A Verdadeira História dos Anjos

Anjos são personagens presentes em muitas mitologias, religiões e culturas. São entidades sobrenaturais com alguma incumbência, tarefa ou recado a ser dado, sendo praticamente, garotos-de-recado, mas não apenas isso. De acordo com as diferentes culturas, eles variam de verdadeiros sicários divinos ou apenas alguém servindo de carteiro, ou ainda estando lá apenas para ser puxa-saco divino. Os mitos sobre estes seres acabam se assemelhando, dado que a tradição oral acabava por ser passada entre os povos, em que cada povo pegou um pedaço da mitologia do outro e daí construíram as suas próprias, mediante as adaptações inerentes às idiossincrasias de suas culturas.

Mas quem ou o que são os anjos? Qual é a história deles?

Você tem a compreensão de anjos que lhes foi passada. Praticamente, pessoas lindas, belas, loiras (de preferência), com asas branquinhas como a neve e roupas estilosas e brilhantes, não raro sob a forma de mantos ou túnicas. Pois é, você adquiriu a compreensão dada pelos pintores da renascença, como Melozzo da Forlì retratou na O teto da sacristia de San Marco, localizada na Piazza di S. Giovanni, em Laterano, Loreto, Itália.

Claro, as pinturas não tencionavam retratar exatamente como os anjos eram. Mesmo porque, são seres incorpóreos e que, em tese, se apresentariam da maneira como estaríamos acostumados a ver. Entretanto, o que temos é uma multiversalidade de representações mediante cada cultura.

Etimologicamente, a palavra “anjo” deriva do latim, angelu, e do grego, ángelos (αγγελωυ), com o significado de “mensageiro”, já que o termo em grego para “mensagem” é “angelia” (αγγελια). É muito comum usar-se a expressão “oh, fulano é um anjo”, significando que tal pessoa traz boas notícias. Entretanto, anjos – no sentido que empregamos atualmente – era chamado de “Daimon” (δαιμωυ) pelos gregos, que foi adequadamente corrompido para “demônios” pelos autores canônicos. Interessante, não é mesmo? Segundo os gregos, anjos eram o que se podia chamar de “espíritos da condição humana”, isto é, personificações de vários estados de existência, emoções, ações e moralidade. Os Daimones de moralidade foram divididos em Agathoi (o Bem, Virtudes) e Kakoi (o Ruim, Vícios). Foram classificados Daimones de ação humana e condição semelhantemente como Agathós (Bom, Favorável) ou Kakós (Ruim, Prejudicial).

Os nomes deles (ou seria “delas”? Ah, tanto faz. Anjos não têm sexo mesmo!) foram simplesmente extraídos de substantivos gregos: Por exemplo, Hypnos é justamente a palavra grega para “sono” (Yπνος) determinado por uma letra maiúscula, o Eros é amor (Eρως), vitória de Niki (Νίκη), e assim por diante. Os romanos traduziram os nomes/palavras para latim da seguinte forma: Hypnos se torna Somnus, da palavra latina para sono, Eros/Amor, Niki/Victoria, etc. Abaixo, a escultura da Vitoria de Samotrácia que representa a deusa Atena Niki (deusa Atena que traz a vitória).

A maioria do Daimones não passava de personificações com pequeno ou quase nenhuma mitologia intrínseca. Alguns eram, porém, determinados por uma caracterização feita pelos poetas da época, como no caso de Éris (Senhora da Discussão) e Hypnos (Deus do Sono). Outros similares aos supracitados Eros e Niki ganharam cultos alcançando a dedicação das pessoas e a construção de altares e templos. Acabaram por se tornar deuses assim.

Já a mitologia judaica é um tanto diferente. Em hebraico, “anjos” são chamados malach (מַלְאָךְ‎) e, não por acaso, também significa “mensageiros”, o que podemos ver bem na história de Lot, como relatado em Gênesis 19:1 (em português e em hebraico transliterado):

E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma; e vendo-os Ló, levantou-se ao seu encontro e inclinou-se com o rosto à terra;

VYB’aV ShNY HML’aKYM SDMH B’yUrB VLVT YShB BSh’yUr-SDM VYUr’a-LVT VYQM LQUr’aThM VYShThChV ‘aPhYM ‘aUrTShH.

O termo grifado é “המלאכים” (malachim) – cuja raiz é mal’ak, segundo a Strong 4397 – possui muitos significados, mas, neste caso, significa “mensageiros”. Os anjos foram lá falar com Lot sobre a degeneração das cidades de Sodoma e Gomorra. Então, acontece algo fascinante, conforme descrito em Gênesis 19:5:

E chamaram a Ló, e disseram-lhe: Onde estão os homens que a ti vieram nesta noite? Traze-os fora a nós, para que os conheçamos.

Primeira observação: Se você é novato nas metáforas e eufemismos do texto bíblico, saiba que este “conheçamos” significa “fazer sexo”. Isso mesmo, a população de Sodoma queria transar com os recém-chegados. A parte de Lot oferecendo suas filhas e demais acontecimentos seguintes não nos interessam no presente assunto, então, não perderei tempo… pelo menos, por agora. Voltarei à parte realmente importante, mas temos outras coisas a tratar, já que o importante, por enquanto, é: as pessoas da cidade confundiram os anjos com pessoas ao ponto de querer transar com elas. Para serem tão parecidos com pessoas, obviamente, não tinham asas, ou isso seria dito.

Mas não é só isso! Você sabe que existe uma hierarquia de anjos? Pois é, e não é aquela que os livros da Monica Buonfiglio traz. A primeira hierarquia de anjos devidamente organizada veio através de Abu Inrã Muça ibne Maimum ibne Ubaide Alá Alcurtubi, nascido em Córdova, em 30 de março de 1138, durante o Império Almorávida. Apesar do nome, ele não era muçulmano, mas um rabino. Maimônides, como ficou conhecido, é um dos luminares do conhecimento do Talmude e da Mishné Torah ou “Reiteração da Lei”. Com base na Tanakh (a Bíblia hebraica ou o Velho Testamento da Bíblia Cristã) Maimônides criou um ranking de anjos.


Chayot Ha Kadesh

Os chayot, também chamados de “hayott” (do hebraico חַיּוֹת “seres celestiais” ou “carruagens celestiais”, podendo ser traduzido como “seres vivos”, como se eles estivessem vivos habitando o reino dos céus) seriam, de acordo com o Zohar, as mais puras e poderosas criações, sendo as mais próximas de YHWH, a ponto de sustentarem o trono de Deus, bem como por manter a Terra em sua posição correta no Espaço, amparando o próprio firmamento.

Os chayot são anjos Merkabah, que guiam os místicos em passeios pelo céu durante a oração e a meditação. Claro, você não vai encontrar nada com relação a isso na Tanakh, a Bíblia hebraica. Todos esses conceitos são da Kabalah, o misticismo judaico, e eu nem entrarei no assunto sob qual composto estupefaciente os tais místicos estavam sob efeito. Entretanto, há outros seres de, digamos assim, menor “status”, embora, sim, apareçam na Bíblia, mais especificamente no livro de Ezequiel.

O Livro de Ezequiel está no grupo de livros chamados Nevi’im, ou “Profetas”. No judaísmo, profetas não são alguém que profetiza no sentido que temos hoje (prever o futuro), pois isso é proibido pela Torah (Levítico 19:31; Deuteronômio 18:9-11). Profetas eram aqueles que serviam de intermediários, trazendo as palavras de Deus para todas as pessoas.

O livro de Ezequiel (que não foi escrito por Ezequiel) foi composto durante o cativeiro dos judeus na Babilônia, entre 593 e 571 AEC. Não entrarei em detalhes a respeito de todo o livro. O que nos interessa é a descrição dos seres que aparecem na visão do distinto profeta, segundo o relato. Nesta visão, aparecem quatro “seres viventes”, e sua descrição é bizarra. Não os colocarei na ordem que é relatada no livro de Ezequiel, preferindo o mais próximo da ordem que Maimônides colocou.


Ofanim

Também chamados “Ophanim” (em hebraico אוֹפַנִּים), são descritos em Ezequiel 1:15-21. Como toda palavra terminada em “im” indica plural no hebraico. Seu singular é Ophan e significa “roda”. Sim, isso mesmo. Os ofanim seriam rodas. De onde veio isso? Ezequiel descreve como rodas com cor de berilo (douradas) que eram entrelaçadas. A borda dessas rodas eram repletas de olhos. Estas rodas pairavam no Céu e se movimentavam simplesmente deslizando, sem se virar em nenhum momento. Os aros, ainda segundo Ezequiel (ou quem quer que tenha escrito) eram tão altos que faziam medo. Em Daniel 7:9, eles voltam a aparecer, mas não são os seres principais. Há outro anjo, mas seu trono é sustentado por essas rodas, que dessa vez são de fogo.


Erelim

Erelim (do hebraico אֶרְאֶלָּ֔ם ou “os valentes”) são anjos referenciados no livro de Isaías, mais especificamente Isaías 33:7. Eles são enviados por ordem de Jeová para conter a iminente invasão de Jerusalém por Senaqueribe – rei do Império Assírio – durante o reinado do rei Ezequias (716 – 697 AEC). Não há uma descrição física, apenas “Eis que os seus embaixadores estão clamando de fora; e os mensageiros de paz estão chorando amargamente”.


Hashmallim

Hasmallim é o plural de Hashmal (חַשְׁמַל), também chamado chashmal. Este nome aparece no livro de Ezequiel capítulo 1 e é justamente quando começa a aparição. Ele não tem bem forma. Vejamos o que é dito em hebraico, hebraico transliterado, em grego da versão Septuaginta, em latim da Vulgata, na King James e na João Ferreira de Almeida:

דוָאֵ֡רֶא וְהִנֵּה֩ ר֨וּחַ סְעָרָ֜ה בָּאָ֣ה מִן־הַצָּפ֗וֹן עָנָ֚ן | גָּדוֹל֙ וְאֵ֣שׁ מִתְלַקַּ֔חַת וְנֹ֥גַהּ ל֖וֹ סָבִ֑יב וּמִ֨תּוֹכָ֔הּ כְּעֵ֥ין הַֽחַשְׁמַ֖ל מִתּ֥וֹךְ הָאֵֽשׁ:

V’aUr’a VHNH UrVCh S’yUrH B’aH MN-HTShPhVN ‘yNN GDVL V’aSh MThLQChTh VNGH LV SBYB VMThVKH K’yYN HChShML MThVK H’aSh

καὶ εἶδον καὶ ἰδοὺ πνεῦμα ἐξαῖρον ἤρχετο ἀπὸ βορρᾶ, καὶ νεφέλη μεγάλη ἐν αὐτῷ, καὶ φέγγος κύκλῳ αὐτοῦ καὶ πῦρ ἐξαστράπτον, καὶ ἐν τῷ μέσῳ αὐτοῦ ὡς ὅρασις ἠλέκτρου ἐν μέσῳ τοῦ πυρὸς καὶ φέγγος ἐν αὐτῷ.

et vidi et ecce ventus turbinis veniebat ab aquilone et nubes magna et ignis involvens et splendor in circuitu eius et de medio eius quasi species electri id est de medio ignis

And I looked, and, behold, a whirlwind came out of the north, a great cloud, and a fire enfolding itself, and a brightness was about it, and out of the middle thereof as the color of amber, out of the middle of the fire.

Olhei, e eis que um vento tempestuoso vinha do Norte, uma grande nuvem, com um fogo revolvendo-se nela, e um resplendor ao redor, e no meio dela havia uma coisa, como de cor de âmbar, que saía do meio do fogo.

Como vocês podem ver, Hashmal (ou chashmal) foi traduzido como “âmbar”. Em grego é chamado ἠλέκτρου, porque é assim que se escreve “âmbar” em grego. Se lembrou de algo? Talvez não por causa dos caracteres do alfabeto grego, mas transliterado para o alfabeto latino se escreve “eléktron”. Sim, pois é, o termo “elétron” e “eletricidade” vem daí, pois se atritar âmbar ele começa a atrair pequenos pedacinhos de papel pelo que hoje conhecemos como “eletricidade estática”. Electri, na Vulgata Latina. Algumas versões hoje trazem que a aparição tinha cor de cobre ou de metal, como na Almeida Revista e Atualizada:

Olhei, e eis que um vento tempestuoso vinha do Norte, e uma grande nuvem, com fogo a revolver-se, e resplendor ao redor dela, e no meio disto, uma coisa como metal brilhante, que saía do meio do fogo.

Essa coisa era o ser vivente que abrangia os outros, como os supra-citados ofanim, não tendo, portanto, forma bem definida ou que sequer chegue perto das representações de humanos com asas.


Serafim

Serafim (ou seraphim) é o plural de Saraf (שרף), que significa “queimar” ou, “aqueles que ardem”, mas também pode significar “serpente” ou “cobra”, por motivos que vocês verão abaixo. Na antiga língua egípcia, aparece o nome seref e seu significado é: queima, raiva e/ou fogo. Numa tumba em Beni Hassan – um antigo cemitério egípcio a cerca de 20 km ao sul da atual Minya, entre Asyut e Memphis – foi descoberta uma estátua identificada como um “grifo”, na qual a palavra “Sharf” foi gravada em uma escrita demótica. Ao examinarmos Isaías 6:1-2, os seres lá mencionados tinham aspecto flamejante e asas, mas mais de um par.

No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi também ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e a cauda do seu manto enchia o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas; com duas cobriam os seus rostos, e com duas cobriam os seus pés, e com duas voavam.

בִּשְׁנַת־מוֹת הַמֶּלֶךְ עֻזִּיָּהוּ וָאֶרְאֶה אֶת־אֲדֹנָי יֹשֵׁב עַל־כִּסֵּא רָם וְנִשָּׂא וְשׁוּלָיו מְלֵאִים אֶת־הַהֵיכָל ׃

שְׂרָפִים עֹמְדִים מִמַּעַל לוֹ שֵׁשׁ כְּנָפַיִם שֵׁשׁ כְּנָפַיִם לְאֶחָד בִּשְׁתַּיִם יְכַסֶּה פָנָיו וּבִשְׁתַּיִם יְכַסֶּה רַגְלָיו וּבִשְׁתַּיִם יְעוֹפֵף ׃

A natureza e função dos serafins no livro de Isaías é trazida no versículo 3 em diante. Eles praticamente ficam rodeando o trono de Deus cantando sem parar “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a Terra está cheia da sua glória”, como imensos puxa-sacos celestiais. Em seguida, um deles leva uma brasa até Isaías e queima sua boca (a de Isaías) dizendo que seus pecados foram extintos e, assim, ele poderia ver e ouvir YHWH, para atuar como seu profeta.

A fórmula “Santo, Santo, Santo…” é chamada “Kedushá” (do hebraico קדושה) ou “Trisagion” (em grego, Τρισάγιον) é um hino padrão da Divina Liturgia na maioria das igrejas orientais ortodoxas, orientais ortodoxas e católicas orientais. Significa “triplamente divino” já que ele sempre é repetido três vezes, já que três é o número divino, segundo as tradições antigas.

Como falei, o profeta é um porta-voz de Deus, levando suas palavras a todo o seu povo. Deve-se ressaltar que YHWH é o Senhor dos Exércitos e o único deus dos judeus. Em nenhuma arte é dita que ele era o único deus, apenas o único deus dos hebreus. Pois é, existe politeísmo na Bíblia, com cada deus protegendo seu próprio povo.

Não apenas isso, é necessário ver também que, em Isaías 14:29, é relacionado serafins com serpentes aladas. Algumas culturas, como os astecas, também possuem divindades ou semideuses, representados por serpentes aladas, como é o caso de Quetzalcoatl, mas é improvável que uma cultura tenha tomado emprestado seus mitos de outra, o que se pode intuir que há um processo similar de evolução cultural em cada uma, já que cobras estão nas duas regiões, e atribuir um caráter sobrenatural a elas não parece ser estranho. Tal não acontece na mitologia inuíte (vocês sabem… esquimós), por motivos que vocês podem deduzir.

Há quem diga que os serafins não eram anjos verdadeiros, mas não faz sentido esta afirmação já que, como dito, eles levaram Isaías até YHWH e, por meio destes seres, Isaías foi purificado; então, sim, estes serafins atuam como mensageiros, que era a função básica dos anjos. Analisando isso, temos que os ofanins sustentam o trono de Deus e os serafins são seus guardas, como uma espécie de guarda pretoriana, entoando canto de louvor.


Bne Elohim (ou Ben Elohim)

Elohim (do hebraico אלהים) é o plural de Eloah, que significa “Deus”. Sim, isso mesmo. Agora, vem a parte chata de explicar que Elohim está na Bíblia falando do deus hebreu, também chamado de Javeh, Jeová ou o tetragrama יהוה (YHWH). No caso, Javeh/Jeová significa apenas “Eu sou”, enquanto eloah/elohim é um substantivo (singular e plural, respectivamente). Aqui começa uma confusão com pessoal dizendo que isso é prova de politeísmo hebraico, sendo que esta não é uma prova para tal coisa, já que chamamos isso de Plural Majestático. A pluralidade de deus não é o assunto deste artigo e será deixado para outra ocasião, o que é importante é o que significa “Bne Elohim” (בְנֵי־הָאֱלֹהִים). A saber, “ben” (eu não troquei as letras por typo) e suas variantes significam “filho de”, logo, o termo significa “filhos de deuses” ou, como estamos falando da Bíblia, seriam “Filhos de Deus”.

Em Gênesis 6:1-4, antes de entrar no assunto do Dilúvio, a Bíblia traz:

E aconteceu que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. Então disse o Senhor: Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem; porque ele também é carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos. Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama.

O termo “homens de fama” também pode ser traduzido como “guerreiros de renome”, ou seja, sendo praticamente semi-deuses, ou semi-semi-deuses, já que não ficou quem era a mãe desses seres. De qualquer forma, para por aí, pois em Gênesis 6:5 já cai de paraquedas na parte que Deus viu que a maldade do homem se multiplicara sobre a Terra etc. e tal. Os nefilins são absurdamente ignorados. Ao ver o final de Gênesis capítulo 5 e indo para Gênesis capítulo 6, vemos que os 4 primeiros versículos foram enfiados lá de qualquer jeito. Eles podem ser simplesmente removidos que não farão a menor diferença na cadência do texto.

E, sim, você está certo em questionar a certeza de “filhos de um único deus” e não “filhos de deuses”, e a resposta é não ter resposta, já que não há muito o que se dizer sobre isso, já que mal aparecem no cânon; e qualquer coisa que se diga mais a respeito deles não está na Bíblia, mas nos livros de Enoch (sim, tem mais de um).


Querubim

Querubim (ou Cherubim) são entidades que você conhece bem, mas foi enganado este tempo todo. Cherubim é o plural de Cherub (do hebraico כְּרוּב), que significa “aquele que abençoa”, tendo este nome derivado do acádico “Karabu”. Estes, talvez, sejam os anjos mais presentes no imaginário popular, se apresentando como criancinhas gordinhas de asinhas minúsculas. Pois, é, os pintores da Renascença pregaram uma peça mais uma vez, já que a descrição dos querubins é totalmente diferente do que se poderia pensar. Qual seria a aparência real deles? Em Gênesis 3:24, é dito que Deus expulsou Adão e Eva do Éden, e colocou querubins com espadas flamejantes para impedir que eles voltasse, mas nenhuma descrição.

Em Ezequiel 1:5-10, temos a descrição feita pelo profeta durante a sua visão:

Do meio dessa nuvem saía a semelhança de quatro seres viventes, cuja aparência era esta: tinham a semelhança de homem. Cada um tinha quatro rostos, como também quatro asas. As suas pernas eram direitas, a planta de cujos pés era como a de um bezerro e luzia como o brilho de bronze polido. Debaixo das asas tinham mãos de homem, aos quatro lados; assim todos os quatro tinham rostos e asas. Estas se uniam uma à outra; não se viravam quando iam; cada qual andava para a sua frente. A forma de seus rostos era como o de homem; à direita, os quatro tinham rosto de leão; à esquerda, rosto de boi; e também rosto de águia, todos os quatro.

Em Salmos 18 e 2 Samuel 22, é relatado como Jeová foi invocado e, diante sua ira, querubins saíram em defesa do povo de Israel e a ira de Deus se abateu sobre os inimigos. Em Êxodo 25, Deus diz detalhadamente a Moisés como construir a Arca da Aliança, tendo como detalhe em cima dois querubins, cujas asas se tocam. Não há outra descrição, mas, se analisarmos todo o texto bíblico, depreendemos que querubins sempre são usados como guardas e/ou anjos protetores, que estaria de acordo com a visão de Ezequiel.

Estes seres, com partes humana e de animais, são chamados “híbridos”, e nem são novidade. Um exemplo são a Esfinge egípcia, o Lamasu babilônio e o Grifo persa.

Na Assíria, havia a figura dos Apkallus, conselheiros que apareciam para reis e clérigos dando orientações e conselhos.

Não por acaso, os hebreus estiveram em contato com os povos desses lugares. Trabalharam no Egito (de onde foram expulsos), ficaram cativos na Babilônia, sendo libertos pelos persas. Não é uma questão de estarem copiando os deuses dos outros, mas culturas interagem e se misturam. Até a Índia tem a deusa Khamadenu, uma mulher num corpo de vaca.

Então, você vai me perguntar de onde vieram as representações de criancinhas fofuxas, gordinhas e com asinhas. Vou dar uma pista:

Sim, é Eros, o deus grego do amor (Cupido, na versão romana). Simplesmente, absorveram a persona e criaram um sincretismo, o que não é nenhuma novidade em nenhuma das religiões. Afinal, pintar quadros como o de Rafael Sanzio não ia ficar muito legal com a representação de um ser com 4 faces de diferentes animais numa única cabeça e pés de bezerro, e como artistas renascentistas adoravam a Grécia e Roma, puxaram para si muitas das representações. Por isso as asas e as carinhas de bebês.

Para finalizar os anjos dos hebreus/judeus, temos os…


Ishim

Ishim é o plural de yish (em hebraico, גברים), e significa simplesmente… homem. De acordo com a Strong, é um homem como indivíduo ou pessoa do sexo masculino; frequentemente usado como adjunto de um termo mais definido (e em tais casos frequentemente não expresso na tradução), companheiro, pessoa, mordomo, quem quer que seja, digno. Eles estão o mais baixo na hierarquia dos anjos e não por acaso tem feições humanas, apesar de não serem.

Estes seres aparecem direto no Velho e Novo Testamento.

Daniel 10:5-6 – E levantei os meus olhos, e olhei, e eis um homem vestido de linho, e os seus lombos cingidos com ouro fino de Ufaz; e o seu corpo era como berilo, e o seu rosto parecia um relâmpago, e os seus olhos como tochas de fogo, e os seus braços e os seus pés brilhavam como bronze polido; e a voz das suas palavras era como a voz de uma multidão.

Mateus 28:2:3 – E eis que houvera um grande terremoto, porque um anjo do Senhor, descendo do céu, chegou, removendo a pedra da porta, e sentou-se sobre ela. E o seu aspecto era como um relâmpago, e as suas vestes brancas como neve.

Marcos 16:5 – E, entrando no sepulcro, viram um jovem assentado à direita, vestido de uma roupa comprida, branca; e ficaram espantadas.

Lucas 24:4 – E aconteceu que, estando elas muito perplexas a esse respeito, eis que pararam junto delas dois homens, com vestes resplandecentes.

Sempre a mesma descrição. Homens jovens, com vestes brancas resplandecentes. Nenhuma asa, ou roda com vários olhos, ou híbridos. Pouquíssimos casos são anjos especiais, como Gabriel indo falar com Maria, mas pelo relato evangélico, não parece ser algo de maior hierarquia. Gabriel parece ter subido de posto depois, já que Lucas o chama de anjo, não de arcanjo. Não existia o termo “arcanjo”. Ele é muito tardio.

Lucas 1:26 – E, no sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré.

Lucas usa o termo αγγελωυ. Em Mateus, só é dito que foi um anjo, mas não o nome dele.

Mateus 1:20 – (…) eis que em sonho lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo

Todos eles apenas aparições que se assemelham muito com seres humanos, como foi o caso relatado mais acima, em que dois anjos vão conversar com Lot, e são confundidos com pessoas comuns a ponto dos moradores quererem fazer sexo com eles. Apenas garotos de recados, pois, os mais gloriosos, mais poderosos, mais fantásticos não têm aparência humana, o que faz total sentido, pois no Reino dos Céus não teria por que eles se esconderem em formas humanas. As outras, são representações de visões e descrições de autores que imaginaram como seriam criaturas divinas, com muita influência de outras culturas.

Enveredando pela mitologia árabe pré-islâmica, podemos observar que o que mais se aproximam dos anjos são os chamados “Gênios”. Não se sabe ao certo se a referida palavra é um aportuguesamento da palavra árabe Jinn (جن), ou provém da versão em latim: Genius. Na mitologia árabe pré-islâmica (e depois absorvido pelo Islã), um jinn – também escrito na forma “djinn” – é um membro dos jinni (ou “djinni”), uma raça de criaturas. A melhor tradução para a palavra “jinn” seria literalmente alguma coisa que tem uma conotação de dissimulação, invisibilidade, isolamento e distanciamento. Em suma, os gênios seriam todas e quaisquer criaturas com a faculdade de se tornarem invisíveis e/ou detentoras da arte da dissimulação.

Maomé faz referência a eles no Alcorão. A sura de número 72 recebe o nome de Al-Jinni e Maomé se diz enviado para ser profeta tanto da humanidade, como dos jinni. Aí fica evidenciado que ele dividia as entidades do mundo sobrenatural do mundo material, enquanto Allah interage com ambos, tendo poder supremo sobre os mundos natural e sobrenatural, sendo, portanto, supranatural, assim como YHWH dos hebreus e Deus (Jeová) do Cristianismo.

A mitologia árabe, de início, conferia peculiaridades boas e más aos gênios. Mas, com o tempo, eles acabaram tendo personalidade pérfida e malévola. Com a chegada do Islamismo, eles foram banidos de vez do panteão, sendo relacionados, majoritariamente, como sendo entidades negativas. Um exemplo é o jinn Iblis, orgulhoso e ciumento do poder de Allah, que lidera uma revolta de outros jinnis maus e muito poderosos contra o poder supremo de Allah, mas que acabam sendo atirados (ele se sua trupe) à Terra, onde passarão a tentar os seres humanos para que caiam no lado negro da Força, reunindo forças para um confronto final.

Qualquer semelhança entre esta e outra mitologia bem conhecida, NÃO É mera coincidência. Sim, exatamente! Estou falando dele: Ahriman, dos persas.

Com tantos povos vivendo juntos, conforme dito acima, nada mais natural que a maioria dos mitos sejam bem parecidos. Conforme dito por Dan Brown, usando os lábios do acadêmico Robert Langdon: “Muito pouca coisa em qualquer religião organizada é original”. Então, Ahriman dos persas acaba se convertendo em Iblis, no qual foi mais tarde chamado de Shaitan (شَيْطَان), nome emprestado dos hebreus, cuja tradução literal seria “O Acusador”. Na antiga mitologia hebraica, Shaitan/Sheitan/Satã é aquele que coloca a humanidade à prova e testa perante YHWH, como acontece no livro de Jó, quando “Aquele que anda pela Terra” diz a Deus que Jó só lhe era fiel porque tinha tudo, esposa, filhos, propriedades e dinheiro. Outras menções a Satã no Velho Testamento, a Tanakh, é quando o chamam de Estrela da Manhã, mas esta é uma referência, não a Satã/Diabo, mas ao rei babilônio Nabucodonozor.

Não, a Guerra dos Anjos não está na Bíblia em nenhuma de suas versões, nem nos manuscritos mais antigos. Só em livros apócrifos, mas isso é outro assunto.

Indo ao Japão, encontramos os Yökais (妖怪). Outras possíveis escritas para essa palavra são: yokai e yookai. Yökai é a palavra que os japoneses usam para designar fenômenos, objetos e criaturas sobrenaturais – e que estão além da compreensão das pessoas – cuja melhor tradução seria “estranho”, “inacreditável” ou mesmo “bizarro”.

Bom, para os japoneses, essas criaturas também podem ser chamadas de “ayakashi”. Frequentemente, Yökai é traduzido erroneamente (mas, muitas vezes proposital) como demônio ou diabo, embora sejam, em essência, entidades que não possuem qualquer tipo de conotação religiosa. Artistas como Hokusai usaram muito desses mitos para compor artes que podemos até chamar de perturbadoras:

Entretanto, os Yokais não estão ligados diretamente a divindades, simplesmente porque o Xintoísmo não é o que pode se chamar de “religião confessional”. O Xintoísmo possui uma teologia e liturgia quase que inteiramente voltada para práticas e costumes relacionados com o relacionamento familiar (deve-se lembrar que o Japão medieval também era dividido em castas e clãs), não restando espaço para o que se pode chamar de códigos de ética e moral na sociedade em si, como ocorre com as religiões abraâmicas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), por exemplo. Como exemplo, podemos citar o culto aos ancestrais e o respeito e veneração aos mais velhos.

Por não ser uma religião voltada diretamente para o estabelecimento de valores sociais, o Xintoísmo guardou sua identidade, não se mesclando com as religiões de outras culturas, apesar de ser fundamentada nos princípios budistas. Fundamentada, mas com características próprias. O que sobrou de mais parecido com o budismo, foi o fato de não haver a quantidade de divindades que existem nas religiões nascidas na Ásia Menor e Palestina. Como exemplo de contra-ponto ao Xintoísmo, temos a Igreja Católica, que se relacionou (e ainda se relaciona) com diversas estruturas da sociedade, acabando, portanto, como religião confessional e voltada para o ordenamento da sociedade, inserindo-se rapidamente nas mais variadas esferas sociais como a política, economia e o direito.

Ao contrário do Catolicismo, o Xintoísmo é uma religião animista (atribui uma “alma” a todas as coisas, semelhante à alma humana), mas que inexiste deuses personificados em sua liturgia. Por um lado, poderíamos considerar como sendo uma religião ateísta, posto que não há divindades definitivamente caracterizadas; entretanto, também podemos considerá-lo como sendo uma religião panteísta, já que tudo que existe no Universo seria, de certa forma, um deus. Confuso, não é? Mas, devemos lembrar que isso não acontece apenas no Xintoísmo, mas também em outras religiões do Extremo-Oriente.

Voltando aos Yökais, podemos dizer que são entidades do imaginário popular japonês que estão mais próximos de duendes e elfos da Europa, sacis e curupiras do folclore brasileiro e das lendas urbanas da atualidade. Tão reais quanto o Coelhinho da Páscoa, a Iara, Gabriel e outros seres mitológicos, criados nas profundezas da psique humana.

Quem são os anjos? O que são eles? Para que eles servem? De que são feitos? Como eles são?

Eles são nós mesmos, feitos de nossa essência. Eles são o nosso imaginário, nossas idiossincrasias, nossa psique. As religiões traçaram um paralelo. Posicionam-nos no espectro divino, mas ainda com nossa humanidade. Temos ciúmes, desejos e altruísmo. Somos mensageiros, nem que seja de nós mesmos. Estamos estendendo a mão ou prejudicando. As religiões entenderam isso e colocam os anjos para fazerem parte de nós, como nos desenhos animados com um anjinho e um diabinho em cada um de nossos ombros. É a nossa dualidade que lida com bem e mal, certo e errado. A partir daí, é literatura, figuras de linguagens, ensinamentos e contação de histórias.

Os anjos servem para nos falar de nós mesmos para nós mesmos sobre nós mesmos, sem que precisemos vestir camisolões de linho, bater asas ou termos muitos olhos, com pés de bezerro e cabeças de animais. A verdadeira história dos anjos é, na verdade, a nossa verdadeira história.

4 comentários em “A Verdadeira História dos Anjos

Deixe uma resposta para wahregesicht Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s