Plínio, o Velho: Heroísmo e Tragédia na Erupção do Vesúvio

Das profundezas da Terra, a ira, o fogo e a destruição virão sob a forma de uma catástrofe. A hecatombe ceifará almas de forma violenta e horrível. É um momento que vidas se perdem e o heroísmo surge. É quando homens são separados de meninos. O momento está chegando, a população não sabe do seu violento destino. Do âmago das camadas inferiores do planeta, o filho de Júpiter e Juno, o horrendo deus que fora salvo por milagre, resolveu deslanchar a sua ira. Um homem comum estava cuidando dos seus afazeres, sem saber que as peças estavam se movendo para alçá-lo como um dos maiores nomes da História, que nem a Mitologia seria capaz de comparar, pois, ele não era filho de um deus ou semideus. Era um homem comum.

O horrendo deus acerta com seu malho com fúria e violência desmedida, e faz fender o chão, e a explosão vem de forma violenta e avassaladora com uma ferocidade jamais vista; e um homem, apenas um homem, resolve fazer o que está ao seu alcance para salvar pessoas. Este homem era Plínio, o Velho.

Em 24 de agosto de 79 E.C. ocorreu um eventos mais cataclísmicos do Império Romano. Neste flagelante dia, a paisagem da Baía de Nápoles mudou para sempre quando o Monte Vesúvio explodiu de forma terrível, destruindo tudo o que estava próximo, e guardou para a posteridade o que o poder da Natureza pode fazer ao riscar do mapa as cidades de Pompéia, Herculano e Oplontis, condenando milhares de pessoas à morte.

Este desastre natural não apenas alterou a geografia da região, como também escreveu nos livros de Historia um vislumbre único da vida romana no primeiro século da Era Comum, esculpindo por meio de cinzas vulcânicas aquele dia fatídico. No centro deste evento dramático encontramos a figura de Plínio, o Velho, cuja morte heroica durante a erupção se tornou tão célebre quanto suas contribuições intelectuais em vida.

O Herói

Gaius Plinius Secundus – mais conhecido como Plínio, o Velho – nasceu por volta do ano 23/24, em Comum (atual Como), no norte da Itália. Plínio, o Velho veio de uma rica e aristocrática família equestre, a segunda ordem mais elevada da sociedade romana após a ordem senatorial. Isso proporcionou-lhe uma educação privilegiada e abriu portas para uma carreira ilustre no serviço imperial.

Embora sua casa ancestral fosse em Comum, Plínio passou grande parte de sua vida adulta em Roma e em várias províncias do vasto império romano. Esta experiência cosmopolita influenciou profundamente a sua visão de mundo e contribuiu para a amplitude de conhecimentos, que mais tarde se refletiria em suas obras, que não seriam poucas nem singelas.

A juventude de Plínio coincidiu com um período turbulento da história romana. Durante o reinado do imperador Nero (54-68 E.C., e eu vou parar de colocar “E.C.” daqui pra frente), conhecido por sua extravagância e crueldade, Plínio treinou e trabalhou como advogado (que na verdade se tratava de duas funções distintas: o orator e o iuris prudente, até juntar tudo como advocatus, “aquele que convoca”). Este período foi marcado por tensões políticas e sociais, incluindo a Grande Revolta na Britânia entre os anos 60 e 61, e o grande incêndio de Roma em 64. Essas experiências certamente moldaram a perspectiva de Plínio sobre o poder e a responsabilidade.

Após a queda de Nero e o tumultuado “Ano dos Quatro Imperadores”, em 69, o talento e a competência de Plínio foram reconhecidos pelo novo imperador, Vespasiano, que reinou entre os anos 69 e 79. Vespasiano era um governante pragmático que buscava estabilizar o império após o caos, e, para isso, promoveu Plínio a uma posição importante na corte imperial. Esta ascensão na hierarquia romana era um reconhecimento pelas habilidades de navegar nas águas turbulentas da política imperial, e só o fato dele não ter sido assassinado a punhaladas no decorrer do seu trabalho já deve ser indício da sua competência, ou as pessoas o temiam, ou ainda as duas coisas, o que é mais provável.

Para além de sua carreira administrativa e militar, Plínio, o Velho, destacou-se como um autor e naturalista altamente respeitado. Sua curiosidade insaciável e dedicação ao estudo resultaram em uma produção literária prolífica. Infelizmente, a maioria de suas obras se perdeu com o tempo. Sabemos, por exemplo, que ele escreveu sobre a história das guerras romanas na Germânia em 20 volumes, uma obra que, se tivesse sobrevivido, seria uma fonte inestimável sobre as interações entre romanos e germânicos no século I, mas infelizmente bárbaros não preservaram esta peça de valioso conhecimento.

No entanto, a obra que garantiu a fama eterna de Plínio é a “Natvralis Historia” (História Natural), uma vasta enciclopédia em 37 volumes que abrange uma variedade impressionante de tópicos. Esta obra monumental, dedicada ao imperador Tito, filho e sucessor de Vespasiano, é muito mais do que uma mera compilação de fatos. Ela representa a amplitude do conhecimento romano no século I, cobrindo campos tão diversos quanto Astronomia, Geografia, Antropologia, Zoologia, Botânica, Agricultura, Farmacologia, Mineralogia e História da Arte.

A “História Natural” não apenas preservou uma grande quantidade de informações sobre o Mundo Antigo, mas também oferece um vislumbre sobre o modo de pensar romano em relação à Natureza, à Ciência e à Arte. Por exemplo, os volumes dedicados à Botânica e à Farmacologia revelam o extenso conhecimento romano sobre plantas medicinais, enquanto as seções sobre Arte fornecem informações cruciais sobre obras e artistas que, de outra forma, teriam sido esquecidos pelo tempo.

No início do reinado do Imperador Tito – que reinou entre 79 e 81 –, Plínio foi nomeado para o prestigioso cargo de comandante da frota naval romana em Miseno. Esta base naval, localizada na costa da Campânia, estava estrategicamente posicionada para proteger a importante rota marítima entre Roma e o Egito, fonte vital de grãos para a capital do império. A nomeação de Plínio para este cargo reflete não apenas suas habilidades militares e administrativas, mas também a confiança que o novo imperador depositava nele.

E foi nesta posição que Plínio mostrou o seu heroísmo.

O Cronista

Os eventos cataclísmicos do ano 79 nos chegam principalmente através do relato de Gaius Plinius Caecilius Secundus, conhecido como Plínio, o Jovem, sobrinho e filho adotivo de Plínio, o Velho. Plínio o Jovem, nasceu em 61 em Como, também. Seu pai morreu durante a sua infância e, depois, o Jovem Plínio e sua mãe foram morar com seu velho tio Plínio, que o abraçou como seu próprio filho. Ele tinha muita admiração por seu tio e era particularmente inspirado por suas atividades acadêmicas, o que iria influenciar tanto a sua vida que isso o salvaria futuramente.

Plínio, o Jovem, se tornou advogado, assim como seu tio, autor e magistrado de renome, servindo como cônsul no ano 100, por sinal, um dos cônsules mais jovens de Roma, aos 39 anos. Em 110, durante o reinado do Imperador Trajano, o Jovem Plínio foi nomeado governador da província de Ponto-Bitínia.

Pelo que se sabe, Plínio, o Jovem, morreu em algum momento entre os anos 112 e 113, deixando uma imensa coleção de cartas e documentos que fizeram dele uma das fontes mais abrangentes sobre a vida e a política romana no século I, bem como o próprio acontecido no ano 79.

O Acontecimento

Você sabe que o Monte Vesúvio explodiu de forma violenta e cataclísmica no ano 79, ainda mais porque eu falei isso mais acima. O documento registrado como Carta 6.16, da coleção de Plínio, o Jovem, nos fornece a narrativa para as horas finais de seu tio. Desde as linhas iniciais da carta, fica claro que um pedido foi feito para um relato preciso da morte de seu tio e dos eventos que levaram a ela.

Este pedido foi feito por ninguém menos que Tácito, um dos maiores historiadores de Roma e autor de grandes obras como os Anais e as Histórias, embora a maior parte das obras de Tácito está perdida, restando apenas fragmentos. Plínio estava profundamente ciente das implicações do interesse de Tácito em seu tio: “Eu sei que a fama imortal o aguarda se sua morte for registrada por você.”

Este relato não foi escrito na época. As duas cartas endereçadas ao historiador Tácito (registradas como 6.16 e 6.20), foram escritas cerca de 25 anos após o evento. Estas cartas não são apenas uma narrativa comovente de tragédia pessoal, mas também documentos históricos inestimáveis, fornecendo a primeira descrição detalhada de uma erupção vulcânica na literatura ocidental.

A história começa no início da tarde de 24 de agosto de 79. Plínio, o Velho, está trabalhando duro em seu último manuscrito, e sua irmã, a mãe do jovem Plínio, também está presente. É sua irmã quem primeiro percebe o aparecimento de uma nuvem estranha e ameaçadora à distância. Plínio, o Jovem, compara a nuvem ao formato de um pinheiro-guarda-chuva (Sciadopitys verticillata), dado que ela se elevava em uma coluna e então se ramificava no topo. Plínio, o Velho, imediatamente percebe que algo de errado não estava certo. Ele ordena que um barco seja preparado para fazer mais investigações. No entanto, ao receber um pedido de socorro de sua amiga Rectina, que vivia próximo à base do vulcão, Plínio transformou sua expedição científica em uma missão de resgate.

Velho Plínio lança uma pequena frota de navios de guerra ao mar com o propósito de ajudar outros ao longo da costa, bem como Rectina. Quando ele chega à casa de Rectina, localizada a cerca de 5 km de Pompéia, seu timoneiro o aconselha a voltar. Mas Plínio se recusa, e em vez disso ele segue em frente para alcançar outro amigo, Pomponianus, baseado em Stabiae, uma cidade da Campania, no sopé das montanhas Lactário a cerca de 6 km ao sul de Pompeia, atualmente chamada Castellammare di Stabia.

A decisão de Plínio de avançar em direção ao perigo, em vez de buscar segurança, é um testemunho de seu caráter. Ele arriscou sua própria vida em uma tentativa de salvar o maior número possível de pessoas, mesmo sabendo dos revezes. Esta ação heroica é ainda mais notável considerando que Plínio tinha 55 anos na época e sofria de problemas respiratórios. Era uma idade considerável para aquela época.

À medida que Plínio e sua frota se aproximavam da costa, as condições pioravam rapidamente. Apesar dos perigos crescentes, Plínio permaneceu calmo, tentando reconfortar aqueles ao seu redor. Quando Plínio, o Velho, chega à casa de Pomponianus, ele tenta acalmar seu amigo realizando tarefas normais. Ele toma banho, descansa e então janta, com a intenção de ficar longe do pior do perigo. Mas, no início da noite, fica claro que a situação está se tornando cada vez mais perigosa.

O Historiador Guerreiro é acordado por seus escravos, e estes apontam que algo muito errado estava acontecendo. O pátio interno está rapidamente se enchendo de cinzas e pedras-pomes, tornando uma fuga cada vez mais difícil. Enquanto isso, o próprio prédio está começando a tremer com pequenos tremores causados pela erupção.

Plínio e seus amigos avaliam as vantagens e desvantagens de sair e permanecer na casa. Lá fora, as pedras-pomes que caem estão ficando maiores, mas lá dentro as fundações da casa estão se tornando instáveis. Após uma breve discussão, eles decidem que é melhor tentar escapar enquanto ainda é possível sair da casa. O grupo apresenta uma imagem incomum ao sair com travesseiros amarrados na cabeça para protegê-los das pedras-pomes que caem.

O amanhecer já chegou a essa altura, mas eles ainda estão cercados pela escuridão causada pelo acúmulo de matéria vulcânica no ar. Enquanto eles atravessam a muralha de cinzas e pedras-pomes, e a escuridão reinante foi descrita como “mais negra e densa do que qualquer noite comum”.

Plínio, o Velho, decide ir até a praia para investigar se uma fuga pelo mar ainda é possível. No entanto, quando ele chega ao mar, fica bem claro que as ondas estão altas demais para lançar até mesmo um barco grande. É nesse ponto que Plínio começa a lutar fisicamente, e ele pede repetidamente água para beber. Seus amigos vêm correndo pela praia para avisá-lo das chamas que se aproximam, mas o destino já estava selado. As chamas chegaram antes e estavam sobre eles, junto com o cheiro intoxicante de enxofre. Ainda assim, o Historiador Guerreiro tentou.

Os Últimos Momentos do Historiador Guerreiro

As condições continuaram a se tornar mais desesperadoras. A escuridão tornou-se quase total, interrompida apenas por relâmpagos e pelos clarões do vulcão em erupção. O ar ficou saturado de gases tóxicos, e foi provavelmente a inalação desses gases que finalmente causou a morte de Plínio, o Historiador Guerreiro.

O último detalhe conhecido sobre Plínio, o Velho, é que ele foi visto apoiado por dois escravos tentando ficar de pé com pouco sucesso. Dois dias depois, segundo o Jovem Plínio, o corpo do Velho Plínio foi encontrado na praia, sem vida, provavelmente devido à asfixia, mas é só isso que se sabe.

A grande ironia do destino seja que a morte do brilhante sábio e historiador durante a erupção do Vesúvio tenha garantido a perpetuação do seu nome, e não apenas por suas realizações literárias e científicas, bem como o seu heroísmo final.

O relato detalhado e conciso de Plínio, o Jovem, a respeito da erupção do Vesúvio, não apenas preservou a memória de seu tio, mas se tornou extremamente valioso para historiadores, arqueólogos e vulcanologistas e arqueólogos. A descrição da nuvem em forma de pinheiro, por exemplo, é tão precisa que um tipo específico de erupção vulcânica explosiva é agora conhecido como “Erupção Pliniana”.

Um estudo importante conduzido por Haraldur Sigurðsson, vulcanólogo islandês, em 1982, utilizou o relato de Plínio para argumentar que a erupção do Vesúvio ocorreu em duas fases principais: uma fase inicial (a pliniana) de queda de cinzas e pedra-pomes pelo ar, seguida por uma segunda fase de avalanches de cinzas quentes. Esta compreensão ajudou os arqueólogos a entenderem melhor como os habitantes de Pompeia morreram e por que tantas evidências foram tão bem preservadas.

A Última História do Historiador

A rigor, o corpo de Plínio, o Velho, não teve um sepultamento digno de sua vida, seu heroísmo ou de sua morte trágica. O relato é esse: foi encontrado, e só. Mais nada se sabe o eu aconteceu depois. Séculos mais tarde, as escavações em Pompeia, Herculano e outras cidades afetadas pela erupção confirmaram muitos detalhes do relato de Plínio, o Jovem. A estratigrafia dos depósitos vulcânicos corresponde às fases da erupção descritas nas cartas, e os restos humanos encontrados contam histórias silenciosas que ecoam a narrativa do Jovem Plínio sobre o pânico e a confusão daquele dia terrível.

No início de 1900, durante escavações na área da antiga Stabiae, Gennaro Matrone descobriu setenta esqueletos, todos considerados vítimas da erupção do Vesúvio. Um destes esqueletos, adornado com uma corrente de colar triplo de ouro, pulseiras de ouro e uma espada curta decorada com marfim e conchas, foi inicialmente e erroneamente identificado como possivelmente pertencente a Plínio, o Velho, devido à sua aparente riqueza e localização.

Mais recentemente, em 2019, o historiador militar italiano Flavio Russo decidiu investigar cientificamente se os restos mortais poderiam realmente ser de Plínio, o Velho. Os resultados, publicados em janeiro de 2020, foram inconclusivos. A análise dos dentes do crânio mostrou que a vítima poderia ter crescido na área de Comum, como Plínio, o Velho. No entanto, partes da mandíbula pertenciam a um homem muito mais jovem, enquanto o resto do crânio poderia ter pertencido a um homem na casa dos 40 ou 50 anos, sendo que Plínio tinha 55 anos quando morreu.

Sim, a mandíbula era de uma pessoa e o crânio era de outra.

A comunidade acadêmica não considera como válidas quaisquer relações entre o crânio, mandíbula ou os adornos do esqueleto com Plínio, o Velho Historiador Guerreiro.

Qual o legado disso tudo?

Eu não sei. Talvez devamos ver a figura de Plínio, o Velho, como um símbolo do melhor da humanidade: um homem que, mesmo diante da morte certa, escolheu a investigação e a solidariedade acima da autopreservação. Talvez o seu legado, preservado nas páginas da História e nas cinzas do Vesúvio, nos inspire a nos lembrar da importância de enfrentar o desconhecido. Talvez não haja legado nenhum, e isso foi mais uma das várias tragédias nas vidas daquelas pessoas; talvez parte desta história tenha sido embelezada por um sobrinho afetuoso, talvez um relato fidedigno.

Mas é uma história, uma história de muitas vidas que se perderam, e vidas que tiveram que seguir adiante. Uma história que nos ensina o quanto a vida pode acabar numa explosão ou simplesmente desvanecer sem nem saber o que aconteceu. Talvez seja a lição para não nos apegarmos a coisas que serão sem sentido nos séculos vindouros e tudo oque fizemos terá sido perdido, mas talvez, só talvez, um simples gesto nos coloque nas páginas da história como protagonistas fazendo um último esforço para fazer a coisa certa.

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