Evolução vs Criacionismo

A chave do mistério

O mundo biológico é muito vasto. Trilhões de formas de vida, divididas em dezenas de milhões de espécies. Desde a mísera ameba até o ser humano. Se bem que alguns seres humanos se comportam como tendo o QI de uma ameba… Mas, como surgiu tudo isso?

Bem, se você prestou atenção no texto da página anterior, você sabe o que é uma espécie. Se não entendeu, sugiro que compre um livro de biologia e estude mais. Evolução é basicamente isso: a transformação de uma espécie.

O que faz esta transformação? Pode ser qualquer coisa. Essa transformação pode ser aleatória. Pode acontecer a qualquer minuto (ou pode simplesmente não acontecer), mas o detalhe é o que a permite.

Qualquer leitor de quadrinhos sabe (mesmo que um tanto exageradamente) que nós somos feitos de cromossomos. Eles sempre são em pares (no caso dos humanos normais, 23 pares), pois herdamos metade dos cromossomos do pai e a outra metade da mãe. Esses cromossomos são formados por milhões de genes. E o conjunto disso tudo fornece o código genético. Se apenas um gene estiver fora do lugar, podemos ter algo muito, muito bom ou algo muito, muito ruim.

Quando o seu pai, naquela linda sessão de sexo selvagem que teve com sua mãe (sim, seus pais fazem sexo; ou pelo menos fizeram um dia), cedeu seus queridos espermatozóides à sua mommy – claro que eu levo em conta que eles não usaram camisinha ou outro método anticoncepcional qualquer – os espermatozóides carregaram metade de suas informações genéticas. O óvulo de mommy trouxe metade das informações genéticas dela. Para maiores informações, estudem sobre mitose e meiose no seu livro de biologia favorito.

Bem, a divisão não foi (ou não deveria ser) feita de qualquer jeito. Os pares cromossômicos de cada um se bipartiu e cada metade para um lado. O DNA, que é uma espiral dupla, se divide e voilá!

Quando o espermatozóide fecundou o óvulo, houve uma fusão dos dois gametas (não vou dizer o que é gameta, vai estudar!), fundindo as metades do DNA e pronto! Um ser vivo novinho em folha, com os originais de fábrica e sem opcionais! Ou não.

O DNA é uma estrutura onde há milhões de genes, cada um responsável por uma ação num ser vivo. Desde características físicas, como a cor dos olhos, até a tendência a apresentar doenças (anemia falciforme, por exemplo). Um gene fora do lugar e babau! Intolerância à lactose é um exemplo. Algumas pessoas simplesmente não podem beber leite in natura. Mas, felizmente, atualmente nós temos leite sem lactose. A Ciência marca ponto mais uma vez.

Por algum motivo qualquer, quando um ser vivo se reproduz, seus descendentes podem vir com alguma anomalia, por assim dizer. Como se um dos degraus da escada do DNA viesse fora do lugar, um gene se ativa ou desativa, propiciando uma nova característica ou eliminando uma característica pré-existente. Chamamos a isso de mutação.

Esqueça os X-Men. Uma mutação não fará você lançar feixes de energia pelos olhos ou controlar o clima. Seria legal se tivéssemos um fator de cura que agisse contra qualquer ferimento ou doença, mas infelizmente (ou felizmente) isso nunca foi evidenciado e tal coisa dificilmente ocorrerá um dia em seres humanos.

É através dessas mutações que começa o processo evolutivo, mas tem algo por trás disso. Algo sinistro, ruim e implacável. Uma ação que determinará o futuro dos seres vivos em potencial. Algo tão mesquinho que só podia ser uma ação inconsciente, e que não faz as coisas por bondade ou ruindade. Simplesmente é algo que delimita qual a capacidade do ser vivo manter-se por gerações.

Seu nome é Seleção Natural. Antes de aprendermos sobre ela, vamos voltar um pouco no tempo, falando um pouquinho sobre um certo inglês de nome Darwin.

Erasmus Darwin pertencia à família Darwin-Wedgwood e era avô de um menino que seria batizado como Charles. Erasmus nasceu em 12 de dezembro de 1731 e faleceu em 18 de abril de 1802 em Nottinghamshire, Inglaterra. Foi médico, filósofo natural, fisiologista, inventor e poeta. Vovô Darwin foi um dos membros fundadores da Lunar Society, um grupo de discussão de pioneiros industriais e filósofos naturais.

Vovô Darwin ingressou na Lichfield Botanical Society afim de traduzir os trabalhos de Lineu, do latim para o inglês, o que demorou 7 anos. O resultado foram duas publicações: A System of Vegetables (Um Sistema dos Vegetais), entre 1783 e 1785, e The Families of Plants (As famílias das plantas) em 1787. Nestes volumes, Erasmus Darwin cunhou muitos dos nomes em inglês das plantas que são empregadas hoje em dia.

Vovô Darwin então escreveu “The Loves of the Plants” (O Amor das Plantas), um longo poema, bem como escreveu “Economy of Vegetation” (Economia da Vegetação) e juntos, os dois trabalhos foram publicados no The Botanic Garden.

No entando, seu mais importante trabalho científico foi Zoönomia (escrito entre 1794 e 1796), o qual contem um sistema de patologia, e um tratado sobre “Geração”, no qual ele – segundo seu netinho Chareles – antecipou as deduções de Lamarck. Como podem confirmar os botânicos, o fruto não cai longe do pé. Nem que o fruto seja uma geração depois. ;)

Vovô Darwin baseou suas teorias na teoria psicológica de David Hartley chamada “Associacionismo”. A essência de suas ideias está contida na seguinte passagem, a qual ele segue a conclusão que uma única forma de filamento vivo é e sempre tem sido a causa de toda a vida orgânica:

Seria demasiado ousados para imaginar que, no grande período de tempo decorrido desde que a Terra começou a existir, talvez milhões de anos antes do início da história da humanidade seria demasiado ousado imaginar que todos os animais de sangue quente tenham surgido a partir de filamento vivo, que a grande Causa Primeira presenteou com animalidade, com o poder de asquirir novas partes, que reuniu novas capacidades, dirigido por irritações, sensações, volições e associações, e, portanto, possuem a faculdade de continuar a melhorar a sua própria atividade inerente, e de fornecer a essas melhorias em geração a sua posteridade, mundo sem fim!

Podemos vislumbrar aí um curto, rudimentar, mas não menos interessante esboço do processo evolutivo, onde microorganismos, com o tempo, adquiriam capacidades inatas em, através dos mecanismos da Seleção Natural, iriam passar tais características aos seus descendentes.

Não se sabe no que Vovô Darwin estava pensando quando escreveu isso, mas ele antecipou muita coisa em suas poucas linhas, toda uma teoria que consumiria um livro inteiro e abalaria o mundo nos anos a seguir. O que se sabe é que Erasmus Darwin estava familiarizado com o pensamento evolucionário de James Burnett, Lord Monboddo, e citou-o em seu trabalho de 1803 chamado “Temple of Nature” (Templo da Natureza).

Saindo da Inglaterra, vamos para a França, onde Jean-Baptiste Lamarck nasceu em 1 de agosto de 1744. Ele foi um dos primeiros a ter ideias sobre o processo evolutivo e, por isso, é chamado de “pré-darwinista”. Aliás, foi ele que, de fato, introduziu o termo “Biologia”, para a ciência que estuda a vida.

Lamarck era um essencialista (ou fixista) que acreditava que as espécies eram fixas e imutáveis. Mas graças ao seu trabalho sobre os moluscos da Bacia de Paris, ficou convencido da modificação das espécies ao longo do tempo, e desenvolveu a sua teoria da evolução (apresentada ao público em 1809 na sua Philosophie Zoologique).

A teoria evolucionista proposta por Lamarck (também chamada de Lamarckismo) propõe que a evolução das espécies depende de dois fatores fundamentais. São eles:

Lei do uso e desuso dos órgãos ou 1ª Lei de Lamarck – Segundo esta lei, os organismos desenvolvem seus órgãos segundo suas necessidades e outros se atrofiam decorrentes do desuso. Lamarck procurava, dessa forma, explicar características no organismo que podem sofrer adaptações por impulsos internos a fim de estabelecer uma relação harmoniosa com o meio ambiente.

Assim, um órgão passa por transformações sucessivas para atender às necessidades do meio externo. Em outras palavras, se você não precisa de um braço, ele iria encolher até sumir por completo. Um exemplo notório do Lamarckismo são as girafas. À medida que elas necessitavam alcançar folhas em galhos mais altos, seus pescoços iam aumentando de tamanho até chegar ao que é hoje. E, segundo a teoria, continuaria crescendo.

Lei da herança dos caracteres adquiridos ou 2ª Lei de Lamarck – Segundo esta lei, as alterações sofridas no organismo, ao longo da vida de um determinado ser, eram transmitidas aos seus descendentes por hereditariedade. Sabemos que somente por modificações nos genes é que se recebe uma herança de um antecessor, pois o DNA passa o gene para o RNA e este transfere para a proteína. Quando o gene é transferido para a proteína não há possibilidade de modificar as informações do RNA e do DNA, portanto não existem condições para que tais alterações sejam hereditárias.

Explicando melhor a idéia de Lamarck, se você é um indivíduo branco-azêdo, casado com uma moça também branca como neve e resolvesse que seu filho deveria ser moreninho, bastaria que vocês dois fossem à praia no domingão de sol, ficando lá quarando que nem roupa recém-lavada, até adquirirem uma linda cor vermelha-lagosta (e um câncer de pele), chegar em casa e partir pro rala-e-rola. Nada de safadeza na praia, tem muita criança olhando!

Infelizmente, isso não adianta de nada. Se vocês dois são caucasianos, podem ficar vermelhos que nem pimentão, seus filhos serão brancos também. Mas se sua mulher der à luz a um menino mulatinho, não culpe Lamarck (mesmo porque, ele não era negro). Ao invés disso, contrate um advogado pro divórcio.

Agora, se você é branco, mas com ancestrais mulatos, é bem possível que você tenha um filho mulato. Assim como filhos de negros podem sair com olhos verdes. Agora, se dois negros tiverem um filho japonês, deixe o advogado especializado em divórcio de lado e chame a polícia, pois alguém na maternidade fez besteira! (intencional ou não)

As idéias de Lamarck estavam de certa forma erradas, mas alguém tinha que começar com alguma idéia. Com o tempo, verificou-se que as espécies não mudam pra atender às necessidades. Isso seria algo um tanto misericordioso.

Só que de misericordiosa, a Seleção Natural não tem nada.

Agora entramos no maravilhoso mundo natural. Onde apenas os fortes sobrev….

Pééééééééééééééé

Esqueça isso! Essa conversa mole de “somente os fortes sobrevivem” é tão fantasiosa quanto malucos com espadas saírem decapitando-se mutuamente, gritando “There can be only one!”

Para desespero de muitos que tentam contrariar a Evolução, nenhum cientista sensato emprega este argumento. Evolução nunca disse que somente os fortes sobrevivem. Quem é mais forte? Um urso cinzento ou um simples rato-canguru? Deixe-os num deserto como o de Atacama, no Chile, e você descobrirá.

A Seleção Natural age sobre organismos vivos. Se eles estão adaptados ao seu ambiente, eles continuarão cruzando, fazendo filhotinhos e dando continuidade à espécie. Ou seja, não importa quem é o mais forte e sim quem está adaptado ao ambiente em que vive.

Darwin percebeu isso, embora não de imediato. Em sua expedição no Beagle, principalmente depois de uma visitinha a Galápagos (ilha na costa equatoriana), ele notou que haviam diferentes espécies de animais, algumas diferindo muito sutilmente, outras, nem tão sutis assim. Como no caso dos famosos tentilhões. O fator diferencial foi a barreira geográfica, pois o ser vivo que não estiver previamente adaptado ao ambiente vai pras cucuias. É curioso saber que Darwin era muito jovem quando foi pra expedição. Na verdade, o capitão do barco, Robert Fitzroy, queria alguém inteligente e culto com quem pudesse conversar durante a viagem. Não estava previsto que Darwin seria o naturalista oficial. Nem sequer tinham pensado nisso. Com o tempo, as anotações de Darwin se mostraram primordiais. Ele recolheu várias caixas com amostras, contendo 1.529 espécies em frascos com álcool e 3.907 espécimes preservados, e mandou para a Inglaterra, pedindo para colaboradores darem suas opiniões e isso tudo ele deixou anotado em seu diário de viagem.

Dificilmente na Ciência um pesquisador trabalha sozinho. Darwin fez o que qualquer criatura inteligente faria: deixou que especialistas examinassem espécimes dentro de sua área. As aves ficaram a cargo do ornitólogo John Gould, que foi quem avisou a Darwin que os diversos tentilhões trazidos pertenciam à mesma espécie, só o bico que variava de tamanho e formato. Os répteis ficaram a cargo de Thomas Bell e os mamíferos foram examinados por Richard Owen.

Sobre as variações adaptativas dos seres vivos em meio ao ambiente em que vivem, outros cientistas perceberam isso também. Um deles foi Alfred Russel Wallace.

Em 1855, o inglês Alfred Russell Wallace publicou um artigo, “On the Law Which has Regulated the Introduction of Species” (Sobre a Lei que tem Regulado a Introdução das Espécies), onde ele junta e enumera observações gerais sobre a distribuição geográfica e geológica das espécies. É por causa disso que Wallace é chamado de Pai da Biogeografia. Ele ainda conclui que “Cada espécie surgiu coincidindo tanto em espaço quanto em tempo com uma espécie proximamente a ela aliada.” Esse artigo, também conhecido como a Lei Sarawak (assim denominada devido ao estado de Sarawak, localizado na ilha de Bornéu) foi um prenúncio ao monumental artigo que ele escreveria três anos mais tarde.

Wallace encontrou-se brevemente e apenas uma vez com Darwin, e foi um dos seus numerosos correspondentes de todas as partes do mundo, cujas observações Darwin utilizou para dar suporte às suas teorias. Wallace sabia que Darwin se interessava muito sobre como e porque as espécies se originavam, e confiava na opinião dele sobre o assunto, ou seja, Wallace via em Darwin um aliado e não um competidor por títulos e glórias. Assim, Wallace enviou a Darwin seu ensaio “On the Tendency of Varieties to Depart Indefinitely From the Original Type” (Sobre a Tendência das Variedades de se Separarem Indefinidamente do Tipo Original) em 1858, e pediu-lhe que escrevesse a crítica.

Em 18 de junho de 1858, Darwin recebeu o manuscrito de Wallace. Embora o ensaio de Wallace ainda não propusesse o famoso conceito de Seleção Natural, enfatizava uma divergência evolutiva entre as espécies e suas similares. Nesse sentido, era essencialmente o mesmo que a teoria sobre a qual Darwin tinha trabalhado durante 20 anos, e que nunca tinha sido publicada. Darwin escreveu a Charles Lyell: “ele não poderia ter feito um resumo melhor! Até os seus termos constam agora nos títulos dos meus capítulos!”

Apesar de Wallace não ter pedido que publicassem o seu ensaio, Charles Lyell e Joseph Hooker decidiram apresentar o ensaio junto a trechos de um artigo, que Darwin havia escrito em 1844 e mantido confidencial, à Linnean Society of London, em 1 de julho de 1858, dando destaque à teoria de Darwin.

Isso pode parecer uma grande facada nas costas, mas nunca fora a intenção de Darwin. O que aconteceu foi que o prestígio de Darwin no meio acadêmico era muito superior ao de Wallace, que (pelo menos acredita-se assim) não teria sido levado tão a sério quanto Darwin foi. Darwin conseguiu tantos inimigos com sua obra quanto este que vos escreve aqui. Se não, mais! Principalmente depois que ele escreveui “A Descendência do Homem”, onde ele demonstra que o ser humano não se destaca em nada na natureza, posto que é um animal como qualquer outro e, horror dos horrores, seres humanos são primatas e possuem um ancestral comum com os macacos. Mais uma vez terei que ressaltar: O HOMEM NÃO VEIO DO MACACO!! Apenas estamos no mesmo galho (deliciosa expressão que não é bem um trocadilho, mas funciona também como tal) evolutivo que nossos amigos chimpanzés, bonobos, gorilas etc.

Por causa disso, Darwin foi severamente atacado e é daí que vem a famosa caricatura retratando Darwin com um corpo de macaco. Mas, que se pode esperar de fundamentalistas iletrados, com baixa capacidade de interpretação de texto? A sorte de Darwin é que ele era apoiado por outros cientistas e intelectuais, e seu mais ardoroso defensor foi Thomas Huxley, avô do escritor Aldous Huxley.

Considerando que Darwin nunca foi grande coisa como orador, coube a Huxley defender muitas da idéias de Darwin, apesar de se opor a algumas partes delas. Por causa disso, Huxley ficou conhecido como “O Buldogue de Darwin”; e só para ilustrar o quanto ele defendia as idéias de seu amigo, num debate com Samuel Wilberforce (ao que me consta, ele não era jornalista, mas vai saber…), que – à boa maneira dos leigos intrometidos que adoram falar bobagens – perguntou sarcasticamente a Huxley se fora através da sua avó ou do seu avô que ele alegava a descendência de um macaco.

Huxley – uma espécie de precursor do Ceticismo.net – fuzilou:

Se a questão é se eu preferiria ter um macaco miserável como avô ou um homem altamente favorecido pela natureza, que possui grande capacidade de influência, mas mesmo assim emprega essa capacidade e influência para o mero propósito de introduzir o ridículo em uma discussão científica séria, eu não hesitaria afirmar a preferência pelo macaco!

Owned by Huxley!

A diferença básica entre Darwin e Wallace é que o primeiro considerava que a seleção agia sobre os indivíduos, enquanto que o segundo achava que eram as populações a unidade básica de transformação. Parece maluquice, mas ambos estavam certos. As mutações ocorrem indivíduo a indivíduo. A Natureza não escolhe que um determinado grupo terá a mesma mutação genética.

Em contrapartida, a Evolução só será evidenciada com vários indivíduos apresentarem a mesma mudança, cruzando-se entre si e gerando descendentes férteis. Estes passaram seus genes adiante e assim sucessivamente. A não ser que a mutação seja algo maléfico e dizime quase toda a população.

Além disso, Wallace enxergava a evolução como uma escada de progresso com formas superiores e inferiores, bem diferente da visão de Darwin que desde cedo apontava que “não existe superior ou inferior”, e nisso Darwin estava certo e Wallace errado. Sobre seu artigo “Da tendência das variedades divergirem indefinidamente do tipo original”, Wallace postula que originalmente uma população de “espécie-pai” dá origem a variedades que, frente às condições ambientais, se tornariam “variedade superior” e “variedade inferior”. Se a situação de uma dada região geográfica muda, tanto a população da “espécie-pai”, como da “variedade inferior” diminuem rapidamente podendo vir a se extinguirem. Com isso, só a “variedade superior” conseguiria se manter e passaria a ocupar a área de ocupação das outras duas. Dessa maneira a população da “variedade superior” substituiria a “espécie-pai”, tornando-se uma nova espécie. A repetição desse processo resulta no desenvolvimento progressivo e na divergência contínua do tipo original.

Mas, afinal de contas, o que foi que causou as diferenças? Uma força sobrenatural?

Poderia ser, se a Seleção Natural fosse parte de alguma religião, onde basta afirmarmos algo sem provas, que ela terá que ser aceita, sem a menor contestação, violando os princípios básicos do Método Científico, tornando-se mais um dogma. Acontece que a Seleção Natural não é uma entidade, não é um ser vivo ou ser bruto. Ela é apenas um evento, assim como a Gravidade é um evento observado entre corpos, que interagem entre si. A Seleção Natural acontece quando o meio-ambiente seleciona os seres vivos que estão adaptados a ele. Caso contrário, sinto muito, o ser vivo vai perecer.

É incrível como um evento aleatório gera esta infinidade de seres vivos… SE fosse aleatório. Mas, não é.

Mutações ocorrem aleatoriamente, mas não de qualquer forma. As reações físicas e químicas seguem padrões… leis, se quiserem chamar assim. Ácido clorídrico mais hidróxido de sódio formará – se usarmos um equivalente-grama de cada – um equivalente-grama de cloreto de sódio e um equivalente-grama de água. É uma reação básica da Química e não importa o quanto você queira que dê outra coisa ou repita o procedimento 500 milhões de vezes. SEMPRE dará o mesmo resultado. Se acontecer algo diferente, ou os reagentes estão errados, ou você fez besteira na hora de medir e promover a reação.

Assim, as mutações ocorrem obedecendo às leis da Química e da Física. Isso significa dizer que seu corpo nunca poderá mudar em nível atômico, para que as moléculas constituintes nos compostos em suas células possam se transformar em metal rígido; portanto, esqueça o Colossus.

Quando falamos que as mutações ocorrem aleatoriamente, queremos dizer que não se sabe quando ou onde uma determinada mudança no código genético vai acontecer numa grande população, salvo em testes controlados. Uma mutação é algo como ganhar na loteria (sim, eu peguei este argumento de um comentário anterior e vou desenvolvê-lo para demonstrar isso).

Não é impossível você ganhar na loteria. Difícil, mas não impossível. A escolha dos números para jogar na Mega Sena é aleatória, mas obedece a certas regras, como escolher 6 números diferentes, a faixa de escolha tem que ser entre 01 a 60, deve-se fazer a aposta de acordo certo período estipulado etc. A saber, você teria uma probabilidade de acertar ao fazer uma aposta mínima é de 1 em 50.063.860, conforme é dito pela própria Caixa Econômica Federal. Se você estudar sobre Análise Combinatória entenderá o porque deste número.

O modo como você escolheu os números dificilmente é absolutamente aleatório, pois sua escolha sempre envolve uma decisão por motivos determinados por um raciocínio, que pode não ser consciente, mas se deve a algum motivo.

Isso poderia em princípio indicar que as mutações são previamente determinadas por alguém, mas se assim o fosse, para que esse “alguém” iria querer uma especiação gradual? Se eu soubesse que números seriam sorteados na Mega Sena, eu os escolheria e pronto! Quer dizer, isso se eu fosse dotado de onisciência, é claro.

Agora, se levarmos em conta que podemos fazer múltiplas escolhas, durante múltiplos concursos, durante múltiplos anos, a probabilidade de eu ganhar é… Infinita! Bem-vindos à Lei dos Grandes números.

Mutações estão ocorrendo a cada minuto, em alguns genes mais, outros menos. Se uma mutação ocorre num certo gene, ele é chamado de um novo “alelo”, uma forma mutada do gene ancestral a ele. Que pode (ou não) resultar em alteração no polipeptídeo que ele codifica – pois é isso que os genes fazem: codificação de peptídios – e é essa codificação que fará com que certas propriedades apareçam ou desapareçam.

Em outras palavras, uma determinada mutação pode ser neutra ou não. Se não for neutra, pode ainda ser “visível”, como uma mosca mutante sem asas, ou “invisível” como a formação de uma nova proteína no seu sistema digestivo. Isso tem a ver com os níveis hierárquicos, uma mutação pode ter efeito somente na célula, ou no comportamento, ou na “aparência” do organismo em questão.

Assim, se for uma mutação que altere muita coisa, é muito provável que a Seleção Natural elimine-a da população (o indivíduo portador de tal mutação não se reproduzirá a tempo de gerar muitos descendentes). E assim ocorre: mutações acontecendo, a Seleção Natural (assim como as catástrofes e “contingências”) eliminando as “ruins” e mantendo as “boas”. Tudo isso num longo espaço de tempo. Normalmente, só vemos os efeitos de uma mutação quando ela salta aos olhos ou quando analisamos o DNA de alguém, e é isso que os cientistas fazem.

Num mundo gentil e misericordioso, nenhuma mutação causaria danos, seria apenas para melhorar. Num mundo estático, elas sequer existiriam. Só que não é isso que acontece no mundo natural e ninguém disse que este mundo teria que ser bonzinho para com os seres vivos.

Mutações podem ser danosas e cruéis se fossem conscientes. Elas acontecem apenas porque… acontecem. Lembrem-se que as mutações são aleatórias. Assim, o que uma hora pode gerar um indivíduo mais resistente a uma doença, em outra ocasião pode dizimar populações inteiras. Como aconteceu com a gripe espanhola. Uma mutação no genoma do vírus o transformou em algo letal, ceifando várias vidas. Mas, assim como a mutação veio – e fez desse vírus algo terrivelmente fatal –, outra mutação fez com que ele desaparecesse. Um raio cósmico pode acertar em cheio os seus órgãos reprodutores, ocasionando uma mutação nas suas células germinativas. Há o caso de algumas mulheres africanas que desenvolveram resistência ao HIV, o vírus (na verdade, um retrovírus) da AIDS, conforme você pode ver AQUI e AQUI.

Não por acaso, eram prostitutas. Isso significa que elas se adaptaram? Não, isso seria Lamarckismo. Acontece que nelas os retrovírus como da Aids mudam muito, pois elas estão expostas a vários tipos de doenças, trazidas pelos seus… hã… clientes. Se elas têm muito contato com os doentes – e tem PREVIAMENTE capacidade inata de resistência – elas estão sempre em contato com os retrovírus. Se elas tem muito contato com os doentes e tem capacidade inata de resistência, elas estão sempre em contato com os mutantes. Como elas estão sempre em contato com mutantes seu sistema imunológico sempre melhora um pouco. O vírus muda um pouco e as defesas dela melhoram um pouco (se não mudarem, já era!). Isso acontece porque o contato com doentes é diversificado e frequente, então elas estão expostas a diferentes mutantes, melhorando cada vez mais seus sistemas imunológicos. Apareceu um vírus um pouquinho mais forte? O sistema fica um pouquinho mais forte e assim sucessivamente. Onde você ouviu falar disso? Ora, esse é o processo de vacinação, onde os médicos inoculam um agente patogênico atenuado, o sistema imunológico se desenvolve e lhe imuniza caso você realmente seja contaminado com o agente, como o sarampo, rubéola etc.

Desse modo, as prostitutas que não estavam previamente com o sistema imunológico adaptado, morriam. As que não tiveram um sistema imunológico que reagisse contra uma simples mutação no vírus, morriam. As que já possuíam um sistema imunológico capaz de combater os vírus, continuaram vivas e passaram essa resistência aos seus descendentes. Mas, se pensam que isso acontece em lugares distantes e muito pobres como a África, lembrem-se que este é o processo de infecções hospitalares, onde bactérias acabam se tornando imunes aos antibióticos, dando uma severa dor de cabeça aos profissionais de saúde, logo, esse processo de imunização nãoi tem só um lado bom, nos livrando de doenças, mas também um lado ruim, criando agentes patogênicos cada vez mais fortes.

Alguns podem alegar que tudo isso seja fruto da intervenção de algum ser sobrenatural. Se fosse, seria algo meio pérfido, pois estaria brincando com vidas inocentes. Se fosse para matar as pessoas, seria mais fácil – para qualquer criatura dotada deste poder – simplesmente fazer estas pessoas desaparecerem. Muita especulação, e nenhuma prova ou evidência, não é nem má ciência. Isso sequer é ciência!

Chegamos a um ponto em que é muito importante frisar mais uma vez: Evolução não se restringe a apenas um único indivíduo e sim a uma população. Pois, qualquer mudança num único indivíduo não é garantia que ela será passada adiante, sem falar que seria quase impossível examinar todos os membros de uma determinada população.

Como podemos acompanhar a história evolutiva de uma espécie de ser vivo? Na próxima parte aprenderemos sobre isso.

2 comentários em “Evolução vs Criacionismo

  1. Olá, espero que esteja bem. Achei sua explicação útil e interessante, contudo, permita-me sugerir a prescindibilidade de desrespeitar opiniões e crenças dissemelhantes das suas..

    Ademais, seria possível elaborar um texto que trate da rápida taxa de decaimento do polônio no mineral zircão?

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