Jesus Cristo e Super-Homem: A necessidade do herói mítico

Escala e Heróis de Raglan

FitzRoy Richard Somerset, o 4º Barão de Raglan foi um mitologista e acadêmico, cuja principal obra é The Hero: A study in Tradition, Myth and Dreams. Nesta obra ele discute sobre o conceito de herói no decorrer da história e como ele se aplica nos diversos mitos existentes.

Nessa obra, o autor introduz a famosa “Escala de Raglan”, a qual mostra uma espécie de “ranking” de diversos heróis mitológicos (ou não, como veremos adiante). Para tanto, deve-se fazer umas perguntinhas básicas e ver a pontuação do referido herói. As perguntas são:

  1. A mãe do Herói é uma virgem de sangue real;
  2. Seu pai é um rei e
  3. Freqüentemente parente próximo da sua mãe, mas
  4. As circunstâncias da Sua concepção são pouco usuais e
  5. Ele tem a reputação de ser filho de um deus.
  6. À nascença é feito um atentado à sua vida, geralmente pelo pai ou avô maternal, mas
  7. Ele é misteriosamente levado e
  8. Criado por pais adotivos num país distante.
  9. Não sabemos nada da sua infância, mas
  10. Ao atingir a idade adulta ele regressa ou vai para o seu futuro reino.
  11. Após uma vitória sobre o rei e/ou um gigante, dragão ou animal selvagem,
  12. Casa-se com uma princesa, muitas vezes filha do seu predecessor e
  13. Torna-se rei.
  14. Durante algum tempo, o seu reinado é pacífico e
  15. Ele faz leis, mas
  16. mais tarde perde a aceitação dos deuses e/ou do seus súbditos e
  17. É afastado do trono e expulso da cidade, após o que
  18. enfrenta uma morte misteriosa,
  19. frequentemente no topo de um monte,
  20. Os Seus filhos, se sequer os há, não lhe sucedem.
  21. O Seu corpo não é enterrado, mas ainda assim
  22. Ele tem um ou mais santos sepulcros.

Você conhece quantos heróis, semideuses ou mesmo deuses que se encaixam nessa descrição?

Aqui vai uma listinha, com a pontuação ao lado.

  1. Krishna – 21
  2. Moisés – 20
  3. Rômulo – 19
  4. Rei Arthur – 19
  5. Perseu – 18
  6. Jesus – 18
  7. Watu Gunung (da ilha de Java) – 18
  8. Hércules – 17
  9. Maomé – 17
  10. Super-Homem – 16
  11. Beowulf – 15
  12. Buda – 15
  13. Zeus – 14
  14. Czar Nicolau II – 14
  15. Nyikang (um herói da tribo Shiluk, do Alto Nilo) – 14
  16. Sansão – 13
  17. Sunjata (o Rei-Leão dos antigos Mali) – 11
  18. Aquiles – 10
  19. Odisseu (também chamado de Ulisses) – 8
  20. Harry Potter – 8

Como vocês podem ver, Shiva, o deus hindu, possui mais atributos “heróicos” do que Jesus. Não obstante, nem por isso ele é aceito como sendo um deus fora do hinduísmo. Maomé é tido como uma figura histórica, apesar do ceticismo que abrange seus contatos e inspirações divinas (ou seja, ele pode ter existido, mas não da forma como os muçulmanos o vêem). De qualquer forma, também não é aceito fora do islamismo. E o mesmo acontece com os demais heróis e deuses.

O Super-Homem marca 16 pontos na escala Raglan e é um número alto. No entanto é curioso notar que o Czar Nicolau II, uma figura histórica e bem documentada, marca 14 pontos. Em face dessa escala ele estaria acima de muitos e quase chegou perto de Jesus.

Como é fácil notar, podemos usar esta escala com qualquer personagem e veremos que muitas criações do imaginário humano marca altos pontos. Por que, então, deveríamos crer em uma personagem sem documentos claros, sem evidências históricas e nem arqueológicas? A única “prova” que o Jesus Milagreiro realmente existiu é a Bíblia, e esta é cheia de contradições.

O primeiro evangelho a aparecer foi o Evangelho Segundo Marcos. E este apareceu 80 anos depois da suposta existência de Jesus. Ele narra a destruição do Templo em Jerusalém, mas isso só aconteceu na década de 70 do século I. Isso evidencia que não fora o próprio Marcos que o escreveu, pois obviamente ele não é nenhum highlander para viver tanto.

Os demais evangelhos são vistos pelos especialistas como tendo sido baseados no de Marcos; mas, se examinarmos algumas passagens, veremos que elas são muitas vezes contraditórias (como no caso do julgamento e da ressurreição).

Assim, dizer que a Bíblia atesta a veracidade de uma personagem que não aparece em nenhuma parte de documentos históricos (e os que aparecem são claramente forjados) é subestimar a inteligência alheia.

Há uma piadinha ateísta que diz: Se a Bíblia é prova cabal para atestar a existência de Jesus, então os quadrinhos também podem servir de prova que o Super-Homem existe.

As pessoas sempre precisaram, precisam e ainda precisarão de heróis. Sejam bombeiros resgatando pessoas de um incêndio, policiais da Divisão Anti-Seqüestro, civis comuns que esquecem sua própria segurança em prol do próximo ou de figuras a quem se recorre quando nada mais resta.

É aí que entram as religiões para vender os seus planos de salvação. É aí que a venda de HQ’s obtem seu faturamento. Ambas são baseadas em uma necessidade de escapar da realidade e viver num mundo de ficção, já que por vezes o mundo real é intragável. Sempre haverá pessoas que irão se ajoelhar e implorar por um ente querido ou ligar seu relógio-sinal e esperar que a ajuda venha rápido como uma bala, forte como uma locomotiva e que lute em prol dos necessitados…

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