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Examinando a Religião

religiãoPor Voltaire
Extraído do Dicionário Filosófico

Voltaire, é considerado como o melhor representante do intelectualismo do século XVIII. Em seu Dicionário Filosófico, Voltaire ataca as mazelas da França de sua época e os absurdos do fanatismo religioso. Neste verbete, o autor – cujo verdadeiro nome era François-Marie Arouet – analisa filosoficamente a religião, mediante sua óptica e seu intelecto.

Primeira questão

O bispo de Glocester, Warburton, autor de uma das mais sábias obras que já se escreveram, assim se exprime, página 8, tomo 1o.: “Uma religião, uma sociedade que não está fundada sobre a crença numa outra vida deve ser sustida por uma providência extraordinária. O judaísmo não está fundado sobre a crença numa outra vida; portanto o judaísmo foi sustido por uma providência extraordinária”.

Vários teólogos se ergueram contra ele; e como se retorquem todos os argumentos, retorquiram o seu; disseram-lhe:

“Toda religião que não estiver baseada sobre o dogma da imortalidade da alma e sobre as penas e recompensas eternas é necessariamente falsa; ora, o judaísmo não conheceu esses dogmas; portanto o judaísmo, longe de ser sustido pela Providência, era, segundo vossos princípios, uma religião falsa e bárbara que atacava a Providência”.

Esse bispo teve alguns adversários que lhe afirmaram que a imortalidade da alma era conhecida entre os judeus, nos próprios tempos de Moisés; ele lhes provou porém mui evidentemente que nem o Decálogo, nem o Levítico,nem o Deuteronômio tinham uma única palavra a respeito dessa crença, e que é ridículo pretender turvar e corromper algumas passagens dos outros livros para concluir daí uma verdade que não está absolutamente anunciada no livro da lei.

O senhor bispo, tendo escrito quatro volumes para demonstrar que a lei judaica não propunha nem penas nem recompensas depois da morte, jamais pôde responder a seus adversários de maneira satisfatória. Estes lhe diziam:

“Ou Moisés conhecia esse dogma e então enganou os judeus não o manifestando; ou ignorava-o, e nesse caso não tinha conhecimentos suficientes para formar uma boa religião. Com efeito, se a religião fosse boa,por que teria sido abolida? Uma religião verdadeira deve ser para todos os tempos e todos os lugares; ela deverá ser como a luz do Sol que ilumina todos os povos e todas as gerações”.

Esse prelado, por esclarecido que fosse, teve muito trabalho em se livrar de todas essas difíceis proposições; porém qual o sistema isento de dificuldades!

Segunda questão

Outro sábio muito mais filosófico, que é um dos mais profundos de nossos dias, apresenta fortes razões para provar que o politeísmo foi a primeira religião dos homens, e que se começou por crer em vários deuses antes que a razão fosse suficientemente esclarecida para não reconhecer senão um Ente Supremo.

Ouso crer, ao contrário, que se principiou por reconhecer um único Deus, e que em seguida a fraqueza humana adotou vários deles; e eis como concebo a coisa:

É indubitável haverem existido burgos antes que se construíssem grandes cidades, e que todos os homens foram divididos em repúblicas antes de ser reunidos em grandes impérios. É bem natural que um burgo atemorizado pelo trovão, afligido pela perda de suas colheitas, maltratado pelo burgo vizinho, sentindo todos os dias a própria fraqueza, pressentindo por toda parte um poder invisível, tenha terminado por dizer:

“Existe algum ser acima de nós que nos causa bens e males”.

Parece-me impossível que tenha dito: “Há dois poderes”. Por que vários? Principia-se sempre pelo simples, em seguida vem o composto e amiúde, enfim, volta-se ao simples mercê de luzes superiores. Tal é a marcha do espírito humano.

Qual é esse ente que se teria invocado a princípio? Seria o Sol? Seria a Lua? Não creio. Examinemos o que se passa entre as crianças; representam mais ou menos o que são os homens ignorantes. Não percebem a beleza nema utilidade do astro que anima a natureza, nem os socorros que a Lua nos presta, nem as variações regulares do seu curso; não o pensam, estão muito acostumadas a todas essas coisas. Não se adora, não se crê senão aquilo que se teme; todas as crianças olham para o céu com indiferença; mas estruja o trovão e elas tremerão, irão se esconder.

Sem dúvida, os primeiros homens agiram de forma idêntica. Apenas umas espécies de filósofos que assinalaram o curso dos astros ensinaram também a admiração e adoração; os cultivadores simples e sem luz alguma não conheciam o bastante para perfilhar tão nobre erro.

Portanto, uma aldeia ter-se-á limitado a dizer: Há uma potência que troveja, que atira neve sobre nós, que faz morrer nossos filhos: acalmemo-la; mas como? Vemos que acalmamos com pequenos presentes a cólera das pessoas irritadas: façamos pois pequenos presentes a essa potência. É também preciso dar-lhe um nome. O primeiro que se oferece é o de Chefe, Dono, Senhor; essa potência é pois chamada Senhor. É provavelmente a razão pela qual os primeiros egípcios chamaram ao seu deus Knef; os sírios, Adonai; os povos vizinhos, Baal ou Bel, ou Melch, ou Moloch; os citas, Papeu: palavras que significam Senhor, Mestre.

Foi assim que se encontrou quase toda a América dividida numa multidão de pequenas populações, tendo todas seu deus protetor. Os próprios mexicanos, os peruvianos, que eram grandes nações, tinham apenas um deus: uns adoravam Manco Capaque, outros o deus da guerra. Os mexicanos davam ao seu deus guerreiro o nome de Vitzlipufzli, assim como os hebreus haviam cognominado o seu senhor de Sabaoth.

Não é por uma razão superior e cultivada que todos os povos começaram a reconhecer uma única divindade. Se tivessem sido filósofos, teriam adorado o deus de toda a natureza, e não o deus de uma aldeia; teriam examinado essas relações infinitas de todos os seres, que provam um ente criador e conservador; porém eles não examinaram nada, eles sentiram. Aí está o progresso de nosso frágil entendimento; cada burgo sentiu sua fraqueza e a necessidade de um forte protetor. Imaginou esse ser tutelar e terrível residindo na floresta vizinha, ou na montanha, ou numa nuvem. Apenas imaginou um só deus, pois o burgo não tinha senão um chefe na guerra. Imaginou-o corporal, porque era impossível figurá-lo de outra forma. Não podia crer que o burgo vizinho não tivesse também o seu deus. Eis por que Jefté disse aos habitantes de Moabe:

“Possuís legitimamente o que vosso deus Camos vos fez conquistar; deveis deixar-nos gozar dos bens que nosso Deus nos concedeu por suas vitórias”.

Tais palavras ditas por um estrangeiro a outros estrangeiros são notáveis. Os judeus e os moabitas tinham desapossado os naturais do país; uns e outros apenas tinham o direito da força, e uns disseram aos outros: – “Vosso Deus vos protegeu em vossa usurpação, tolerai agora que nosso Deus nos proteja na nossa”.

Jeremias e Amos perguntaram um ao outro “que razão teve o deus Melcom para se apoderar do país de Gade”. Parece evidente, por essas passagens, que a antiguidade atribuía a cada país um Deus protetor. Encontram-se ainda hoje vestígios dessa teologia em Homero.

É bem natural que havendo-se aquecido a imaginação dos homens e tendo seu espírito adquirido conhecimentos confusos, tenham eles multiplicado seus deuses, e estipulado protetores para os elementos, mares, florestas, fontes, campos. Quanto mais examinaram os astros, mais foram feridos pela admiração. Poder-se-á não adorar o Sol, quando se adora a divindade de um ribeiro? Desde que o primeiro passo foi dado, a terra em breve foi coberta de deuses; e enfim desce-se dos astros aos gatos e às cebolas.

Entretanto é preciso que a razão se aperfeiçoe; o tempo forma, enfim, os filósofos que percebem que nem as cebolas, nem os gatos, nem mesmo os astros concertaram a ordem da natureza. Todos esses filósofos babilônicos,persas, egípcios, citas, gregos e romanos admitem um Deus supremo remunerador e vingador.

Eles não o dizem a princípio ao povo: pois quem falasse mal das cebolas e dos gatos diante das velhas e dos padres teria sido lapidado; quem quer que reprochasse aos egípcios o fato de comerem os seus deuses, acabaria sendo ele próprio devorado, como, de feito, Juvenal nos relata que um egípcio foi morto e comido completamente cru numa disputa de controvérsia. Mas que se fez? Orfeu e outros estabeleceram mistérios, que os iniciados prometeram mediante juramentos execráveis nunca revelar, e o principal desses mistérios é a adoração de um único Deus. Essa grande verdade penetra metade da terra; o número dos iniciados torna-se imenso. É verdade que a antiga religião sempre subsistiu; mas, como não é contrária ao dogma da unidade de Deus, deixa-se que subsista. E por que aboli-la? Os romanos reconhecem o Deus optimus maximus; os gregos têm o seu Zeus, seu Deus supremo. Todas as outras divindades são apenas intermediárias: imperadores e reis são instalados no posto de deuses, isto é, de bem-aventurados; é porém certo que Cláudio, Otávio, Tibério e Calígula não são considerados como criadores do céu e da terra.

Numa palavra, parece provado que, no tempo de Augusto, todos os que tivessem uma religião reconheciam um Deus superior, eterno, e várias ordens de deuses secundários, cujo culto foi chamado mais tarde idolatria.

Os judeus jamais foram idólatras: porque, não obstante terem admitido alguns malakhim, anjos, seres celestes de uma categoria inferior, sua lei não ordenava de forma alguma que tais divindades secundárias tivessem culto entre eles. Adoravam os anjos, é verdade, isto é, prostravam-se diante deles quando bem entendiam; mas, como isto não sucedia com freqüência, não havia cerimonial nem culto estabelecido para eles. Os querubins da arca não recebiam homenagem alguma. Era costume adorarem os judeus abertamente um único Deus, assim como a multidão inumerável dos iniciados o adoravam secretamente em seus mistérios.

Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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