O que é Mumificação?

Uma questão de saudade

Neste longo artigo especial (mas muito amado), vimos como as diferentes religiões enfrentam a Eternidade. Como os seres humanos entendem sua posição no Universo e se revoltam com sua perene existência, não aceitando os poucos anos de vida. A consequência foi termos desenvolvido técnicas cirúrgicas, medicina preventiva, estudo das substâncias químicas, processos físicos e biológicos. Aprendemos muito, e isso por uma simples questão de arrogância de querer mais tempo, seja vivo, seja no Além.

Passamos há muito o tempo de múmias de nossos entes queridos. Cremamos e guardamos as cinzas. Sepultamos e damo-lhes lindos jazigos, ou mesmo uma lápide com epitáfio bem escrito. Mas a verdade é que quando fazemos isso, pensamos “um dia chegará a minha vez. Eu quero mais tempo!”

Nós temos muitos problemas com perdas. Queremos nossos entes queridos conosco por muito, muito tempo e é por causa disso que as pessoas são contra eutanásia. Normalmente, quem é contra não está bem pensando no doente e sim se recusar a aceitar a perda, preferindo um “vegetal”, ali na cama. Daí termos embalsamadores, mesmo a pessoa sendo enterrada. A imagem – horrível, admito – de um corpo se putrefazendo e associá-lo com alguém querido mexe com nossa psique. A exploração desse sentimento vem de forma a conservar heróis e mártires, mesmo quando eles não foram nada disso. Por isso a preservação de papas e de Lênin. Pessoas que não se pode aceitar que eram gente como a gente, simples mortais que servirão de comida para uma imensa cepa de todos os seres vivos possíveis, seguindo o ritmo inexorável da Vida.

Talvez você tenha rido com a imagem de abertura: a múmia de um gato, cujo desenho nas ataduras lembra algum personagem da Hanna-Barbera. Mas faraós também amavam seus animais, e isso não mudou. Muitas pessoas mandam mumificar seus bichinhos de estimação, outros mandam fazer estátuas com o animal dentro, fazendo o mesmo que o Mestre Liuquan.

Talvez seja arrogância minha achar que todo mundo tenha que encarar múmias como apenas corpos conservados. Todos nós tivemos nossas perdas. O problema é a exploração desse sentimento e o sentimento de estar conectado a algo maior que nós mesmos. Talvez, a crença seja a única coisa que resta a algumas pessoas, e tirar isso seja algo criminoso, pois o que daríamos em troca? Vejo então os corpos incorruptos como a corrupção moral de uma sociedade que ao invés de agir para melhorar a vida de algumas pessoas prefere dar uma migalha de esperança para que essas pessoas tenham seus problemas resolvidos em outra vida, por alguma entidade mágica.

Entender todos os processos de mumificação não resolve o dilema das pessoas, só nos mostra a quantidade de gente imoral que se vale disso para manipulações do sentimento alheio.

Então, as múmias nos contam muitas histórias, mas a maioria delas é a respeito dos vivos, não dos que já morreram. Só temos que sentar e ouvir essas histórias.


Para saber mais:

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