O Papa que explodiu no próprio velório

Os rígidos soldados não estavam bem. Ali, imóveis, guardando a sua missão, eles estavam aos poucos resvalando e a ponto de desmaiar. Havia algo de sinistro e funesto no seu trabalho ali, mas a coisa estava saindo do controle. O mal-estar, a sombra de algo tóxico e horrível tomando conta do ambiente e a face horrível que ali estava traduzia o nauseabundo local que causava um esgar de nojo e horror que tomava conta ali. Barulhos suspeitos, desmaios sucessivos e o culminar horrendo daquilo seria algo que selaria o destino de muitas pessoas.

A morte de um Papa é, por definição, um evento solene. Há incenso, há cardeais, há multidão compungida na Praça de São Pedro e há, naturalmente, um cadáver que precisa aguentar firme durante dias de exposição pública antes de ser definitivamente depositado na Eternidade. É um protocolo milimétrico, cheio de simbolismo e, em teoria, de dignidade. Em teoria, claro, porque em outubro de 1958, a Igreja Católica viveu um dos episódios mais grotescamente hilários de sua multimilenar história: o corpo do Papa Pio XII começou a se decompor visivelmente durante o próprio velório e acabou por explodir no meio do cortejo fúnebre.


Pio XII – antes da sucessão de erros

A Igreja Católica, com seus dois milênios de história, deveria ser praticamente imune a improvisos desastrosos, especialmente em eventos previsíveis. E poucos eventos são tão previsíveis quanto a morte de um Papa. Pois, é, Papas morrem, e isso não é novidade, posto que aconteceu antes e muitas vezes. Alguns de mortes morridas, outros de morte matadas, mas o que fez ocorrer o passamento é secundário para a nossa história de hoje, já que, mesmo com essa previsibilidade toda, conseguiram errar. E errar feio!

Errar não no sentido simbólico, teológico ou político. Errar no nível mais básico possível: pegar um corpo humano, deixá-lo parado por alguns dias e não transformá-lo num problema público. O tipo de tarefa que civilizações antigas já executavam com relativa competência enquanto ainda estavam aprendendo a inventar a escrita.

A ironia é que ninguém ali estava lidando com um problema novo. Desde a Idade Média, a Igreja já sabia exatamente o que fazer com um corpo que insiste em obedecer às Leis da Natureza. A solução medieval, embora pouco glamourosa, era eficaz: tiravam-se os órgãos, tratava-se o que precisava ser tratado e pronto. Não era bonito, mas também não dava ruim.

Já que eu sei que vocês são curiosos e querem saber sobre o que se fazia com o Papa que foi dar um rolé pelo Céu (ou Inferno, dependendo de quem foi), podemos dizer que de meados do século XVI até 1914, os órgãos internos dos Papas eram removidos e preservados separadamente como relíquias religiosas. Fígado, baço, pâncreas, tudo ia para potes apropriados e para altares apropriados. Sim, eu sei que você já viu esta história antes:

A discreta Igreja de Santos Anastácio e Vicente, perto da Fontana di Trevi em Roma, guarda até hoje as vísceras de 22 Papas diferentes, o que diz bastante sobre a mística católica e sobre os limites do turismo religioso. Nos períodos em que a evisceração era considerada imprópria, a alternativa era mais criativa: expulsavam-se os conteúdos intestinais com enemas à base de vinagre, óleo de rosas, mirra, alúmen e noz-moscada, e depois vedavam-se todos os orifícios com algodão, cera e incenso. Funcional? É algo a ser discutido, mas ao menos ninguém fez Kabum por causa disso.

A virada chegou em 1903, quando morreu Leão XIII e seu sucessor, Pio X, determinou que o corpo dos pontífices deveria permanecer intacto dali em diante. Nada de remoção de órgãos: o Santo Padre deveria de ir para o túmulo da mesma forma que veio ao mundo (sim, eu sei que você está pensando na piadinha sobre ser baixinho, careca e desdentado). A Igreja precisava, portanto, de uma alternativa que respeitasse essa nova diretriz sem abrir mão da durabilidade. A resposta foi o embalsamamento moderno, baseado em injeções de formaldeído pelas artérias, drenagem do sangue e substituição por soluções conservantes.

Pio X, morto em 1914, foi o primeiro pontífice a receber esse tratamento, conduzido pela família Signoracci, operadores da principal funerária de Roma e que por gerações prepararia os Papas para o sepultamento. A técnica funcionou tão bem que, quando o caixão de João XXIII foi aberto em 2001, trinta e oito anos após sua morte, seu corpo ainda se apresentava em estado notável de conservação. Massimo Signoracci declarou à revista Der Spiegel, com orgulho profissional inteiramente justificado, que o Papa “parecia tão bom quanto no dia seguinte à sua morte”. Tem coisas que só uma mistura de álcool etílico, formalina, sulfato de sódio e nitrato de potássio fazem por você que óleos aromáticos e papel de embrulho definitivamente não conseguem.

Havia, portanto, um método estabelecido, testado e comprovado. Bastava segui-lo. O que nos leva a Riccardo Galeazzi-Lisi.


Galeazzi-Lisi à direita – antes da sucessão de erros

Nascido em Roma em 1891, o dr. Riccardo Galeazzi-Lisi era oftalmologista, o que significa que sua especialidade declarada era o olho, e não manter cadáveres lindos leves, frescos e cheirosos. Ele podia ser bom em examinar os olhos dos outros – de preferência vivos! – e não conservar tecidos e nem a bioquímica da decomposição. Em 1929, porém, Galeazzi-Lisi havia conquistado a confiança do então Cardeal Eugenio Pacelli graças, em parte, às influências de seu meio-irmão, o arquiteto e banqueiro Conde Enrico Galeazzi, figura poderosa nos círculos vaticanos. Quando Pacelli se tornou Pio XII em 1939, o oftalmologista ascendeu ao cargo de “arquiatra pontifício”, médico oficial do Vaticano, e foi ainda nomeado membro honorário da Academia Pontifícia das Ciências. Sua trajetória é, portanto, um estudo de caso em como as relações certas podem levar um especialista em olhos a responder pela integridade física do chefe espiritual de meio bilhão de pessoas.


De profundis clamo ad te parenthesis

O termo “arquiatra” vem do grego arkhiatrós (ἀρχίατρος, de arkhé, “comando, princípio, aquele que está na origem”, e iatros, “médico”), e designava originalmente o médico-chefe responsável por supervisionar os demais profissionais de saúde a serviço de um monarca ou instituição. Não era, portanto, apenas um médico de prestígio: era o médico que mandava nos outros médicos, o que, numa época em que a medicina era tanto arte quanto especulação filosófica, representava uma posição de poder considerável.

Na corte imperial romana, o cargo atingiu seu apogeu institucional. O arquiatra imperial não apenas cuidava da saúde do imperador como chefiava toda a estrutura médica do palácio, ostentando o título específico de archiatrorum comes, literalmente “o conde dos arquiatros”, uma combinação que hoje soaria redundante mas que, no vocabulário hierárquico romano, dizia exatamente a que veio. O latim, fiel a si mesmo, traduziu os componentes gregos com precisão clínica: arkhé virou principium e iatros virou medicus, produzindo o circunlóquio princeps medicorum, “o primeiro entre os médicos”, que os romanos usavam como equivalente.

O termo sobreviveu à queda do Império e migrou pelo tempo com a desenvoltura de quem conhece seu próprio valor. Na Idade Média e no início da Modernidade, arkhiatrós e suas variantes latinas reapareceram em cortes europeias para designar os médicos pessoais de reis e papas. Foi precisamente nessa tradição que o Vaticano ancorou o título de archiatra pontificio, médico oficial do papa, cargo que Pio XII concedeu a Riccardo Galeazzi-Lisi em 1939. Uma linhagem de dois milênios de medicina de corte, portanto, culminando num oftalmologista com celofane e ideias próprias sobre decomposição.

Consummatum parenthesis est


O caráter de Galeazzi-Lisi já havia se revelado antes mesmo da morte do Sumo Pontífice. Nos dias finais do pontificado, com Pio XII acamado em Castel Gandolfo, Galeazzi-Lisi entrou no quarto do futuro ex-Papa com uma pequena máquina fotográfica Polaroid escondida no paletó e tirou duas fotos do pontífice. A primeira mostrava o Papa em uma maca especialmente adaptada, inclinada para o lado. A segunda, um close impiedoso, também mostrava o tubo de oxigênio chegando à sua boca. As fotografias, descritas como vergonhosas e desrespeitosas, foram vendidas à revista Paris Match e para um periódico italiano; tentando ainda publicar um diário que havia composto sobre os últimos quatro dias de vida do herdeiro do Trono de Pedro, que ia se encontrar com o dono do trono em breve.



Pio XII – durante a sucessão de erros

Era o tipo de profissional que olha para um momento de agonia e enxerga um produto para bancas de jornal. Naturalmente, foi essa mesma mentalidade empreendedora que ele levou para o pós-morte.

Pio XII morreu em 9 de outubro de 1958, aos 82 anos, às 3h52 da manhã, no Castelo Gandolfo, a residência de verão papal nas colinas albanas a sudeste de Roma. A causa oficial foi um colapso circulatório agudo, precipitado por uma série de crises de soluço intratáveis que o haviam debilitado progressivamente nos dias anteriores, um sintoma tão incomum quanto perturbador que os médicos associaram à deterioração neurológica decorrente de arteriosclerose avançada. Estava acordado e consciente até perto do fim, o que, dadas as circunstâncias do que se seguiria ao seu corpo, pode ser considerado uma misericórdia.


RIP Papa – e aqui começa o show de horrores

Pio XII havia deixado em testamento o desejo de ser enterrado “da forma que Deus havia lhe feito”, sem remoção de órgãos. Era uma instrução piedosa e razoável; o que não era razoável era o método que Galeazzi-Lisi propôs para cumpri-la. Em uma coletiva de imprensa posterior ao desastre (porque o homem chegou a dar uma coletiva de imprensa sobre isso), o médico afirmou ter usado o mesmo sistema de óleos e resinas com o qual, segundo ele, o corpo de Jesus Cristo havia sido preservado (não que a Bíblia dê detalhes, mas sabem como é…). Em versões anteriores da justificativa, invocou também as técnicas usadas para conservar Carlos Magno e, em determinado ponto da argumentação, os antigos egípcios.

A referência aos egípcios merece uma pausa. A mumificação egípcia era, na verdade, um processo meticuloso e demorado que envolvia exatamente o que Pio XII havia proibido: remoção completa dos órgãos internos, que eram então secos sachês de sal por semanas antes de ser guardados em vasos canópicos. O corpo em si era submetido a um processo de dessecação que podia durar setenta dias, em ambiente seco e controlado. Os egípcios eram obcecados em eliminar toda a umidade dos tecidos, pois, sabiam intuitivamente que a decomposição depende de água e calor.

Para piorar, os detalhes exatos dos processos usados em diferentes épocas e para diferentes personagens são, em sua maioria, incompletos ou parcialmente desconhecidos, o que torna ainda mais temerário invocar “os egípcios” como autoridade para qualquer coisa. Galeazzi-Lisi não apenas ignorou a ciência disponível como a substituiu por uma referência histórica que, bem examinada, contradiz precisamente o que ele estava fazendo. É o equivalente a citar “os gregos” para justificar uma construção em que as colunas caem.

O procedimento que ele e o Professor Oreste Nuzzi, embalsamador de Nápoles recrutado como coautor do método, aplicaram sobre o corpo de Pio XII consistia em cobrir o cadáver com uma combinação de óleos, resinas voláteis e ervas aromáticas, envolto depois em um lençol de celofane mantido sobre o corpo por vinte horas. Nenhuma drenagem. Nenhuma injeção. Nenhuma tentativa de interromper os processos bacterianos que já estavam em curso. Era menos um procedimento médico e mais uma aposta contra a biologia, com a biologia largamente favorita. Não apenas isso, eles estavam selando o corpo, quando as resinas iriam endurecer e manter o corpo firme e rígido…

Por fora. O problema era por dentro.

O resultado não surpreendeu ninguém que já tenha passado por uma aula introdutória de microbiologia. O celofane, ao invés de conservar, criou um ambiente impermeável ao ar que favoreceu precisamente as bactérias anaeróbias responsáveis pela decomposição mais acelerada e mais aromática. O calor do outubro italiano fez o resto. O corpo começou a inchar ainda na primeira madrugada. Os gases se acumularam. O odor tornou-se insuportável. Os guardas do Vaticano escalados para o velório no Castelo Gandolfo precisavam ser substituídos a cada quinze minutos para evitar desmaios, transformando o que deveria ser uma vigília solene num revezamento de resistência nasal.

Galeazzi-Lisi tentou corrigir o problema com um segundo procedimento de embalsamamento. Não funcionou. A decisão foi enviar o corpo para o cortejo de qualquer forma; e qualquer pessoa minimamente racional poderia imaginar o que aconteceria dali por diante. Depois do acontecido, podemos ter certeza de que não havia nenhuma naquele lugar, tempo e circunstância.


As Leis da Química seguindo inexoráveis prontas pro desfecho

Durante o translado do Castelo Gandolfo a Roma, a pressão interna atingiu o ponto crítico. O acúmulo de gases na cavidade torácica chegou ao limite e o corpo se despedaçou internamente. O caixão foi coberto às pressas e o cortejo foi obrigado a fazer uma parada de emergência na Arquibasílica de São João de Latrão, uma das quatro basílicas maiores de Roma, onde reparos foram realizados enquanto o odor de decomposição impregnava o ambiente sagrado. Os relatos da época mencionam ainda que o nariz e os dedos do pontífice haviam se desprendido e que a pele havia adquirido uma tonalidade verde-escurecida. O que chegou a São Pedro não era exatamente o que havia partido do Castelo Gandolfo.

Não, o vídeo não mostra o que se passou. Qual o seu problema?

Profissionais de verdade foram finalmente chamados. O corpo foi retirado do caixão, submetido a técnicas reais de conservação e o rosto do pontífice coberto com uma máscara de cera e látex para conter os danos visíveis. A expressão final, resultado de músculos retraídos e estruturas colapsadas, foi descrita como um “sorriso macabro”. Um último gesto involuntário que resumiu bem toda a situação. O inchaço no tórax persistiu pelos nove dias de exposição pública.

As consequências para Galeazzi-Lisi foram proporcionais ao desastre. Os cardeais o expulsaram do Vaticano antes mesmo do início do conclave que elegeria João XXIII. O Conselho Médico Italiano foi além e cassou sua licença para exercer a Medicina, banindo-o permanentemente da profissão. Em 1960, Galeazzi-Lisi publicou um livro intitulado “Na Sombra e na Luz de Pio XII”, numa tentativa de refutar as acusações. Morreu em 1968, deixando como legado um dos episódios mais constrangedores já associados a um funeral papal e a prova empírica de um princípio simples: sempre que alguém decide ignorar conhecimento acumulado em favor de uma ideia “elegante”, existe uma boa chance de que o resultado envolva cheiro ruim e consequências difíceis de conter.

No fim, Pio XII queria ser enterrado como Deus o fez. Acabou sendo remontado como foi possível. Entre a intenção piedosa e a execução desastrosa, ficou a demonstração prática de que fé pode até mover montanhas, mas não impede a decomposição. Talvez seja uma lição que não importa o quanto dinheiro ou poder você tenha. O final é o mesmo para todos nós, e tentar reverter algo para servir de adorno, adoração, procissão ou reafirmação de poder pode não acabar bem. Hoje, os ritos de embalsamamento dos Papas segue uma revisão, vistoria e acompanhamento muito ed perto para que isso não aconteça de novo e se você perguntar por que simplesmente não enterram logo, lembre-se que mais de 2 bilhões de pessoas precisam em seus corações acompanhar isso e a ICAR é velha e sábia. Ela sabe muito bem como manter os fiéis sendo fiéis e controla governos mesmo que estes não sejam católicos, mas é preciso manter as aparências, porque ninguém quer levantes de pessoas indignadas.

Seriam capazes até mesmo de jogar um Papa no rio. Mas isso é história para outro dia.

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