Informação e Conhecimento

Extraído do livro “O Mundo assombrado pelos demônios”

Quando desci do avião, uma pessoa me esperava, tendo nas mãos um papel com o meu nome. Era o motorista que os organizadores da conferência de cientistas na TV amavelmente haviam me providenciado. “Permite que lhe faça uma pergunta?” ele disse, enquanto esperávamos minha bagagem. “Não dá confusão você ter o mesmo nome do daquele cientista?” Eu não entendi. Estaria ele me gozando? “Sou eu o cientista”, respondi. Ele sorriu: “Desculpe. Pensei que você tinha o mesmo problema que eu”. Estendeu a mão e se apresentou: “Meu nome é William F. Buckley”. O nome era muito parecido com o de um polêmico entrevistador de televisão. Já no carro, me confessou que estava encantado por saber que eu era “aquele cientista” e indagou se havia algum inconveniente em que me fizesse algumas perguntas sobre ciência; mas não foi sobre ciência sobre o que falamos.

Ele estava interessado em OVNI’s, bola de cristal, astrologia etc. Falava dessas coisas com genuíno entusiasmo. Não me restava outra saída senão desiludi-lo. “As evidências são escassas”, repetia. “Para isso, existem explicações muito mais simples.” Sua expressão ia ficando mais sombria. Eu não apenas atacava a pseudociência como algumas de suas convicções mais íntimas. Não obstante, a autêntica ciência trata de muitas coisas que são tão ou mais emocionantes e misteriosas, que representam um grande desafio intelectual e que, além disso, estão muito mais próximas da verdade. Por exemplo, saberia ele algo das moléculas da vida existentes na fria e tênue atmosfera gasosa interestelar? Já teria ouvido falar das pegadas de nossos antepassados, impressas há 4 milhões de anos nas cinzas vulcânicas? Que saberia da origem da cadeia de montanhas no Himalaia, que se elevou quando a Índia se uniu à Ásia? Teria conhecimento de como os vírus destróem as células, ou de como o rádio pode ajudar a descobrir inteligências extraterrestres ou informações sobre as antigas civilizações?

O motorista Buckley, um homem realmente inteligente e curioso, não tinha ouvido falar quase nada sobre ciência moderna. Ele queria saber. Só que toda essa ciência foi filtrada antes de chegar ao seu conhecimento. A sociedade somente permitia que ele tivesse acesso a gotas de engano e confusão. Tampouco lhe haviam ensinado a separar ciência autêntica e sua imitação barata. Nos E.U.A., há gente inteligente, esforçada, que tem verdadeira paixão pela ciência. Mas é uma paixão não correspondida. Um estudo recente indica que 94% dos americanos são ignorantes no assunto. Curiosamente, vivemos numa sociedade dependente da ciência e da tecnologia, mas que não sabe quase nada disso. Trata-se de uma clara receita para o desastre. É perigoso e tolo continuar a ignorar o aquecimento da Terra, ou o buraco na camada de ozônio, o lixo tóxico e radioativo, a chuva ácida etc. Devido ao baixo índice de natalidade nas décadas de 1960 e 1970, a Fundação Nacional para a Ciência prevê para o ano de 2010 um déficit de quase 1 milhão de cientistas e engenheiros. De onde eles virão? O que fazer com a fusão, com os supercomputadores, o aborto, as reduções de armas estratégicas, as drogas a TV de alta definição, a segurança no tráfego aéreo, os aditivos alimentares, os direitos dos animais, a supercondutividade, os mísseis da Guerra nas Estrelas, a chegada a Marte, a descoberta de remédios para a AIDS e o câncer? Como poderemos decidir a política nacional se não entendemos as questões fundamentais?

Sei que a ciências e a tecnologia não são apenas uma fonte de maravilhas. Nossos cientistas inventaram os arsenais nucleares e fabricaram 60.000 unidades dessas armas mortíferas. A tecnologia produziu a talidomida, os clorofluorcarbonos, o agente laranja e indústrias tão poderosas que podem destruir o clima do planeta. São razões suficientes para que as pessoas se sintam intranqüilas em face da ciência e da tecnologia. Mas não dá para voltar atrás. Não podemos chegar simplesmente à conclusão de que a ciência põe muito mais poder nas mãos de tecnólogos moralmente fracos e corruptos ou nas de políticos com delírios de grandeza… e nos livrarmos dela. Pois os avanços na Medicina e na agricultura salvaram mais vidas do que se perderam em todas as que se perderam em todas as guerras da história. A ciência é uma faca de dois gumes. Seu imenso poder obriga a todos – incluindo os políticos – a prestar mais atenção às conseqüências a longo prazo da tecnologia, sem os apelos fáceis do nacionalismo e do chauvinismo. Os erros estão custando caro demais. A ciência é muito mais que um corpo de conhecimentos. É uma maneira de pensar. A ciência convida a admitir os fatos, mesmo que não estejam de acordo com as nossas idéias. Ela nos aconselha a incluir nos cálculos hipóteses alternativas e a considerar qual delas se acomoda melhor aos fatos. Estimula o equilíbrio sutil entre a abertura a novas idéias, ainda que heréticas, e o exame rigorosamente cético de tudo – tanto das inovações como dos conhecimentos já estabelecidos. É uma ferramenta essencial para a democracia em época de mudanças.

Daí não se tratar apenas de formar mais cientistas, mas também de aprofundar a compreensão pública da ciência. A situação é crítica. Em algumas manchetes de jornais já se lê: “Nosso conhecimento científico está abaixo do mínimo”. Menos da metade dos americanos sabe que a Terra gira em torno do Sol e que leva um ano para percorrera sua órbita, um fato descoberto há vários séculos. Em testes realizados com jovens de 17 anos, de vários países, os americanos ficaram em último lugar em Álgebra. Em provas similares, as crianças americanas acertaram 43% das respostas contra 78% no caso dos alunos japoneses. Nas provas de Química realizadas em 13 países, os E.U.A. ficaram em antepenúltimo lugar. Cerca de 25% dos canadenses de 18 anos sabiam tanto quanto 1% doa americanos que já cursavam o segundo ano da Faculdade de Química.

Enquanto 22% dos estudantes americanos confessam não gostar da escola, apenas 8% dos coreanos dizem o mesmo. O que está acontecendo? Na década de 1930, durante a Grande Depressão, os professores tinham segurança no emprego, bons salário e respeitabilidade. O ensino era admirado em parte porque se reconhecia no estudo o caminho para sair da pobreza. Hoje, resta pouquíssimo disso. O ensino de Ciências (como nas outras disciplinas) tornou-se insuficiente e pouco estimulante, os professores têm pouco ou nenhum preparo em seus campos e muitas vezes nem sequer conseguem distinguir entre ciência e pseudociência. E os melhores sempre conseguem empregos mais bem pagos em outra parte.

Os estudantes americanos de curso médio gastam apenas 3 horas e meia por semana com lições de casa. O tempo total dedicado ao estudo, dentro e fora da escola, é de vinte horas semanais. Comparando, os japoneses da quinta série estudam cerca de 33 horas por semana. Isto não quer dizer que a maioria dos estudantes americanos seja estúpida. Se não estudam, é em parte porque não costumam receber benefícios palpáveis quando o fazem. Nos primeiros oito anos depois de formados, não auferem nenhuma vantagem econômica por saber mais Língua, Matemática ou Ciências. Em compensação, fábricas correm o risco de sair do mercado porque seus operários iniciantes mal sabem fazer contas. Uma importante indústria eletrônica informa que 80% doa candidatos a um emprego não conseguiram passar no exame de Matemática da quinta série do primeiro grau. Os pais deveriam perceber que o sustento de seus filhos pode depender de conhecimentos de Matemática e Ciências. Deveriam também incentivar os professores a dar cursos avançados, compreensíveis e bem dirigidos, e persuadir os filhos a participar deles. Deveriam ainda limitar o número de horas que as crianças passam em frente da televisão.

Nos E.U.A., só os homens jovens, brancos, de bom nível econômico e que cursaram colégios respeitados possuem um razoável conhecimento científico. É verdade que os estudantes negros e hispânicos obtêm agora melhores resultados nas provas de Ciências que no final da década de 1960. Mas ainda existe um abismo separando a média dos alunos brancos e negros em Matemática. Já os universitários negros, filhos de pais também universitários, são tão bons quanto os brancos da mesma condição. Seriam igualmente necessários estímulos econômicos e morais para que os cientistas dedicassem mais tempo à formação do público, mediante conferências, artigos em revistas e jornais, entrevistas na televisão etc. Isso por sua vez exigirá dos cientistas um esforço maior para se tornarem compreensíveis e interessantes. A mim me parece estranho que alguns cientistas, que dependem de dinheiro público para as suas pesquisas, se mostrem arredios em explicar à população o que fazem. Por outro lado, praticamente todos os jornais têm uma seção diária de astrologia. Mas, quantos têm uma seção diária de ciência? Quando eu era jovem, meu pai trazia todo dia para casa um jornal onde lia avidamente os resultados dos jogos de beisebol. Os textos eram cifrados e áridos, mas eu os entendia perfeitamente. Às vezes, também ficava aprisionado no mundo das estatísticas do esporte. Hoje reconheço que me ajudaram a entender os decimais.

Vejamos agora as páginas econômicas. Não se encontra nelas nenhuma introdução esclarecedora nem alguma nota explicativa ao pé da coluna nem o significado das abreviações utilizadas. O leitor ou nada ou afunda. Mesmo assim, as pessoas lêem os tijolaços repletos de estatísticas. Trata-se apenas de uma questão de motivação. Por que não podemos fazer o mesmo com a Matemática, as Ciências e a tecnologia? O meio mais eficaz para incrementar o interesse pela ciência é a televisão. Não obstante, a TV exibe grande quantidade de pseudociência, um volume aceitável de temas de Medicina e tecnologia, porém muito raramente algo sobre ciência, especialmente nas grandes redes comerciais. Por que não existe um programa cujo herói seja alguém dedicado a explicar o Universo?

Os projetos mais excitantes de Ciência e tecnologia despertam o interesse dos mais jovens. O número de PhD’s em Ciência chegou ao ápice na época do projeto Apolo (a ida do homem à Lua) e caiu posteriormente. Este é um importante efeito secundário potencial de projetos como o envio de seres humanos a Marte ou a operação de aceleradores de partículas para explorar a estrutura da matéria ou ainda o programa destinado a traçar o mapa genético humano. De vez em quando gosto de dar uma aula para crianças pequenas. Muitas delas são curiosas, fazem perguntas provocativas e demonstram grande entusiasmo pela ciência. Em comparação, quando falo para estudantes de nível médio, as coisas mudam. Quando adolescentes, os estudantes aprendem a memorizar fatos e datas, mas em geral perdem a alegria de fazer novos descobrimentos, de encontrar a vida por trás dos fatos. Desistem de fazer perguntas que consideram estúpidas, aceitam respostas inadequadas, não levantam questões derivadas do tema e vivem olhando para os lados, em busca da aprovação de seus companheiros. Algo aconteceu entre a primeira e a última série – e não foi exatamente a puberdade.

Eu acreditava que isto ocorria em parte por causa da pressão dos colegas para “não sobressair” (exceto nos esportes); em parte, porque a sociedade ensina aos jovens a buscar o sucesso a curto prazo; e, em parte, por causa da impressão de que as Ciências e a Matemática não servem para comprar um carro esporte. Há algo mais, porém: muitos adultos ficam sem saber o que fazer quando os jovens lhes fazem perguntas científicas. As crianças indagam por que o Sol é amarelo, o que é um sonho, até que profundidade se pode mergulhar num buraco, quando é o aniversário do mundo ou por que temos dedos nos pés. Elas logo se dão conta de que essas perguntas aborrecem os adultos. Algumas situações desse tipo e pronto – mais outra criança perdida para a causa da ciência. Não posso compreender por que os adultos devam aparentar onisciência diante uma criança de 5 anos. Que há de errado em admitir que não sabemos? Se não temos uma idéia da resposta, podemos recorrer a uma enciclopédia. Também podemos dizer: “Não sei, talvez ninguém saiba. Pode ser que você seja o primeiro a encontrá-la quando crescer”.

Mas, além de estimular as crianças, temos que lhes dar as ferramentas necessárias para que saibam separar o joio do trigo, inquieta-me a perspectiva de uma geração incapaz de perceber a diferença entre realidade e fantasia, agarrada cheia de esperanças às suas bolas de cristal em busca do bem-estar. Gostaria de salvar o motorista Buckley que foi me esperar naquele aeroporto americano e milhões de pessoas como ele. Acho que precisamos e merecemos conviver com cidadãos de inteligências despertas e dotados ao menos de conhecimentos básicos sobre como funciona o mundo. Estou convencido de que o conhecimento da ciência é mais importante para a segurança nacional do que meia dúzia de armamentos estratégicos. Deveríamos estar em alerta vermelho e fazer soar um alarme urgente diante do desempenho pior que o medíocre em Ciências e Matemática dos adolescentes americanos e diante da apática, generalizada ignorância dos adultos.”

Comentários sobre o artigo de Carl Sagan

O que o brilhante cientista, já falecido, nos disse é muito interessante. A divulgação da Ciência é algo digno de uma piada (pena que não tenha graça nenhuma). O livro de onde o trecho foi extraído foi escrito em 1989, mas pouca coisa mudou. A maioria das pessoas continuam tendo a visão de que cientistas são criaturas lunáticas, prontas para efetuar algum ato tresloucado como criar uma bomba, veneno ou um monstro horroroso. E pior: Também não fazem questão de saber se o que acham tem algum fundamento. Simplesmente compartilham deste senso comum e pronto! Cala-te boca. E se você se interessa pela Ciência, então também é algum desequilibrado (sim, porque ninguém em sã consciência vai se interessar por isso, não é mesmo?).

Na TV só se fala em cientistas quando acontece algo desagradável, como o caso de algum acidente . Aí descem o pau: “Tá vendo o que estes cientistas ensandecidos aprontaram? Quase mataram todo mundo com essas loucuras”. Se perguntarmos a essas pessoas o que é uma bactéria, não saberão dizer. E nem vão se interessar em saber que sem bactérias não haveria degradação de lixos, fermentação etc. É um pequenino ser diabólico e fim! O que a televisão explica a sobre Ciência? Muito pouco. Só se interessa pelo sensacionalismo, afinal desgraça “dá IBOPE”. Ótimo, não precisa tocar-se mais no assunto. Enquanto isso, nas eliminatórias da Copa… E mais informações deixam de ser divulgadas, e mais e mais o povo mergulha na ignorância. É lógico que perde o interesse. E se tiver, não encontrará nenhuma fonte de informação nos meios de comunicação.

A maioria só vê o que há de mal na Ciência. Uma vez ou outra dizem que foi descoberto uma nova técnica cirúrgica. E mais nada. Duas linhas a serem lidas e só. Enquanto que quando houve a explosão em Alcântara (que algumas pessoas me perguntaram se era a que fica perto de Niterói, estado do Rio) foi dias e mais dias de entrevistas, repetição das fitas do sistema de vídeo das instalações e tudo mais. Isso é concorrência desleal. Horóscopos e colunas sociais ocupam páginas inteiras.

Nosso bravo cientista, que tanto nos abrilhantou com a minissérie Cosmos (disponível em DVD), relatou o resultado dos testes realizados com estudantes de vários países, em que os estudantes americanos tiraram os últimos lugares. Pobre Carl. Se ele soubesse que mais de 10 anos depois o Brasil conseguiu um resultado ainda pior, não teria ficado tão chateado.

Da mesma maneira que lá, há muito a profissão de professor deixou de ter o seu brilho. Oh, é uma profissão linda. Muito nobre. Mas, quando um aluno diz que quer ser professor a família cai logo em cima. “Professor? Mas ganha muito pouco!”. Sejamos realistas, a maioria dos pais ainda tem a ilusão que uma profissão “chique” é ser médico, engenheiro ou advogado. Quem quer na família um meteorologista? Físico? É aquele que trabalha como personal trainner (ai, Deus! Perdoe-me pelo anglicismo) em academia? É isso? Particularmente, eu nunca ouvi ninguém dizer que queria que a filha fosse fonoaudióloga para ajudar às pessoas com distúrbios da fala entre outras coisas. Não! Prefere que seja DÔ-TO-RA! O nível intelectual da família influi neste preconceito. Às vezes sim, às vezes não. Normalmente, um pai que é advogado não ficará muito satisfeito de ver um filho formado em Estatística.

Bem, mas preconceito não se atrela à cultura, não é mesmo? Isso gera pressão sobre os jovens que, além de tudo, não têm a menor noção da diferença entre seguir uma profissão ou outra. Um dos alunos me perguntou certa vez se ser químico era para fazer xampu, creme para cabelo ou (ah, eles sempre tocam neste assunto) bombas. Acham que meteorologista só serve para dizer se amanhã vai dar praia. Se fizermos uma enquete sobre o significado de uma profissão ou outra junto a alunos de Ensino Médio, garanto que teremos muitas surpresas. E muitas delas desagradáveis.

Mestre Carl Sagan apontou que os alunos gastam cerca de 3,5 horas semanais com lições de casa. Por aqui não é diferente. Mas, isso é culpa do sistema ou dos pais que não exigem maior empenho dos filhos. Não é um erro dizer “Desligue a televisão e vai estudar, que amanhã tem prova”? Não seria melhor dizer todos os dias “Desligue a televisão e vai estudar”? Oh, eu sei que há casos em que o pai e a mãe trabalham fora e não ficam em casa para verificar o estudo. Alguns são filhos de pais separados. Mas, os pais dormem na rua? Não voltam para casa? E quando voltam, por que não inquirem pelo estudo do filho. Lembro que meu pai fazia isso. Apesar de minha mãe estar em casa comigo e meu irmão. Nem por isso, deixou a responsabilidade somente nas mãos dela. Alguns chegam no quarto do pimpolho e o vêem no computador. Bem, depois que inventaram os sistemas multitarefa, basta ter duas janelas e quando papai chegar perto, maximizo a janela com o dever. Fácil, fácil. Ele não vai tomar a lição mesmo. hehehe

O idioma? Céus, um desastre! O tipo de desastre que podemos acompanhar em muitos comentários postados aqui ou em qualquer blog. Só sabem falar “tipo assim” e “paradinha”. Quando insisti a uma aluna para que me fizesse a pergunta que a atormentava, mas sem dizer “paradinha” ou “tipo assim”, ela ficou me olhando de modo estranho, pois não sabia como se expressar. E nem vou entrar no mérito do hediondo “miguxês”, onde adolescentes aprendem a escrever como retardados, só porque é “fofinhux”. Bleargh! Tentam me convencer que é a modernidade e que isso é apenas para a internet, mas cansei de pegar provas e trabalhos onde mal se entendia o que estava escrito, pois este pseudoidioma derivado de mentes acéfalas reinava em absoluto.

Tudo bem, eu sou um dinossauro e não acompanho a “realidade” deles. Mas, os pais não vêem isso? A primeira coisa que se perde com a faculdade de se expressar, é a capacidade de entendimento. Por isso, muitos alunos têm dificuldade de entender um simples roteiro de uma aula prática. Mesmo que se diga que basta seguir o que está escrito, não conseguem. E essa dificuldade é levada junto ao entrar numa faculdade. Daí, sai as aberrações que volta e meia os jornais publicam. Os mesmos jornais que não fazem nada para ajudar. Uma vez por semana (no JB, O Globo e O Dia) há uma coluna onde professores de português deslindam dúvidas. Por que não todos os dias, como Mestre Sagan sugeriu? Nas primeiras edições da Super Interessante (que eram melhores que as de hoje em dia) havia uma coluna do prof. Luiz Barco chamada “2 + 2”, onde ele comentava certas curiosidades envolvendo a matemática e criticava a péssima formação dos profissionais da educação que não conseguiam desmistificar a matemática.

Infelizmente (não sei por quê), a coluna não existe mais. Mas, mostram “reportagens”ridículas, por meio de assuntos ridículos, postado por pseudo jornalistas ridículos. A pseudociência lá impera. Mas, não é difícil de compreender. A dita revista é uma publicação com fins lucrativos, logo será veiculado o que o povo gosta e matérias que dão retorno financeiro, por meio de coisas mais que esquisitas e informações errôneas.

Deixando isso de lado, podemos imaginar situações como falar para um aluno que há cerca de 2000 anos Eratóstenes foi capaz de determinar a circunferência da Terra (com um erro considerado ridículo), utilizando… 2 estacas de madeira! A primeira atitude do aluno será cair na gargalhada, como aconteceu quando eu disse que helicópteros não possuem hélices, mas conjunto de asas chamadas “rotores”. Mais uma agora: os alunos simplesmente não acreditam nos professores, já que são bombardeados com informações errôneas por toda a parte. Mas com paciência e didática podemos trazê-los à luz do conhecimento (Nossa! Essa saiu bonita). Mas, e daí? Como Carl disse, o mercado diz que isso não vai te dar um carro esporte, mas se você tomar a cerveja X, a Luana Piovanni vai se interessar por você. Em uma palavra? Patético!

Mas, assim é o mundo. Cabe a nós mudarmos isso. Triste sina a do professor. E énisso que nosso Blog insiste: tentar mostrar o que existe de real e imaginário. Diferenciar Ciência de pseudociências.

Dados do SINE (Sistema Nacional de Empregos) diz que muitas das vagas não são preenchidas devido à falta de especialização do trabalhador brasileiro. O significado? Que muitas pessoas deixam de entrar no mercado de trabalho por não saber fazer uma conta de dividir ou multiplicar. Atendimento? Ora, boa parte dos jovens não sabem nem pedir licença ao entrar numa sala, quanto mais atender em um balcão. Imagine só pedir um emprego mais, digamos, elevado.

Como disse Carl Sagan, os cientistas também devem se fazer inteligíveis. Mas, não. Por aqui o pensamento é “Ora, estudei muito e não tenho motivo para simplificar. Senão, vão saber tanto quanto eu”. Hipócritas! Não são donos de nenhuma verdade. Mestrado e doutorado no Brasil virou piada. O número de mestres e doutores produzidos no ano passado quase superou o de graduados (guardadas as proporções, é claro). O ensino nas faculdades, universidades, centros universitários melhorou? Não! Os alunos saíram com melhor preparação? Não! As pesquisas científicas no Brasil sofreram algum salto? Não! Tem gente séria que defendeu teses importantes? Sim! Onde estão essas pessoas? Dando aula, por que não há mercado de trabalho. Fora as piadas que apresentam como tese, como a de um doutorando que defendeu uma tese sobre a espessura da casca da batata!

Quando um membro da banca perguntou para que serviria aquela tese, ele disse “Não sei. De repente alguém cria uma tese explicando uma utilidade…”. E, pasmem, a tese foi aceita. Mais um incompetente científico que não desenvolverá nada, não melhorará o país em nada e vai para uma sala de aula falar sobre casca de batata (sim, pois há muito perdeu o contato com a ciência em termos gerais), e o Brasil formará mais especialistas em casca de batata.

Basicamente, muitas pessoas estão fazendo uma faculdade para depois tentar um concurso. Devo lembrar que um fiscal de renda (com qualquer curso superior) ganha mais do que um pesquisador da FIOCRUZ. Isso sem contar os “por fora”.

Voltando ao tema do Tio Carl (desculpem a liberdade, mas o meu primeiro contato com a ciência foi com ele), a mídia não faz nada para tornar palatável a ciência. Aliás, não faz nada mais palatável. As seções econômicas, para mim, são mais complicadas do que hieróglifos. As revistas de informática são para iniciados. Para um pobre mortal, que quer usa um processador de texto, acessar a Internet (que na minha opinião é 99,9999% lixo) etc., ter que enfrentar siglas como CKO, CEO, CIO, CRM, ERP entre outras é uma dor atroz, mesmo por que não informam o que é essa sopa de letrinhas. Ora, afinal, como posso fazer para que o processador de texto faça isso, o sistema operacional deixe de dar respostas enigmáticas e a planilha ajude a organizar meus parcos recursos financeiros? Raramente dizem, mas informam que não-sei-quem, passou da empresa A para a empresa B, por que produzia um software que custa US$250.000,00. Dizem que Bill Gates é o homem que fez a maior doação do mundo ou que construiu uma mansão de zilhões de dólares. Muito legal, mas e daí? O preço do cartucho de tinta vai abaixar por isso? Enquanto isso, os jornais além de notícias inúteis, como dizer que o ator tal teve uma briga com a namorada ou que beltrana apareceu na festa de alguém outro. Ah, e não percam nossa seção de simpatias (pelas quais eu tenho verdadeira antipatia).

Criaram o Futura – O Canal do Conhecimento . Certo, muito bem. Por que ele não está na TV aberta? Pode as pessoas da camada mais baixa assinar uma TV por assinatura ou comprar uma antena parabólica? Só podem estar brincando! Os documentários que passam são sempre os mesmos e eu já cansei de ver o tucunaré em quase todas as reportagens do Globo Repórter. Troca-se de canal e vê-se o maravilhoso e instrutivo Programa do Ratinho. Socorro!

Mestre Sagan (que não teve a infelicidade de ver a TV brasileira) mostrou-se em dúvida com o que acontecia com as crianças. De início a curiosidade era o ponto principal delas e, com o tempo, verifica-se que o interesse pela ciência vai caindo a zero; bom, isso até eu notei. Parece, como o próprio cientista disse, uma questão de aceitação. Quem quer um colega CDF (recuso-me a dizer nerd), salvo nos dias de prova? Entre um indivíduo meio calado, de óculos e que se sai bem nos deveres e um verdadeiro atleta, com cara de ator de novela, às vezes desleixado com os estudos, mas que freqüenta essa ou aquela academia, qual será a preferência das meninas? Isso reflete nas aulas, já que ninguém quer ser a atração fazendo perguntas ao professor. De repente, se eu não falar nada a aula acaba mais rapidamente e eu posso ir pra casa para jogar no micro. São todos assim? Não, não são.

Sabemos que o homem é fruto do meio e aos poucos pode-se ir convencendo as pessoas do que o grupo realmente espera delas. E os pais não fazem por onde os filhos se interessarem. Lembro que certa vez, quando eu trabalhava numa livraria, vi a seguinte cena: duas mães estavam com as filhas conversando na porta da livraria. Uma das meninas (que devia ter uns 12 anos) entrou e começou a folhear alguns livros. A mãe chamou uma vez e a menina pediu um instante porque estava vendo algo interessante. Realmente, notei que a menina estava em estado de graça com o livro na mão (infelizmente, não lembro qual era). À segunda chamada, a mãe disse para “largar isso, para ela ver um arco-íris lá fora, que era mais importante”. A menina suspirou e foi-se. Pensamento meu: Mais uma criança ensinada que livros e a leitura em geral não são importantes. Obrigado, mamãe. A verdade é que muitos pais têm medo que os filhos façam perguntas que eles não saberão responder. Afinal, como alguns pais, se acham repositórios de todas as verdades universais (se é que isso existe), nenhum deles quererão se rebaixar frente a crianças. Então, ao invés de dizer “Não sei, vamos pesquisar juntos”, dizem “Deixe isso para lá. Venha ver o arco-íris”. E o que essas crianças farão quando tiverem os próprios filhos? Talvez o mesmo, e com mais ênfase, o que fizeram seus pais. E assim vai.

A informática que, dizem, veio para auxiliar a desenvolver a humanidade está fazendo o contrário. Boa parte não sabe mais escrever à mão, por usar demais o teclado. Contas feitas de cabeça? Piorou! Como disse, com o mal-fadado Miguxês, por causa de salas de chat, criou-se aberrações como “entaum, naum, blz (beleza) etc”. E, por vício, escrevem assim em provas, redações etc. E quando vão prestar um concurso ou vestibular… A história ensina que a primeira coisa que um povo faz quando domina o outro é impedir que o dominado continue usando o seu idioma. Um exemplo? A Inglaterra teve a brilhante idéia de fazer um processo de anglicização na Irlanda, impedindo principalmente o uso do gaélico. Bem, ela não conseguiu e a cultura do povo celta (do qual eu tenho orgulho de ser descendente) não se perdeu de todo. Se um povo destrói a língua de outro e impõe a sua, pode impor a sua cultura também, fazendo com que os dias anteriores à invasão sejam esquecidos com o tempo.

Está havendo isso conosco e não estamos percebendo. A começar pelos New York City Center da vida até a comemoração de… Halloween! Desde quando o Brasil foi colonizado por tribos celtas? Daqui a pouco vamos substituir a proclamação da república pelo dia de ação de graças, com direito a peru com tortas de abóbora.

Há um certo tempo, ouvi a seguinte pérola: “enquanto outros navegam em caravelas, nós navegamos na Internet”. Boa colocação. Pena que às vezes a própria Internet não tem caminhos a seguir ou quando tem, falta-nos uma bússola a nos orientar. Sou contra a tecnologia? Não, só sou contra o mau uso dela e sua veneração, como se o “Deus Computador” fosse o oráculo que guiará os passos da humanidade. Computadores são ferramentas e deverão ser encarados como tais. Um artigo na Info Exame certa vez disse uma coisa interessante: Que entre o computador e o ábaco, só se dá bem que usa os dois. Uma verdade que é provada pelos japoneses com o seu soroban – um ábaco esquisito, que até hoje não entendi como se usa, mas tudo bem. Se uníssemos o velho e novo, a origem e o fim, o alfa e o ômega, não estaremos realmente criando uma sociedade nova e melhor?

Mas, deve-se dar esta consciência aos jovens desde o iniciozinho de suas vidas. Dar-lhes a curiosidade e estimulá-la cada vez mais. Pais e professores. Se todos se enganjarem nisso, ao invés de termos seres humanos dominando o planeta, talvez tenhamos seres com humanidade que saibam dominar a si mesmos.

Aquele que domina os outros é forte. Aquele que domina a si mesmo é poderoso.

do Tao Te King (Lao-Tsé)

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s