A Verdadeira História da Morte

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!

Manoel Bandeira

Se há uma coisa realmente democrática, essa coisa é a Morte. Ela chega para todos nós, brancos, negros, indígenas, amarelos, inuítes etc. Todo mundo nasce, todo mundo vive um certo tempo, todo mundo morre, e isso é válido para todos os seres vivos. Não por acaso, todas as culturas tiveram e têm sua representação da Morte; entretanto, a mais usual hoje – e que permeia a nossa imaginação – é o Ceifador, usando um manto preto, capuz escondendo o rosto e uma enorme foice, daquelas que é preciso usar duas mãos para se usar. O Ceifador (em inglês, Grim Reaper) tornou-se parte da cultura pop, um ícone reconhecido através o mundo em livros quadrinhos, programas de TV, filmes e jogos como um indefectível símbolo da Morte. Como chegamos nessa figura sinistra, que possui diferentes representações, inclusive fofinhas como a Dona Morte do Maurício de Souza? De onde veio esta figura?

É preciso entender primeiro que, assim como acontece com muitos personagens religiosos ou ícones espirituais, personificações da Morte estão lidando mecanismos para comunicar uma ideia complicada, sendo até mesmo assustadora: o que acontece com o seu “eu” depois que partir desta vida? Para onde vai? O que acontece com a sua alma depois passagem a partir de este mundo? O Ceifador nos remete a isso: seu semblante sombrio e aterrorizante é um reflexo do mundo, mas nem sempre foi assim, já que o mundo muda mediante acontecimentos de nossa história.

Como falei acima, muitos mitos do mundo e culturas pelo mundo afora têm algum tipo de personificação da Morte, seja no formato de um deus ou deusa, ou de um anjo a mando de uma ordem superior. Os gregos tinham Tanatos (do grego Θάνατος, “morte”. Sim, literalmente). Tanatos e, previamente, retratado como um belo jovem alado carregando uma espada.

Entretanto, em representações posteriores, Tanatos muda muito na forma de ser representado. Ele parece agora mais com Eros, o Deus do Amor, sendo um menino gordinho pelado com asinhas, mas trazendo uma tocha invertida, representando a vida se extinguindo.

Já os romanos tinham Mors, o Deus da Morte, representado como um misto dos dois Tanatos dos gregos. No caso, Mors é uma figura um pouco mais sombria, com capuz, mas também empunha uma tocha invertida.

Percebam que estes deuses ajudam na transição dos vivos para o outro lado, mas ainda assim não é a mesma coisa que Hades ou Plutão. Hades e Plutão são os senhores dos mundos dos mortos, sejam em quais instâncias forem. Como o sujeito fez a travessia, é secundário, ainda mais no caso dos gregos que tem a figura de Caronte, o barqueiro. Caronte apenas leva as almas pelo rio Estige até o submundo. Como o desafortunado ou desafortunada morreu e foi parar lá, não interessa a Caronte.

Já no Judaísmo, não há uma personificação da Morte. O máximo que se encontra na Tanakh, ou Bíblia Hebraica (o Velho Testamento, da Bíblia Cristã), é a menção do Anjo da Morte no caso de Êxodo 12:23, sendo que é mencionado na João Ferreira de Almeida, “Destruidor”.

Porque o Senhor passará para ferir aos egípcios, porém quando vir o sangue na verga da porta, e em ambas as ombreiras, o Senhor passará aquela porta, e não deixará o destruidor entrar em vossas casas, para vos ferir.

A palavra usada é shachath (המשחית), a raiz das palavras “ruína”, “decaimento” e “perecimento”. Destruição de destruir e aniquilar, mesmo é להרוס um pouco diferente, não? Em Provérbios 16:14, o termo “anjos da morte” é mal’ake ha-mavet. Como podemos ver, o Judaísmo não tem claramente uma única figura personificada para ser o Anjo da Morte, diferente do Islamismo, que tem Azrail. Mas, tanto o Judaísmo quanto o Islamismo não tem uma clara figura de como seria o Anjo da Morte, ainda mais que são religiões monoteístas. Ainda que reconheçam que outros povos têm os seus deuses, judeus e muçulmanos só tem um único deus, e todos os demais ficam numa subcategoria: a de anjos; e no caso da morte, não é bem uma personificação, mas alguém trazendo as más notícias, digamos assim, ordenadas por Jeová ou Allah. Não é muito diferente de mandar outros anjos para varar geral, e isso é o que não falta nos textos bíblicos e no Alcorão.

No caso do Hinduísmo e Budismo, o deus Yama é responsável por catar as almas descarnadas e levá-las consigo, vindo montado num búfalo, segurando um laço para arrastar almas para a além. Seria parecido com o Ceifeiro, mas ainda não é hora de falar sobre ele. Calma que já tá chegando esta parte.

Como o budismo se espalhou para o Oriente Distante, ele aparece nas mitologias chinesas como o deus Yan, enquanto no Japão não é bem assim. Enma Daiō é o governante do inferno (tanto Jigoku quanto Meido) e o principal dos 13 juízes dos mortos. Enma veste as vestes de um antigo funcionário do governo da dinastia Tang chinesa e tem uma expressão assustadora no rosto, sendo servido por dois secretários, Shiroku e Shimyō, bem como vários outros servos demoníacos. Ou seja, Enma estaria mais próximo de Satã, Hades e Plutão do que a Morte propriamente dita, assim como o Grande Rei Yeomna é o rei do submundo na mitologia coreana, muitas vezes conhecido por julgar os mortos. Diferente de Enma Daiō, Yeomna conduz os espíritos mortos à sua morada no submundo, que reflete sua vida na Terra. Seria então essa representação da Morte na mitologia coreana? Talvez, mas os conceitos e arquétipos deles são diferentes.

Então, como vimos, as personagens que são a Morte Personificada não tem nada a ver com o Ceifador. Como elas se tornaram assim? A resposta está nos finais da Idade Média, por causa de um acontecimento meio chato que ocorreu em meados do século XIV: a Peste Negra.

Vindo do Oriente Distante por volta de 1346, a Peste Bubônica veio junto com ratos. Conhecida por Peste Negra por causar inchaços escuros nas pessoas, esta doença fez um estrago. foi uma das pandemias mais avassaladoras da História, em que o número total de mortes na Europa foi em torno de 50 a 60%. Em números mundiais, a Peste Negra pode ter reduzido a população mundial para 350 milhões de pessoas, pouco mais de um quarto da população mundial. Foi um Deus nos acuda!

As pessoas não precisavam recorrer ao imaginário, a Morte estava ali, bem do ladinho. Os corpos faziam pilhas e mais pilhas, o cheiro nauseabundo dos corpos em decomposição assolava as cidades e não dava para se proteger em casa. Parecia que estavam prestes ao fim do mundo e o Apocalipse estava virando a esquina. Como sempre acontece nesses eventos, a arte é influenciada; e, com isso, artistas medievais começaram a usar esqueletos como um símbolo para a Morte, já que esqueletos e corpos em decomposição estavam ali, na frente de todo mundo. Não era nem preciso uma metáfora, era o dia-a-dia de todo mundo.

Com isso, um tema recorrente dessa época e que tomou de vez conta do imaginário popular foi a chamada Danse Macabre, ou Dança da Macabra. Abaixo, a Dança Macabra, de Guyot Marchant, de 1485, e que erroneamente traduzem como Dança da Morte.

Aqui vemos uma das primeiras referências ao Ceifador, com sua longa foice, tão comum a uma sociedade agrícola. Sim, a foice é nitidamente uma referência do cotidiano das pessoas, junto com a Morte. Hoje, talvez, fosse um email ou um celular, mas a imagem do Ceifador perdurou por séculos, tomando o lugar dos deuses, ora bonitos e atléticos carregando espadas, ora burocratas com laços.

As Danças Macabras foram retratadas de diferentes maneiras, mas o ponto em comum eram os esqueletos dançando e tocando instrumentos musicais enquanto levavam pessoas para as suas sepulturas. Na música, também esteve presente, como na obra Danse Macabre, de Camille Saint-Saëns, de 1875:

Em 1929, os desenhistas de Walt Disney criaram sua própria adaptação da alegoria da Dança Macabra com o seu “The Skeleton Dance”, um curta de animação em que esqueletos se levantam de seus túmulos e dançam ao som de um animado foxtrot. Às vezes, a música é tocada em instrumentos feitos de seus próprios ossos. Outros itens básicos do Halloween – gatos pretos, corujas, lápides e morcegos – contribuem para o clima assustador. Mas, lembrem-se, só recentemente criamos a ideia que desenhos e animações são só para crianças. antes, muito pelo contrário:

O Ceifador veio como um alerta que ela, a Iniludível, estava bem próximas de nós, o que a fez virar até personagem de gibi infantil, pois a morte é, talvez, a única certeza de nossas vidas. Este personagem aparece em muitas obras de diferentes formas. O próprio Neil Gaiman, em Sandman, faz uso desta visão, ainda que de forma jocosa. Para ele, a Morte é uma moça bonita, alegre e… ironicamente cheia de vida.


Linda de morrer!

E ainda assim, pelas mãos de Gaiman, a Morte sabe da visão que as pessoas têm dela e faz piada com isso:


(sim, esse desenho é péssimo, como a maioria das artes de Sandman)

Não sei se a Morte estilo Neil Gaiman vai perdurar. Talvez não, já que a própria série da Netflix escolheu uma atriz que não tem muito a ver com o desenho, mas talvez nem devesse, já que o essencial da mensagem está ali: a morte é tão natural quanto a vida. Nós queremos viver mais, lógico. Queremos que nossos entes queridos vivam mais e até nossos bichos de estimação. Nós sabemos que nada é eterno, que tudo tem um fim, mas é demais querermos que as pessoas entendam isso, pois morte é uma perda, como alguém indo embora num avião, e sabemos que nunca vai voltar. Talvez nos reencontremos, talvez não. Nós sabemos que a morte vem, mas não o que tem depois dela. Talvez este seja o maior mistério de todos, embora o maior mistério mesmo seja como podemos aprender a viver a vida plenamente até o nosso último momento?

3 comentários em “A Verdadeira História da Morte

  1. Eu sempre achei interessante a ideia de Caronte levando as almas até o Hades. Pragmaticamente ele teria que ter uma arca, mas a ideia de um barqueiro atravessando um corpo d’água que separa os dois mundos é muito legal.
    Também não tinha parado pra pensar que a ideia dos esqueletos vinha de algo que as pessoas presenciavam no dia a dia – isso na Europa, claro; sincronicamente a representação em outras partes do mundo certamente era muito diferente.

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