de Flávio Josefo, mas não é bem assim. O texto está longe de ser imparcial, embora esteja disfarçado de relato histórico. Por exemplo, na História Eclesiástica, Livro 3, capítulo 33, lemos:

1. Tão grande perseguição foi então aberta contra nós em muitos lugares que Plinius Secundus, um dos mais notáveis ​​dos governadores, perturbado pelo grande número de mártires, comunicou-se com o imperador sobre a multidão daqueles que foram submetidos a morte por sua fé. Ao mesmo tempo, ele o informou em sua comunicação que não tinha ouvido falar de eles fazerem nada profano ou contrário às leis – exceto que eles se levantavam ao amanhecer e cantavam hinos a Cristo como um Deus; mas que eles renunciaram ao adultério e ao assassinato e como ofensas criminais, e fizeram todas as coisas de acordo com as leis.
2. Em resposta a este, Trajano fez o seguinte decreto: que a raça dos cristãos não deveria ser procurada, mas quando encontrada deveria ser punida. Por isso, a perseguição que ameaçava ser a mais terrível foi até certo ponto contida, mas ainda sobraram muitos pretextos para aqueles que queriam nos fazer mal. Às vezes o povo, às vezes os governantes em vários lugares, tramavam contra nós, de modo que, embora não houvesse grandes perseguições, as perseguições locais estavam acontecendo em províncias específicas, e muitos dos fiéis sofreram o martírio de várias formas.

Percebam que Eusébio diz “Tão grande perseguição foi então aberta contra nós”. Ele se coloca no meio do evento. Um histopriador existe para dar o relato histórico. Eusébio já deixa claro que ele dará a visão de um cristão; não que haja algo errado com isso, mas a objetividade foi deixada de lado e o relato já vai carecer de fidedignidade. Mas o que tem de real ali? Aconteceu isso mesmo?

A resposta curta é: não.

Plínio, o Moço recebeu o cargo de governador da província de Ponto-Bitínia (atual Turquia) no governo de Trajano (98 – 117). Em uma carta preservada até hoje sobre o nome “Epístola 96”, Plínio pede orientações ao imperador sobre o que fazer com alguns cristãos. Apesar dos governadores terem independência, eles não eram idiotas a tomarem todas as decisões sem a anuência de quem realmente mandava, principalmente em questões de revoltas, dissensões e brigas em geral. Pena capital? Nem pensar! Só o imperador poderia autorizar.

A carta começa puxando o saco do poderosão, como é de costume. Vamos a alguns trechos.

Nunca participei em Roma de nenhum processo contra os cristãos. Desconheço por isso qual é o crime do qual os acusam, quais punições merecem, qual procedimento deve regular o inquérito e quais limites devem colocar-se a eles. Assim, tive as mais sérias dúvidas sobre se devem estabelecer-se diferenças entre as idades dos réus ou se, pelo contrário, os mais jovens, por mais tenra que seja sua idade, em nada se diferenciam dos mais velhos; sobre se deve conceder-se a absolvição à retratação, ou pelo contrário, àquele que tenha sido cristão em nada lhe beneficia a renúncia; por fim, se o castigo é pelo mero nome de cristão, inclusive na ausência de quaisquer tipos de crimes, ou se o que se castiga são os crimes associados ao dito nome.

Plínio mostra como não havia nenhuma lei contra os cristãos ou o Cristianismo nessa época. Ou, pelo menos, em seus tempos como Questor, ele nunca vira. Em tal cargo deveria ter visto se houvesse, e passando por outros cargos até o de governador, continuou não tomando ciência se havia alguma lei a este respeito; e ele saberia se tivesse. Se não havia crime, nenhuma punição estava prevista, o que é bem semelhante ao nosso sistema jurídico; mesmo porque, deriva do Direito Romano.

Plínio tira o seu da reta ao dizer que ele não sabe como deveria punir, já que havia indivíduos de diferentes idades e não sabe se exige deles uma retratação que seja, mesmo porque, ele argumenta que renunciar ao Cristianismo não faria nenhuma diferença. Não sabe dizer de quais crimes acusar, se é que existe algum crime previsto nas leis romanas por ser cristãos. Como Questor e Tribuno, Plínio deveria saber se houvesse, mas dá uma de romano-sem-braço e se faz de idiota, tocando a bola pra Trajano. Vamos continuar.

Perguntei diretamente a eles se são cristãos. Ao responder-me que sim, perguntei- lhes uma segunda e até uma terceira vez, advertindo-lhes que o reconhecimento de algo assim expressaria a morte. Aos que mantiveram sua declaração, ordenei que os executassem. A razão disso foi que não me cabia dúvida de que, qualquer que fosse a natureza do crime que confessavam, certamente este fanatismo e esta obstinação intransigente merecia a morte

Aqui temos algo interessante. Plínio reconhece mais uma vez que não havia lei contra cristãos nem o Cristianismo propriamente dito. Ele os executa assim mesmo por serem fanáticos religiosos. Tipo… qual é a sua, Plínio? Mas prestem atenção nesta parte:

(…) apareceu fixado em um lugar público uma denúncia anônima contendo um grande número de nomes. Aos que negaram ser ou terem sido em algum momento cristãos, como invocaram aos deuses de acordo com a norma ditada por mim, fizeram uma oferenda de incenso e vinho diante de tua imagem, que com este propósito eu havia ordenado trazer junto às estátuas dos deuses, e também maldisseram o nome de Cristo, o que segundo se diz, não se pode forçar de modo algum aos que são verdadeiramente cristãos, a estes cri que devia deixá-los em liberdade. Outros, cujos nomes foram revelados por um delator, reconheceram inicialmente ser cristãos, mas logo negaram, dizendo que, na verdade, haviam sido cristãos, mas que deixaram de sê-los . Alguns afirmam que faz três anos, outros dizem que faz muitos anos, inclusive alguns há mais de vinte anos.

O que podemos ver nesta parte é que começou o festival de acusações, fazendo aquela entrega gostosa e dedurando todo mundo de forma anônima, é claro. Na hora de ficar de frente pro governador, pessoal chegava naquele velho lenga-lenga “sei di nada naum dotô. Sô homi honesto, trabalhadô… olha vou colocá umas oferendas aqui, valeu? Cristo não, mermão!”. Outros disseram “olha, eu fui, mas já deixei de ser”. Além desses tinha o que foi na base “fui só uma vez, quero mais saber disso não”. Plínio diz que deixou estes irem embora sem nenhuma punição. Nem uns tabefes rolou. Sobre os cristãos em si, ele traz como eram as celebrações, mediante as investigações feitas:

(…) uma vez cumpridos esses ritos, tinham o costume de retirar-se e voltar a se reunir mais tarde para celebrar com comida, composta, ao contrário do que foi dito, de alimentos normais e inocentes, mas que já haviam deixado estas práticas desde que meu edito, seguindo tuas ordens, proibiu a todos os tipos de associações. Por esta razão, considerei necessário investigar quanto há de verdade em tudo isso e, assim, submeti à tortura duas escravas as quais os cristãos denominam de ministras. Mas não encontrei nada além de uma tola e extravagante superstição. Por tudo isso, adiando de momento a instrução da causa, apressei-me a consultar-te. Na verdade, pareceu-me que o assunto merecia uma consulta a ti, em especial pelo número dos acusados, pois muitas pessoas de todas as idades, de toda condição e tanto de um como de outro sexo já foram processadas, e ainda muitas outras serão. E o contágio desta superstição não se estendeu unicamente pelas cidades, mas que também se propagou pelos povos e campos. Acredito, contudo, que a enfermidade pode ser detida e curada.

Primeiro, Plínio explica como seguiu as instruções de Trajano para impedir a reunião de associações. Elas eram proibidas, mas isso era para qualquer tipo, não exclusivamente de cristãos, uma forma de evitar brigas, sedições ou, Plutão que nos livre!, alguém se revoltar contra o Império. Nisso, Plínio diz como praticou tortura em duas escravas para obter informações; afinal, claro, ele não ia pegar um cidadão de Roma sem provas ou a permissão do Imperador, a quem ele consulta e pede orientação. Qualquer processo contra um cidadão romano poderia dar ruim se ele exigisse uma audiência com o imperador. Sim, os cidadãos romanos podiam se dar a este luxo, e a prova mais famosa é Saulo de Tarso.

Governadores não tinham poder total… quer dizer, até tinham, mas eram espertos demais para não o usarem, se abstendo de correr o risco de desagradar alguém bem mais poderoso que eles. Já com escravos ninguém se importava mesmo. Melhor do que catar alguém que conhece e é amigo de “alguém”. No fim, Plínio reforça que é apenas uma superstição sem maiores importâncias que seria facilmente contida, o tipo de fala de quem não tem uma bola de cristal.

O mais interessante foi a resposta de Trajano a este relatório:

Meu caríssimo [Plínio] Segundo, seguiste o procedimento que devias ao analisar as causas dos processos daqueles que foram denunciados diante de ti como cristãos. Na verdade, não se pode estabelecer uma norma geral que imponha, por assim dizer, alguns critérios absolutamente rígidos. Os cristãos não devem ser perseguidos. Se forem denunciados e a culpa provada, devem ser castigados. No entanto, aquele que nega ser cristão e o demonstre de fato, isto é, venerando aos nossos deuses, embora se suspeite de ter sido cristão no passado, deve obter a absolvição por sua retratação. Quanto às denúncias anônimas que podem aparecer fixadas em lugares públicos, não devem servir a nenhum tipo de acusação, pois é uma prática detestável e imprópria de nosso tempo.

Trajano mandou aquele “bom trabalho” típico de chefe, mas solta a ressalva para Plínio não perseguir cristãos. Reiterando o meu ponto: o problema nunca foi serem cristãos. Não apenas isso, mandou parar de dar atenção a denúncias anônimas. Trajano não era burro e viu logo que era um monte de mexeriqueiros entregando-se uns aos outros como forma de vingança por alguma briga entre eles. Então, se formos ter que poderiam muito bem ter esmagado os cristãos se assim o quisessem, e não o fizeram, fica-se comprovado que, a rigor, não havia nenhum interesse em perseguir, esmagar e destruir a seita cristã. Ou seja, Eusébio ou mentiu ou ouviu o galo cantar e não soube onde, ou repetiu um relato que chegou até ele e ele não teve como (ou realmente não quis) checar a veracidade. Isso depõe muito contra Eusébio!

Vamos ver como ele relata o caso de Inácio de Antióquia no capítulo 36:

1. Naquela época, Policarpo, discípulo dos apóstolos, era um homem eminente na Ásia, tendo sido confiado o episcopado da igreja de Esmirna por aqueles que tinham visto e ouvido o Senhor.
2. E ao mesmo tempo Papias, bispo da paróquia de Hierápolis, tornou-se conhecido, assim como Inácio, que foi eleito bispo de Antióquia, o segundo na sucessão de Pedro, e cuja fama ainda é celebrada por muitos.
3. Relatório diz que ele foi enviado da Síria para Roma, e se tornou alimento para feras por causa de seu testemunho de Cristo.
4. E enquanto fazia a viagem pela Ásia sob a mais estrita vigilância militar, ele fortificou as paróquias nas várias cidades onde parou para homilias orais e exortações, e alertou-as acima de tudo para estarem especialmente em guarda contra as heresias que então existiam começando a prevalecer, e exortou-os a apegar-se à tradição dos apóstolos. Além disso, ele considerou necessário atestar essa tradição por escrito e dar-lhe uma forma fixa para uma maior segurança.

Um simples examinar dos fatos demonstra os problemas na história do martírio de Inácio, bastando prestar atenção em todos os detalhes. Trajano estava fazendo algo em Antióquia entre os anos que são atribuídos terem ocorrido o martírio de Inácio, não há um relato seguro se ele estava lá ou não, então, vamos deixar esta questão em aberto. Por algum motivo, Trajano cisma com nosso herói. Por quê? Por que não os demais líderes da Igreja? Ninguém responde. Foi assim porque foi assim. Cruzando a informação com a carta a Plínio, o Jovem, uma fonte bem documentada, Trajano uma hora diz que não é crime ser cristão ou montar uma igreja cristã (no caso de Antióquia, era uma sinagoga reformada), mas no outro momento manda levar Inácio, quando poderia ter resolvido tudo lá; afinal, ele era o imperador e poderia ter julgado pessoalmente lá ou mandado resolverem. Como visto, não foi a primeira vez que Eusébio parece não saber o que realmente ocorreu.

Não havia nenhum motivo levar Inácio para Roma, sendo que nem nos processos tocados por Plínio, o Moço Trajano tomou maiores conhecimentos, posto que o referido governador já tinha resolvido tudo segundo suas orientações. Pedro e Paulo foram presos e julgados em Roma pelo simples motivo de eles efetivamente já estarem lá. Não foram algemados e presos em Jerusalém, e mandados pra Roma. Paulo “escreveu” as cartas no sentido que ele estava ditando. E isso porque Paulo era cidadão romano, com algumas regalias, como receber visitas. Não era o caso de Inácio de Antióquia.

As cartas de Inácio de Antióquia ganharam maior interesse do público durante a Idade Média, chegando ao auge da notoriedade a partir de uma edição impressa em 1646, editada pelo livreiro Isaac Voss. Claro, estamos falando entre comunidades cristãs em que essas cartas eram lidas para a congregação. A larga maioria das pessoas era analfabeta, e livros e cartas de cunho religioso ficavam restritos ao interesse do clero, mas isso não era muito diferente quando começaram a lê-las nas igrejas.

Essas cartas eram distribuídas aos borbotões e excluindo aquelas que eu citei para vocês, ainda apareceram outras cartas destinadas a várias pessoas. Talvez, a que mais chama a atenção entre essas cartas é uma epístola endereçada a Maria. Sim, Maria, Mãe de Jesus, que segundo as contas deveria estar bem idosa, se entendermos que ela deveria ter uns 15 anos quando deu à luz. Mais 30 quando Jesus foi crucificado, mais 70 (aproximadamente) quando Inácio foi ser julgado em Roma. Ela teria por baixo uns 115 anos de idade, o que é digno de nota para pessoas daquela época.

As cartas originais propriamente ditas, nós não temos; elas se perderam nos séculos e mais séculos que se seguiram, mas foram mencionadas por Eusébio de Cesareia, o que denota que ele teve acesso a este tipo de texto, o que denota que no século IV já eram conhecidas, certamente circulando pelo século III e talvez já no século II tardio.

Os mais antigos manuscritos com o texto em grego de seis das sete cartas de Inácio foram encontrados no Codex Mediceo Laurentianus, escrito no século 11 (que também contém as cartas pseudo-epigráficas, exceto aquela endereçada aos filipenses), enquanto a carta endereçada aos romanos foi incluída no Codex Colbertinus, escrito entre o século 11 e 12.

Durante a Reforma, protestantes como Calvino rejeitaram terminantemente qualquer sombra de autenticidade das cartas de Inácio, em que o próprio Calvino teria se referido a elas como “lixo publicado sob o nome de Inácio”. Quando os estudiosos, acadêmicos e teólogos na Idade da Razão começaram a rever todas as questões inerentes à Bíblia e escritos religiosos e teológicos, sérias dúvidas caíram como um machado sobre as cartas de Inácio de Antióquia. O historiador da igreja William Dool Killen (que também era um pastor presbiteriano) publicou um ensaio, em 1886, argumentando extensamente que nenhuma das epístolas atribuídas a Inácio é autêntica, sendo todas obras de Calisto, bispo de Roma, que forjou todas as cartas por volta do ano 220. A partir daí, críticos textuais levantaram sérias dúvidas sobre o que aconteceu com Inácio e a veracidade de suas cartas, alguns sugerindo que elas foram escritas durante o reinado de Marco Aurélio (161–180).

Já Wiliam Cureton causou mais controvérsias quando publicou em 1845 pela publicação uma edição com notas e uma tradução para o inglês das epístolas de Inácio a Policarpo, aos Efésios e aos Romanos, a partir de um manuscrito siríaco que ele havia sido encontrado no mosteiro de Santa Maria Deipara, no deserto de Nitria, perto do Cairo. Cureton afirmou com toda segurança que somente estas epístolas inacianas eram genuínas, enquanto seus oponentes, como Charles Wordsworth, Joseph Barber Lightfoot e Theodor Zahn, sustentavam que sua versão siríaca era uma epítome, ou seja, uma forma resumida do texto. Uma espécie de “compacto com os melhores momentos”. No cruzamento de informações, seria pouco provável que fossem apenas essas três cartas, já que Eusébio listou as sete cartas individualmente com os nomes de seus destinatários e local de composição e citações das cartas aos Romanos e aos Esmirna. Assim, qualquer teoria de que essas sejam falsificadas teriam que datar antes de Eusébio, coisa que Cureton não conseguiu provar.

Outra coisa questionável nas cartas é… quem é Policarpo? Diz a tradição que ele era bispo de Esmirna (atual cidade de Izmir, na Turquia) e discípulo do apóstolo João no século II, e só. O que é mais conhecido dele é o martírio dele, cujo autor é desconhecido. Este texto é o mais antigo texto martirológio, vindo antes mesmo das cartas de Inácio. Entretanto, pesquisadores como Xavier Riu-Camps, professor titular de filologia grega na Universidade de Barcelona, rejeita a existência de Policarpo, estabelecendo que é apenas mais um relato heroico da longa lista de martirológios. Riu-Camps, analisando a carta de Policarpo aos Filipenses, chegou à conclusão que carta é interpolada, e junto com Robert Joly postulou que as falsificações já tinham sido estabelecidas na época de Eusébio. De acordo com o professor Joly, as cartas de Inácio foram compostas por um falsificador que escreveu em Esmirna logo após a morte de Policarpo e a redação do relato do martírio de Policarpo. Ele atribui ambos os escritos à sétima década do século II.

Já os defensores da autenticidade das cartas partiram para o contra-ataque, alegando que protestantes faziam isso apenas para rejeitar a legitimidade teológica do cargo de bispo da igreja e da autoridade papal. Não que eles estivessem muito errados, mas isso também não faz as cartas de Inácio de Antióquia serem mais autênticas, ou que o relato de como elas foram compostas faça algum sentido. Afinal, tinha pergaminho, pena e tinta disponíveis para prisioneiros e tempo para escrever todas elas durante a viagem? Como os seguidores de Inácio chegaram em Roma antes? Mesmo que fossem cristãos já em Roma, como eles foram avisados antes do navio chegar? E depois de tudo isso, Trajano muda de ideia e fala para Plínio que não há nem nunca tinha havido lei punindo cristãos? E quem é este misterioso Policarpo (o “de muitos frutos”)?

Voltando mais uma vez à tradição, vemos que Policarpo foi um presbítero cristão de Esmirna, o então centro do Cristianismo na Ásia romana. Não por acaso o relato dos dois são dois pontos chaves na geografia religiosa. Enquanto Inácio era da cidade mais importante no Cristianismo na Síria, Policarpo era um bispo da Ásia. Não foi ao acaso, mas não há fonte que comprove a existência deles. De Policarpo, fora a carta de Inácio, só duas fontes falam dele: Irineu, em seu Contra heresias, um documento em que ele combate os cristãos gnósticos, e Prescrição Contra Heréticos, de Tertuliano (160 – 220), o poderoso bispo de Cartago. Sim, isso mesmo! Mencionam Policarpo em obras dispostas a combater heresias, do grego αἵρεσις,‎ haeresis, “escolha”; escolha de seguir uma forma de Cristianismo diferente do que os bispos chamados hoje de “proto-ortodoxos” decidiram que devia ser. Por isso, a necessidade de um texto altamente devocional, reforçando a necessidade de morrer pela fé em Cristo, conduzindo as ovelhas do Senhor pela seara previamente determinada por poderosos bispos, líderes de igrejas com vasto número de fiéis. Não é à toa que na obra de Tertuliano tenha outros martírios, como o de Pedro e Paulo.

Claro, o martírio é uma importante peça de propaganda religiosa e Policarpo tem o seu próprio martirológio, tendo morrido como mártir do Senhor, amarrado e queimado na fogueira, e depois apunhalado quando o fogo não consumira seu corpo. Policarpo é considerado um santo e Pai da Igreja nas igrejas Ortodoxa Oriental, Ortodoxa Oriental, Católica, Anglicana e Luterana, mas a comprovação de sua existência é nenhuma. A comprovação de seu martírio é nenhuma. A base histórica na qual ele poderia ter se baseado é nenhuma.

Outros autores disseram que Inácio se autodenominara Teóforo, ou o Portador de Deus. Houve quem dissesse que Inácio foi uma das crianças que Jesus tomou em seus braços e abençoou, como é dito em Mateus 19:14. Mas se Jesus morreu no ano 30, seria impossível que tal relato seja verdadeiro. Depois de tanto se debruçarem nessa questão, acadêmicos chegaram à conclusão simples que o bispo Inácio de Antióquia não existia, e o falsificador tomou o nome de um mártir filipense mencionado no capítulo 9 da carta de Policarpo aos filipenses como o ponto de partida para sua falsificação.

A coleção forjada de cartas já estava à disposição de Irineu e Orígenes, que mostraram um certo grau de constrangimento quanto à autoria dos documentos pela forma evasiva com que se referem a elas. A identificação de Inácio como bispo de Antióquia em uma das referências de Orígenes pode ser uma interpolação no texto de Orígenes ou derivada de Júlio Africano, cuja evidência não é digna de confiança. Policarpo não tem melhor sorte.

A biografia de Policarpo de Esmirna tem tantas lacunas e interrogações quanto a de Inácio de Antióquia. No caso de Inácio, Teodoreto de Cirro, no século V, afirmou que o próprio apóstolo Pedro deixara instruções para que Inácio fosse nomeado bispo de Antióquia, mas isso contradiz Eusébio, sendo que a fonte de Teodoreto foi… nenhuma. Enquanto isso, Policarpo teria sido discípulo do apóstolo João, mas se formos ver a obra de Eusébio, ele confunde o apóstolo João (que supostamente teria escrito o último evangelho), seguidor de Jesus, com João de Patmos, autor do Apocalipse. Quanto a Tertuliano, ele diz apenas que João era o discípulo amado, tendo sido banido depois de ter sido mergulhado em óleo quente. Alguns alegam que ele teria sido banido para a ilha de Patmos, mas acadêmicos creem que se trata de um João diferente do autor do Apocalipse, pois os estilo de escrita do evangelho e do Apocalipse são muito diferentes, e, convenhamos, João não era nem de longe um nome pouco comum.

Todos esses relatos acabam, como dito, em uma série de textos de mártires que morrem de forma fanática para defender a fé, como um exemplo que pessoas comuns deveriam seguir, enfrentando adversidades, mas sem nunca demonstrar um mínimo de intenção de se desviar do Cristianismo, já que era uma religião nova e sem o poder de obrigar a ferro e a fogo que seguissem a doutrina do Príncipe da Paz.


Fontes:


Parte do conteúdo deste artigo está no livro que estou trabalhando sobre o Cristianismo, em que um dos capítulos conta os primeiros 1000 anos da referida religião e o que aconteceu depois, entre outros assuntos inerentes.

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7 comentários em “Inácio de Antióquia: A questionável história de um mártir

  1. Simplesmente excelente. No entanto, fiquei com uma dúvida. Por que os cristãos eram considerados criminosos pelo Império Romano? Eram baderneiros, era proibido seguir outra religião que não a oficial do império ou era simplesmente uma espécie de medida preventiva?

  2. Esse aqui deves conhecer: Kriminalgeschichte des Christentuns do Karlheinz Deschner. São dez volumes que o autor mais de 40 anos escrevendo, mas morreu em 2014 e o décimo é o último volume escrito por ele. Em 1971 a madre igreja tentou processa-lo em Nuremberg acusando-o de ” insultar a igreja”. Na net há vários pdfs em espanhol (Historia criminal del cristianismo) dos volumes traduzidos. As inúmeras fontes citadas no texto talvez possam interessar para o livro que escreves …

  3. Lamentável é a desonestidade intelectual, o sentimento de quem escreveu este artigo é transparente, a “seleção” que ele faz é bastante previsível de uma crítica fraca.

    Uma pesquisada rápida confirma que de fato, até então não havia leis oficiais contra cristãos. Porém:

    “Plínio afirma que ele dá aos cristãos várias chances de afirmar que são inocentes e se recusaram três vezes, por isso foram executados. Plínio afirma que suas investigações não revelaram nada da parte dos cristãos, mas práticas inofensivas e “superstição excessiva e depravada”. No entanto, Plínio parece preocupado com a rápida disseminação dessa “superstição”; e vê as reuniões cristãs como um potencial ponto de partida para a sedição.”

    “A carta é o primeiro relato pagão a se referir ao cristianismo, fornecendo informações importantes sobre as primeiras crenças e práticas cristãs e como elas eram vistas e tratadas pelos romanos.[2][5][6] A carta e a resposta de Trajano indicam que no momento da redação deste texto não havia perseguição sistemática e oficial aos cristãos no Império Romano.[7][8] Houve perseguição aos cristãos antes disso, mas apenas localmente.”

    “Plínio explica como os julgamentos são conduzidos e os vários veredictos (seções 4-6). Ele diz que primeiro pergunta se o acusado é cristão: se eles confessam que são, ele os interroga duas vezes mais, por um total de três vezes, ameaçando-os com a morte se continuarem a confirmar suas crenças. Se eles não se retratam, ele ordena que sejam executados ou, se são cidadãos romanos, ordena que sejam levados para Roma.”

    Como resposta:

    “A resposta curta de Trajano a Plínio afirma o procedimento geral de Plínio e dá quatro ordens:

    Não procure os cristãos para julgamento.
    Se os acusados são considerados culpados de serem cristãos, devem ser punidos.
    Se os acusados negam que são cristãos e demonstram que não adoram os deuses, devem ser perdoados.
    Acusações anônimas não devem ser consideradas.”

    “Portanto, a visão de Plínio sobre o tratamento dos cristãos não era necessariamente perseguição, mas sim que os cristãos eram executados apenas quando foram apresentados a ele no julgamento e confessados”

    No texto deste site é dito “E depois de tudo isso, Trajano muda de ideia e fala para Plínio que não há nem nunca tinha havido lei punindo cristãos?”

    isso evidência que quem escreveu isso não entendeu que ele não mudou de posição, apenas mostrou que não havia uma lei oficial e “rígida” e não tinha intenção de criar uma, mas sim existiam perseguições locais:

    “Mas se forem acusados e se provar que são culpados, sejam punidos”
    Tal trecho é contido na resposta da carta.

    “Para Tertuliano, tratava-se de um absurdo: “Nega que sejam procurados porque são inocentes, e manda que sejam punidos como culpados. […] Se condenas, porque não procuras? Se não procuras, por que não absolves?””

    Nisso podemos ver algo questionável acerca do comportamento do imperador.

    Também citou uma frase de Calvino, o que é irrelevante.

    Depois também fala de heresia não como algo contraditório com diversas refutações, sim como uma escolha que apenas diverge do que algumas pessoas definiram.

    Também foca muito em Policarpo dizendo que não há prova que existiu pra tentar invalidar as cartas de Inácio, mas bem, de fato, com exceção de cartas de 2 autoridades diferentes, uma tradição oral que é validada por outras fontes, não existe, por hora, outras provas para alguém que nega ambas autoridades e a tradição.

    Convido a qualquer pessoa que possa ler isto, procurar por si mesmo os registros históricos, e não lerem e confiarem seleções parciais movidas por sentimento.

    1. Eu postei a carta. Está tudo lá. Se sua pesquisa é em site religiosos, o problema é seu. Seu blábláblá não apresentou UMA ÚNICA fonte válida.

      E DESAFIO a me mostrar uma. SÓ UMA. Não, site apologético não só não serve como vc pode enfiar na bunda.

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