As múmias do Império Inca
Os incas formaram a mais importante civilização andina e o maior império pré-colombiano. Sua capital era Cusco, no atual Peru, e este império durou de meados do século XIII até o ano de 1573 E.C., quando finalmente caiu de vez, sendo limados da história, já que os espanhóis não brincavam em serviço. Os incas são a civilização americana mais famosa, junto com os maias, apesar de eles não terem sido vizinhos. Por falar em vizinhos, todo mundo odiava os incas, que como todo bom império subjugou as tribos circundantes, cobravam impostos e exigiam sacrifícios; não que não sacrificassem um prisioneiro ou outro, ou mesmo cidadãos de seus vilarejos. Deu mole, os sacerdotes passavam o rodo. Quem oficialmente derrotou o Império Inca não foi Cortez. Cortez fez amizade com as outras tribos e, juntos, enfrentaram os Incas, antes do National Kid ser moda.
Os incas tinham rituais fúnebres. Aprendemos bastante com a descoberta do cemitério de Puruchuco, localizado na região de Tupac Amaru no Peru. Em 1999, arqueólogos descobriram uma imensa área que ia ser destruída para construção civil. Cerca de 2000 corpos, entre homens, mulheres e crianças, foram resgatados e muitas informações foram obtidas de lá; em especial sobre como os Incas tratavam seus entes queridos que passavam desta pra melhor.
Essa coisa aí do lado, embrulhado pra presente, é um morto. Normalmente, as pessoas eram tratadas com ervas aromáticas, e colocadas numa espécie de casulo com diversas camadas de linho, junto com milho, tigelas, pertences e vestimentas próprias, como um cocar de penas. Alguns desses “pacotes” chegavam a pesar cerca de 140 quilos, garantindo que nosso querido parente fosse pro pós-vida bem confortável, quentinho e com um farnel para se alimentar durante a jornada.

Um dos mais impressionantes foi chamado de Cottom King, ou Rei do Algodão. Este casulo é imenso e tem dois corpos (um homem e uma mulher) e dada a grande quantidade de coisas lá, estima-se que eles tinham uma altíssima posição social.
Entretanto, apesar dos corpos estarem conservados, não há nenhuma indicação que houvesse preparação para a conservação dos corpos. Eles estão preservados simplesmente por causa da grande quantidade de camadas de linho.
Os incas acreditavam em vários deuses, sendo um dos principais o deus Viracocha (esse aí do mural abaixo). Para os incas, a morte era uma passagem para o outro mundo, e se você acha que aqui é ruim, de acordo com os incas, o Além era pior ainda. O camaquen, o espírito desencarnado, tinha que seguir uma estrada longa e escura, com a ajuda de um cão preto capaz de enxergar no escuro. Assim, eles tinham rituais para garantir que o espírito não tivesse (muita) dificuldade em passar pelos planos espirituais.

O deus Apu Kun Tiqsi Wiraqutra, mais conhecido como Viracocha, é um deus pré-incaico e acabou sendo a divindade principal dos Filhos do Sol. Como a maioria dos deuses pelo mundo afora, não tinha nada de bonzinho, apesar de seus ensinamentos e algumas benesses. Ele exigia sacrifícios de todos os tipos, inclusive de animais e até humanos, principalmente quando as colheitas não andavam bem. Estes sacrifícios eram chamados “capacocha”.
As Aklya Konas, as Virgens do Sol eram meninas ou moças que eram sacrificadas em homenagem aos deuses. Isso até pode parecer sangrento, mas o curioso é que elas iam de bom grado. Assim como as vestais – sacerdotisas da deusa Vesta –, as Virgens do Sol gozavam de status social. Elas eram bem vestidas, arrumadas, penteadas e se preparavam para ser mortas.

Essa moça dormindo o sono eterno foi encontrada em 1999, sepultada junto com outras duas crianças (um menino e uma menina), num santuário a cerca de 6.800 metros do vulcão Llullaillaco argentino. Ela era mais velha que as outras crianças (estima-se que tinha 15 anos), como se fosse uma babá, uma criada a tomar conta delas; ela passou a ser chamada “A Donzela” (Maiden) pelos pesquisadores. Análises mostraram que todos eles consumiram folhas de coca e bebidas alcoólicas, mas a Donzela ingeriu mais coisas.
Assim como as vestais, a Donzela parece ter recebido um status especial e muito longe do que se faz crer, assim como a Donzela e as duas crianças, as vítimas de sacrifício não eram barbarizadas. A mistura de ervas e bebida serviu para amenizar a dor durante o sacrifício e é um erro achar que as vítimas de sacrifício, sejam dos incas como dos chinchorros, abriam a boca como se mostrassem uma expressão de terror. Isso se deve ao fato da pele ficar ressequida e os músculos cederem, fazendo com que a mandíbula cia e forme aquela expressão de horror. A bem da verdade, os pais ficavam orgulhosos e as vítimas do sacrifício eram respeitadas e preparadas com todas as pompas e respeito merecido de acordo com sua sociedade.
Há um porém! Os incas não mumificavam seus mortos. Eles deixavam seus entes queridos expostos ao tempo. Como a região é seca e fria, os tecidos perdiam líquido e eram conservados. Ainda se debate para saber se faziam isso intencionalmente. A melhor especulação é que sim, já que eles tiveram tempo bastante para perceber com os defuntos ficavam bem conservados e, HEY, assim isso garantiria uma oferta melhor aos deuses. Muitas vezes, corpos eram colocados em túmulos em locais bem altos, chamados “chullpas”. Descendentes da múmia traziam oferendas de alimentos e bens preciosos para honrar seu ancestral. A altitude e baixa umidade e o ar rarefeito faziam com que o corpo se preservasse, ainda que não tão bonitinho quanto o processo artificial.

Ótimo artigo! Acho que seus textos longos são o maior atrativo deste site.
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