Quando o Sol está de mau-humor e dá um lembrete quem manda por aqui

Maio de 2024. Uma parte do Sol simplesmente explodiu. Não foi uma explosão qualquer, daquelas que você vê em filme B de ficção científica. Por alguns dias, bolhas magnéticas carregadas com bilhões de toneladas de plasma viajaram pelo espaço a velocidades 6.000 vezes maiores que um jato comercial, até colidirem com o campo magnético da Terra. O resultado? Auroras espetaculares visíveis em lugares onde auroras não deveriam existir, alguns satélites perdidos, agricultores americanos lamentando US$ 500 milhões em prejuízos e, claro, milhões de fotos no Instagram.

Mas aqui está o detalhe que deveria nos tirar o sono: essa tempestade solar foi uma das mais intensas em 20 anos, e ainda assim foi fichinha perto do que o Sol já nos aprontou antes. E perto do que pode aprontar de novo. Continuar lendo “Quando o Sol está de mau-humor e dá um lembrete quem manda por aqui”

Beijou no TikTok, Allah fica putinho

Então, meu amigo, minha amiga. Você tá de boaça em casa, rolando o feed do TikTok, postou um vídeo inocente dando um beijo no seu crush, e de repente – surpresa! – NO ONE EXPECTS THE SHARIA INQUISITION!

Bem-vindo a Kano, Nigéria, onde a polícia islâmica Hisbah patrulha as ruas aplicando a lei Sharia, e onde a internet do século XXI colide frontalmente com códigos morais que fariam um cavaleiro das Cruzadas sentir-se em casa. Continuar lendo “Beijou no TikTok, Allah fica putinho”

Quando o pulmão não funciona, apele pro bumbum

Existe um momento na carreira de todo cientista em que ele precisa se perguntar: “Será que isso é genialidade ou loucura?”. Bem, na certa vocês me perguntariam até que ponto a pesquisa iria. “Simples”, responderia eu. Um pesquisador da Universidade de Osaka teve a epifania quando decidiu investigar se humanos poderiam, em caso de emergência, respirar pelo traseiro. Não, isso não é trama de filme trash de ficção científica dos anos 80, embora devesse ser. Continuar lendo “Quando o pulmão não funciona, apele pro bumbum”

El Cocuy: O Coração de Boyacá

Aninhado no alto das montanhas andinas, no departamento de Boyacá, El Cocuy é um desses lugares onde a beleza é quase indizível, onde o tempo respira devagar. Localizado a cerca de 300 km ao norte de Bogotá, a capital da Colômbia, esse pequeno povoado parece ter sido retirado de um sonho. O caminho até lá é uma viagem no tempo — a estrada serpenteia por paisagens deslumbrantes, onde a natureza se exibe em sua forma mais pura e selvagem. Ali, em cada curva, o olhar se perde, mas o coração se encontra. Continuar lendo “El Cocuy: O Coração de Boyacá”

Da Transilvânia para sua mesa: o Paprika Hendl de Drácula

Quando Bram Stoker escreveu Drácula em 1897, ele não apenas criou um dos personagens mais icônicos da literatura de terror, mas também registrou sabores e aromas de uma Europa Central que poucos conheciam, deitando sobre as páginas de seu romance gótico um pouco dessa cultura gastronômica.

Entre as brumas dos Cárpatos e os corredores sombrios do castelo do Conde, há um detalhe que muitos leitores deixam passar: a comida. E é justamente em uma dessas passagens que encontramos o Paprika Hendl (ou Paprikás Csirke, em húngaro), um prato que revela muito sobre o contexto histórico da obra. Continuar lendo “Da Transilvânia para sua mesa: o Paprika Hendl de Drácula”

A ópera-bufa do roubo ao Louvre

O homem audacioso passou muito tempo planejando. Aquele era o momento e ele está de pé, ali, de frente para o local de seu crime. A fachada do palácio se estende imponente sob o céu cinzento, suas alas simétricas de calcário já manchadas por séculos de chuva parisiense. Colunas coríntias subiam em fileiras solenes, frontões barrocos coroavam pavilhões como coroas esquecidas de reis mortos, e estátuas de deuses greco-romanos observavam o pátio vazio de paralelepípedos irregulares com olhos de mármore indiferente. Eram deuses, por que iriam se importar com as paixões humanas? Os telhados de ardósia negra desenham silhuetas dramáticas contra as nuvens, enquanto janelas altíssimas refletiam o céu como espelhos cegos. Nada quebrava a geometria clássica, nenhuma multidão de turistas profanava o silêncio; apenas o palácio e sua arrogância secular, guardião de tesouros que acreditava invulneráveis, enquanto a cidade acordava lenta e desatenta do outro lado dos portões.

O Louvre aguarda o homem cujas mãos pecaminosas irão despojar o magnífico museu de seus tesouros. O homem é audacioso, já falei, e ele irá colocar sua audácia e sua ousadia sob teste e ele conseguiu, de fato, seu intento ao realizar o roubo mais espetacular de sua época.

Ele roubou a Mona Lisa. Continuar lendo “A ópera-bufa do roubo ao Louvre”

Artigos da Semana 277

O dia hoje amanheceu chuvoso, pelo que agradeço. Além de não estar muito calor, tenho bons motivos para não sair de casa (se bem que o melhor motivo é que além de não ter nada de interessante fora de casa, ainda é cheio de… gente). Então, enquanto me deleito com um chocolate quente, sem sair da cama, vejamos o que foi publicado ao longo desta semana.

E não estou nem ai se rimou ou não.

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Gengibre, exorcismo e uma deidade viajante no seu corpo: o kit médico do Japão Medieval

Quando você vai ao médico hoje, existe um acordo tácito sobre o que esperar: exames de sangue, talvez uma receita de antibióticos, no máximo uma recomendação para cortar o glúten. O que definitivamente não está no cardápio é um exorcismo, uma consulta astrológica ou a informação de que você precisa adiar o tratamento porque uma deidade está passeando pela sua coxa esquerda neste dia; mas nem sempre foi assim. E para entender o quão diferente as coisas já foram, precisamos voltar mil anos no tempo e atravessar o planeta até chegar ao Japão do período Heian. Continuar lendo “Gengibre, exorcismo e uma deidade viajante no seu corpo: o kit médico do Japão Medieval”

O avião que foi ao Espaço sem querer e voltou para contar a história

Em 1983, Hollywood nos presenteou com Starflight One (Rota de Perigo, em português), um telefilme baseado no romance “Orbit” de Thomas H. Block. A premissa era deliciosamente absurda: um avião hipersônico comercial acidentalmente acaba na órbita terrestre durante seu voo inaugural. O filme era tão inverossímil que os críticos da época o chamaram de “Airport ‘85”, repleto de clichês de filmes de desastre e impossibilidades científicas hilariantes, como lançar o ônibus espacial Columbia três vezes em 24 horas, algo que demoraria semanas na vida real e usarem um caixão para o engenheiro passar de uma nave para outra (o caixão tem um buraco e ele tampa com o dedo, só para coroar a insânia).

A ficção pode parecer absurda às vezes. Mas do Além a voz de Tom Clancy ressoa dizendo “A ficção precisa fazer sentido, a Realidade, não”. 20 anos antes desse filme B ser filmado, algo igualmente absurdo – porém completamente real – já havia acontecido com o piloto Joe Walker em 19 de julho de 1963. Continuar lendo “O avião que foi ao Espaço sem querer e voltou para contar a história”

O chumbo que moldou nossos cérebros

Imagine descobrir que você ganhou uma loteria evolutiva há milhares de anos, e o prêmio foi uma mutação genética que te protege de envenenamento por chumbo enquanto seus primos distantes (os Neandertais, mas eu não precisava dizer, né?) não tiveram a mesma sorte. Agora imagine que essa mutação aparentemente banal pode ser a razão pela qual você está aqui lendo este texto em vez de extinto há 40 mil anos. Bem-vindo ao mais recente plot twist da Evolução Humana, cortesia de um estudo internacional que está reescrevendo nossa compreensão sobre o que nos tornou… bem, nós. Continuar lendo “O chumbo que moldou nossos cérebros”