
Se você acordou hoje, olhou o calendário e sentiu aquele desconforto irracional de perceber que é sexta-feira 13, pode respirar fundo e direcionar sua indignação para um endereço específico: Thomas Lawson, um dos maiores exportadores de paranoia coletiva da história moderna. O homem que ajudou o mundo inteiro a olhar o calendário com desconfiança nasceu pobre, ficou absurdamente rico, faliu com elegância e morreu esquecido. No meio do caminho, ainda arranjou tempo para afundar um navio e escrever um livro. Não necessariamente nessa ordem.
É verdade que a fama da data como amaldiçoada é mais antiga que Lawson. Mas a combinação específica entre sexta-feira e o número 13, tratada como pacote completo de azar, é muito menos ancestral do que a superstição gosta de admitir.
A sexta-feira já carregava uma reputação sombria dentro da tradição cristã bem antes de qualquer especulador entrar em cena. Era o dia da crucificação de Jesus, naturalmente associado à penitência, ao luto e ao jejum obrigatório. Durante boa parte da Idade Média, as sextas eram dias de abstinência em boa parte da Europa cristã, o que as tornava espiritualmente edificantes e gastronomicamente deprimentes. Para piorar o currículo do dia, algumas tradições populares ainda jogavam na conta da sexta-feira episódios bíblicos variados e igualmente desagradáveis: a tentação de Eva no Éden, o assassinato de Abel por Caim e, dependendo de quem contasse a história, praticamente qualquer catástrofe que não tivesse data confirmada nos textos sagrados.
O número 13, por sua vez, também não precisava de ajuda para ter má reputação. A explicação mais conhecida vem da Última Ceia: treze pessoas à mesa, incluindo Judas, o convidado que transformou aquele jantar em um evento com consequências históricas bastante sérias para todos os envolvidos. A mitologia nórdica contribuiu com generosidade para a causa: Loki aparece como o décimo terceiro convidado num banquete dos deuses em Valhalla, provoca o caos habitual que só ele sabe provocar e a festa termina com a morte de Balder, o deus mais querido do panteão nórdico.
Havia ainda uma questão simbólica mais ampla: em muitas culturas antigas, o 12 representava completude e harmonia, com seus doze meses, doze signos do zodíaco, doze deuses olímpicos e doze tribos de Israel. O 13 aparecia logo em seguida, como aquele colega de trabalho que ninguém chamou para a reunião mas que aparece assim mesmo. Outra explicação popular para a má fama da sexta-feira 13 liga a data à queda da Ordem dos Cavaleiros Templários.
Em 13 de outubro de 1307, uma sexta-feira, o rei francês Filipe IV da França ordenou a prisão simultânea de centenas de templários em todo o reino, acusando-os de heresia e outros crimes; anos depois, o processo culminaria na execução do último grão-mestre, Jacques de Molay. A coincidência da data acabou alimentando a ideia de que a sexta-feira 13 teria se tornado um dia amaldiçoado. Historicamente, porém, não há evidência de que essa superstição tenha surgido na época; a associação parece ser uma interpretação bem posterior, popularizada sobretudo por livros e narrativas modernas.
O que é curioso, e poucos param para notar, é que esses dois medos caminharam separados durante séculos. A sexta-feira tinha sua reputação duvidosa, o 13 tinha a sua, e os dois conviviam no calendário sem se preocupar em formar dupla. Referências literárias francesas do século 19 já mencionavam a sexta-feira 13 com certo ar de mau presságio, mas nos Estados Unidos e na Inglaterra do início do século XX a crença ainda era relativamente rara. Foi exatamente nesse momento que entrou em cena o homem certo, no lugar errado, com o livro mais conveniente possível.
Thomas W. Lawson nasceu em 1857, em Charlestown, Massachusetts, numa família que tinha pouco além da necessidade de sobreviver. Seu pai era veterano da Guerra Civil americana, o conflito que entre 1861 e 1865 matou mais americanos do que todas as outras guerras do país somadas, e morreu quando Lawson ainda era criança, em decorrência dos ferimentos sofridos em combate. Aos doze anos, o garoto já trabalhava como mensageiro num banco de Boston, o tipo de ambiente onde se aprende cedo que dinheiro tem vida própria e costuma circular em direções muito mais interessantes para alguns do que para outros. Ali nasceu sua ambição, palavra que no caso de Lawson funcionava como eufemismo elegante para uma combinação de ousadia, cálculo frio e uma tolerância bastante elástica para dilemas éticos.
Ainda jovem, especializou-se no mercado de ações e demonstrou um faro impressionante para identificar papéis que iriam subir. Esse talento vinha acompanhado de métodos que hoje levantariam sobrancelhas e provavelmente algumas intimações judiciais: manipulação de mercado, bolhas especulativas cuidadosamente infladas e o abandono ocasional de investidores menos atentos à beira da estrada financeira. Na chamada Era Dourada americana, o período entre o fim da Guerra Civil e o início do século XX em que os Estados Unidos assistiram a uma industrialização vertiginosa e ao surgimento de fortunas obscenas, isso não era exatamente um escândalo. Em muitos círculos de Wall Street, era praticamente parte da descrição do cargo.
Seu grande palco foi o mercado de cobre. No final do século 19, Boston era um dos centros financeiros ligados à mineração e Lawson percebeu rapidamente que ali havia oportunidades para quem estivesse disposto a jogar pesado. O boom do cobre o tornou multimilionário e lhe rendeu o título informal de um dos mais controversos “barões ladrões” da Era Dourada, expressão carinhosa que a história reservou para os magnatas que enriqueceram às custas de práticas que nenhum advogado decente recomendaria.
O auge de sua carreira, e o simultâneo início de sua ruína moral, foi a criação da Amalgamated Copper Mining Company, em 1899. A empresa foi montada em parceria com William Rockefeller, irmão do lendário John D. Rockefeller, fundador da Standard Oil e à época o homem mais rico do mundo, e Henry Rogers, diretor executivo da própria Standard Oil, empresa que monopolizou o petróleo americano com uma eficiência que deixaria qualquer cartel moderno com inveja. A ambição era simples e esplendidamente desonesta: dominar o mercado de cobre da mesma forma que a Standard havia dominado o petróleo. Para isso, compraram a Anaconda Copper Company, uma próspera mineradora do Montana, numa operação que alguns especialistas chamaram de “o melhor negócio na história de Wall Street” e outros, com igual desenvoltura, descreveram como um dos menos honestos já realizados na praça.
Os acionistas, encantados com a perspectiva de participar de um megaempreendimento capitaneado pelos maiores barões do capitalismo americano, pagaram fortunas por ações infladas de uma empresa que existia mais no papel do que na realidade. A Amalgamated não tinha diretores reais: seus administradores eram funcionários da Standard Oil operando sob pseudônimo corporativo, e toda a estrutura havia sido montada exclusivamente para adquirir a Anaconda. Quando a manobra ficou evidente, as ações despencaram, o grande monopólio do cobre nunca se concretizou e muitos investidores descobriram que haviam pagado caro para financiar a própria ilusão. A Anaconda, ironicamente, acabaria se tornando uma das maiores mineradoras do mundo durante o século XX, o que é exatamente o tipo de final que só a história consegue inventar para envergonhar todo mundo.
Enquanto enriquecia, Lawson tratava os prejuízos de seus clientes como efeito colateral inevitável do capitalismo moderno, categoria filosófica que sempre encontra adeptos entre aqueles que estão no lado certo da equação. Mas no início do século XX, quando seus próprios negócios começaram a se complicar, ele passou por algo que poderíamos chamar, com bastante generosidade, de uma crise de consciência.
Em 1906, publicou uma série de artigos sob o título “Finanças Frenéticas: A História da Amalgamated”, denunciando manipulações de mercado, subornos a membros do Legislativo e esquemas obscuros que havia ajudado a construir ao lado de Rockefeller e Rogers. O material virou livro, fez sucesso e incluía um capítulo inteiro sobre como as manipulações de Wall Street afetavam o país inteiro. O público adorou. Seus antigos sócios, naturalmente, ficaram menos entusiasmados. E Lawson descobriu que há um problema estrutural em se reinventar como reformista moral quando boa parte do público que você quer convencer foi diretamente lesada por você.
Foi nesse contexto de arrependimento lucrativo que ele escreveu “Sexta-Feira 13”, romance publicado em 1907. A história acompanha um corretor de Wall Street que decide provocar um colapso financeiro justamente nessa data, destruindo seus inimigos com a mesma metodologia que o próprio Lawson havia aplicado na vida real, só que com mais consciência narrativa. Não era exatamente Dostoiévski, mas tinha o mérito de ser escrito por alguém com experiência prática no assunto. O livro não era grande literatura, mas teve um efeito cultural desproporcional ao seu valor artístico: ajudou a fixar na imaginação popular a ideia da sexta-feira 13 como o dia preferido do azar, unindo de vez os dois elementos que até então circulavam separados pelo folclore ocidental.
A vida pessoal de Lawson combinava com o personagem. Em Scituate, Massachusetts, ele construiu um complexo chamado Dreamworld, com jardins elaborados, estábulos para cavalos de raça e embarcações caras. Uma delas era o Thomas W. Lawson, o maior veleiro sem motor já construído, com sete mastros e capacidade para transportar cerca de sessenta mil barris de óleo. Na madrugada de 14 de dezembro de 1907, um sábado nos calendários britânicos, o navio afundou próximo às Ilhas Scilly (localizadas a sudoeste da península da Cornualha, na Inglaterra) após enfrentar uma tempestade violenta. Em Boston, por conta da diferença de fuso horário, ainda era sexta-feira 13. O naufrágio provocou um enorme derramamento de óleo e é lembrado como um dos primeiros grandes desastres ecológicos desse tipo. Para um homem que havia ajudado a popularizar a superstição da data, era uma ironia histórica de qualidade superior.
Na década de 1920, Lawson estava profundamente endividado. A fortuna evaporou, as propriedades foram a leilão e ele terminou a vida muito longe do luxo que havia construído com tanto esforço e tão pouco escrúpulo. Morreu em 1925, pobre e praticamente esquecido, numa trajetória com a simetria rara de quem começa no nada, passa pelo tudo e volta ao nada sem desvios.
Mesmo assim, deixou marcas onde menos se esperava. O investidor e escritor Ken Fisher o incluiu, em 2007, entre as “100 mentes que fizeram o mercado”, reconhecimento tardio pelo gênio torto de um homem que sabia exatamente o que estava fazendo, mesmo quando o que estava fazendo era questionável. E há quem herde sua memória de forma ainda mais doméstica: o sofá Lawson, modelo de design clássico que ele mandou criar porque detestava as poltronas vitorianas de sua época, ainda é produzido e vendido nos Estados Unidos com seu nome.
No fim das contas, Thomas W. Lawson conseguiu o que poucos homens alcançam: deixar sua marca no mercado financeiro, na literatura popular, no design de móveis e nas superstições de meio mundo. Tudo isso sem que a maioria das pessoas que sentem aquele desconforto irracional ao ver um calendário de sexta-feira 13 faça a menor ideia de quem ele foi. É o tipo de legado que dispensa obituário.
