Escala e Heróis de Raglan
FitzRoy Richard Somerset, o 4º Barão de Raglan foi um mitologista e acadêmico, cuja principal obra é The Hero: A study in Tradition, Myth and Dreams. Nesta obra ele discute sobre o conceito de herói no decorrer da história e como ele se aplica nos diversos mitos existentes.
Nessa obra, o autor introduz a famosa “Escala de Raglan”, a qual mostra uma espécie de “ranking” de diversos heróis mitológicos (ou não, como veremos adiante). Para tanto, deve-se fazer umas perguntinhas básicas e ver a pontuação do referido herói. As perguntas são:
- A mãe do Herói é uma virgem de sangue real;
- Seu pai é um rei e
- Freqüentemente parente próximo da sua mãe, mas
- As circunstâncias da Sua concepção são pouco usuais e
- Ele tem a reputação de ser filho de um deus.
- À nascença é feito um atentado à sua vida, geralmente pelo pai ou avô maternal, mas
- Ele é misteriosamente levado e
- Criado por pais adotivos num país distante.
- Não sabemos nada da sua infância, mas
- Ao atingir a idade adulta ele regressa ou vai para o seu futuro reino.
- Após uma vitória sobre o rei e/ou um gigante, dragão ou animal selvagem,
- Casa-se com uma princesa, muitas vezes filha do seu predecessor e
- Torna-se rei.
- Durante algum tempo, o seu reinado é pacífico e
- Ele faz leis, mas
- mais tarde perde a aceitação dos deuses e/ou do seus súbditos e
- É afastado do trono e expulso da cidade, após o que
- enfrenta uma morte misteriosa,
- frequentemente no topo de um monte,
- Os Seus filhos, se sequer os há, não lhe sucedem.
- O Seu corpo não é enterrado, mas ainda assim
- Ele tem um ou mais santos sepulcros.
Você conhece quantos heróis, semideuses ou mesmo deuses que se encaixam nessa descrição?
Aqui vai uma listinha, com a pontuação ao lado.
- Krishna – 21
- Moisés – 20
- Rômulo – 19
- Rei Arthur – 19
- Perseu – 18
- Jesus – 18
- Watu Gunung (da ilha de Java) – 18
- Hércules – 17
- Maomé – 17
- Super-Homem – 16
- Beowulf – 15
- Buda – 15
- Zeus – 14
- Czar Nicolau II – 14
- Nyikang (um herói da tribo Shiluk, do Alto Nilo) – 14
- Sansão – 13
- Sunjata (o Rei-Leão dos antigos Mali) – 11
- Aquiles – 10
- Odisseu (também chamado de Ulisses) – 8
- Harry Potter – 8
Como vocês podem ver, Shiva, o deus hindu, possui mais atributos “heróicos” do que Jesus. Não obstante, nem por isso ele é aceito como sendo um deus fora do hinduísmo. Maomé é tido como uma figura histórica, apesar do ceticismo que abrange seus contatos e inspirações divinas (ou seja, ele pode ter existido, mas não da forma como os muçulmanos o vêem). De qualquer forma, também não é aceito fora do islamismo. E o mesmo acontece com os demais heróis e deuses.
O Super-Homem marca 16 pontos na escala Raglan e é um número alto. No entanto é curioso notar que o Czar Nicolau II, uma figura histórica e bem documentada, marca 14 pontos. Em face dessa escala ele estaria acima de muitos e quase chegou perto de Jesus.
Como é fácil notar, podemos usar esta escala com qualquer personagem e veremos que muitas criações do imaginário humano marca altos pontos. Por que, então, deveríamos crer em uma personagem sem documentos claros, sem evidências históricas e nem arqueológicas? A única “prova” que o Jesus Milagreiro realmente existiu é a Bíblia, e esta é cheia de contradições.
O primeiro evangelho a aparecer foi o Evangelho Segundo Marcos. E este apareceu 80 anos depois da suposta existência de Jesus. Ele narra a destruição do Templo em Jerusalém, mas isso só aconteceu na década de 70 do século I. Isso evidencia que não fora o próprio Marcos que o escreveu, pois obviamente ele não é nenhum highlander para viver tanto.
Os demais evangelhos são vistos pelos especialistas como tendo sido baseados no de Marcos; mas, se examinarmos algumas passagens, veremos que elas são muitas vezes contraditórias (como no caso do julgamento e da ressurreição).
Assim, dizer que a Bíblia atesta a veracidade de uma personagem que não aparece em nenhuma parte de documentos históricos (e os que aparecem são claramente forjados) é subestimar a inteligência alheia.
Há uma piadinha ateísta que diz: Se a Bíblia é prova cabal para atestar a existência de Jesus, então os quadrinhos também podem servir de prova que o Super-Homem existe.
As pessoas sempre precisaram, precisam e ainda precisarão de heróis. Sejam bombeiros resgatando pessoas de um incêndio, policiais da Divisão Anti-Seqüestro, civis comuns que esquecem sua própria segurança em prol do próximo ou de figuras a quem se recorre quando nada mais resta.
É aí que entram as religiões para vender os seus planos de salvação. É aí que a venda de HQ’s obtem seu faturamento. Ambas são baseadas em uma necessidade de escapar da realidade e viver num mundo de ficção, já que por vezes o mundo real é intragável. Sempre haverá pessoas que irão se ajoelhar e implorar por um ente querido ou ligar seu relógio-sinal e esperar que a ajuda venha rápido como uma bala, forte como uma locomotiva e que lute em prol dos necessitados…
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