Como o clima que derrubou a Dinastia Tang

Existe uma certa idiossincrasia arrogante das pessoas em achar que tudo tem a ver literalmente com elas, insistindo em acreditar que a crise climática é um problema moderno, um capricho do século XXI que surgiu junto com o plástico e as redes sociais; parece que e só hoje que uma simples mudança no clima vai nos fazer voltar pra Idade da pedra, onde passaríamos a ser caçadores coletores, comer carne crua e termos a sorte de não termos jovens enchendo o saco porque poderíamos atirá-los aos tigres dente-de-sabre. Só nos resta torcer para isso chegar.

De qualquer forma, a história, como de costume, discorda dessa visão idiota; e quando a história discorda, ela costuma trazer documentação. No caso mais recente, a documentação vem de anéis de árvores milenares, registros militares da China do século IX e um estudo internacional publicado em 2025 que, sem cerimônia, conecta secas, enchentes e o colapso de um dos impérios mais fascinantes que o mundo já produziu. Continuar lendo “Como o clima que derrubou a Dinastia Tang” →

O maravilhoso (pelos motivos errados) Unicórnio de Madgeburgo

Existe uma categoria especial de erro humano que vai além do simples engano. É aquele tipo de equívoco tão monumental, tão fantástico, tão confiante em si mesmo, tão documentado e celebrado por pessoas inteligentes que acaba se tornando, séculos depois, uma espécie de obra de arte às avessas. O Unicórnio de Magdeburgo pertence a essa categoria. É um incrível exemplo de um fabuloso somatório de “deve ser assim, então é assim” Continuar lendo “O maravilhoso (pelos motivos errados) Unicórnio de Madgeburgo” →

O morceguinho nanico que humilhou os maiores predadores

Quando se fala em predador assassino você pensa em leões, tigres, onças e seres humanos. Não é que você esteja errado, só não sabe de tudo, e acaba esbarrando em algo profundamente desconcertante ao descobrir que um ser do tamanho de um brigadeiro caça com mais eficiência do que um leão. O responsável por essa pequena humilhação zoológica atende pelo nome científico de Trachops cirrhosus, o morcego-de-lábios-franjados, habitante das florestas úmidas do Panamá. Durante décadas, os cientistas sabiam que ele caçava sapos, mas nunca tinham conseguido observar a caçada de verdade, no escuro, na floresta, sem interferir no comportamento do animal.

Até agora. Continuar lendo “O morceguinho nanico que humilhou os maiores predadores” →

Artigos da Semana 295

Tá tendo arranca-rabo no Oriente Médio de novo. Estou com preguiça de tecer maiores considerações. Vejam o que eu postei durante a semana.

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A beleza da liberdade persa

Hoje é um dia diferente no Irã. Acostumados a criarem problemas com todo mundo, desde ocidentais, israelenses e árabes, choveu democracia lá enquanto o regime do Aiatolá estava arrumando problemas com os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Kwait, Israel e até Arábia Saudita. Em operação conjunta dos EUA e Israel, Aiatolá Khamenei is no more, e a população está comemorando direto, para infelicidade de pessoal levógiro. Continuar lendo “A beleza da liberdade persa” →

Cliente exageradamente fofinho faz funerária pegar fogo

Existe uma espécie de contrato tácito entre vivos e mortos. Nós organizamos o velório, escolhemos a música constrangedora que alguém da família insistiu em colocar e garantimos que a despedida ocorra dentro dos padrões mínimos de civilização. Em troca, espera-se que o falecido colabore ficando quieto, manejável e, sobretudo, dimensionalmente compatível com o equipamento.

Não é pedir muito. É literalmente o último favor. Continuar lendo “Cliente exageradamente fofinho faz funerária pegar fogo” →

As dez vezes que o mundo quase acabou

Existe uma pergunta que nenhum livro de história costuma fazer com a seriedade que merece: quantas vezes a civilização humana sobreviveu não por competência, estratégia ou sabedoria diplomática, mas por pura e simples sorte? A resposta, se você tiver estômago, é: pelo menos dez vezes documentadas, só na segunda metade do século XX. Provavelmente mais, porque boa parte dos arquivos ainda está registrada como “SECRETO” e somente pros olhos de alguém bem importante. O que se sabe já é suficiente para tirar o sono de qualquer pessoa com menos de três drinques no corpo.

Bombas nucleares caindo sobre o território americano. Submarinos prontos para lançar torpedos atômicos porque a água estava quente demais. Exércitos soviéticos em alerta máximo porque a OTAN decidiu fazer um joguinho de guerra realista demais. Um bando de cisnes voando sobre a Turquia. Um urso, sem filiação política conhecida, quase iniciando a Terceira Guerra Mundial. Continuar lendo “As dez vezes que o mundo quase acabou” →

Artigos da Semana 294

Acabou-se o carnaval PLUFT! Não se tem muito o que fazer sobre isso, além de reclamar de outra coisa: do calor infernal que tá, enquanto eu fiquei sem luz váris horas sem poder ligar um ar-condicionado ou ventilador. Me senti coo os químicos sumérios que inventaram o asfalto. Sim, eu contei esta e outras histórias durante a semana.

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O scanner que ressuscitou os mortos (do ponto de vista arqueológico, claro)

Então você, meu amigo, minha amiga, bate as botas no Egito romano, e seus parentes te enfaixam em linho com esmero, colocam uma máscara dourada no seu rosto para garantir que você consiga ver e falar no além, e te enterram com toda a pompa possível.

Agora imagine que, 2000 anos depois, alguém saqueia sua tumba, vende pedaços de você para antiquários ou mesmo para virar aditivo e tônico (sim, teve isso) e o que sobra da sua máscara funerária vai parar espalhado entre o deserto egípcio e um museu em Copenhague. Isso não é roteiro de filme de terror, mas a biografia arqueológica de uma quantidade assustadora de artefatos que habitam coleções ao redor do mundo sem que ninguém saiba de onde vieram. A boa notícia é que a ciência encontrou uma forma de reconectar esses fragmentos às suas histórias. Continuar lendo “O scanner que ressuscitou os mortos (do ponto de vista arqueológico, claro)” →

Químicos sumérios já faziam o melhor que químicos fazem: inventaram o futuro

Uma das maiores inovações tecnológicas trazidas pela indústria do petróleo foi o asfalto. O asfalto é tão onipresente que virou sinônimo de modernidade urbana, de progresso industrial, de engenharia do século XX. Algo bem recente na História da Civilização, certo? Bem, não é bem assim. Os sumérios da Mesopotâmia já dominavam a lógica por trás dele há mais de quatro mil anos. Sem laboratório moderno, sem espectrômetro e, presumivelmente, sem nenhum PowerPoint de apresentação para a diretoria. Só observação, repetição e um conhecimento acumulado que atravessou gerações de artesãos em algum canto quente e úmido do que hoje é o sul do Iraque.

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