Pombos, mensagens, heróis e fotos

Muito antes do WhatsApp

Sim, o major Whittlesey poderia ter esta tecnologia em campo de batalha. E até tinha. Mesmo porque, durante a própria Guerra de Secessão, uma divisão dos Signal Corps era responsável por estender cabos e mais cabos de telégrafo para se comunicarem.

Claro, no caso do major Whittlesey, era meio difícil usar os cabos quando eles não tinham sido colocados em posição e enterrados, além de terem poucas condições de fazer uma comunicação com calma e tranquilidade. Cher Ami foi duplamente herói por causa disso.

Obviamente, a Guerra Eletrônica não começou depois da invenção do transístor. Ela já era bem conhecida há muitas décadas. Se já havia comunicação por rádio, tinha-se que impedir que o outro lado escutasse o que você estava falando. As interceptações eletrônicas apareceram em 1900, durante a Guerra dos Bôeres (1899 – 1902). A Marinha Real Britânica instalou aparelhos sem fio produzidos por Marconi (sim, ele mesmo) a bordo de seus navios no final da década de 1890 e o Exército de Sua Majestade usava alguma sinalização sem fio limitada. Como dito antes, dois podem jogar o mesmo jogo (exceto se você for um inútil como aqueles toscos paraguaios que ficaram olhando pros balões de Caxias com cara de tacho); sendo assim, os boêres capturaram alguns aparelhos sem fio e os usaram para fazer transmissões.

Com o nascimento da SIGINT, a frota russa se preparava para o conflito com o Japão, que viria a ser a Guerra Russo-Japonesa (1904 – 1905). É legal saber o que dois países estão fazendo, já se antecipando para quando der problema para você. Por isso, o navio britânico HMS Diana, comodamente ancorado no Canal de Suez, interceptou sinais navais russos sendo enviados para a mobilização da frota, pela primeira vez na história.

Mas e no caso do major Whittlesey? Bem, ele tinha naquela época um corpo para estabelecer linhas de telégrafo no front. Claro, enquanto tem um monte de bombas caindo na sua cabeça, é loucura tentar isso, mas a tecnologia existia, e se chamava “wirephoto” ou “foto a cabo”.

Sim, isso mesmo. Antes da Internet, imagens podiam ser enviadas por telégrafo ou ondas de rádio, com a vantagem que você não recebia áudio de longos 5 minutos no WhatsApp que sequer existia, o que era uma bênção. Para isso, a imagem precisava ser traduzida em sinais elétricos, enviados e depois retraduzida em desenho de novo. Como fazer isso?

Giovanni Caselli era um físico, professor, inventor e padre nascido em Siena, Itália, em 25 de abril de 1815. Em 1855, Caselli inventou um instrumento capaz de transferir uma imagem de um lugar a outro. Sua invenção foi batizada de “Pantelégrafo”, registrada sob a patente número US20698A.


Pantelégrafo

A imagem que iria ser transmitida era desenhada em uma folha de metal eletricamente condutora com uma tinta não-condutora. Esse gabarito era fixado na unidade transmissora e digitalizado, linha a linha, com um movimento de balanço usando uma agulha fina e metálica com aproximadamente três linhas por milímetro. Nas áreas que não foram desenhadas, o circuito era fechado e a corrente era registrada. Quando a agulha passava pelas áreas com tinta, o circuito não era fechado e a voltagem da bateria era mais alta. As tensões elétricas geradas eram transmitidas, já que o telégrafo era exatamente corrente elétrica em pulsos passando pelos fios até chegar no destinatário, percorrendo até mesmo 100 km até a unidade receptora.

Só 100 km? Sim, só, mas em 1855. Creio que está bom, né?

Ernest A. Hummel era um relojoeiro, mas não apenas um relojoeiro. Ele era um relojoeiro curioso que resolveu investigar sobre as possibilidades da então popularizada eletricidade, que estava chegando a mais e mais longe, e fazendo parte do dia-a-dia das pessoas. Ele teve uma ideia: e se eu quisesse mandar imagens por fios? Bem, ele começou a trabalhar nisso em maio de 1895.

Quando Hummel concluiu sua tarefa, batizou sua criação de “Telediagrafo”. Fez alguns testes em janeiro de 1898, mas o teste final e pra valer ocorreu em 19 de abril de 1899, quando Hummel instalou seu equipamento nas sedes dos jornais The New York Times, Chicago Times Herald, St. Louis Republic, Boston Herald e Philadelphia Inquirer. Os escritórios nessas cidades estavam conectados ao escritório de Nova York e, quando tudo estava pronto, as sedes começaram a receber simultaneamente uma imagem precisa “da primeira arma disparada em Manila”. Demorou-se 20 minutos para que esta imagem fosse reproduzida. Se você usou internet no tempo da Internet Discada, não achou nada demais.

Em seguida, outras fotos foram enviadas de volta por telégrafo, através do circuito único, dessas cidades para Nova York.

Repetindo: 1899!


Telediagrafo

O telediagrafo funcionava de maneira semelhante ao pantelégrafo. A diferença é que o desenho era passado por um cilindro, e uma máquina lia a superfície do cilindro, ao invés de uma placa retangular.

O sistema empregava tambores rotativos sincronizados de 8 polegadas, com uma caneta de platina usada como eletrodo no transmissor. A imagem original era desenhada em papel alumínio de 8×6, usando uma tinta não-condutora feita de goma-laca misturada com álcool. Quando o eletrodo tocava a superfície do papel de alumínio, o circuito estava fechado e era mandado um sinal elétrico. Quando tocava a área coberta de tinta, o circuito estava aberto e nenhum sinal era enviado. Uma linda demonstração de zeros e uns em sistemas binários digitais.

A imagem era recebida e redesenhada sobre uma superfície de um sanduíche feito com duas folhas de papel branco, contendo uma folha de papel carbono. À medida que a agulha passava pelo papel, com o papel carbono embaixo, era deixada uma impressão na segunda folha.

A imagem final não era bem uma foto, claro, pois era de uma só cor. Mas havia indicações qual cor era, para os artistas nos locais receptores reproduzirem o desenho, o que também ajudava as pessoas que liam os jornais a ter uma ideia melhor dos detalhes que estavam vendo.

A primeira imagem a ser transmitida foi uma foto do reverendo Mockin, que celebrou o casamento do Almirante Dewey e a senhora Hogan (não, não sei quem são).


Foto a ser transmitida ;
Desenho feito no papel alumínio
imagem recebida

A seguir, a imagem recebida foi pro departamento de arte do New York Herald, onde os desenhistas prepararam a arte-final que iria pro jornal. Nada mal.


Imagem do rev. Mockin publicada

Claro, não ficou nisso. Ter desenhos sendo transmitidos era ótimo e inovador, mas inovação não é inovação se você continua fazendo o mais do mesmo. Os jornais queriam algo mais moderno, de forma a competir e sair na frente, apresentando novidades frente aos seus concorrentes, como, por exemplo, enviar fotos, mesmo; não apenas desenhos, mas fotos. Jornais começaram a falar com o pessoal da Filosofia e Sociologia para resolver isso. Não, péra. Entraram em contato com físicos e engenheiros, mesmo.

Arthur Korn era físico, matemático e inventor alemão. Ah, sim. Ele tinha o problema de ser da etnia “errada”, e como ser judeu na década de 1930 não prometia nenhum futuro promissor, ele picou a mula da Alemanha, ficando bem longe de certos pintores, mas isso ainda era algo que estaria no futuro. Sua preocupação no início do século XX era outra: transmitir imagens de um lugar para outro. Claro, é pra ser dito que ele não criou do nada. Como vimos antes, desenhos já eram enviados em fins do século XIX, mas a bem da verdade, Alexander Bain registrou a patente de uma ideia de um transmissor de fac-símile em 1843.

Em 1846, Bain apresentou a sua invenção, que era um sistema de relógios sincronizados mas estando em dois pontos afastados. Os pêndulos estavam ligados eletricamente e funcionavam juntos, atingindo as extremidades de seu balanço simultaneamente. Ao encaixar um contato em uma extremidade, movendo-se sobre contatos em forma de letra e uma caneta na outra extremidade, ele foi capaz de reproduzir as formas das letras. A caneta se movia sobre papel revestido quimicamente e o papel era movido para frente em cada balanço, traçando assim o formato das letras. Mas ficou nisso. Não era mais eficiente que o código Morse já empregado.

O que Korn fez de especial em 17 de outubro de 1906 causou uma grande sensação não foi mandar letras ou desenhos, mas o retrato do príncipe herdeiro da Alemanha, William, a uma distância de 1800 km, de Berlin para Paris.


Príncipe William

Korn experimentou e escreveu sobre fotografia de longa distância, o “Fototelautógrafo”. Ele foi pioneiro no uso de células de selênio sensíveis à luz, que substituíram a função da caneta, e usou uma lâmpada Nernst como fonte de luz.

Em uma conferência de 1913 em Viena, Korn demonstrou a primeira transmissão telegráfica visual bem-sucedida de uma gravação cinematográfica. Sim, praticamente deu início à TV a cabo. Sob forte atenção da mídia em 1923, ele transmitiu com sucesso uma imagem do Papa Pio XI através do Oceano Atlântico, de Roma a Bar Harbor, Maine, a imagem sendo saudada como um “milagre da ciência moderna”.

A partir de 1928, a polícia alemã usou o sistema de Korn para enviar fotografias e impressões digitais, embora o uso do Fototelégrafo na apreensão de um ladrão de um banco de Stuttgart em Londres tenha sido registrado em 1907, bem como o uso da tecnologia pela mídia, com o jornal francês l’Illustration estabelecendo um monopólio francês de divulgação de imagens que durou até 1909.


Um comentário em “Pombos, mensagens, heróis e fotos

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.