O professor que virou um crocodilo corredor

Existe uma imagem que o mundo ocidental tem do crocodilo: aquele matusquela cabisbaixo nas margens lamacentas de um rio africano, imóvel como um tronco mal-humorado, esperando pacientemente que algum gnu distraído chegue perto o suficiente para se arrepender. Pois bem, essa imagem tem lá seus 200 milhões de anos de atraso. Porque antes que a preguiça se tornasse a filosofia oficial do grupo, houve quem corresse. E RÁPIDO!

Pesquisadores identificaram uma nova espécie de crocodilomorfo do período Triássico, encontrada em Gloucester, no sudoeste da Inglaterra, com cerca de 215 milhões de anos de existência e uma silhueta que não tem absolutamente nada a ver com o que imaginamos hoje quando pensamos em crocodilo. O bicho tinha pernas longas e esguias, corpo leve e uma constituição física adaptada para a velocidade em terra firme. Não vivia na água, nem ficava como um Zé Ruela esperando a presa. O serzão malvadão caçava. Continuar lendo “O professor que virou um crocodilo corredor”

A IA que fuxica o seu DNA como um detetive

Se o seu fígado pudesse falar, provavelmente diria algo como: “Oi, estou aqui me deteriorando faz um tempão, mas ninguém presta atenção em mim até eu resolver mandar uma cirrose de brinde.” E teria toda a razão. A fibrose hepática, estágio inicial do dano no fígado, é uma dessas doenças que prefere o silêncio ao drama, instalando-se discretamente no organismo enquanto o paciente acha que está apenas “um pouco cansado”. Quando os sintomas resolvem aparecer, frequentemente já é tarde para revertê-la. É o tipo de vilão que não usa capa nem faz discurso ameaçador, simplesmente avança. Continuar lendo “A IA que fuxica o seu DNA como um detetive”

Artigos da Semana 296

O entrevero lá no Oriente Médio já é notícia de ontem e ninguém mais liga. Entra aiatolá, se atola o aiatolá, bomba daqui, bm da dali, tudo a mesma coisa. Só tem uma coisa que não é a mesma coisa: meus artigos, que sempre é algo novo e diferente.

Continuar lendo “Artigos da Semana 296”

A ovelha que guardou o segredo da peste por 4 mil anos

A Peste Negra do século XIV ganhou os livros, as pinturas macabras, as danças da morte e uma carreira invejável no imaginário do horror coletivo, com direito a matar um terço da Europa e inspirar séculos de paranoia sanitária. Mas havia uma outra praga, mais velha, mais misteriosa e muito menos fotogênica, que varou a Eurásia dois milênios antes, matou gente de Portugal até a Mongólia, e saiu de cena sem deixar um bilhete de explicação. Por anos, os cientistas coçavam a cabeça diante de um problema elegantemente inconveniente: essa praga mais antiga não se espalhava por pulgas como a medieval, mas aparecia em esqueletos humanos separados por milhares de quilômetros. Como? Via correio? Magia? Os historiadores da ciência precisavam de uma pista, e ela veio, com quatro mil anos de atraso e cheiro de rebanho, de uma ovelha. Continuar lendo “A ovelha que guardou o segredo da peste por 4 mil anos”

Artigos da Semana 295

Tá tendo arranca-rabo no Oriente Médio de novo. Estou com preguiça de tecer maiores considerações. Vejam o que eu postei durante a semana.

Continuar lendo “Artigos da Semana 295”

Caverna na Romênia guarda um pesadelo pré-histórico

Nas profundezas de um lugar esquecido da Romênia, o mal aguarda. A alguns metros abaixo do solo, ela está lá, insaciável, faminta, implacável… e presa no gelo. A monstruosidade que tem cinco mil anos de idade, quando a Idade do Bronze ainda estava engatinhando, os egípcios construíam pirâmides, e nessa caverna já estava dormindo, confortavelmente congelada, uma bactéria com um currículo perturbador: resistência a mais de dez classes de antibióticos modernos, incluindo os remédios que usamos hoje para tratar tuberculose, infecções urinárias e colite.

Ela não estava tentando nos matar, estava só esperando. E agora os cientistas a encontraram, e a notícia é daquelas que você lê e fica olhando pro teto durante alguns minutos. Continuar lendo “Caverna na Romênia guarda um pesadelo pré-histórico”

A pele sintética que roubou os truques do polvo

Os polvos são mestres do disfarce. Numa fração de segundo, essas criaturas marinhas podem transformar a aparência de sua pele para se camuflar perfeitamente em recifes de coral, rochas ou até no fundo arenoso do oceano. É como se tivessem um Photoshop biológico embutido, capaz de alterar cor, textura e até padrões tridimensionais da superfície corporal através de um sistema complexo de músculos e nervos. Agora, pesquisadores decidiram copiar essa proeza evolutiva, mas em versão sintética.

Eles criaram uma pele inteligente feita de hidrogel que pode mudar de aparência, textura e forma sob comando, esconder informações como um agente secreto e ainda fazer origami sozinha. Ah, e de bônus, conseguiram esconder a Mona Lisa dentro dela. Porque ciência também precisa de drama, aparentemente. Continuar lendo “A pele sintética que roubou os truques do polvo”

Ronronar como carteira de identidade (miau é puro teatro)

Se você já conviveu com gatos, provavelmente acredita conhecê-los bem. Sabe quando querem comida (sempre), quando desejam atenção (no momento mais inconveniente possível) e quando estão prestes a derrubar aquele copo precioso da mesa (segundos antes de fazê-lo, com aquele olhar calculista). Mas uma nova pesquisa acaba de revelar algo que vai virar seu entendimento felino de ponta-cabeça: o ronronar do seu gato diz muito mais sobre quem ele realmente é do que qualquer miado dramático que ele produza.

Enquanto o ronrom funciona como uma impressão digital sonora, estável e confiável, o miau é puro teatro adaptativo, uma ferramenta de manipulação refinada por milhares de anos de convivência com humanos crédulos como nós. Continuar lendo “Ronronar como carteira de identidade (miau é puro teatro)”

Artigos da Semana 291

E ele chegou, o dia da tristeza, do desespero, da infelicidade: acabaram-se as minhas férias. Volto a trabalhar amanhã. Estou triste e desconsolado. Vou reler o que foi postado durante a semana com uma dose de cachaça.

Continuar lendo “Artigos da Semana 291”

A treponema que atravessou milênios

Existe algo profundamente perturbador em descobrir que uma doença que achávamos conhecer tão bem guarda segredos de 5.500 anos. É como abrir o armário de casa e encontrar um esqueleto (literalmente, no caso) que muda tudo o que você pensava saber sobre a família. E foi exatamente isso que aconteceu quando cientistas resolveram dar uma olhada mais atenta nos restos mortais de alguém que viveu na região de Bogotá, na Colômbia, numa época em que a roda ainda era uma ideia revolucionária e a escrita nem existia.

O que eles encontraram foi nada menos que o genoma mais antigo já recuperado da bactéria Treponema pallidum, aquela espiroqueta simpática responsável por doenças como sífilis, bouba e bejel. E aqui começa a ficar interessante: essa cepa ancestral não se encaixa em nenhuma das categorias modernas que conhecemos. Continuar lendo “A treponema que atravessou milênios”