A Verdadeira História da Idade Média

Você pensa que sabe algo sobre a Idade Média. O caos sem sentido, os belos castelos, a imundície, os garbosos cavaleiros, a ignorância exacerbada, as Cruzadas, as iluminuras, as pestes devastadoras, os monastérios, a influência da religião, a Queda de Roma, a ascensão do Islã, o período do retrocesso, a tão-chamada Idade das Trevas. De início posso dizer: você apenas tem fragmentos, mas História não é feita de fragmentos. Fragmentos de informações são como pedras; você pode construir conhecimento com eles, como um castelo é feito de pedras. Mas um amontoado de fragmentos não são a História propriamente dita como um amontoado de pedras não é um castelo.

Entendam, este artigo não pretende te deixar a par de tudo. Meu intento é lhe dar um outro olhar do que aconteceu, mas não necessariamente nas partes mais famosas dos acontecimentos, já que há muita coisa envolvida e outras que são mais uma questão de percepção do que de acontecimentos.

Introdução

Muito bem, comecemos com definições. Vocês sabem, o cara que vive uma determinada época não batiza esta época. Por exemplo, todos os seus ancestrais pré-históricos não batizaram o período que eles viviam de “Pré-História”. Nem mesmo quando se inventou a Escrita passaram a chamar tal período de “História”. Estas denominações são criadas bem posteriormente. Alguns criticam como se isso fosse algum preconceito, mas tal proposição é idiota. Você tem que chamar de algo, não tem?

O problema com as nomenclaturas é achar que determinada faixa de tempo engloba determinadas condições até que PUMBA! Muda para outra época e tudo se transforma abruptamente. Algo como “então, todo mundo vivia na Idade Média, arrancando entranhas de um pato e olhando contra o sol para saber se ia chover, quando vem o Renascimento e do nada todo mundo começou a pintar maravilhosamente bem; começaram avanços científicos e arquitetura ganhou esplendor. Depois passamos para a Idade da Razão, a Igreja parou de tomar conta de tudo e dali para a Idade Contemporânea, com a chegada do Homem à Lua”.

Isso não faz o menor sentido!

Já começa que o que você entende por “Idade Média” é restrito apenas a alguns reinos da Europa. E mesmos nesses reinos em questão, a Idade Média não foi uma coisa só, mas a tendência é pensar que foi um período de praticamente mil anos totalmente estático, estagnado, sem mudanças sociais, econômicas, científicas ou tecnológicas. Eu nem vou falar de Ásia e África. Não, não foi assim.

A Idade Média não foi um longo período homogêneo que se estendeu por todo este tempo, com uma sociedade (europeia) atrasada, estática e ignorante. A Idade Média que você aprendeu no colégio está muito longe do que realmente aconteceu, mas não poderia ser muito diferente, pois é um tema complexo. Medievalistas passam décadas estudando e nunca se chega a um consenso ou mesmo um conhecimento profundo do que aconteceu ou como aconteceu, e isso se dá pelo simples fato de não termos todos os documentos que gostaríamos; e isso veremos mais para frente.

A rigor, podemos ter certeza de uma coisa: não sabemos como podemos marcar realmente o início da Idade Média. Sendo um período totalmente arbitrário, as datas também são arbitrárias; e um segredinho: elas não fazem sentido!

Mas quando começou e quando terminou?

O Início de tudo

Estima-se que a Idade Média está compreendida entre os séculos V e XV. Por quê? Porque sim. A convenção é que ela começa com a Queda do Império Romano do Ocidente e termina com a Tomada de Constantinopla pelos turcos-otomanos. Estas datas ficam entre 476 e 1453 da Era Comum. Com que precisão foi feita esta escolha? Nenhuma. Mandaram essa e aceitaram. Não é algo escrito em pedra, como se tivesse vindo num manual de instruções. Alguns movem o cursor da régua para frente e para trás, escolhendo a data ao seu bel-prazer, mas deixemos isso de lado por enquanto.

A rigor, o ano de 476 foi definido como a data da definitiva Queda de Roma pelo historiador Leonardo Bruni na sua obra Historiarium Florentini Populi (História do Povo Florentino), de 1442, embora inacabada. Bruni, além de historiador, era secretário papal, filósofo, tradutor e chanceler da República de Florença. Foi um dos primeiros filósofos humanistas, sendo também um dos primeiros historiadores da Era Moderna, criador de uma nova forma de tradução, sendo um símbolo de sua época em seu campo de retórica e escrita, na qual a Renascença iria se basear.

Se você prestou atenção na data da obra de Bruni, não foi ali que foi determinado o fim da Idade Média, mas prossigamos.

Bruni escolheu o ano de 476 para o início da Idade Média pois em 4 de setembro deste ano, o então imperador do Ocidente Rômulo Augusto fora deposto por Flávio Odoacro, um ex-soldado que se tornou líder dos hérulos, um povo de origem germânica que já havia dado dor de cabeça ao Império Romano no século III, quando este bando de arruaceiros se juntou aos pecinos, gépidas, carpianos e, claro, os godos. Juntos, eles formaram uma espécie de coalizão bárbara que continha mais de 300.000 soldados, a qual atacou ferozmente as tropas do imperador Cláudio II, entre os anos 268 e 269. Há quem diga que esses números estão meio exagerados, mas pelo sim, pelo não, deram bastante trabalho aos romanos, que tiveram que chamar reforços com urgência.

Rômulo Augusto tinha ridículos 15 anos de idade quando assumiu o trono imperial, substituindo Júlio Nepos, que fora deposto por Flávio Orestes, pai de Rômulo Augusto. Orestes não podia assumir o trono imperial, então colocou o filho no poder já que este era filho de uma cidadã romana. Odoacro depôs Rômulo Augusto, pois, segundo alguns historiadores, Odoacro estava a serviço de Júlio Nepos, tendo Odoacro assumido como Rei da Itália, sem usar o título de Imperador Romano. Por isso, Rômulo Augusto é chamado último imperador romano do Ocidente, que, segundo fontes, teria vivido até o ano 507; e se olharmos o histórico dos imperadores romanos – e como eles na maioria dos casos não tiveram final feliz – até que foram muito legais com Rômulo.

Odoacro fez muitas mudanças administrativas num reinado que se concentrou apenas na Itália mesmo, enquanto o que era o resto do Império Romano do Ocidente se esfacelou em reinos diversos por causa das diversas invasões e tomadas de poder. Com isso, Odoacro, Italia Rex, contava com o apoio do Senado Romano e fracionou extensos lotes de terra e distribuiu-os entre seus apoiadores. Não estavam incluídos os soldados, que se mostraram muito insatisfeitos com isso, mas não deu em grande coisa num primeiro momento, até que Odoacro teve que enfrentar outro pretendente ao trono: Teodorico, O Grande, que havia sido rei dos ostrogodos.

Antes de se tornar rei dos ostrogodos, Teodorico havia vivido em Constantinopla e serviu no exército romano do Oriente. Aprendeu todas as táticas romanas, inseriu um pouco das suas próprias táticas, voltou a viver entre o povo bárbaro e lá se tornou rei. Teodorico foi financiado por Flávio Zenão com a condição de tomar a Itália e governar como regente até que Zenão assumisse como Rei da Itália, o que não aconteceu como esperado. De fato, Teodorico venceu a guerra com Odoacro e se assentou como rei, mas Zenão não assumiu. Teodorico governou de 474 até 526, quando morreu aos 72 anos, tendo sido substituído por Atalarico.

Daí, foi para a pior, mas o ponto que eu gostaria que prestassem atenção foi a cessão de terras para os amiguinhos de Odoacro.

A economia romana era basicamente escravagista. Isso começou a cair por terra quando Roma freou sua expansão. Como não avançava conquistando novas terras, não fazia prisioneiros e não recebia nova leva de escravos, que tinham o péssimo hábito de morrer, quer seja de morte morrida, morte matada ou morte pelas pragas, mesmo. Isso ajudou no colapso econômico, que desde o século III era um problema e os imperadores tentavam resolver na medida que dava.

Esta cessão de terras iria evoluir para um sistema que você com certeza ouviu falar. Um sistema que o rei não tinha controle, preferindo terceirizar o uso das terras para nobres e senhores de posses. Estes ricaços loteavam suas terras e arrendavam, o que Roma já fazia, mas dessa forma era mais controlada. Nascia aí o Feudalismo, uma das características marcantes da Alta Idade Média.

Desde sempre, acadêmicos têm o hábito de separar momentos históricos em épocas, eras, idades, períodos ou coisas similares. Inicialmente, a História foi dividida em 6 períodos distintos, só que de uma forma canhestra. Só mais tarde ela seria dividida em Antiguidade, a Alta Idade Média e a Baixa Idade Média. A Alta Idade Média é a que se convencionou chamar de Idade das Trevas, mas isso fica para a próxima seção.

A Idade das Trevas

O Início da Idade Média é o tema mais conhecido e debatido; talvez por ser encarado como algo entregue à barbárie, mas esta concepção é apenas uma idiossincrasia (ou preconceito, mesmo) de alguns filósofos. Trata-se, sim, de um ponto de transição entre épocas; mas, como eu falei anteriormente, a pessoa que vive a época não tem consciência disso e sequer batiza o momento em que vive. Ela apenas… vive, ainda mais numa época que a vida se resumia em levantar muito cedo, trabalhar muito, deitar-se à noite, dormir, talvez sonhar, acordar no dia seguinte e começar tudo de novo, exceto aos domingos, o Dia do Senhor, em que dedicará o dia para o louvor e agradecer a vida sofrida que estava vivendo, já que era a única vida que se conhecia, mas com esperança de encontrar o Reino dos Céus depois que morrer.

Apesar de Leonardo Bruni ter fixado o início da Idade Média no ano 476 – por motivos anteriormente explicados – pode-se dizer que o começo, mesmo, se deu quando Roma já não era mais o que era e começou o que os romanos chamaram de Invasiones Barbaricae, ou “Invasões Bárbaras”, sendo que “bárbaro” não tinha o significado legal que você possa pensar. O conceito de “bárbaro” foi pego dos gregos, que chamavam βάρβαρος todos os povos não-civilizados, isto é, que não fossem gregos. Eles até tinham uma expressão para isso: πας μη Ελλην βαρβαρος (aqueles que não são gregos são bárbaros). Romanos pegaram emprestado este termo dos gregos porque o pessoal do rio Tibre tinha a cultura grega como exemplo de sociedade civilizada, mal sabendo o que os gregos pensavam uns dos outros.

Os povos germânicos chamaram este acontecimento de Volkerwanderung, cuja melhor tradução seria “Migração dos Povos”, e até hoje não se chegou a um consenso do porquê isso aconteceu. A ideia é que os povos germânicos se cansaram do clima inclemente e preferiram pastagens mais verdes (isso serve no figurativo e no real). Por sinal, os germânicos foram os que mais deram trabalho a Roma em toda sua história, e, pelo visto, saíram vencedores, e isso começou quando os assim chamados “bárbaros” penetraram as fronteiras romanas em grande número, passando a viver em lugares como a Gália Romana, a Germânia e até a própria Península Italiana. Por mais que fossem expulsos, eles voltavam, e voltavam em maior número, sempre em maior número, e com mais ferocidade. Eles queriam aquele quintalzão romano e nada iria impedi-los!

Roma era um exemplo de população culta e civilizada (ou quase), e os filósofos humanistas aos fins da Idade Média e início da Idade Moderna os tinham (assim como os gregos) como um exemplo a ser seguido, apesar da realidade não ser bem essa e a tida “cultura e civilidade” romana não ser bem isso nem na própria Roma, capital do império. Não importa, era um modelo e um modelo é para ser seguido e tomado como exemplo.

Autores humanistas como Leonardo Bruni se sentiam muito conectados à literatura clássica e, principalmente, à cultura greco-romana, sendo essa um modelo a ser tomado como padrão por povos que queriam se denominar civilizados, além de servir de inspiração para todos os homens cultos daquela época. Instigados por este caráter revivalista – nostálgico até – autores humanistas buscavam resgatar as obras clássicas da cultura grega e romana de autores como Platão, Aristóteles, Demóstenes, Cícero, Tácito, Sêneca entre outros. E para falar a verdade, eles tiveram esta chance porque os sábios islâmicos salvaram o máximo que puderam dos escritos gregos e romanos, porque se tivessem dependido dos cristões, tudo teria virado cinzas, mas ainda é cedo para falar sobre isso. É preciso entender o Humanismo primeiro.

O Humanismo era uma linha filosófica que venerava o Homem como centro de tudo. Este movimento capitaneou a passagem entre a Idade Média e a Idade Moderna, o que ia acarretar o Renascimento. Sua base eram os ideais filosóficos, morais e estéticos que só os seres humanos seriam capazes de apreciar; sendo que a Religião, segundo o Humanismo, não deveria ser o ponto fulcral de tudo, e sim o campo secular, o qual deveria sobrepujar o campo temporal, e o Teocentrismo deveria abrir passagem para o Antropocentrismo. Deus não seria mais o centro de tudo; o Homem, sim.

O Humanismo buscava a beleza e a perfeição, a simetria, a ordem; mas, mais do que isso, levava como base a retomada do modelo clássico das culturas da Antiguidade, e o próprio conceito de “Antiguidade” é um conceito humanista. Com isso em mente, não é de se admirar que o início da Idade Média fosse localizado no tempo exatamente com a queda definitiva do Império Romano do Ocidente.

Petrarca, Bruni e outros autores humanistas apontaram duro em como o colapso do domínio romano também levou a um colapso civilizacional, já que criou numa instabilidade social tremenda. O Cristianismo passara a ser a religião oficial do Império Romano, e nos anos que se seguiram multidões errantes dos novos fanáticos religiosos que seguiam Jesus, o Cordeiro de Deus e Príncipe da Paz, começaram a se multiplicar. Agiam como maníacos psicóticos, destruindo tudo pela frente, não importando o que fosse, pois se não era cristão, era demoníaco.

Os cristãos destruíram templos romanos de séculos, e os que não destruíram, transformaram em igrejas. O Paganismo Romano foi considerado fora da lei e os líderes religiosos saíram arrasando todas as obras que eles consideravam demoníacas, feitas por autores romanos que acreditavam nos antigos deuses romanos e gregos. Templos, construções e a Biblioteca de Alexandria caiu sob o julgo dos cristãos. Os governantes tinham muito trabalho em conter as invasões bárbaras, revoltas sociais, guerras civis, ataques de novos usurpadores, os séculos IV e V estavam um pandemônio. A cultura greco-romana estava sendo apagada dos livros, e a História, enquanto área de estudo, não era o que possamos chamar de algo feito com esmero. Ou, ao menos, não por todo mundo. Peguemos o caso de Agostinho de Hipona (354 – 430), também chamado “Santo Agostinho”. Ele dividiu a História da Humanidade em 6 épocas distintas. Seriam elas:

  • A primeira época: O início da raça humana (Adão e Eva, para os cristãos).
  • A segunda época: Do período de Adão e Eva até Abraão.
  • A terceira época: De Abraão até o rei Davi.
  • A quarta época: De David até o cativeiro dos judeus na Babilônia.
  • A quinta época: Depois do cativeiro na Babilônia até o advento de Jesus.
  • A sexta época: Depois da chegada de Jesus até a época em que Agostinho estava vivendo.

Vocês perceberam que tem algo de muito errado: a história era basicamente uma divisão do que aconteceu na Bíblia, sem real preocupação de coleta de informações ou exame de documentos. A Bíblia era o único documento válido e ponto final! Por isso, eu disse mais acima que ela foi uma divisão canhestra. Não era baseada em dados documentados e sim por pura fé devocional.

Os autores humanistas torciam o nariz para isso e propuseram mudanças em como encarar datas e fatos históricos. Como a ideia principal do Humanismo era se desvencilhar da Igreja e sua influência no campo secular, trataram de rever essa “divisão” da História, sendo um dos mais renomados filósofos humanistas de sua época um intelectual, poeta, escritor, filólogo ensaísta, historiador, diplomata, político, pensador e, encurtando, um dos homens mais cultos de um grupo de homens cultos em seu círculo: o filósofo humanista italiano Francisco Petrarca, nascido em 20 de julho de 1304 e falecido em 19 de julho de 1374.

Francisco Petrarca não ficou nada satisfeito da forma que Agostinho tinha dividido a História. Sendo assim, ele fez a sua própria divisão. Como todos os humanistas, ele era extremamente interessado pela cultura romana, a ponto de fazer inúmeras viagens para descobrir novos textos que não eram conhecidos em sua época, no que logrou êxito, por sinal. As pesquisas de Petrarca o levaram a uma inédita coleção de cartas de Marco Túlio Cícero, entre outros manuscritos latinos antigos, redescobrindo documentos romanos e gregos que nem se tinha ideia que existiam. Petrarca esteve envolvido até mesmo na primeira tradução latina das obras de Homero!

Com isso, Petrarca fez a divisão da História da maneira que ele percebia ser a verdadeira divisão loquaz, elegante e precisa. Ele a dividiu em Antiqua (o período Antes de Cristo) e Nova (o período Depois de Cristo), com o período da Idade Média sendo desdenhada por Petrarca, que a chamou de Idade das Trevas, pela queda total na cultura, arte e conhecimento. Já a supracitada Historiarium Florentini Populi, de Bruni, melhora esta definição separando a Idade Nova em duas, com o primeiro período começando em 476 e terminando no ano 1000, com o terceiro período começando no ano 1001.

O termo “Idade Média” ainda não existia, sendo o termo mais próximo a isso “Media Tempestas” (ou “Tempos Médios”) – expressão surgida em 1469 – e em 1604 este período ficou conhecido como Medium Aevum (Meia Idade) – registrado em 1604 – ou Media Scecula (Século Médio) – surgido em 1625. A divisão tripartida iria se tornar padrão após a publicação da obra Historia Universalis (História Universal), de 1702, do historiador alemão Christoph Cellarius, um erudito que promoveu a linguística latina, tendo também sólidos trabalhos nas áreas de Geografia, Arqueologia e, claro, História. Por meio de seu trabalho, tornou-se canônica a divisão da ciência histórica em História Antiga, Medieval e Moderna.

Antes da Historia Tripartita de Cellarius, a sucessão de impérios era o princípio organizador comum, com variações mais ou menos importantes. Você não sabia o ano exato, apenas em qual dinastia estava e era uma dor de cabeça saber quando realmente era, pois tinha que cruzar várias informações de diferentes lugares para se estabelecer uma data segura. Dessa forma, a História, enquanto estudo científico, foi estruturada e compreendida melhor, podendo situar os eventos de modo preciso.

Quando terminou tudo?

Pois, é. Boa pergunta. Temos muito boas respostas e normalmente elas não entram em acordo. A pergunta: Quando acabou o Período Medieval não tem uma resposta. O que podemos fazer é analisar algumas ideias do que acadêmicos têm pensado a respeito. Qual a data precisa, não é algo que se possa dar. Como falei antes, é tudo na base do “é assim porque é assim”. Não existe receita de bolo para tal coisa.

Quando os historiadores procuram o fim da era medieval, eles estão realmente procurando por sinais de modernidade. Eles não querem apontar quando terminou a Idade Média; querem, de fato, encontrar o início da Idade Moderna. Alguns textos apontam uma ladainha engessada na linha “A Idade Moderna é caracterizada por grandes mudanças e transformações na mentalidade ocidental de ordem econômica, social, científica e religiosa, as quais fundamentaram o advindo o sistema capitalista”. Sabem o que isso significa? Nada.

Mudança na ordem social, política, econômica científica e religiosa? Ora, isso aconteceu em cada período da História (as “Idades”). Claro, tem que mencionar o Capitalismo, como se ele não existisse desde que o mundo é mundo. Capitalismo não começou com “ei, sabe o que seria legal? Se começássemos a ganhar MUITO dinheiro”. Ou começou, como provam as rotas de Comércio pela Rota de Hórus, que servia de passagem de mercadorias e era extremamente bem policiada pelo pessoal do Nilo. A Rota da Seda, vindo desde a China até Roma, também.

O que poderia ser uma quebra séria de paradigma histórico? Quase a unanimidade aponta um evento que ocorreu em 29 de maio de 1453, quando Mehmet II, Sultão do Estado Otomano, tomou Constantinopla, capital do Império Bizantino e que hoje é a cidade de Istambul, na Turquia. Ele ainda colocou de joelhos a cidade bizantina de Anatólia e os Bálcãs, mas Constantinopla foi seu real prêmio, pois era a sede de governo do Império. Com isso, Mehmet II reivindicou o título de César do Império Romano. Ao conquistar vários outros locais, ele cimenta o que ficou conhecido como Império Turco-Otomano.

Apesar de muitos hoje verem os árabes como que caídos na sua própria Idade das treva, com atraso social, científico, os tempos de Mehmet II eram diferentes, ainda mais porque ele estava no comando. Mehmet pregava uma tolerância excepcional para com outras pessoas de outras religiões e tratava seus súbditos com respeito, mesmo os bizantinos subjugados por ele. A religião era livre, mas, claro, você ganhava incentivos para se tornar muçulmano.

Mehmet II ainda estabeleceu, dentro da cidade, uma comunidade religiosa autônoma, nomeando o antigo Patriarca como governador da cidade de Constantinopla, além de fundar diversas universidades e escolas na cidade. Ele não queria problemas com a população. Só queria controlar tudo. Ficassem de boas com ele, ele ficava de boas com todo mundo. E assim o Império Turco-Otomano prosperou, ganhando terras pelo Oriente Médio, passando pela palestina, norte da África e até Portugal e Espanha.

E foi aí que começou a Idade Moderna no Oriente. Mas e na Europa Ocidental?

A Europa estava acordando da Idade Média, mas ela só começou a passar para a Idade Moderna por causa justamente dos Árabes, que resgataram escritos perdidos de gregos e romanos, traduziram para o árabe e os estudaram. Parte destes textos foram parar nas mãos dos europeus, que traduziram do árabe para o latim e para o vulgar de cada reino, principado, ducado etc. Os árabes começaram a Idade Moderna.

Pela primeira vez, estudiosos, acadêmicos e homens de letras estavam percebendo que estavam numa nova era. O conhecimento estava dando lugar ao controle da Igreja, mas a verdade é um pouco mais complexa. A Igreja ainda detinha este conhecimento, e o motivo era simples: o índice de analfabetismo era maior do que 90%. Os que sabiam ler eram muito, muito poucos, e normalmente, os livros eram impressos em latim, idioma que quase totalidade da população não dominava.

A prensa de tipos móveis havia sido inventada por Johannes Gutenberg na década de 1430, mas inicialmente eram Bíblias e itens de interesse da Igreja Católica, como indulgências, as quais eram vendidas para garantir um lugarzinho no Céu. Ou seja, se valia da extrema corrupção da Igreja e isso levou um certo sujeito a romper com isso. Em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero (segundo se conta, mas alguns divergem) pregou as suas 95 teses na porta da igreja do castelo em Wittenberg, começando a Reforma Protestante. Um dos principais trabalhos de Lutero foi a tradução da Bíblia do latim para o vulgar de seu país (isto é, traduziu para o Alemão), fazendo com que mais pessoas tivessem acesso.

O protesto de Lutero, por assim dizer, contra as práticas da Igreja Católica levou à fragmentação da cristandade ocidental, o eu acarretou em profundas mudanças na Europa, entre elas diversas guerras, como a Guerra dos 30 Anos. Foi por causa dessa ruptura religiosa, com o auxílio da prensa e a vontade de pensar independentemente, que nomes como Copérnico, Kepler e Galileu começaram a revolução científica.

Os ideais de beleza e simetria humana viraram a chave de tudo. Leonardo da Vinci, Michelangelo entre outros começaram a ver o Homem como centro de tudo e ápice da beleza novamente, resgatando os ideais de beleza grega em suas esculturas, quadros etc. Da Vinci estudou corpos para poder desenhá-los melhor, o que levou à criação de atlas anatômicos, o que impactou a medicina.

O movimento intelectual e cultural conhecido como Renascimento talvez tenha constituído outro divisor de águas. Os filósofos humanistas como Petrarca e Bruni escreveram sobre o que estavam vivenciando em suas épocas, comparando com as glórias de um império que há muito não mais existia, exceto em sonhos e aspirações, mas que estaria tudo voltando ao que era antes, nos bons tempos de antigamente.

Os monarcas renascentistas introduziram novos estilos de reinado e houve um notável florescimento da arte, arquitetura e música. A ciência convivia com os trabalhos de Al-Khawarizmi, Al-Farabi, Ibn Sina, al-Razi, Ibn Rushd, Al-Tusi e Ibn al-Haytham. Da Óptica à Matemática, à Astronomia, à Arquitetura, à Química e à Mecânica, os desenvolvimentos no mundo muçulmano seguiram histórias distintas, mas elas acabaram influenciando toda a Europa.

Conclusão

Foi literalmente o fim de uma era. A Europa acordara, mas o mundo islâmico já estava de pé há muito tempo. Foi o fim da Idade Média como achamos que conhecemos e como realmente foi. A partir dali, outras mudanças ocorreriam, embora elas sempre estivessem acontecendo, e nós só temos o panorama geral, juntando tudo num único balaio, como se fosse algo automático, instantâneo, súbito. Não foi. Foi algo lento e gradual, por isso demorou 1000 anos. É muito, muito tempo, mesmo para contextos históricos, porque devemos levar em conta que houve pequenas transformações que não percebemos. Estudamos tudo de uma perspectiva dando a entender que forma poucos meses, mas pensem o que significa mil anos.

Um exemplo: Se eu dissesse a alguém na década de 80 que teríamos acesso a todo o conhecimento disponível num aparelho do tamanho de uma carteira, com a espessura de uma caneta, podendo falar com todos os lugares do mundo, mandando mensagens de áudio e vídeo, certamente ririam dizendo ser coisa de ficção científica. Foram menos de 30 anos até o completo uso de smartphones.

Sim, acabou-se esta era e começou outra. Uma que não demorou mil anos, nem as seguintes. As revoluções e mudanças estão rápidas graças à velocidade de transmissão de informações. Como seremos vistos pelas pessoas daqui a mil anos? Não temos como saber. Talvez também sejamos vistos como bárbaros, incultos, ignorantes, sujos e incivilizados.

Talvez façam filmes ou qualquer outro tipo de produção romantizando, ainda que de forma inacurada, os nossos dias de hoje, nosso dia a dia, nossos movimentos políticos, as guerras e desenvolvimento. Não temos como saber. Talvez nos vejam com melhores olhos por estarmos produzindo conhecimento e informação que possam servir como registros, mas eles também podem sumir.

Então, parafraseando Aristóteles, devemos viver o Hoje, mas sem confiar no Amanhã, sem esquecer que em algum momento seremos o Ontem.