O surpreendente Homem de Cheddar

Em 1903, alguns trabalhadores escavavam tranquilamente dentro de uma caverna no desfiladeiro de Cheddar, em Somerset, quando encontraram algo que não deveria estar ali, pelo menos não à vista. Um corpo. Não enterrado com cuidado, não acompanhado de objetos, não transformado em memória. Apenas um esqueleto, encolhido, esquecido, preservado pelo acaso e pela pedra durante cerca de dez mil anos.

Ele já estava ali antes de qualquer coisa que hoje chamamos de civilização europeia. Antes da invenção da escrita, antes das pirâmides, antes de Stonehenge. Ainda assim, quando o encontraram, fizeram o que sempre se faz: deram um nome e encaixaram numa narrativa confortável. Chamaram-no de Homem de Cheddar e decidiram, sem muito debate, que ele era o “primeiro britânico”. Continuar lendo “O surpreendente Homem de Cheddar”

O bicho que venceu o fim do mundo botando um ovo

Se você acha que a evolução foi uma linha elegante, quase aristocrática, que saiu dos répteis, atravessou os mamíferos e desembocou em você tomando café enquanto ignora notificações no celular, é melhor recalibrar essa imagem. A história real é bem menos refinada e muito mais interessante. No meio do caminho, existe um animal chamado Lystrosaurus, um bicho atarracado, com cara de quem perdeu uma discussão com a própria genética, que atravessou o maior colapso biológico da história da Terra fazendo algo que hoje parece, no mínimo, desconcertante para um “quase mamífero”: botando ovos. Continuar lendo “O bicho que venceu o fim do mundo botando um ovo”

Não preciso mais de nada. Tenho IA

Eu estava pensando outro dia. Eu tinha escrito sobre o falecimento da Internet e como o uso intensivo das IA generativas de LLM (os chatbots turbinados. Não são bem isso, mas… bem, você entendeu e não vou me alongar). Vários conteúdos sendo feitos, imagens feitas, artes e até vídeos curtos e alguns cada vez mais longos mantendo consistência, isto é, se começa um vídeo com o Lula, daqui a pouco não vira o Godzilla com barba ou algo assim. É o mesmo estilo de personagem estilizado, seja desenho ou “3D”.

Eu vi umas brincadeiras de como fariam filmes com o Super-Homem ou o Homem-Aranha e me peguei pensando… não precisarei mais esperar por livros, música e filmes e nem me decepcionar com eles caso não estejam do meu agrado.

E isso é perigoso. Continuar lendo “Não preciso mais de nada. Tenho IA”

Caverna na Romênia guarda um pesadelo pré-histórico

Nas profundezas de um lugar esquecido da Romênia, o mal aguarda. A alguns metros abaixo do solo, ela está lá, insaciável, faminta, implacável… e presa no gelo. A monstruosidade que tem cinco mil anos de idade, quando a Idade do Bronze ainda estava engatinhando, os egípcios construíam pirâmides, e nessa caverna já estava dormindo, confortavelmente congelada, uma bactéria com um currículo perturbador: resistência a mais de dez classes de antibióticos modernos, incluindo os remédios que usamos hoje para tratar tuberculose, infecções urinárias e colite.

Ela não estava tentando nos matar, estava só esperando. E agora os cientistas a encontraram, e a notícia é daquelas que você lê e fica olhando pro teto durante alguns minutos. Continuar lendo “Caverna na Romênia guarda um pesadelo pré-histórico”

Ronronar como carteira de identidade (miau é puro teatro)

Se você já conviveu com gatos, provavelmente acredita conhecê-los bem. Sabe quando querem comida (sempre), quando desejam atenção (no momento mais inconveniente possível) e quando estão prestes a derrubar aquele copo precioso da mesa (segundos antes de fazê-lo, com aquele olhar calculista). Mas uma nova pesquisa acaba de revelar algo que vai virar seu entendimento felino de ponta-cabeça: o ronronar do seu gato diz muito mais sobre quem ele realmente é do que qualquer miado dramático que ele produza.

Enquanto o ronrom funciona como uma impressão digital sonora, estável e confiável, o miau é puro teatro adaptativo, uma ferramenta de manipulação refinada por milhares de anos de convivência com humanos crédulos como nós. Continuar lendo “Ronronar como carteira de identidade (miau é puro teatro)”

Artigos da Semana 291

E ele chegou, o dia da tristeza, do desespero, da infelicidade: acabaram-se as minhas férias. Volto a trabalhar amanhã. Estou triste e desconsolado. Vou reler o que foi postado durante a semana com uma dose de cachaça.

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Chimpanzés bêbados explicam sua vontade de tomar uns gorós

Está aí você, meu amigo, minha amiga, com aquela vontade irresistível de tomar uma cervejinha gelada depois do expediente. Bem, se alguém criticar, diga que não é exatamente uma escolha sua, mas sim uma herança genética de milhões de anos. Sim, você pode culpar seus ancestrais macacos. Mais especificamente, pode culpar chimpanzés comedores compulsivos de figos fermentados que vagavam pelas florestas africanas enquanto consumiam o equivalente a dois drinks por dia. E não, eles não dividiam.

Macaco manguaceiro tá certo! Continuar lendo “Chimpanzés bêbados explicam sua vontade de tomar uns gorós”

A mamute de 40 mil anos que virou mensageira molecular da pré-história

Imagina a cena: você morre em uma tempestade de neve na Sibéria há 40 mil anos, ainda jovem, seus músculos contraindo pela última vez antes do frio eterno do permafrost te abraçar como um freezer horizontal gigante. Quarenta milênios depois, um bando de cientistas suecos decide bisbilhotar suas últimas atividades celulares como se fossem detetives moleculares investigando uma cena de crime congelada. Pois é exatamente isso que aconteceu com Yuka, uma mamute pequenina que queria vo… nah, ela só queria brincar, mas deu ruim para ela, e milhares de anos depois, em 2010,  seu corpo foi descoberto no nordeste da Sibéria. Continuar lendo “A mamute de 40 mil anos que virou mensageira molecular da pré-história”

Golpe de Estado induz população a assassinar governante

Nesse momento, você descansa, mas não faz a menor ideia do que está acontecendo. Existe um golpe em andamento: operários pretendem usurpar o poder. Dedicado ao trabalho, passa o dia inteiro protegendo sua governante com unhas e dentes… ou o faria, se tivesse unhas e dentes. Mas isso não é para sempre, e um um dia, sem entender muito bem por quê, você e suas irmãs decidem esquartejar a matriarca. Parabéns, o golpe está dado, e a verdadeira vilã está ali no canto, assistindo tudo com um inexistente sorrisinho no rosto.

Você acabou de testemunhar um Golpe de Estado num formigueiro. Continuar lendo “Golpe de Estado induz população a assassinar governante”

Como as abelhas operárias farejam fraqueza e organizam Golpes de Estado

Uma governante outrora poderosa adoece. Um vírus ameaça todo o reino. Súditos previamente leais tramam nas sombras. Uma nova líder, mais vigorosa, ascende ao trono enquanto a anterior é brutalmente destituída. Se você pensou em Game of Thrones, sinto informar que a realidade é ainda mais fascinante – e aterradora –, e está acontecendo neste exato momento em milhares de colmeias ao redor do mundo, onde a política interna das abelhas faria Maquiavel corar de inveja. Continuar lendo “Como as abelhas operárias farejam fraqueza e organizam Golpes de Estado”