A Verdadeira História da Pedra da Roseta

O homem de uniforme azul para, em meio ao sol escaldante. Tira o chapéu e enxuga o suor naquele lugar que ele desdenhava por achar ser um recanto miserável, inculto, esquecido por Deus e o mundo. Aquele não era o seu conceito de civilização, ele queria ir para casa. Ele acompanha os seus soldados para mais um dia de serviço por ordem do Imperador. Ao chegar no ponto que tinha que estar e preparar para destruir tudo, ele viu algo inusitado. Uma pedra. Um pedregulhão, mas não era uma pedra comum. Era algo… diferente. Uma rocha trabalhada, um granito escuro que serviria para mudar o mundo, mas ninguém sabia. Para o homem, ainda era uma pedra, mesmo assim, mas o homem era curioso e o que ele viu quando chegou mais perto.

E o que ele descobriu mudou tudo o que nós conhecemos, pois as portas para uma civilização antiga, misteriosa, fantástica e incrível se abriram. O que foi encontrado foi um portal no tempo, e o mundo jamais seria o mesmo. Esta é a história da Pedra da Roseta.

Onde começa a história da Pedra da Roseta?

Tudo começa logo em seguida à Revolução Francesa, quando um general comanda suas tropas por toda a Europa e resolve que seria muito legal ir para o Egito. Destaca generais para o lado do Egito, para lá enfrentar os ingleses. O ano era 1798, e o supremo comandante era Napoleão Bonaparte, e com a campanha, houve um grande interesse por parte dos franceses pelo Egito, ao ponto de, junto com os soldados, um corpo de 167 especialistas acompanhou o exército francês. Este corpo de especialistas e técnicos ficou conhecido como Commission des Sciences et des Arts.

Em 15 de julho de 1799, soldados franceses sob o comando do coronel d’Hautpoul estavam fortalecendo as defesas do Forte Julien, alguns quilômetros a nordeste da cidade portuária egípcia de Rosette, aportuguesadamente Roseta, atualmente com o nome de Rashid; por sinal, este nome significa Pequena Rosa, e eu não sei se foi algum sarcasmo.

De qualquer forma, aqui a história começa a ter múltiplas facetas. Uma delas é que o tenente (ou capitão. Nunca chegam a um acordo com a patente) Pierre-François Bouchard avistou uma laje com inscrições de um lado que os soldados haviam descoberto (há quem discorde desta versão do achado). Buchard e d’Hautpoul foram averiguar e (aqui vem várias outras interpretações do ocorrido) encontraram uma pedrona com inscrições. Ao perceberem que aquilo devia ser muito importante, comunicaram ao general Jacques-François Menou, que por acaso estava em Roseta, mas essa parte também é incerta.

Resumindo o parágrafo imediatamente anterior: o que se tem é fragmentos de como foi feita a descoberta e eu fiz um emaranhado do que seria mais provável, mas tem outras. Irei passar batido por isso, lamento (ou não. Isso também é incerto!).

A descoberta foi anunciada à recém-fundada associação científica de Napoleão no Cairo, o Institut d’Égypte, em um relatório do membro da Comissão Michel Ange Lancret, observando que continha três inscrições, a primeira em hieróglifos, a segunda em demótico e a terceira em grego. Com razão, sugeriu-se que as três inscrições eram versões do mesmo texto em diferentes idiomas, mas ainda é cedo para falarmos sobre elas.

Em 19 de julho de 1799, Lancret terminou o seu relatório reportando os acontecimentos detalhadamente. Este relatório foi lido em uma reunião do Instituto logo após 25 de julho. Pierre-François Bouchard, entretanto, transportou a pedra para o Cairo para exame por estudiosos. O próprio Napoleão inspecionou o que já havia começado a ser chamado de La Pierre de Rosette, a “Pedra de Roseta”, pouco antes de seu retorno à França em agosto do mesmo ano, acabando por ser noticiada em setembro no Courrier de l’Égypte, jornal oficial da expedição francesa. Um certo repórter, cujo nome a História não guardou, expressou a esperança de que a pedra possa um dia ser a chave para decifrar os então misteriosos hieróglifos.

Em 1800, três dos especialistas técnicos da comissão desenvolveram maneiras de fazer cópias dos textos na pedra. Um desses especialistas foi Jean-Joseph Marcel, impressor e engenheiro. Por sinal, ele tinha um outro hobby: Linguística, e foi ele que primeiro reconheceu a natureza do segundo grupo de texto na Pedra. Até então ninguém sabia o que era. Achavam que era uma variante do Siríaco, mas estavam errados. Marcel raciocinou que o texto estava numa escrita conhecida por “Demótico”. Esta escrita tem seu nome dado pelo historiador Heródoto, que escolheu o nome em grego δημοτικός, que significa “popular”. O motivo deste nome é que, assim, facilitava-se a leitura dos hieróglifos, mudando de uma escrita pictóricas (figurinhas) para algo mais semelhante a um alfabeto. O Demótico antecede o Copta, do qual descente, sendo este último o idioma egípcio escrito em caracteres gregos.

Junto com Nicolas-Jacques Conté, um artista e inventor, Marcel criou uma forma de copiar os escritos. Ele podia ter estendido folhinhas de papel e passado um lápis sobre elas para pegar o baixo-relevo, mas tiveram uma ideia melhor: usar a própria pedra como um bloco de impressão para reproduzir a inscrição. Ou seja, passa-se uma fina camada de tinta sobre a pedra, de forma que a tinta não entre nos sulcos, e pressionar uma imensa folha de papel sobre a superfície, imprimindo. Assim fizeram e as impressões resultantes foram levadas a Paris pelo general Charles Dugua, de forma que outros estudiosos pudessem analisar o fac-símile em papel da Pedra da Roseta.

O problema é que a França não estava sozinha naquele quinhão e tinha outros de olho, como o Império Britânico e o Império Turco-Otomano, e todo mundo saiu na porrada. Em março de 1801, os ingleses desembarcaram na baía de Aboukir. Menou, que estava no comando da expedição francesa marchou para o norte em direção à costa do Mediterrâneo para enfrentar os soldados da Coroa Britânica, levando a pedra junto com muitas outras antiguidades. Os franceses foram derrotados em batalha, e o restante do exército recuou para Alexandria, onde foram cercados e sitiados, com a pedra agora dentro da cidade. Menou, seguindo o melhor da tradição francesa, se rendeu em 30 de agosto de 1801.

Isso começou outra briga: com quem fica as descobertas/espólios. Os ingleses ficaram na base do “se eu tomei, é meu”, os franceses “quem acha, guarda”, os ingleses “nós temos mais canhões”, “e nós preferimos destruir esta bagaça toda”, os egípcios fizeram “eu acho que…” e mandaram eles ficarem quietos. A verdade é que, mais uma vez, não se sabe como a Pedra da Roseta foi parar no Museu Britânico, mas foi lá que a pedra acabou ficando.

Afinal, o que é realmente a Pedra da Roseta?

A Pedra da Roseta é uma estela esculpida em granito escuro. Alguns confundem com o basalto negro pela coloração escura aparente, mas isso é devido à maneira de como a pedra foi tratada. Ela possui o tamanho até não muito grande, tendo cerca de 112,3 cm de altura em seu ponto mais alto, 75,7 cm de largura e 28,4 cm de espessura, mas muito dificilmente ela ficaria na mesa da sua sala, já que ela é meio pesadinha, tendo como massa cerca de 760 kg. Esse tamanho é enganoso, por ela originariamente tinha um tamanho maior, mas veremos isso mais para a frente.

Estelas são documentos, pronunciamentos, leis e comunicados altamente importantes esculpidos, dando o real significado de “escrito em pedra”, porque é para isso que serve: ficar claramente à mostra a decisão importante que o rei decretara, porque é isso o que uma estela é: um decreto, não tendo um nome específico para isso. Seria o mesmo que darmos um nome especial para cada lei publicada diariamente.

O decreto foi emitido na época em que o Egito estava sob o governo da Dinastia Ptolomaica. A data não era computada mediante anos, e sim a dinastia que estava reinante. Mas leve em conta incialmente que foi depois do ano 332 A.E.C., que foi quando Alexandre da Macedônia conquistou o Egito. Com a morte de Alexandre, seu império foi fragmentado entre seus generais, ficando a cargo de Ptolomeu o comando do Egito e cercanias, tendo assim começado a dinastia ptolomaica, cuja descendente mais notória foi Cleópatra.

Os Ptolomaicos eram, portanto, de origem grega, falavam grego e mantinham a cultura grega, mas sem abandonar antigos costumes egípcios, como o idioma, escrita, o que eles mantinham ao fazer os decretos, achando, inclusive, o meio termo entre o grego e o egípcio dos hieróglifos: justamente o demótico, que evoluiria para o Copta, como dito acima. Em outras palavras, se não fosse a dinastia ptolomaica, a cultura egípcia teria se perdido por simplesmente não termos como traduzir os hieróglifos, que nunca tiveram função de publicação em larga escala, já que apenas escribas e membros da realeza egípcia tinham permissão de serem alfabetizados.

Como saber o que ela diz?

Grego é uma língua que todos conheciam, não era grande problema, apesar das partes que faltavam. O problema é que o grego é uma escrita alfabética, o demótico e hieróglifo, não. Traduzir como uma cifra de substituição não estava funcionando.

Cifra de substituição é quando você vai substituindo uma palavra por outra e tentando organizar o texto mediante as regras gramaticais. Por exemplo

O pássaro vermelho cantou lindamente hoje de manhã

The red bird sang beautifully this morning

Red = vermelho; bird = pássaro; sang não tem paralelo, mas sing, tem: cantar. Você descobre que a sentença está no passado. Beautiful = lindo. Ly é o advérbio de modo, então você continua substituindo até ter todo o texto.

Em alemão fica Der rote Vogel hat heute Morgen schön gesungen

Percebam que “gesungen” é o verbo cantar, e como sempre, no alemão, o verbo vem no final. Se fosse traduzir palavra por palavra, as pessoas achariam que significava “manhã”. Por isso, é necessário parâmetros de comparação, normalmente com frases simples e indo para as mais complexas.

Sim, como é dito pela minha linguista favorita: Linguística comparada é um CAOS!

Entendido isso, podemos perceber qual o grande problema dos hieróglifos: como toda linguagem pictórica, um desenhinho pode ser qualquer coisa, pode ser uma palavra, um verbo, uma ação, ou mesmo uma frase.

O linguista Antoine-Isaac Silvestre, Barão de Sacy – que ostentava o título Secrétaire perpétuel de l’Académie des inscriptions et belles-lettres (Secretário Perpétuo da Academia de Inscrições e Belas Letras) –, estava quebrando a cabeça com isso até que, em 1811, por causa de uma discussão com um estudante a respeito de caracteres chineses, que também é uma linguagem pictórica, ele se tocou de uma sugestão feita por Georg Zoëga em 1797: as ações nativamente inerentes aos egípcios deveriam ter caracteres próprios, mas nomes estrangeiros não deveriam seguir este padrão. Muito provavelmente, seriam fonéticos, e ilustrados como tais.

Sacy lembrou ainda que Jean-Jacques Barthélemy havia sugerido, em 1761, que os caracteres contidos em cartuchos das inscrições hieroglíficas eram nomes próprios, com títulos honoríficos – ou seja, gente importante e poderosa; mas sem parâmetro de comparação, Barthélemy ficou na base do achismo, mesmo; e é aí que a Pedra da Roseta mostrou a sua importância.

Em 1814, quando Thomas Young, secretário de Relações Exteriores da Royal Society de Londres, escreveu sobre a Pedra, Silvestre de Sacy sugeriu que Young deveria procurar por cartuchos para ler o texto hieroglífico, aconselhando a tentativa de identificar os caracteres fonéticos neles a partir dos nomes próprios conhecidos no texto em grego.

Foi encontrado este cartucho gravado na pedra.

Aqui, para você ver melhor:

Isso é o nome de Nesut-bity, ou nome de trono. Transliterado, temos: Jwa-n-ntchr.wy-mnkh.wy stpn-ptah wsr-ka-ra skhm-ankh-n-jmn

Que significa: O herdeiro do deus Filopátor. O eleito de Ptah. O ka de Rá é poderoso. A imagem viva de Amon.

Já, no trecho em grego vem inscrito Πτολεμαῖος Ἐπιφανής, ou Ptolomeu Epifânio. Quando muito, Filho de Filopátor; a saber foi Ptolomeu IV, que por sinal era considerado um deus, também. Todos os reis eram. Notem que não tem todo o título como vem em egípcio, já que a comunidade grega não se importava se ele era filho do deus Ptah ou que tinha o Ká (espírito) do deus Rá.

Mas e sobre o decreto em si?

O decreto foi emitido na época em que o Egito estava sob o governo da Dinastia Ptolomaica. A data não era computada mediante anos, e sim a dinastia que estava reinante. Mas leve em conta incialmente que foi depois do ano 332 A.E.C., que foi quando Alexandre da Macedônia conquistou o Egito. Com a morte de Alexandre, seu império foi fragmentado entre seus generais, ficando a cargo de Ptolomeu o comando do Egito e cercanias, tendo assim começado a dinastia ptolomaica, cuja descendente mais notória foi Cleópatra.

Os Ptolomaicos eram, portanto, de origem grega, falavam grego e mantinham a cultura grega, mas sem abandonar antigos costumes egípcios, como o idioma, escrita, o que eles mantinham ao fazer os decretos, achando, inclusive, o meio termo entre o grego e o egípcio dos hieróglifos: justamente o demótico, que evoluiria para o Copta, como dito acima. Em outras palavras, se não fosse a dinastia ptolomaica, a cultura egípcia teria se perdido por simplesmente não termos como traduzir os hieróglifos, que nunca tiveram função de publicação em larga escala, já que apenas escribas e membros da realeza egípcia tinham permissão de serem alfabetizados.

Analisando o decreto escrito na Pedra de Roseta sabe-se que está situado no tempo equivalente ao nosso 27 de março, do ano de 196 A.E.C., emitido por um conselho de sacerdotes que foram à cidade de Memphis (Memphis do Egito, não a terra do Elvis); a antiga capital do Egito. Na ocasião, o rei vivia em Alexandria, que era a então capital, mas os sacerdotes egípcios eram tradicionais neste ponto e faziam questão de se encontrar na antiga capital de, o que é explicado na introdução do próprio decreto.

O interessante, entretanto, é que o decreto é apenas um documento puxando o saco do rei. Sim, isso mesmo! A parte principal do texto naquele pedregulhão é sobre dar honras ao rei, em que os sacerdotes egípcios listam uma série de honras que eles querem dar ao rei, de forma a compará-lo com os deuses, conferindo muitas honras divinas, como “sua estátua pode ser colocada no templo ao lado da estátua dos deuses (…) sua estátua pode ser carregada em uma procissão ao lado da estátua dos deuses, seu aniversário é celebrado no templo”. A data da sessão é adicionada à fórmula de datação em documentos oficiais, apontando que os dias do Festival de Ano Novo são dedicados ao rei. E tudo isso é formulado em grandes frases, no máximo da puxação de saco.

O rei em questão era Ptolomeu V Epifânio, Rei do Egito entre 205 e 180 A.E.C., e como todo chefão, ele não estava contente em ser o Chefe, mas fazer saber que ele era “O” chefe, e, por isso, queria ser reconhecido como o grande rei que ele (achava que) era um rei muito bom; por isso, fez muitas boas ações pelo país, protegendo-os dos invasores, manteve os rebeldes locais sob controle (ou seja, matando qualquer um que sequer pensasse em depô-lo, o que não eram poucos), garantiu enormes subsídios aos templos – restaurando templos antigos e construindo novos – e seus sacerdotes (entenderam o puxa saquismo?), deu presentes ao Culto dos Animais Sagrados que ainda era muito importante durante o período ptolomaico. Ptolomeu V também baixou os impostos, o que o deixou muito popular, como você pode imaginar.

Por causa de todas essas boas ações, o Conselho Sacerdotal decidiu dar-lhe todas essas honras comparando-o com os deuses e, no final do texto nas três escritas, foi adicionada uma prescrição sobre a publicação do texto. Então, o decreto teria sido enviado para todo o país e o texto nos diz que tem que ser escrito em pedra em escrita sagrada; a saber: os hieróglifos.

E a estela teria que ser colocada em todos os templos importantes do Egito, então o texto diz que os templos de status de primeira classe, segunda classe e terceira classe do Egito. Então, se acreditarmos nos sacerdotes, teríamos centenas dessas cópias da Pedra de Roseta distribuídas por todo o Egito. Afinal, era a forma de publicação, isto é, tornar público, os éditos reais e demais proclamações.

E é aqui que respondemos uma pergunta que nenhum de vocês fez até agora: a Pedra da Roseta está quebrada, faltando um pedaço; então, como se pôde traduzi-la?

Realmente, não sabemos se existiram centenas de estelas, mas, sim, temos outras. Na verdade, temos três cópias quase exatas que foram encontradas no Egito, uma no norte do Egito e uma foi encontrada em Elefantina, uma ilha no rio Nilo, no sul do Egito, situada frente à cidade de Assuã, e isso prova que o decreto realmente foi distribuído por todo o país e provavelmente foi erguido, esculpido em pedra como pedia o texto, instalado em todos os templos importantes do Egito. A Pedra da Roseta é a mais famosa porque foi a primeira a ser encontrada, e isso que faz dela especial.

Outras estelas foram encontradas, o que nos ajudou a prever como seria a Pedra da Roseta original, já que todas elas seguem um padrão de feitura, a começar por um cabeçalho, assim como nossos decretos oficiais de hoje. O topo era redondo e todo o comprimento da estela teria sido de dois metros. É muito típico que uma estela egípcia tenha alguma iconografia no topo e isso também lhe daria uma aparência muito egípcia. Podemos ter certeza disso graças ao paralelo mais próximo que temos da pedra da Roseta: A Estela de Naukratis, que nos dá o texto apenas em hieróglifos, estranhamente, mas é uma tradução muito, muito próxima da Pedra de Roseta, estando esta estela completamente preservada.

A gravação superior mostra uma série de reis ou uma série de deuses, ou ambos. Sabemos pela estela de Naukratis que a própria estela foi emoldurada por um disco solar alado e embaixo o rei pode ser visto, também Ptolomeu V, em que ele, o Rei, está ferindo ou esfaqueando um inimigo e isso é provavelmente um evento que é mencionado no texto: a reconquista da cidade de Lycopolis, situado na parte norte do Egito. Ptolomeu V reconquista a cidade e captura os inimigos e provavelmente é a isso que ele está se referindo nesta cena. Portanto, é porque o mesmo evento é mencionado na Pedra de Roseta, que provavelmente podemos presumir que também foi descrito em seu topo.

Ultimamente, tem havido muita pesquisa sobre a autoria desses textos e principalmente das traduções. Então, qual do texto foi o primeiro. O grego foi o primeiro? O egípcio foi o primeiro? A resposta certa e honesta é: ninguém sabe. O que se sabe é que, na época em que a Pedra de Roseta foi feita, o Egito era um lugar muito multicultural, com muitos estrangeiros e pessoas que falavam mais de um idioma. Para os sacerdotes e escribas egípcios que trabalhavam para a administração centralizada dos estados, provavelmente não teria sido tão difícil compor o texto em grego e depois traduzi-lo para sua própria língua nativa egípcia.

Na verdade, provavelmente teria sido mais fácil para eles porque trabalhavam diariamente na língua grega. Eles escreviam em grego e provavelmente falavam grego um com o outro no trabalho, embora pudessem falar sua língua nativa em casa. Esses sacerdotes estariam muito mais familiarizados com a terminologia grega e as palavras necessárias para redigir esse decreto. Assim, a partir desse texto grego, o texto demótico foi traduzido e provavelmente indo e voltando porque há certas palavras no texto para as quais nenhum equivalente grego teria sido possível ou estaria disponível.

Certos nomes escritos nos templos e santuários não teriam existido em grego, então eles teriam tirado isso da escrita e linguagem demótica que era a língua falada naqueles dias. Mas algumas dessas palavras para um falante nativo desse dialeto na Grécia teriam soado muito estranhas.

A partir dessa versão grega e demótica, a versão hieroglífica teria sido composta, o que é uma etapa extra que causa dificuldades extras porque os hieróglifos não eram mais usados na vida cotidiana no século II A.E.C..

Portanto, neste ponto, os hieróglifos estavam realmente restritos aos templos. A linguagem que encontramos nos hieróglifos teria sido uma linguagem adequada para fins rituais, para eventos cerimoniais, mas não se prestaria com muita facilidade para explicar eventos políticos ou emitir um decreto como este.

Levando isso em conta, não teria sido nada fácil traduzir o demótico, uma fala do dia a dia naquela época, nessa escrita antiga. Seria como traduzir o português que falamos hoje em nosso quotidiano para o português de Pero Vaz de Caminha. De qualquer forma, os hieróglifos (em grego: escrita sagrada) também era uma forma dos sacerdotes mostrarem o seu status singular, pois, eram os únicos que ainda podiam escrever nesta escrita complicada, mostrando o quanto eles eram especiais, praticamente se colocando como mensageiros dos deuses antigos.

A Pedra da Roseta é importante por ter ajudado a elucidado enigmas, desvendar segredos. É uma chave para um mundo mágico de conhecimento e aventuras. Ela ajudou historiadores a descobrir mais sobre os antigos egípcios e sua história. Sua descoberta trouxe à tona um novo interesse na língua egípcia antiga, o que ajudou a preservar a cultura, costumes, modo de vida e pessoas. Sim, pessoas. Graças a ela sabemos de quem falavam nos murais, quais os seus feitos. Alguns, claro, eram apenas invenções, mas mesmo obras de ficção ou propaganda nos ajudam a entender o passado.

Por milênios, procuraram a Pedra Filosofal, capaz de trazer os segredos alquímicos. A Pedra da Roseta é uma pedra mágica, senão pela magia dos antigos, pela magia do conhecimento.

Um comentário em “A Verdadeira História da Pedra da Roseta

  1. O lance de não haver termos exatos de uma língua pra outra é um dos traços culturais mais interessantes que eu encontrei nos meus estudos de tradução. É como, por exemplo, usar uma palavra no alemão (Schadenfreude) pra explicar a sensação de satisfação que sentimos ao ver alguém se dando mal. Ou a conotação de uma certa palavra do inglês que começa com “N”, que pra nós é só uma palavra mas pra eles é um problema um pouco mais complicado. Ou ainda, tentar instituir uma palavra no latim que se traduza como “avião”.

    Sobre equivalências linguísticas, eu AMO a confusão sintática. Línguas que requerem obrigatoriamente um sujeito, línguas que não abrem mão do uso de pronomes, línguas que se utilizam de termos puramente fáticos nas sentenças, línguas que nem espaço entre as palavras usam… Deus em latim não tem plural, mas deus tem; as línguas românticas usam a estrutura sujeito-verbo-objeto mas o latim era sujeitoobjetoverbo!!!! LINDO!!!! UM CAOS, MAS LINDO!

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