A Guerra das Invenções Idiotas

A Segunda Guerra Mundial foi, entre outras atrocidades, o maior laboratório de gambiarra da História Humana. Sim, ela nos deu o radar, o motor a jato, o míssil balístico e a bomba atômica; mas também nos deu um urso sargento, um submarino afundado por descarga sanitária e uma proposta de incendiar Tóquio com morcegos colados. A humanidade, quando colocada sob pressão extrema, não apenas sobrevive: ela delira com produtividade assustadora. O que se segue é um catálogo honesto desse delírio.


O Tanque com Chaleira

Os britânicos tinham um problema sério no Norte da África. Os tripulantes de tanques viviam parando as viaturas no meio do campo de batalha, abrindo a escotilha e saindo para fazer chá, o que fazia a felicidade das unidades SS Panzer. A piadinha corrente é que o manual da Wehrmacht tinha uma seção específica sobre isso: “espere o inglês parar para o chá”. Na Batalha de Villers-Bocage (Normandia, 13 de junho de 1944), uma coluna britânica parou para manutenção e, claro, o chá; nisso, o Hauptsturmführer Michael Wittmann (até então esperando a oportunidade) atacou e destruiu vários tanques em minutos.

Por causa de coisas assim, o alto-comando britânico teve a mais sábia das epifanias: se você não pode vencê-los, equipe-os. Desde 1945, todo tanque britânico é obrigado por regulamento a carregar uma chaleira elétrica. O Challenger 2, o mais moderno blindado do Exército de Sua Majestade, é tecnicamente um bule de guerra sobre esteiras.


O Mastodonte Francês

A França resolveu seus problemas de segurança nacional com a filosofia oposta: e se o tanque fosse simplesmente gigantesco? Ninguém pediu isso, como você pode imaginara, e o comandante das forças blindadas certamente não pediu; entretanto, o Subsecretário de Artilharia, um senhor cujo nome completo era Leon-Augustin-Jean-Marie-Mouret – e isso já era intimidador o suficiente – tanque, decidiu em 1916 que a França precisava de um colosso. Depois que os britânicos apresentaram seu tanque pesado em setembro daquele ano, o projeto ganhou combustível político irresistível. O resultado foi o Char 2C: dez unidades, mais de setenta toneladas cada, devidamente classificado como “navio de guerra terrestre”; tendo ficado pronto em 1919, depois do armistício. A Primeira Guerra havia terminado, mas a França ainda estava com raiva e construiu os tanques assim mesmo.

Guardados por vinte anos como vinhos de safra, quando a Segunda Guerra chegou pareceu finalmente a hora deles. Só que a guerra havia mudado: rápida, móvel, sem trincheiras. O Char 2C fora projetado para cruzar trincheiras que não existiam mais. Era um elefante em torneio de xadrez. Cada unidade tinha nome de uma região francesa, e ninguém queria ser o general que explicasse à nação que a Aquitânia levara dez minutos para ser destruída. Então os usaram apenas em missões de propaganda, até que a própria França os destruiu para não dar ao Reich o prazer da captura. Fim melancólico, mas talvez o único elegante disponível.


O Grande Panjandrum

Os britânicos também precisavam romper o Muro do Atlântico, a linha de defesas costeiras alemãs que transformaria qualquer desembarque em carnificina. O Departamento de Desenvolvimento de Armas Diversas, que já pelo nome sugere que não havia hierarquia de prioridades muito clara, concebeu a solução: o Grande Panjandrum (que alguns piadistas chamaram Roda da Má Fortuna). Dois rodões de madeira de três metros de diâmetro, conectados por um tambor central cheio de explosivos, com foguetes de cordite presos à beira das rodas para propulsão. A ideia era lançar o artefato de uma embarcação de desembarque, cruzar a praia em alta velocidade e explodir contra as defesas de concreto alemãs.

O teste inicial, em setembro de 1943, foi realizado secretamente numa praia de resort em Devon, naturalmente lotada de banhistas curiosos que ficaram assistindo com entusiasmo turístico. Os foguetes acenderam de forma irregular, a coisa rodou sem direção definida, os foguetes começaram a se desprender e partir em trajetórias independentes pelos quatro cantos da praia, e o Panjandrum desintegrou-se num espetáculo pirotécnico involuntário. Adicionaram mais foguetes. No teste definitivo de janeiro de 1944, com generais, fotógrafos e cinegrafistas presentes para registrar o sucesso, o aparelho partiu em linha reta por um breve momento, depois rodou sobre si mesmo, passou por cima do cachorro de um oficial e quase atropelou o cinegrafista. Os generais correram para se proteger atrás de dunas. Projeto encerrado. O Dia D aconteceu de outra forma.


Os Ratos Explosivos

A inteligência britânica, não satisfeita com o Panjandrum, resolveu explorar o reino animal por uma outra via. O Special Operations Executive (que mais tarde seria chamado de Serviço Secreto de Informações, ou MI6) adquiriu cerca de cem ratos, abriu seus corpos, recheou-os com explosivo plástico e costurou tudo de volta. A ideia era colocar esses ratos mortos nas pilhas de carvão perto das caldeiras alemãs: quando algum funcionário encontrasse o rato e o jogasse na fornalha por reflexo de limpeza, a explosão destruiria a instalação.

O plano tinha uma lógica irretocável, o que torna mais triste o que aconteceu a seguir. O primeiro carregamento de ratos explosivos foi interceptado pelos alemães antes de chegar ao destino, só que não enganou ninguém. Furioso e intrigado, o comando alemão exibiu os ratos em suas principais escolas militares como estudo de caso, e ordenou buscas sistemáticas por ratos-bomba em todas as instalações. O plano nunca foi executado em combate. Mas os alemães passaram meses procurando ratos suspeitos em caldeiras por toda a Europa ocupada, o que o SOE considerou, com alguma razão, um sucesso indireto razoável.


Os Cães-Bomba Soviéticos

Os soviéticos, sempre pragmáticos à sua maneira peculiar, resolveram o problema dos tanques alemães com cachorros. O raciocínio era sólido em teoria: treinar os animais para correr sob as viaturas inimigas, puxar uma corda com os dentes para soltar uma bomba e retornar sãos e salvos. Não funcionou: os cães ficavam confusos e voltavam com a bomba ainda presa, o que teria eliminado operador e animal simultaneamente em situação real. Ajuste no protocolo: um detonador por pressão ativado quando o cão passasse sob o tanque. Funcionou nos testes. No campo de batalha, porém, havia um detalhe que os planejadores não haviam considerado com a devida atenção.

Os tanques alemães eram movidos a gasolina. Os tanques soviéticos, a diesel. Os cães haviam sido treinados com tanques soviéticos. Diante das Panzer (cheiro errado, muito barulho, tiros por toda parte), os animais ignoravam o inimigo, viravam meia-volta e corriam de volta às linhas soviéticas em busca do cheiro familiar, detonando os próprios tanques e os próprios soldados. Quem reclamava formalmente era investigado pelo KGB. O programa, segundo registros oficiais russos, foi encerrado em 1996. Não 1946. 1996.


O Cabo Wojtek

A Polônia, país que deixou de existir no mapa durante boa parte do conflito mas manteve seu exército funcionando com admirável teimosia, contribuiu para a guerra com o mais inusitado oficial das forças aliadas: um urso sírio-pardo de quatrocentos quilos chamado Wojtek, promovido a cabo com caderneta de pagamento própria. A história começa quando um soldado polonês trocou o urso filhote por uma barra de chocolate com uma criança iraniana, transação que ambas as partes consideraram justa. Wojtek cresceu no acampamento, aprendeu a carregar caixas de munição de artilharia nas patas dianteiras, intimidava os adversários comendo cigarros inteiros, apreciava cerveja, adorava andar nos caminhões de suprimento e era invencível no braço de ferro. Péssimo atirador, por razões anatômicas.

A reação dos aliados ocidentais ao ver a Polônia, nação literalmente apagada do mapa, surgir no fronte com um urso pardo uniformizado carregando obuses é o tipo de coisa que poucos documentos históricos registram com a honestidade devida. Depois da guerra, Wojtek foi para o Zoológico de Edimburgo, onde recebia visitas regulares dos antigos companheiros de batalha, que o alimentavam com cigarros. Morreu em 1963. Há uma estátua dele em Edimburgo. Não há estátua de muitos generais que merecem menos.


Os Pombos Guiados de Skinner

B.F. Skinner foi o maior psicólogo comportamental do século XX, autor de teorias que moldaram a psicologia moderna e pai do condicionamento operante. Em 1943, ele queria usar pombos para guiar mísseis. A lógica era tecnicamente impecável: os sistemas de direcionamento eletrônico da época eram primitivos e imprecisos. Skinner havia passado anos treinando pombos para bicar alvos com precisão perturbadora em troca de comida. Por que não instalá-los na ogiva de um míssil planador, dentro de compartimentos individuais, com telas projetando a imagem do alvo? Cada pombo bicaria a imagem conforme o míssil se aproximasse do alvo. Três pombos simultaneamente bicando o mesmo ponto moveriam as aletas de direção por um sistema pneumático. O míssil chegaria ao destino guiado por três aves dedicadas que, é necessário mencionar, não teriam possibilidade de sobreviver ao impacto. Skinner recebeu vinte e cinco mil dólares para desenvolver o projeto.

Os testes funcionaram. Os pombos bicavam com consistência e precisão mesmo em simulações de queda em alta velocidade. O comitê militar assistiu às demonstrações, ficou genuinamente impressionado e arquivou o projeto assim mesmo, porque havia uma coisa chamada radar em desenvolvimento, e convencer um general de que o melhor sistema de direção disponível são três pombos colados numa bomba é uma batalha que nem Skinner estava equipado para vencer.


O U-1206: Afundado por uma Descarga Sanitária

Os Unterseeboots alemães, que os anglófonos insistiram em abreviar para “U-boats” desperdiçando sílabas de enorme valor fonético, tinham uma limitação operacional curiosa: para usar o banheiro, era necessário emergir. A pressão nas profundezas impedia o acionamento das válvulas convencionais, expondo o submarino a cada necessidade fisiológica da tripulação. O U-1206, lançado em 1944, foi equipado com o revolucionário sistema de descarga submersa, uma sequência de oito etapas envolvendo válvulas, câmaras pressurizadas e ar comprimido, cujo processo de operação correto exigia atenção comparável a uma decolagem de aeronave. Para garantir que ninguém errasse os passos, cada U-1206 transportava um especialista em descarga sanitária, cuja função exclusiva era operar o vaso sanitário.

Em 14 de abril de 1945, alguém a bordo decidiu que era homem suficiente para dispensar o especialista. Minutos depois, o comandante recebeu o relatório: a operação independente havia inundado o compartimento com água do mar pressurizada, que escorreu pelas baterias localizadas diretamente abaixo do banheiro. O contato da água salgada com o ácido das baterias liberou cloro. O interior do submarino estava se tornando uma câmara de gás. O comandante emergiu, a tripulação foi resgatada, os britânicos bombardearam o submarino à superfície. A Alemanha perdeu uma embarcação de última geração por uma descarga mal executada. É a derrota mais constrangedora da história naval.


O Raio da Morte Japonês

O Japão, que precisava urgentemente de um milagre tecnológico diante da iminente invasão americana, buscou inspiração na Antiguidade. Arquimedes, segundo a tradição, usou espelhos para concentrar a luz solar e incendiar a frota romana antes que chegasse a Siracusa. Modernizando o conceito: e se, em vez de luz solar, fossem usadas micro-ondas? Direcionadas aos navios americanos, cozinhariam as tripulações de dentro para fora. Lançadas contra aviões, eliminariam qualquer aeronave antes do ataque. O projeto Kugo foi desenvolvido com seriedade científica. Um coelho foi colocado a trinta metros da antena emissora. Em dez minutos, o coelho estava morto. Sucesso. Exceto que dez minutos de emissão contínua para matar um coelho completamente parado não é exatamente o desempenho que aniquila frotas navais. Conseguiram parar o motor de um carro uma única vez, mas apenas com o capô aberto.

As micro-ondas, sendo tão pequenas quanto o nome sugere, atravessam o aço com a mesma facilidade com que uma petição atravessa a burocracia. Para completar a ironia, os cientistas conheciam o trabalho de Nikola Tesla sobre transmissão de energia, mas aparentemente não leram a parte em que Tesla explicava que toda a energia elétrica de Nova York, convertida em raios e projetada por 30 km, não seria suficiente para matar um ser humano. Construíram um forno de micro-ondas muito grande e muito ineficiente e chamaram de arma.


O Silbervogel: O Bombardeiro Quicante

A Alemanha, que precisava urgentemente de algo para bombardear os Estados Unidos sem atravessar o Atlântico num Heinkel à deriva, encomendou o projeto Amerika Bomber. Entre as propostas recebidas estava o Silbervogel, do engenheiro Eugen Sänger. O avião seria lançado por um trenó propelido a foguete num trilho de 3 km, acelerado até 1.900 km/h antes mesmo de decolar, depois voaria impulsionado por seus próprios motores a foguete até 145 km de altitude e a 22.000 km/h.

Ao reentrar na atmosfera, a forma achatada da fuselagem geraria sustentação aerodinâmica, fazendo o avião “quicar” na camada mais densa do ar como uma pedra na superfície d’água, percorrendo a distância em uma série de saltos decrescentes. Soltaria uma bomba de quatro toneladas (possivelmente radiológica) sobre algum ponto dos Estados Unidos e pousaria numa base japonesa no Pacífico. O projeto foi classificado como tecnicamente interessante e operacionalmente impossível por qualquer critério de 1944. A velocidade de reentrada transformaria a fuselagem em plasma antes que chegasse ao segundo quique. O material necessário para o calor não existia. O trilho de lançamento seria bombardeado antes da decolagem. O piloto não sobreviveria às forças envolvidas. Mas era uma ideia linda.


O que une todos esses projetos não é apenas o absurdo, que é generoso e farto. É algo mais interessante: a guerra como acelerador da inventividade humana em sua forma mais pura e menos responsável. Em tempo de paz, um pombo-míssil seria arquivado na primeira reunião de comitê. Em 1942, chegou à mesa de Churchill e de Roosevelt e foi aprovado. A pressão extrema não torna as pessoas mais inteligentes; torna-as mais dispostas a tentar qualquer coisa, inclusive as ideias que jamais sobreviveriam ao escrutínio da sobriedade.

A Segunda Guerra foi ganha com radares, criptografia e logística industrial. Mas seria um desperdício histórico esquecer que, enquanto as grandes mentes trabalhavam nas grandes soluções, havia um urso recrutado para o exército polonês, um psicólogo em Minnesota treinando pombos para guiar bombas, e uma caldeira britânica esperando o momento certo para ferver. A humanidade é, no fundo, muito mais criativa do que merece ser.

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.