As antigas múmias do povo Chinchorro
Apesar as múmias egípcias serem as mais famosas (talvez pelos tesouros com os quais eram sepultados junto), as mais antigas múmias pertencem ao povo chinchorro. O povo chinchorro formou uma civilização que viveu entre o norte Chile e o sul do Peru. A bem da verdade, nem se sabe como eles se chamavam. O que se sabe é que eram um grupo de caçadores-coletores que começaram a se assentar no local pelos idos do ano 7000 A.E.C., isto é, 3000 anos antes do universo ter sido criado, de acordo com alguns fundamentalistas.
Por causa das mudanças climáticas naquele tempo, com as geleiras derretendo, o povão saiu das áreas alagadas e começou a chegar cada vez mais próximo do Oceano Pacífico. Isso pode parecer maluquice, mas estamos nos referindo que o povo saiu de depressões alagadas e totalmente destruídas para um local mais rico em termos de fonte de alimentos; a saber, o mar. Dessa forma, de caçadores essas pessoas passaram a explorar a pesca. Alguns indivíduos desse grupo se dirigiram para a região de Antofagasta, no Chile, local que também está compreendido no deserto de Atacama.
Friedrich Max Uhle nasceu em Dresden, Alemanha, em 25 de março de 1856. Ele conseguiu seu doutorado em Filologia pela Universidade de Leipzig em 1880. Seu principal interesse passou a ser as civilizações pré-colombianas do Peru. Ele viajou pela primeira vez à América do Sul em 1892, para iniciar uma investigação na Argentina e na Bolívia para o Konigliches Museum fur Völkerkunde em Berlim, Alemanha. Nesse mesmo ano, ele publicou “Die Ruinenstatte von Tihuanaco im Hochlande des Alten Peru” (As ruínas de Tiahuanaco nos Planaltos do Antigo Peru. Este trabalho extenso é considerado o primeiro em profundidade científica a respeito do antigo local de Tiwanaku , Bolívia. E sim, claro que você pode ter acesso a este documento. Clique AQUI e seja feliz (em alemão, óbvio!)
Em 1917, Uhle foi o primeiro a publicar sobre os chinchorros e suas múmias, 5 anos antes de Howard Carter ter descoberto o local de descanso do rei Tutancâmon.
Cerca de 1000 anos antes dos egípcios desenvolverem a técnica de mumificação, os chinchorros já conservavam seus mortos para a última jornada. Há cerca de 5000 anos, os chinchorros tinham cerimônias fúnebres complexas. Seu método de mumificação consistiu primeiro em esfolar o corpo (isso mesmo. Retiravam toda a pele!) para depois retirar os órgãos das cavidades, incluindo o cérebro e os principais músculos das extremidades. Em seguida, o corpo era secado por meio de brasas e cinzas, mantendo o corpo rígido com varas de madeira amarradas com cordas feitas de fibras vegetais, e reconstruído enchendo as cavidades com sujeira, lã, penas e plantas. Praticamente, um processo de taxidermia.
Depois, os braços e pernas eram refeitos com argila e, finalmente, a pele (curtida) era recolocada e o escalpo era costurado no crânio ou, quando muito, substituído por fios vegetais. Algo não muito diferente de um show de horrores.
Às vezes, o rosto era coberto com uma espécie de máscara mortuária e o corpo era pintado de vermelho e preto, com tintas à base de ferro e óxido de manganês, e não de origem vegetal. Claro, esses povos não tinham um conhecimento formal de Química. Eles usavam substâncias facilmente encontradas nos minérios, que eram quebrados, pulverizados e misturados com água até formar uma pasta.
Com o passar do tempo, as técnicas de mumificação foram simplificadas (e obviamente com resultados de pior qualidade). As melhores teorias para isso é a falta de registro escrito, passando apenas dos mais velhos pros mais novos. Basicamente, os chinchorros não precisavam muito, bastando a tradição oral. Por quê? Porque não precisavam. Tribos isoladas nunca sentem necessidade de registros de documentos; dessa forma, a tradição oral se sustenta bem caso você não precise guardar informações sobre produção de víveres, por exemplo. Uma sociedade de grupos pequenos gasta tudo o que produz. Com o crescimento populacional, é preciso organizar a sociedade local, passando para aldeia, cidadela, cidade, cidade-estado, culminando num reino. Com esse crescimento, é preciso organizar os sistemas de produção, consumo e, claro, comércio com cidades vizinhas. Para tanto, é preciso registros, ou você perde controle disso tudo, sendo necessário e implantar uma burocracia para poder governar. Ao contrário do que se pode pensar, “burocracia” não é ruim. É um sistema controlado. Não pode é virar burrocracia, mas o Brasil ainda nem tinha sido descoberto ainda!
Um reino qualquer passa a se tornar um império quando há diversidade étnica e foi com o Império Inca, na região sul-americana, que começou a escrita, com seus quipus, que não eram nada próximo do que entendemos como “escrita” hoje. Os incas tiveram sua origem em grupos pastores do Peru no século XII (19 séculos depois dos chinchorros), só mais tarde desenvolvendo o imenso (e mais odiado) império da América do Sul. Eles também tinham múmias, mas eu vivo num tempo linear, vamos prosseguir.
As antigas técnicas dos chinchorros acabaram se perdendo, como dito logo acima. A técnica utilizada, então, passou a ser envolver o corpo com uma camada de uma substância feita de areia e material orgânico, para depois fazerem uma máscara mortuária de argila. Com o tempo, os chinchorros acabaram indo para o interior, para se tornarem fazendeiros. Passaram a ser conhecidos pelo nome de “Changos”, e nenhuma das práticas fúnebres de seus antepassados foram seguidas, desaparecendo no véu do tempo sulamericano até ser redescoberto.

Ótimo artigo! Acho que seus textos longos são o maior atrativo deste site.
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