
Existe uma pergunta que nenhum livro de história costuma fazer com a seriedade que merece: quantas vezes a civilização humana sobreviveu não por competência, estratégia ou sabedoria diplomática, mas por pura e simples sorte? A resposta, se você tiver estômago, é: pelo menos dez vezes documentadas, só na segunda metade do século XX. Provavelmente mais, porque boa parte dos arquivos ainda está registrada como “SECRETO” e somente pros olhos de alguém bem importante. O que se sabe já é suficiente para tirar o sono de qualquer pessoa com menos de três drinques no corpo. Bombas nucleares caindo sobre o território americano. Submarinos prontos para lançar torpedos atômicos porque a água estava quente demais. Exércitos soviéticos em alerta máximo porque a OTAN decidiu fazer um joguinho de guerra realista demais. Um bando de cisnes voando sobre a Turquia. Um urso, sem filiação política conhecida, quase iniciando a Terceira Guerra Mundial numa noite de outubro em Minnesota.
A lista não é não é apenas um punhado de fatos históricos, mas um sombrio relato de como quase chegamos ao fim sem nem mesmo nos apercebermos.
1. O urso que quase acabou com o mundo
Comecemos pelo clássico, o caso mais constrangedoramente absurdo da Guerra Fria. Você já deve saber sobre a Crise dos Mísseis Cubanos, quando Kennedy e Kruschev disputavam para ver quem tinha o maior pau nuclear entre 16 de outubro e 29 de outubro do nervoso ano de 1962, num impasse que o mundo inteiro observava como quem assiste a dois jogadores de pôquer com plutônio em vez de fichas. Os Estados Unidos estavam em DEFCON 3 (um nível de alerta elevado das Forças Armadas dos EUA, indicando prontidão acima do normal). A madrugada de 25 de outubro de 1962 foi um pouco… animada na Base Aérea de Duluth, em Minnesota, um lugarzinho legal que abrigava mais de 130 armas nucleares. Um sentinela avistou uma silhueta escalando a cerca do perímetro e, convicto de estar diante de um sabotador soviético, abriu fogo e acionou o alarme de intruso.
O sinal cascateou até Volk Field, em Wisconsin, onde um defeito técnico no sistema transformou o alarme de intruso no sinal mais temido da época: o aviso de início de guerra nuclear. Dois esquadrões de caças F-106A, armados com foguetes nucleares táticos, foram colocados em prontidão de decolagem imediata. Os pilotos acreditavam plenamente que uma guerra nuclear estava começando, já que foi o que fora passado pra eles. Um oficial precisou entrar com seu carro na pista, faróis piscando, para parar as aeronaves antes que saíssem do chão. O sentinela, enquanto isso, havia descoberto que o temido agente soviético era um urso negro que simplesmente havia decidido explorar a cerca naquela madrugada.
O animal foi abatido. A civilização sobreviveu. O urso não recebeu nenhuma condecoração póstuma. O sentinela teve que dar muitas explicações. Ningu´[em sabe mais detalhes que isso. Imagino que o sentinela não ficou tomando conta de algo mais perigosos que a cafeteira elétrica.
2. O submarino e o homem que disse não
Dois dias depois do urso, no que os historiadores chamariam de “Sábado Negro” da Crise dos Mísseis, o mundo quase acabou de novo. Desta vez, debaixo d’água. O submarino soviético B-59 estava operando próximo ao bloqueio naval americano em torno de Cuba. Sem contato com Moscou por dias, sem saber o que estava acontecendo na superfície, a tripulação vivia num estado de tensão que qualquer submarinista descreveria como insuportável, e quando um submarinista acha que algo está passando dos limites, é porque a coisa tá séria! O calor dentro do casco chegava a 60ºC. O nível de CO₂ estava tão alto que alguns homens desmaiavam. E então o contratorpedeiro americano USS Beale começou a lançar cargas de profundidade sobre eles.
As cargas eram sinais de aviso, não bombas reais. Os americanos queriam forçar o submarino a emergir para identificação. Mas o capitão Valentin Savitsky não sabia disso. Convicto de que a guerra havia começado, ordenou que armassem o único torpedo nuclear do B-59 e preparassem o ataque. Numa embarcação soviética, o lançamento de uma arma nuclear requeria a aprovação de três oficiais sêniores. Dois concordaram com Savitsky. O terceiro, o comandante de brigada Vasili Arkhipov, recusou. Arkhipov convenceu Savitsky a emergir e esperar ordens de Moscou. O submarino voltou à superfície, e o torpedo nuclear ficou no tubo just in case. O historiador Arthur Schlesinger Jr. descreveria mais tarde esse momento como “o mais perigoso de toda a história humana”.
Quando o B-59 emergiu, a cena foi constrangedora para os soviéticos, já que deram de cara com vários navios americanos e, segundo relatos, foi fotografado exaustivamente pela Marinha dos EUA enquanto os marinheiros soviéticos estavam no convés. Savitsky, ainda furioso, teria dito que preferia ter afundado a emergir daquele jeito.
Do ponto de vista operacional, o submarino recebeu ordens de Moscou para não se engajar e retornar à União Soviética; e todo mundo mandou o “acene e vá embora”. Os sobrinhos de Tio Sam com uma das sobrancelhas levantadas e cara de “olha lá, hein”, deixaram os filhos de Stalin darem meia volta e irem pra casa. A missão estava encerrada. Arkhipov e Savitsky teriam tido uma discussão tensa a bordo mesmo após a emersão. Quando a tripulação voltou para casa, não foram recebidos como heróis. O episódio foi enterrado bem fundo na burocracia estatal. Savitsky ficou na carreira, mas o incidente não foi celebrado. Arkhipov idem. A URSS não queria que o mundo soubesse que um de seus submarinos nucleares havia sido forçado a emergir por destroyers americanos durante a crise. O silêncio era mais conveniente do que qualquer versão da história.
Arkhipov morreu em 1998 sem jamais ter sido amplamente reconhecido por salvar o planeta. O mundo que ele salvou mal sabia que precisava ser salvo.
3. O piloto perdido na Aurora Boreal
1962, como podem ver, foi um ano sinistro e no mesmo “Sábado Negro” do B-59, num acúmulo de crises simultâneas que nenhum roteirista teria a coragem de propor sem ser expulso da sala, um piloto americano de reconhecimento U-2 decolou do Alasca em direção ao Polo Norte. O capitão Charles Maultsby deveria usar navegação celestial para se orientar. O problema é que, no meio do caminho, a Aurora Boreal iluminou o céu de forma tão intensa que apagou completamente sua capacidade de distinguir as estrelas de referência. Maultsby voou às cegas. E voou na direção errada! Quando percebeu onde estava, o avião americano havia penetrado fundo no espaço aéreo soviético.
Os soviéticos, já em estado máximo de alerta, lançaram caças MiGs para interceptar e abater o intruso. Do lado americano, caças F-102 foram enviados para escoltá-lo de volta, carregados com mísseis nucleares ar-ar, o que significava que qualquer confronto aéreo poderia se tornar nuclear automaticamente. Maultsby conseguiu planar de volta ao espaço aéreo americano com os tanques quase secos. Khrushchev comentou depois que aquele avião poderia ter sido interpretado como um bombardeiro em missão de ataque, e que isso poderia tê-lo forçado a “dar um passo fatal”. Três incidentes capazes de iniciar uma guerra nuclear aconteceram no mesmo dia, 27 de outubro de 1962, sem que qualquer um dos líderes soubesse dos outros dois enquanto tentava resolver o seu.
4. A Lua que o radar confundiu com 1.000 mísseis
Dois anos antes da Crise dos Mísseis, na madrugada de 5 de outubro de 1960, o sistema de radar BMEWS instalado em Thule, na Groenlândia, detectou o que parecia ser uma enorme formação de mísseis balísticos soviéticos se aproximando da América do Norte. O índice de confiança do alarme chegou a 99,9%. O alerta escalou para DEFCON 1, o nível máximo de prontidão. Líderes militares foram notificados. O sistema de resposta começou a ser ativado.
A explicação, descoberta a tempo por cruzamento de dados com outros sensores, foi que o radar de Thule havia confundido a Lua nascente, refletindo nos sistemas de detecção de uma forma que nenhum engenheiro havia previsto nos testes, com uma nuvem massiva de mísseis intercontinentais. Sim, a Lua. O mesmo astro que inspira poetas desde que o Homo sapiens aprendeu a olhar para cima quase causou, em 1960, uma resposta nuclear americana que teria aniquilado dezenas de cidades soviéticas, com resposta à altura. Os engenheiros atualizaram os algoritmos. A Lua continuou nascendo. Ninguém soube o que tinha acontecido por décadas.
5. O chip de 46 centavos que quase iniciou uma guerra
Na manhã de 9 de novembro de 1979, técnicos do NORAD, no Colorado, receberam um alerta urgente: os soviéticos tinham lançado uma enxurrada de mísseis balísticos contra a América do Norte. Bombardeiros B-52 foram colocados em prontidão. Caças de interceptação decolaram. O avião de comando de emergência do presidente, o E-4 “Doomsday Plane”, saiu da base sem o presidente a bordo. O protocolo de resposta, que uma vez ativado tem uma janela de minutos antes de se tornar difícil de reverter, havia começado a rodar.
O alerta durou seis minutos antes de ser identificado como falso. Um técnico havia acidentalmente carregado um programa de simulação de ataque soviético diretamente nos computadores operacionais do NORAD, sem perceber que os sistemas de treinamento e os de alerta real compartilhavam a mesma infraestrutura. O componente físico responsável pelo colapso do filtro era um chip avaliado em aproximadamente 46 centavos.
O episódio não foi isolado: nos meses seguintes, falhas similares causariam mais três alertas falsos no NORAD, incluindo um em junho de 1980, quando os computadores reportaram 2.200 mísseis soviéticos a caminho dos EUA. O conselheiro de Estado Marshall Shulman declarou publicamente que “alertas falsos deste tipo não são raros, e a complacência com que são tratados me perturba”. Algumas pessoas associaram este evento com o filme War Games, Jogos de Guerra, com Matthew Broderick, em que um garoto inadvertidamente entra no sistema do NORAD e pensa estar jogando um game de guerra, quando na verdade estava zoando os sistemas de alertas.
A rigor, nunca foi estabelecido que uma coisa teve algo a ver com outra. O roteirista Lawrence Lasker afirmou que a ideia nasceu de conversas com hackers e cientistas da computação sobre o quanto os sistemas militares americanos eram mais acessíveis do que se imaginava.
O filme chegou aos cinemas em junho de 1983 e causou um impacto político real: Ronald Reagan assistiu a uma exibição privada na Casa Branca e ficou tão perturbado que, na reunião seguinte do Conselho de Segurança Nacional, perguntou aos generais presentes se aquilo poderia acontecer de verdade. Após uma semana de consultas, a resposta oficial foi: sim, em partes, poderia. Esse episódio contribuiu diretamente para a criação da diretiva NSDD-145, que estabeleceu as primeiras políticas formais de segurança para sistemas computadorizados do governo americano.
O filme não nasceu propriamente do incidente, mas ajudou a consertar o tipo de problema que o incidente havia revelado. A ficção chegou aonde o relatório classificado não havia conseguido.
6. Stanislav Petrov, o homem que salvou o mundo
Na madrugada de 26 de setembro de 1983, o tenente-coronel Stanislav Petrov estava de plantão no bunker de monitoramento de satélites soviéticos em Serpukhov-15, nos arredores de Moscou. O sistema de detecção precoce Oko reportou um alarme máximo: um míssil balístico intercontinental americano havia sido lançado contra a União Soviética. Antes que Petrov processasse a informação, o sistema atualizou o alerta: cinco mísseis. O protocolo dizia que ele tinha menos de dez minutos para reportar à cadeia de comando, o que provavelmente resultaria em contra-ataque nuclear imediato.
Ele hesitou. Algo não parecia certo. A doutrina soviética ensinava que um primeiro ataque americano envolveria centenas de lançamentos simultâneos para destruir a capacidade de resposta antes que ela pudesse ser ativada. Cinco mísseis era um número completamente inconsistente com a lógica de uma guerra total. Petrov decidiu, contra todos os protocolos, classificar o incidente como alarme falso. A investigação posterior revelou a causa: o sistema Oko havia confundido o reflexo do sol em camadas de nuvens de altitude com o rastro térmico de lançamentos de mísseis.
Petrov foi repreendido por não ter seguido o procedimento correto e transferido para um posto menos relevante. Morreu em 2017, num apartamento modesto em Fryazevo, relativamente obscuro. O mundo que ele salvou, mais uma vez, não sabia que precisava ser salvo.
7. O ensaio que os soviéticos confundiram com o Fim do Mundo
Doze dias depois do episódio de Petrov, entre 7 e 11 de novembro de 1983, a OTAN iniciou o que deveria ser um exercício militar de rotina chamado Able Archer 83, simulando a escalada de um conflito convencional até o uso de armas nucleares. O problema é que aquela edição do exercício continha elementos inéditos: formatos nunca vistos de comunicações criptografadas, períodos de silêncio de rádio propositais, 170 voos sem comunicação de rádio transportando 19.000 soldados americanos para a Europa, movimentação de aeronaves com configurações de carregamento de ogivas nucleares indistinguíveis das reais, e a participação de líderes políticos como Margaret Thatcher, Helmut Kohl e Ronald Reagan numa sequência que espelhava precisamente o que os manuais soviéticos descreviam como prelúdio de um primeiro ataque real.
A KGB, já em estado de paranoia elevada por causa do projeto RYaN (criado especificamente para detectar sinais de ataque ocidental iminente), pelo discurso de Reagan chamando a URSS de “Império do Mal”, pelo abate do voo 007 da Korean Air Lines em setembro daquele mesmo ano e pela instalação de mísseis Pershing II na Alemanha Ocidental com capacidade de atingir Moscou em menos de dez minutos, simplesmente não conseguiu distinguir o ensaio da realidade. Aviões soviéticos com armamento nuclear foram colocados em prontidão de decolagem imediata nas pistas. Bombas foram carregadas em configurações nunca usadas antes. O MI-6 (Serviço Secreto de Informações britânico) só soube da extensão da reação soviética porque o agente duplo Oleg Gordievsky repassou as informações. Robert Gates, então diretor adjunto da CIA, afirmou anos depois que “podemos ter estado à beira de uma guerra nuclear sem nem mesmo saber”.
O exercício terminou em 11 de novembro. Os soviéticos desaceleraram. O mundo continuou existindo, da mesma forma que nas outras vezes, sem ter a menor ideia do que havia acabado de acontecer.
8. A bomba nuclear que caiu numa fazenda
Em 24 de janeiro de 1961, um bombardeiro B-52 da Força Aérea americana desintegrou em pleno voo sobre Goldsboro, na Carolina do Norte, depois de problemas mecânicos severos. À medida que a aeronave se partia, duas bombas termonucleares Mark 39 despencaram sobre o solo americano. Cada uma delas tinha uma potência de aproximadamente 3,8 megatons, o equivalente a cerca de 260 vezes a bomba de Hiroshima. Uma abriu seu paraquedas e pousou quase intacta num campo. A outra, cujo paraquedas falhou, mergulhou em alta velocidade e se enterrou profundamente na lama.
A investigação revelou que esta segunda bomba havia percorrido cinco dos seus seis estágios de armamento durante a queda. O único mecanismo que impediu a detonação foi um único interruptor de baixa voltagem, descrito por engenheiros como “não projetado para ser o único ponto de falha na sequência de armamento”. Documentos desclassificados em 2013 confirmaram a avaliação de Robert McNamara, que declarou publicamente que a América havia evitado um desastre “pela menor margem possível”. Uma bomba termonuclear de 3,8 megatons detonando na Carolina do Norte teria destruído cidades num raio de dezenas de quilômetros e provavelmente sido interpretada como o início de um ataque soviético. A Força Aérea nunca conseguiu recuperar o núcleo de urânio da bomba enterrada na lama e comprou o terreno, mantendo-o vedado sob controle da USAF até hoje.
9. O foguete que quase fez Yeltsin apertar o botão
Em 25 de janeiro de 1995, cientistas noruegueses lançaram um foguete meteorológico Black Brant XII da ilha de Andøya para estudar a Aurora Boreal, e se você tá lendo até aqui, já imagina o que vai acontecer. O foguete seguia uma trajetória que passava perigosamente próxima ao corredor de voo de um míssil balístico intercontinental disparado do território americano. O sistema de alerta precoce russo o detectou, computou sua trajetória e concluiu que havia probabilidade significativa de se tratar de um Trident americano em direção à Rússia, possivelmente como parte de um primeiro ataque surpresa para destruir a capacidade de comando soviética antes que a resposta pudesse ser lançada.
O presidente Boris Yeltsin foi acordado. Foram colocadas diante dele as famosas “pastas nucleares”, os dispositivos de comunicação e autorização de lançamento. Pela primeira e única vez confirmada na história, um presidente russo ativou o protocolo de resposta a ataque nuclear. Yeltsin tinha cerca de dez minutos para decidir se lançaria o contra-ataque. Então, aconteceu algo pouco afeito ao Yeltsin: ele parou pra pensar; não apenas isso, ainda consultou os seus generais e concluiu que a trajetória indicava que o objeto não chegaria em território russo.
A Noruega havia notificado previamente 35 países do lançamento do foguete, incluindo a própria Rússia! A informação simplesmente não havia chegado ao pessoal de plantão nos sistemas de alerta. Um formulário não encaminhado para a mesa certa quase iniciou uma guerra nuclear numa tarde de janeiro. Alguém teve que dar muitas explicações a um oficial com cara de poucos amigos na Sibéria.
10. Os cisnes do Apocalipse
Dessa vez, estamos em 26 de julho de 1956. O presidente egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez, rota comercial estratégica controlada até então por uma empresa anglo-francesa, e desencadeou uma crise que reuniu, num mesmo caldeirão diplomático, vaidade imperial, oportunismo soviético e o tipo de mal-entendido militar que quase termina em cogumelo atômico. Britânicos, franceses e israelenses tramaram em segredo uma resposta, formalizada no Protocolo de Sèvres em 24 de outubro do mesmo ano: Israel invadiria o Sinai, e as potências europeias entrariam fingindo separar os combatentes, mas na prática tomariam o canal de volta. Era uma operação militar disfarçada de mediação, o que não enganou ninguém por muito tempo.
A invasão israelense começou em 29 de outubro. Britânicos e franceses intervieram dois dias depois, em 31 de outubro. O plano funcionou militarmente e desmoronou em tudo o mais. Os EUA ficaram furiosos por não terem sido consultados, e ameaçaram destruir a libra esterlina; Londres não pareceu muito preocupada, pois, sabiam que era só bravata. A União Soviética, que precisava de uma distração conveniente enquanto esmagava a revolução húngara, ameaçou Londres e Paris com foguetes. O cenário era de três guerras acontecendo ao mesmo tempo, Sinai, Canal de Suez e Budapeste, com Eisenhower em plena campanha de reeleição e o mundo inteiro tentando calcular se Khrushchev tinha mesmo estômago para confrontar o Ocidente diretamente. Era o pior momento possível para um mal-entendido. E foi exatamente o que aconteceu.
Na noite de 5 de novembro, o quartel-general americano na Europa recebeu, numa janela de poucas horas, quatro alertas simultâneos que criavam no painel de monitoramento da OTAN a imagem quase perfeita de um ataque soviético coordenado em grande escala.
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Primeiro: aeronaves não identificadas sobrevoando a Turquia, com a força aérea turca em alerta máximo.
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Segundo: 100 caças soviéticos detectados sobrevoando a Síria.
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Terceiro: um bombardeiro britânico Canberra abatido sobre a Síria. Quarto: a frota soviética do Mar Negro se movendo através dos Dardanelos em direção ao Mediterrâneo, numa postura que parecia ofensiva.
O General Goodpaster ficou seriamente preocupado com a possibilidade de que os eventos acionassem o plano de operações da OTAN para ataques nucleares contra a URSS. A contenção foi possível apenas porque o cruzamento de informações revelou, uma por uma, as explicações banais por trás de cada alarme. As aeronaves sobre a Turquia eram um bando de cisnes detectados erroneamente pelo radar. Os “100 caças soviéticos” eram uma escolta, com o número muito exagerado, para o presidente sírio Shukri al-Quwatli retornando de Moscou. O bombardeiro britânico havia feito um pouso de emergência por problemas mecânicos, não fora abatido. E a frota soviética estava em manobras de rotina.
Foram quatro coincidências perfeitamente inocentes, alinhadas numa única noite, quase forneceram o pretexto para o primeiro ataque nuclear da história. Os EUA ainda ficaram remoendo que não deram atenção a eles durante a Crise de Suez. Fica pra próxima, amiguinho.
Há um padrão sinistro que conecta todos esses dez episódios, e ele é mais desconfortável do que qualquer teoria da conspiração: a humanidade não sobreviveu à Guerra Fria porque seus líderes eram sábios, porque seus sistemas eram confiáveis ou porque as negociações diplomáticas funcionaram na hora certa. Ela sobreviveu porque, em cada uma dessas ocasiões, houve pelo menos um ser humano, um Arkhipov, um Petrov, um piloto que decidiu não acionar o último interruptor de segurança, que pausou, duvidou, e escolheu a verificação em vez do protocolo, e um líder soviético que estava sem vodka nas ideias já que tinha acabado de ser acordado.
Nós sobrevivemos por puro acaso.
A máquina queria guerra, a burocracia queria guerra, o protocolo queria guerra… mas um número surpreendentemente pequeno de indivíduos com nome, sobrenome e biografia disse “não”, esperou mais trinta segundos, pediu uma confirmação, ou simplesmente não conseguiu convencer o colega de bordo a assinar a autorização de lançamento.
Eric Schlosser, que passou anos pesquisando acidentes com armas nucleares americanas, documentou pelo menos 32 incidentes classificados como “Broken Arrows” apenas nos EUA. O NORAD processou mais de 20.000 conferências de primeiro estágio sobre potenciais lançamentos de mísseis entre 1977 e 1985. Mais de mil foram para segundo estágio. Seis chegaram ao terceiro. O mundo que você habita foi construído sobre essa margem, entre o terceiro e o quarto estágio, entre a verificação e o lançamento, entre Petrov hesitando numa madrugada de setembro e Petrov reportando.
Hoje, ao que se sabe (e deve-se tomar cuidado com isso), existem aproximadamente 12.700 armas nucleares no planeta. Cerca de dois mil estão em alerta de lançamento imediato, prontos para serem disparados em minutos. Os sistemas de alerta precoce evoluíram. As comunicações melhoraram. Os protocolos foram revisados depois de cada susto documentado nesta lista. Mas os cisnes ainda voam, a Aurora Boreal ainda brilha, a Lua nasce, os chips ainda quebram, e nenhum sistema projetado por humanos é imune ao erro humano, ao defeito técnico, ao animal errado no lugar errado, ao formulário que não chegou à mesa certa.
A pergunta que a história da Guerra Fria deixa em aberto não é “como quase acabamos com o mundo?” E uma mais simples, e por isso mais aterrorizante: quantas vezes mais vamos contar com a hesitação de algum oficial insone numa madrugada qualquer para chegar ao dia seguinte?
