Harriet Cole: a funcionária mais antiga da Universidade Drexel

A funcionária mais antiga da Drexel University, na Filadélfia, nunca tirou férias, jamais pediu aumento e não faltou um único dia desde o século XIX. A própria instituição a apresentou ao público, em 2012, como sua servidora de mais longa data, e dá para entender o orgulho: poucas folhas de pagamento ostentam alguém que trabalha em regime de alfinetes.

Hoje, essa funcionária executa o seu trabalho no Student Activities Center, entre a cozinha dos estudantes e as mesas de pingue-pongue, com os nervos pintados de branco, os olhos no lugar e um nome que a anatomia mundial pronuncia como se fosse de família: Harriet. Há perguntas no ar: Quem ela foi? Quem teve a gentileza de lhe perguntar se topava virar patrimônio científico? São questões que levaram mais de um século para serem tratadas com seriedade. As respostas, como costuma acontecer quando alguém resolve abrir uma caixa de arquivo, são bem menos reluzentes que o cartão-postal.

Comecemos pela versão que circula pelos livros, pelos blogs e por boa parte da literatura médica. Em 1888, Harriet Cole, uma faxineira negra do Hahnemann Medical College, morreu de tuberculose aos 35 anos. A história prossegue com a informação que ela teria deixado o corpo para o professor de anatomia Rufus Weaver, movida pelo desejo de ajudar a Ciência e sem fazer ideia do que ele iria aprontar com o presente. Weaver voltara de uma viagem à Europa com a cabeça cheia de dissecções parciais do sistema nervoso e uma fixação: ninguém tinha exposto o conjunto inteiro, e ele não via razão para que esse ninguém continuasse sendo ninguém por muito tempo.

É uma história redondinha, comovente e com final feliz para todos os envolvidos, o que deveria ter acendido uma luzinha de alerta em qualquer historiador desde o primeiro dia. E é isso que iremos investigar aqui.

Convém conhecer o homem direito. Rufus Benjamin Weaver nasceu em Gettysburg, em 1841, viveu até os 95 anos e foi, a partir de 1879, demonstrador e conferencista de anatomia do Hahnemann Medical College, que em 1897 o fez titular da cadeira de Anatomia Prática. Um relato biográfico afirma que ele se encarregou de exumar soldados confederados mortos na batalha de sua cidade natal, de modo que a intimidade com ossos alheios vinha de berço e de campo de batalha.

Se o nome não tocou nenhum sininho na sua cabeça, [Samuel] Hahnemann foi o médico que criou a Homeopatia em meados do século XVIII; com isso, não é por demais dizer que o Hahnemann Medical College era, de fato, uma escola de Homeopatia, aquela categoria que a Medicina regular da época encarava com a simpatia reservada ao primo que lê horóscopo no jantar de Natal (e não mudou muito até hoje), embora os arquivos da própria Drexel lembrem que isso não impedia seus professores de levar a anatomia a sério.

Daí a supor (e aqui a especulação é minha, não de um documento) que um anatomista de escola homeopática tinha motivos de sobra para produzir algo que nem as faculdades tradicionais pudessem exibir, vai um passo curto. Weaver não deixou diários nem notas de laboratório e publicou pouco: segundo as historiadoras Susan Lawrence e Susan Lederer, não era homem de registrar resultados. A obra falava por ele, ou melhor, ficava pendurada falando.

E a obra merece o aplauso que recebeu: durante cerca de cinco meses, Weaver extraiu cada nervo do corpo, lascando a base do crânio peça por peça para preservar a dura-máter, separando os nervos cranianos com agulhas finas, envolvendo tudo em gaze úmida para não ressecar e, no fim, cobrindo o conjunto com tinta branca à base de chumbo (sim, chumbo, num objeto que gerações de estudantes encarariam a palmos de distância, mas a Medicina naquele tempo era… bem, sinistra, muito sinistra, se podemos dizer assim).

Os olhos ficaram presos aos nervos ópticos; só os filamentos minúsculos entre as costelas, os nervos intercostais, resistiram à paciência do professor. Milhares de alfinetes prenderam o resultado a um quadro-negro. O corpo que lhe serviu de matéria-prima, aliás, caiu como uma luva: a imprensa registrou que a mulher morrera muito emagrecida, e quem caça nervos agradece a ausência de gordura.

A tuberculose, nessa contabilidade macabra, entregou ao anatomista um material de primeira linha. (O artigo técnico de 1889 fala em “desenvolvimento adiposo moderado”, contradição que Lawrence e Lederer consideram intrigante e que ninguém, até hoje, explicou.)

O sucesso foi imediato e proporcional. Em 1893, a peça foi à Exposição Mundial Colombiana de Chicago e voltou com uma medalha e um prêmio científico de fita azul. Weaver contou depois que guardar o espécime e explicá-lo aos visitantes foi mais exaustivo que a dissecção, e recusou levá-lo a St. Louis alegando que, se quebrasse, não haveria reposição. Quando correu o boato de que uma sociedade médica de Londres lhe oferecera 200 mil dólares, ele o desmentiu com a modéstia de quem faz questão de que o boato continue circulando.

Em 2018, uma arquivista do próprio Drexel, Alaina McNaughton, decidiu fazer o que ninguém fizera em 130 anos: procurar Harriet. O que se achou cabe num envelope: uma certidão de óbito registra uma Harriet Cole, mulher negra de 36 anos, morta de tuberculose em 12 de março de 1888 no asilo de indigentes da cidade, o Blockley Almshouse, que depois virou o Philadelphia General Hospital. O sepultamento, uma semana depois, consta como realizado no Hahnemann Medical College, o que era uma forma burocrática de descrever um caixão que, na prática, foi um tanque de conservante.

Pois, é. Só isso! Nenhum testamento, nenhuma carta, nenhum documento de doação, nenhum registro de que ela tenha trabalhado ali ou conhecido Weaver. A Drexel diz hoje que a certidão sugere que o corpo, não reclamado por ninguém, foi entregue à faculdade pelo hospital, e que um século de histórias impossíveis de confirmar embaralhou o resto. Em 2021, os rótulos do espécime foram reescritos e passaram a dizer que a versão da doação é provavelmente falsa.

A pergunta passa a ser como uma mulher sem papel nenhum ganhou uma biografia tão completa. A resposta é uma pequena aula de como a imprensa fabrica passado. Em 1888, o Philadelphia Inquirer noticiou que Weaver conseguira o corpo de “uma mulher de cor”, morta em estado de grande emagrecimento: raça anotada, nome ausente. O artigo médico de 1889 apagou também a raça e deixou apenas uma mulher de uns 35 anos. Em 1902, outro jornal da cidade lhe deu um nome e errou: Henrietta, sobrenome em branco. Uma reportagem de 1904 rodou em cerca de 300 jornais sem nome nenhum.

Em 1915, na festa dos 50 anos de magistério de Weaver, um ex-aluno enfim disse “Harriet Cole”, descreveu-a como mulher negra, pobre e ignorante a quem a grandeza fora imposta depois da morte, e voltou a elogiar o mestre. Em 1924, um correspondente lhe deu profissão: faxineira. Em 1929, Weaver registrou em testamento o espécime como “conhecido como HARRIET”, o que sugere algum apego, mas jamais escreveu uma linha sobre quem ela fora.

Faltava o toque final, e ele veio em 1936, quando Weaver morreu. Os obituários e, logo depois, a revista Time descobriram que a faxineira doara o corpo. A Time a descreveu como uma negra de coração enorme que “sem dúvida” ouvira o professor se queixar da falta de cadáveres e, comovida, legara seu corpo ao hospital. Repare no “sem dúvida”: é a expressão do jornalista que precisa de uma testemunha e só dispõe da própria imaginação!

Em 1960, a Time reeditou a tese, com a faxineira bisbilhotando as aulas e levando a sério as queixas do mestre, enquanto um cardiologista restaurava o espécime e posava para a foto com o dedo enfiado acima dos olhos dela. Entre 1888 e 1936, em resumo, ninguém achou necessário dizer que ela doara coisa alguma. A doação só apareceu depois que Weaver morreu e deixou de poder confirmá-la ou negá-la. É a forma mais econômica de obter consentimento: espera-se o interessado calar e redige-se por ele. Abaixo, as imagens da reportagem.

https://imgur.com/a/sistema-nervoso-harriet-cole-Kmy8FjE

Para entender como o corpo de uma mulher pobre foi parar num tanque, é preciso olhar a Filadélfia daquele tempo, que sofria de um problema de oferta e demanda: capital da educação médica americana, precisava de cadáveres em quantidade, e a lei não os fornecia. Em dezembro de 1882, jornalistas do Philadelphia Press, depois de semanas vigiando o Lebanon Cemetery, onde a cidade enterrava seus negros, flagraram uma carroça com seis corpos desenterrados a caminho do Jefferson Medical College. Parentes reconheceram os mortos, e mais de 600 pessoas se reuniram para protestar.

Enquanto isso, estudantes do Jefferson cantavam “John Brown’s Body” antes das aulas e avistaram uma senhora negra num cruzamento, apontada em voz alta como excelente cadáver, com pedidos de uma faca. Os homens da carroça foram condenados. O demonstrador de anatomia da escola, William Forbes, foi a julgamento e saiu absolvido, alegando que só recebia corpos e supunha que fossem legais.


Rufus Weaver ao lado de sua colaboradora involuntária

Em 1883, com professores de anatomia ajudando a redigir o texto, a Pensilvânia aprovou uma lei que tornava obrigatório entregar a um conselho anatômico estatal os corpos de quem morresse sem ninguém para pagar o enterro. Harriet morreu em um asilo, sem reclamação conhecida, e é bem provável que tenha entrado por essa porta. Provar, no entanto, é impossível: os registros do conselho só existem a partir de 1901.

Seria desonesto, porém, vender a tese oposta com a mesma convicção. Em 1886, dois anos antes, uma ex-escrava de 108 anos morreu num asilo do condado de Montgomery, e os jornais contaram que legara o corpo ao médico William Corson, abolicionista conhecido. O doutor não quis, e ela foi enterrada no cemitério do asilo. Em 1884, um estudante disse a um homem negro horrorizado, diante de um cadáver na mesa do Jefferson, que o falecido deixara o corpo à faculdade por amor à pesquisa, o que pode ter sido verdade ou a mentira padrão de quem é flagrado.

Lawrence e Lederer, autoras do estudo mais completo sobre o caso, concluem que a doação de Harriet é provavelmente confabulação, mas admitem a possibilidade, improvável e não impossível, de que ela tenha escolhido. Mesmo nessa hipótese gentil, o quadro melhora pouco: quem doa o corpo autoriza uma dissecção, não uma carreira de 138 anos como peça de exposição, com rótulo, fotografia e medalha de feira mundial.

O caso de Harriet entra assim numa linhagem que a Medicina prefere deixar fora do mural. Em 1951, no Johns Hopkins, células do tumor de Henrietta Lacks foram retiradas sem que ela ou a família fossem consultadas e deram origem à linhagem HeLa, uma das mais usadas da história da pesquisa biomédica; os parentes só souberam nos anos 1970. De 1932 a 1972, em Tuskegee, no Alabama, o serviço de saúde pública dos Estados Unidos acompanhou cerca de 600 homens negros, quase 400 deles com sífilis, sem tratá-los, mesmo depois de a penicilina virar tratamento padrão.

Desde 1947 o mundo tinha o Código de Nuremberg, saído do julgamento dos médicos nazistas e conduzido, vale lembrar, pelos americanos, cujo primeiro princípio afirma que o consentimento voluntário é absolutamente essencial. O país que presidiu o julgamento levou 25 anos para obedecer à lição no Alabama. E há a ironia onomástica prometida: a “Henrietta” de 1902, nome errado de Harriet, antecipou em meio século o nome certo de outra mulher negra cujo corpo serviu à Ciência sem pedir licença.

Vamos analisar o caso com a calma e com o respeito que ele merece. Anatomia humana não se aprende por desenho, e todo cirurgião e neurologista que hoje opera perto de nervos deve algo a alguém que, em algum momento, abriu um corpo. O espécime de Harriet ilustrou centenas de livros e laboratórios pelo mundo, e ensinou a ver numa só peça o que um atlas mostra em fatias.

Nada disso é ficção. Se Weaver tivesse perguntado e Harriet respondido não, a Medicina teria passado sem esse modelo e, convenhamos, sobrevivido, como sobreviveu sem tantas outras peças obtidas de maneira mais ou menos elegante. O argumento do bem maior é forte porque o bem é real. O que ele esconde é a lista de quem paga a conta.

A questão, afinal, é quanto custa consultar. Em 1888, a resposta era: quase nada. Um formulário, uma conversa, o risco de ouvir um não. Se um projeto científico só funciona quando a pessoa não é consultada, o defeito está no projeto, e a história tem o hábito de registrar isso depois. Os programas de doação que hoje abastecem as faculdades de Medicina provam que a Ciência sobrevive à permissão, e, como a pessoa sabe o que vai acontecer, o gesto muda de natureza: o que era apropriação vira presente.

Já o bem maior, usado como cheque em branco, costuma ser sacado sempre na mesma conta: a de quem tem menos poder para recusar. Os corpos negros eram os mais fáceis de roubar em 1882, os dos pobres sem família os mais fáceis de requisitar em 1888 e os dos homens do Alabama os mais fáceis de não tratar em 1932. O bem maior nunca foi sorteado.

Resta Harriet, pendurada perto das mesas de pingue-pongue, fora do ensino oficial há anos mas ainda útil a quem passa e quer testar a memória sobre nomes de nervos. Mulher pobre, morta num asilo aos 36 anos, de quem o mundo conhece o nome, a causa da morte e pouco mais, ela protagoniza o único caso que conheço em que o consentimento foi providenciado quase meio século depois, com redação a cargo da imprensa e assinatura por procuração, sem firma reconhecida.

A moral da história: o bem maior é sempre unânime, desde que ninguém consulte os que vão financiá-lo com o próprio corpo.


Fontes

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.