A Verdadeira História da Festa de Corpus Christi

Você sabe da festa de Corpus Christi, que se comemora em junho, principalmente por ser feriado, e você adora um feriado que eu sei! O nome oficial da comemoração (em latim) é Festum Sanctissimi Corporis Christi. Em grego, του ςώματος του κυρίου εορτή, e em terras lusoparlantes é chamada Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. É uma celebração que ficou marcante por aqui por causa da tradição de fazer tapetes de serragem colorida criando mosaicos, imagens, figuras sacras etc. Mas você sabe como surgiu a Festa de Corpus Christi?

Aqui veremos os bastidores por detrás disso.

Para começar, a festa de Corpus Christi é uma festividade católica, mas não apenas romana, mas ortodoxa também. Segundo a liturgia da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), a festa de Corpus Christi festeja a presença real de Cristo na Eucaristia, e se você não sabe direito o que é Eucaristia, é uma palavra de origem grega – εὐχαριστία – que significa “ação de graças”. Trata-se de uma tradição à passagem de Jesus pregando em Carfanaum, no que ficou conhecido como Última Ceia, como relatado apenas em João 6:47-59:

[Disse Jesus] “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo”. Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: “Como nos pode dar este a sua carne a comer?” Jesus, pois, lhes disse: “Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu; não é o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre”. Ele disse estas coisas na sinagoga, ensinando em Cafarnaum.

Não, isso não está em outros evangelhos, não dessa forma. Em Marcos 14:22-24 vem escrito:

E, comendo eles [os 12 discípulos], tomou Jesus pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho; e todos beberam dele. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que por muitos é derramado.

Marcos foi muito sucinto. Em Mateus 26:26-28 vemos o mesmo grau de concisão:

E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados.

Em Lucas 22:17-20 temos um texto um pouco mais elaborado:

E, tomando o cálice, e havendo dado graças, disse: Tomai-o, e reparti-o entre vós; porque vos digo que já não beberei do fruto da vide, até que venha o reino de Deus. E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós.

A Eucaristia passa praticamente desapercebida, não tendo a importância que João deu. Já Saulo preferiu usar como base o evangelho de João quando escreveu a primeira epístola aos Coríntios 11:23-32

Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha. Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem. Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo.

É o momento que Jesus abençoa a todos ali e simbolicamente entrega a carne e o sangue, usando pão e vinho como metáforas. É o ato de dar graças e pegando Mateus e Lucas, Jesus faz a nova aliança, e institui o conceito do Novo Testamento. Entretanto, não é bem aí que surgiu a Festa de Corpus Christi, e sim o ritual da Eucaristia, que tem lugar nas Santas Missas, com o padre erguendo a hóstia, abençoando-a, e a oferta aos católicos, que a recebem e ali ocorre o milagre da transubstanciação, isto é, quando a hóstia se transforma no corpo de Cristo.

É apenas um ritual figurativo, não que efetivamente comerão carne humana e bebendo sangue. Aliás, o ato de “comer deus” nem é criação do Catolicismo (Romano ou Ortodoxo), já que há rituais que se “come” o deus e “bebe o sangue de deus” em outras religiões, como os ritos gregos da Antiguidade. O próprio Judaísmo já tinha uma eucaristia própria antes: o Kiddush. O termo para isso é Teofagia (Teos = Deus ; Fagos = Comer).

Friedrich Hölderlin (1770 – 1843), filósofo e poeta alemão, demonstrou na sua obra Brod und Wein (Pão e Vinho, datado de 1800) as semelhanças entre as celebrações do deus grego Dionísio e Jesus. Dionísio, filho de Zeus, e é o deus da vindima, da vinificação, do teatro e do ritual da loucura. Dionísio havia nascido com chifres, destroçado pelos Titãs, mas sua avó Rhea coletou todas as partes de Dionísio e o trouxe de volta à vida. Dionísio fugiu para se esconder numa montanha, e lá ele inventou o vinho.

Martin Hengel (1926 – 2009), Barry Powell (nascido em 1942) e Peter Wick, demonstraram incríveis semelhanças entre a religião dionisíaca e Cristianismo, apontando para o uso recorrente do vinho em pontos-chave da história de Jesus, como no caso das Bodas de Canaã, em que Jesus faz o seu primeiro milagre, quando ele transformou água em vinho, e os convivas aplaudiram a extrema qualidade do vinho que ele produzira (João 2:1-11). Segundo Wick, o relato mostra como Jesus é superior a Dionísio, quando o faz produzir um vinho muito melhor do que o que se usa a técnica criada por Dionísio, em que Jesus usa apenas água.

Então, o que vemos é um ritual antigo, transformado em “novo”, ganhando uma nova roupagem. Mas nem sempre existiu a festa de Corpus Christi. Sua data comemorativa é a quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade que, por sua vez, acontece no domingo seguinte de Pentecostes. Liturgicamente, as orações nesse dia servem para ensinar e relembrar a todos os católicos quem é Jesus, o Filho de Deus, além se seu sacrifício pela humanidade.

A origem

Isso é o que representa a festa de Corpus Christi. Mas não a sua origem. Como falei, apesar de ela representar a eucaristia, que foi instituída por Jesus na Última Ceia, ela não teve início lá. Seu início teve lugar no século XIII, por meio de um milagre eucarístico.

Milagres eucarístico é o milagre que acontece quando a transubstanciação acontece verdadeiramente. Não, a hóstia NÃO se transforma em carne em todas as missas que são celebradas todos os dias, em todos os lugares. Como dito, é uma metáfora. Mas, nos milagres eucarísticos, é isso exatamente o que acontece, ou seja, a hóstia REALMENTE vira carne e sangue.

Ou, pelo menos, é isso que tentam nos convencer. De início, temos que esclarecer: há duas histórias que alegam ser a origem da festividade de Corpus Christi. Vamos a elas

O Milagre Eucarístico de Orvietto/Bolsena

Vamos aos relatos, depois as observações. Tudo começa com Pedro de Praga, o padre alemão que saiu da sua terra natal em peregrinação a Roma. Passando pela cidade de Bolsena, Itália, Pedro parou celebrar a missa na Igreja de Santa Cristina, mas a sua fé estava dividida. Ele não acreditava com todo o seu coração na transubstanciação. Seu pobre coração duvidava e a dúvida é inimiga da fé; e Pedro, influenciado por debates entre vários teólogos sobre Cristo, já não acreditava na presença de Jesus no Santíssimo Sacramento. Ele não tinha mais certeza sobre a presença efetiva do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, Nosso Senhor, no pão e no vinho consagrados.

Seu pobre coração amargurado e tomado de dúvidas teve um vislumbre da presença de Deus quando ele recitou a oração de consagração durante a missa e, da hóstia consagrada, começou a escorrer sangue. Pedro tenta esconder o que estava acontecendo, mas não conseguiu, já que o sangue caiu sobre o corporal do altar, manchando-o.


Corporal de Bolsena. Não dá pra ver muito.

Corporal é um pano de linho utilizado junto do cálice e outros utensílios sagrados durante a missa. Ele simboliza o Sudário no qual Jesus fora envolto depois de morrer na cruz.

Pedro de Praga não tinha como esconder e a população ficou extasiada. Ele soube que o Papa Urbano IV estava na cidade de Orvietto, ali próxima, e leva o corporal até ele. Entretanto, algumas histórias divergem nesse ponto, sustentando que Urbano IV soube do ocorrido, mas não por Pedro; mandando delegados chefiados por Tomás de Aquino (sim, aquele Tomás de Aquino) irem investigar o caso e que trouxessem Pedro e o corporal manchado de sangue para Orvietto

Em 11 de agosto de 1264, Urbano IV publicou a Bula “Transiturus de hoc mundo”, na qual institui a celebração anual da Solenidade de Corpus Christi, universalmente. A bula também concedeu muitas indulgências aos fiéis para a participação na missa e no ofício. E para celebrar a festa, Tomás de Aquino escreveu a belíssima liturgia celebrada na solenidade, com os hinos Pange Lingua, Tantum Ergo, Panis Angelicus, e O Salutaris Hostia.

Pouco depois, em 2 de outubro de 1264, Urbano IV morre, aos 69 anos. Mas tem outra história. E essa história é…

As visões de Juliana de Mont Cornillon

Juliana de Mont Cornillon, ou Juliana de Liège, nasceu em Retinnes – perto de Liége, Bélgica – em 1193. Ela era uma freira agostiniana do Convento de Mont Cornillon, e teve uma série de visões que começaram aos 16 anos, em que Juliana (alegadamente) foi sido instruída por Deus para trabalhar para estabelecer uma festa litúrgica para a Sagrada Eucaristia, à qual ela tinha uma grande devoção.

Segundo suas visões, a Igreja aparecia sob a aparência de uma Lua Cheia que tinha uma mancha escura. Durante a visão, Juliana ouviu uma misteriosa voz celestial explicar que a Lua representava a Igreja naquela época, e a mancha escura simbolizava o fato de que uma grande festa em homenagem ao Santíssimo Sacramento estava faltando no calendário litúrgico. Juliana confessou a visão ao bispo Robert de Thorete, então bispo de Liège, e a Jacques Pantaléon, que mais tarde se tornaria o papa Urbano IV. Dom Robert ficou favoravelmente impressionado e convocou um sínodo em 1246 que autorizou a celebração de uma festa dedicada a Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento – Corpus Christi – a ser realizada na diocese no ano seguinte.

Em uma outra versão, Juliana demorou muitos e muitos anos para convencer, não o bispo Robert de Thorete, mas o futuro Papa Urbano IV, a criar esta festa especial em honra do Santíssimo Sacramento, posto que simplesmente não existia nenhuma celebração neste sentido. Nessa versão, Urbano IV institui esta festividade logo após a morte de Juliana, quando dos eventos do Milagre Eucarístico de Bolsena, só que, recapitulando, este milagre aconteceu em 1263 e a festividade foi instituída em 1264, sendo que Juliana morreu em 1258, e seis anos não é “logo depois”.

Atualmente, aceita-se que primeiro Juliana teve a visão de Deus pedindo pela celebração e a forma de Deus convencer a todos disso é ter promovido o milagre eucarístico de Bolsena.

Obviamente, a “prova” da ocorrência deste milagre é termos o corporal sujo de sangue e a fala “aconteceu sim, juro por Deus”, quando o que vemos é um pano de linho sujo de sangue. Aliás, é esta a prova de todos os milagres eucarísticos, como os de Lanciano (Itália), Ferrara (Itália), Offida (Itália), Sena/Cáscia (Itália), Turim (Itália), Sena (sim, de novo), Santarém (Portugal), Faverney (França), e Stich (Alemanha).

Muitos deles passaram por investigações científicas, mas elas terminam com “sim, tem carne e sangue ali”, e parece ser o bastante. É como eu dizer que o ar-condicionado do meu carro foi um presente dado por alienígenas, alguém ir lá investigar e determinar “sim, tem ar-condicionado no carro do André, e isso prova que foi um presente de alienígenas”.

Obviamente, a principal argumentação para comprovar o milagre é a alegação que é um ato de fé, mas fé é exatamente o ato de acreditar sem provas, e você acredita simplesmente porque quer acreditar, e se você acha que isso é o suficiente para determinar a veracidade de algo, é total perda de tempo questionar, pois não se questiona fé, fé tem que ser cega, ou você acredita ou não, e aquilo que você acredita só existirá porque você acredita, e se acredita é porque quer que seja verdade e, com isso, você estabelece que é verdade sim, e acabou.

Os tapetes coloridos

O uso dos recursos de adoração varia desde as orações até os tapetinhos coloridos, uma forma de “história em quadrinhos” para contar a vida de Jesus de forma pictórica, ou seja, com a mesma finalidade que os vitrais nas igrejas: as histórias de Jesus contadas de forma não verbal para pessoas que não sabem ler. A tradição de fazer o tapete com folhas, flores e serragem começou em Portugal no período da colonização portuguesa em vários lugares. Com o tempo, as pessoas foram abandonando esta tradição até esquecê-la, mas em Açores foi mantida e quando imigrantes açorianos começaram a viajar para outros lugares, levaram junto seu costume de decorar as ruas como prova de fé numa manifestação popular de adoração aos símbolos cristãos traduzidos em imagens.

Os tapetes são uma forma de contar histórias, assim como outros recursos litúrgicos, como a hóstia, o vinho e tudo para propagar um sistema de adoração. Rituais esses que precisam sempre serem reafirmados por meio de milagres. Não o tipo de milagre que seja visto de forma inequívoca, como nos tempos de antigamente, com grandes enchentes, pragas e curas milagrosas. Quanto mais avançamos nos processos de investigação, mais raros os milagres ficam sendo sempre algo antigo, que só possa investigar o resultado, não a ocorrência. Para isso, temos apenas relatos e umas obras de arte, e isso é o suficiente para aquele que tem fé.

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