
A História é escrita por ocorrências funestas, fatos intrincados, ocorrências diversas e… decisões aparentemente banais que pouco tem a ver com os acontecimentos em volta, mas acabam por podem mudar o rumo de tudo. Pois bem, deixe-me contar a história de como um rei francês conseguiu entregar metade do seu país para os ingleses por causa de uma barba. Não, não estou falando de uma barba mágica ou encantada; apenas pelos faciais comuns que, quando removidos no momento errado, podem custar um império.
Nosso protagonista é Luís VII, cognominado “o Jovem”, apelido que, diga-se de passagem, não a exatamente um elogio quando você assumia o trono aos 17 anos numa época em que governar significava literalmente sobreviver a tentativas de assassinato, revoltas camponesas e parentes ambiciosos. Rei tinha que ser respeitado como Rei e ter 17 anos no século XII não era lá muito diferente de hoje.
Corria o ano de 1137, e a França ainda era um conceito mais teórico que prático: imagine um rei cujo “reino” se resumia basicamente aos arredores de Paris, enquanto seus “vassalos” controlavam territórios que fariam inveja a qualquer imperador romano. Isso ainda dava aquele temperinho ao pessoal não dar muita importância ao Rei Luisinho. Eu o chamaria de Rei Luisinho se estivesse vivendo naquela época. Aposto que outros o apelidaram de Rei Luisinho. Claro, todo mundo falando às escondidas, porque… né?
O jovem Luís tinha um problema típico da realeza medieval: precisava de dinheiro, terras e prestígio, porque efetivamente ele não tinha nenhum dos três. A solução? Um casamento político bem calculado. A escolhida foi Leonor da Aquitânia, uma jovem de quinze anos que por acaso era dona de aproximadamente um terço da França atual.
Para ter uma ideia da magnitude, estamos falando de um território que ia do rio Loire até os Pireneus, que no mapa atual seria como se alguém fosse dono de toda a Nova Aquitânia inteira, incluindo Bordeaux, Poitiers, Limoges e Pau (vai, liga a 5ª série aí, mas estou falando da comuna francesa situada no departamento dos Pireneus Atlânticos), grande parte da região de Occitânia (especialmente Toulouse e Montpellier), partes do Centro-Vale do Loire, e porções das atuais regiões de Auvérnia-Ródano-Alpes.
Especificamente, o ducado compreendia:
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Aquitânia propriamente dita: correspondente grosso modo à atual região da Nova Aquitânia, com suas ricas planícies atlânticas.
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Poitou: região central-oeste, com Poitiers como capital histórica (atual departamento de Vienne e arredores).
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Gasconha: território ao sul do rio Garona, incluindo as atuais cidades de Toulouse, Auch e Bayonne.
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O condado de Toulouse: uma das mais ricas cidades do sul da França medieval.
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Diversos condados menores: como Angoulême, Périgord, Limousin, Auvérnia, entre outros.
Sim, tudo isso era quintal da moça. Por sinal, Leonor não era apenas rica; ela era a aristocracia medieval em versão premium do premium. Criada na corte do avô, Guilherme IX da Aquitânia – que diga-se de passagem teve a brilhante ideia de inventar a poesia trovadoresca quando não estava ocupado sendo excomungado pelo Papa –, a menina cresceu respirando cultura refinada, arte cortesã e aquela sofisticação que fazia os nobres do norte da França parecerem emergentes da Barra da Tijuca.
Já Luís VII era o oposto ambulante da esposa. Educado para ser padre (seu irmão mais velho teve a inconveniência de morrer antes da hora), o rapaz tinha personalidade de monge: austero, introspectivo, com tendência a resolver problemas rezando em vez de agindo. Ah, sim. E era feio. Feio mesmo para um tempo que praticamente todo mundo era feio. Agora, imagine juntar uma mulher bela, culta e refinada, acostumada a saraus poéticos com um homem cujo hobby era ficar batendo papo com Deus, sem Deus responder (mesmo porque, se Deus respondesse não era religião, e sim esquizofrenia). Deu no que tinha que dar.
O primeiro grande teste do casamento veio com a Segunda Cruzada, em 1147. Luís, influenciado pelo carismático abade Bernardo de Claraval – um dos primeiros especialistas em marketing religioso da história –, decidiu que seria uma boa ideia atravessar meio mundo para reconquistar Jerusalém. Leonor, provavelmente entediada com a vida doméstica em que não fazia propriamente nada, mandou a famosa “se você vai nessa bagaça, eu vou também!”. Era incomum rainhas irem para a guerra, mas Leonor estava pouco se importando com essas convenções.
A cruzada foi um desastre épico. Os franceses foram massacrados na Anatólia, não conquistaram nada de relevante, e ainda por cima Leonor conseguiu se envolver num escândalo em Antioquia. Raimundo de Poitiers, príncipe local e tio de Leonor, recebeu a rainha com uma atenção que gerou fofocas picantes na corte. Os cronistas da época, sempre dispostos a uma boa intriga, sugeriram que havia algo mais que laços familiares ali. Verdade ou não, o estrago estava feito.
De volta à França em 1149, o casamento real estava por um fio. Leonor já não suportava o marido sisudo, e enquanto Luisinho coçava a testa começou a suspeitar que tinha se casado com uma mulher que o fazia parecer ainda mais inadequado do que já era. Foi então que nosso rei jovem bancou o jovem e fez jovenzice, tendo uma das ideias mais catastróficas da história medieval: decidiu cortar a barba fora.
Pode parecer besteira para nós, mas no século XII a barba masculina era praticamente um certificado de virilidade e autoridade. Um nobre sem barba era como um leão sem juba ou um touro sem chifre e… ok, esse último podemos deixar de lado; tecnicamente ainda era o rei, mas ninguém iria levar muito a sério. Rei TEM que ter barba e ponto final, que o diga as iluminuras, esculturas, e todo tipo de arte daquela época. Você pode ver isso até no Senhor dos Anéis. Aragorn com aquela barba rala de membro do PSOL durante todo o filme, quando é coroado rei tá lá, a barbona cheia.
Luisinho, me chega para a Dona Encrenca só faltando fazer TCHA-RAAAN e mostra aquela cara de moleque. Abaixo, uma dramática reconstituição:

Leonor olhou para o marido recém-barbeado e teve uma revelação: estava casada com um homem que parecia um moleque inseguro tentando se passar por rei (não que ela estivesse errada). Para os franceses do norte, os homens do sul eram efeminados por rasparem a barba à moda italiana, e suas mulheres eram vistas não mais como prostitutas. Isso estava na psique de Leonor e a aversão foi instantânea e irreversível; na DR Homérica que se seguiu Leoninha ficou tão exasperada com o marido que, a certa altura, exclamou: “Pensei que ia casar com um rei, mas em vez disso casei com um monge!” (provavelmente, algumas inferências à masculinidade dele se seguiram).
Leonor não foi a única figura de destaque com quem Luís VII brigou, pois também entrou em conflito com o Papa Inocêncio II. Em duas ocasiões distintas, os cônegos católicos escolheram candidatos que Luís VII considerou intoleráveis e se recusaram a reconhecê-los. Autoridades da Igreja zombaram do comportamento de Luisinho e o criticaram por agir como uma criança. Inocêncio II ficou tão frustrado que impôs uma interdição a Luís VII. A interdição não é tão grave quanto uma excomunhão, mas ainda assim foi um duro golpe para um rei que se considerava um cristão devoto e baseava sua autoridade para agir além dos domínios reais em seu papel de defensor da Igreja.
A situação de todos os lados estava tão insustentável que em 1152 eles se divorciaram, usando a desculpa padrão da época: consanguinidade. Primos em quarto grau, uma justificativa que a nobreza medieval guardava no bolso para emergências matrimoniais. Leonor se viu livre, mas ainda tinha umas coisinhas pendentes.
Aqui é onde a história fica realmente interessante. Oito semanas após o divórcio – sim, oito semanas! –, Leonor se casou com Henrique Plantageneta, duque da Normandia. Se Luís VII achava que tinha se livrado de um problema, estava prestes a descobrir que havia criado um monstro geopolítico: Henrique não era um nobre qualquer. Além de duque da Normandia, era conde d’Anjou, Maine e Touraine, basicamente controlando todo o noroeste da França.
Henrique esfrega as mãos e disse: “bem, se veio a mulher, tem que vir as propriedades da mulher”. Luisinho mandou um aqui, ó! Claro, acabou em guerra, pois, era assim que se resolvia problemas de gente grande. Henrique II era de longe o homem mais poderoso a oeste do Sacro Império Romano-Germânico, mas na prática ele estava constantemente sobrecarregado. Henrique II regularmente enviava grandes forças contra um inimigo, geralmente Luís VII, repelia seu rival apenas para ter que conter a crise em outro lugar.
O rei da França era uma constante pedra no sapato de Henrique II. Logo após a paz, em 1156, os dois tiveram outra breve guerra, que terminou quando os reis fizeram uma peregrinação conjunta ao Monte Saint-Michel, que Henrique II patrocinava intensamente.
Henrique II acabou juntando seus domínios com o império aquitano de Leonor. Dois anos depois, em 1154, Henrique se tornou rei da Inglaterra. Pronto: estava criado o Império Angevino, que controlava mais território francês que o próprio rei da França. Para visualizar a catástrofe, imagine no mapa atual da França uma linha imaginária passando por Reims, Dijon e Lyon. Tudo à esquerda dessa linha — toda a costa atlântica, do Pas-de-Calais até a Espanha — pertencia aos ingleses. Luís VII ficou reduzido essencialmente à região de Paris e alguns enclaves espalhados. Era como se o presidente do Brasil acordasse e descobrisse que o Sul, Sudeste e Nordeste tinham virado colônias argentinas.
O casamento de Leonor com Henrique II foi um sucesso em todos os sentidos que o anterior havia falhado. Eles tiveram oito filhos, incluindo futuras lendas como Ricardo Coração de Leão e João Sem-Terra. Leonor se tornou uma das mulheres mais poderosas da Europa, administrando a Aquitânia com mão de ferro e transformando sua corte em Poitiers no centro cultural mais sofisticado do continente. Enquanto isso, Luís VII passava os dias tentando descobrir como recuperar metade do reino que havia perdido por causa de uma decisão estética mal calculada.
Luís VII, para ser justo, não ficou de braços cruzados. Casou-se novamente (duas vezes, na verdade), conseguiu finalmente gerar um herdeiro masculino – Filipe Augusto, que se tornaria um dos grandes reis franceses – e passou o resto do reinado tentando sabotar o império de Henrique II. Mas o estrago estava feito.
Você pode pensar que o poder de Luís VII estava em declínio, particularmente no sul, mas aconteceu exatamente o oposto! Luisinho foi aprendendo às duras penas o que era ser rei, como agir feito rei, como lançar guerras feito um rei, como enfrentar outros reis. Os senhores da França reconheceram que Henrique II era poderoso demais e que seu rei era sua única defesa segura contra o Conde d’Anjou. Em 1159, quando Henrique II tentou tomar Toulouse, o conde Raymond, da cidade, pediu ajuda a Luís VII. O rei da França lançou mais uma guerra, ordenando a seus irmãos que assediassem o norte enquanto ele viajava pessoalmente para o sul, onde expulsava seu rival. Em Chinon, os dois concordaram com uma paz, cimentada pelo noivado do filho mais velho de Henrique II, Henrique, e da filha de Luís VII, Margarida, ambos ainda crianças na época.
As consequências duraram séculos. A perda da Aquitânia inaugurou trezentos anos de guerras entre França e Inglaterra. Cada rei francês subsequente herdou o mesmo pesadelo: como expulsar os ingleses do solo francês. Só conseguiram completar a tarefa no século XV, e mesmo assim foi necessário uma camponesa que tinha umas vibes meio loucas chamada Joana d’Arc para dar o empurrão final. A França agradeceu Joana pelos seus serviços queimando-a como bruxa.
A ironia é deliciosa: Luís VII, ao tentar se livrar de uma esposa temperamental, criou inadvertidamente o maior rival da França medieval. Henrique II, que devia ter morrido de rir quando soube que o rei francês havia se divorciado da mulher mais rica da Europa, deve ter brindado diariamente à navalha que cortou a barba real.
Mais irônico ainda é que Leonor, aos oitenta e dois anos, ainda estava viva quando o neto Ricardo Coração de Leão morreu em 1199. Ela viveu o suficiente para ver o império que ajudou a criar começar a ruir, e provavelmente para se lembrar com carinho do dia em que um rei francês achou que seria boa ideia aparecer em casa sem barba.
A história, meus amigos, nos deixa uma lição valiosa sobre as complexidades do poder medieval, onde o pessoal e o político se misturavam de formas explosivas. Mas também nos lembra de algo mais simples: cuidado com mudanças drásticas de visual. Você nunca sabe quando uma decisão aparentemente inocente pode acabar redesenhando o mapa da Europa. E convenhamos, se até hoje maridos pedem permissão para cortar o cabelo, imagine no século XII, quando pelos faciais eram questão de Estado.
