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Parte 10 – Comportamento

COM-01: Evolução não explica a consciência

Alegação:

A evolução não explica a consciência humana.

Resposta:

Esse é um argumento chamado apelo à ignorância. Não saber uma explicação não significa que ela não exista. E já que só agora estamos começando a entender o que realmente significa a consciência, não é surpresa que não saibamos direito como ela surgiu.

Na verdade, explicações preliminares para a origem da consciência já foram propostas, apesar de serem complicadas demais para serem explicadas aqui (veja Dennett 1991 Minsky 1985). Muita experimentação e refinamento são necessários antes de termos uma sólida e firme teoria para a origem da consciência, mas temos mais que o suficiente para saber que tal teoria é possível.

Um fator que contribui para a alegação de que a consciência é inexplicável está no fato de que muitas pessoas não querem saber de uma explicação naturalista para a ela, por medo de que uma consciência que apareça naturalmente elimine a possibilidade de uma alma divina e imortal. Isso vai de frente com os desejos e crenças de muita gente.

Porém existem muitas evidências de que a consciência é naturalista, desde predisposições genéticas para comportamento e personalidade, até estudos de danos cerebrais, e escaneamento cerebral de pessoas saudáveis.

Infelizmente aquilo que desejamos não muda como as coisas são, e mesmo que talvez não gostemos do resultado, a verdade sempre é melhor que a ilusão.

Para finalizar, o fato de sabermos que estamos vivos (coisa que inclusive muitos animais também podem fazer) com certeza é uma vantagem que ajudou na sobrevivência de nossa espécie, vantagem essa que foi selecionada positivamente pela seleção natural.

Referências:

Dennett, Daniel C., 1991. Consciousness Explained. Boston: Little, Brown and Company.

Minsky, M., 1985. The Society of Mind. New York: Simon & Schuster.


COM-02: Como o homem ficou tão inteligente?

Alegação:

A evolução não explica como o homem ficou tão inteligente.

Resposta:

Esse é um argumento chamado apelo à ignorância. Não saber uma explicação não significa que ela não exista.

Inteligência tem óbvias vantagens que ajudam na sobrevivência da espécie, portanto a inteligência é consistente com a teoria evolucionária. Várias hipóteses foram propostas, entre elas:

·    Mais inteligência permite uma melhor busca e coleta de alimentos, por exemplo, onde e quando os frutos amadurecem (Kaplan et al. 2000);

·    Mais inteligência permite inventar melhores ferramentas;

·    Mais inteligência permite mais sucesso no funcionamento de grupos sociais que os primatas formam. Isso poderia estar ligado com o surgimento da linguagem.

O cérebro humano é relativamente maior que os outros animais, comparado com o tamanho corporal. Porém isso pode ser explicado por neotenia, o prolongamento dos períodos de desenvolvimento. Evoluir um cérebro maior não requer uma mudança genética muito grande, apenas relativamente pequenas a ponto de manter o cérebro crescendo por mais tempo, durante o desenvolvimento (Gould 1977).

Referências:

Gould, Stephen Jay, 1977. The child as man’s real father. In: Ever Since Darwin, New York: W. W. Norton, pp. 63-69.

Kaplan, H., K. Hill, J. Lancaster and A. M. Hurtado, 2000. A theory of human life history evolution: diet, intelligence, and longevity. Evolutionary Anthropology 9: 156-185. http://www.soc.upenn.edu/courses/2003/spring/soc621_iliana/readings/kapl00d.pdf

Cosmides, Leda and John Tooby, 1997. Evolutionary psychology: A primer.http://www.psych.ucsb.edu/research/cep/primer.html


COM-03: Evolução não explica a linguagem

Alegação:

A evolução não explica como surgiu a habilidade da linguagem.

Resposta:

Esse é um argumento chamado apelo à ignorância. Não saber uma explicação não significa que ela não exista.

Apesar de não sabermos a explicação definitiva de como a linguagem surgiu, existem hipóteses plausíveis. Estágios intermediários podem ser alcançados por mudanças graduais. Por exemplo:

·    Os cérebros maiores dos primatas surgiram antes da linguagem. Podem ter surgido por adaptação das funções dos grupos sociais, da habilidade de buscar comida e d fabricar ferramentas;

·    O cérebro humano evoluiu para ser proporcionalmente maior que os outros animais, através da neotenia. O crescimento rápido do cérebro durante a infância é mantido por mais tempo. Pode ter surgido junto com a linguagem, ou antes disso;

·    Antes da linguagem, alguma comunicação já existia através de gestos (o que provavelmente surgiu por imitação e mimetismo) e via vocalizações. A linguagem falada pode ter surgido com base nessas vocalizações, ou terem sido transferidas da linguagem gestual, ou ambos;

·    Assim que a protolinguagem teve início, o trato vocal e as conexões neurais para produzir controlar a fala começaram a evoluir. A linguagem provavelmente começou com o Homo erectus há mais de um milhão de anos atrás;

·    Uma vez que a linguagem se tornou parte central do comportamento humano, ela se espalhou mais rapidamente por causa do efeito Baldwin: a plasticidade do aprendizado possibilita a habilidade da seleção natural se espalhar mais rapidamente. (Baldwin 1896).

A linguagem obviamente é um recurso útil, então não é difícil de ver que ela proveu vantagens seletivas.

Referências:

Baldwin, J. M., 1896. A new factor in evolution. American Naturalist 30: 441-451,536-553.http://www.santafe.edu/sfi/publications/Bookinforev/baldwin.html

Deacon, Terence W., 1998. The Symbolic Species: The co-evolution of language and the brain. New York: W.W. Norton.

Johansson, Sverker, 2002. The evolution of human language capacity. Master’s Thesis, University of Lund.http://home.hj.se/~lsj/langevod.pdf (esp. pp. 65ff)

Pinker, S., 1994. The Language Instinct. Harmondsworth: Penguin.

Tattersall, Ian, 2001. How we came to be human. Scientific American 285(6) (Dec.): 56-63. Excerpted from The Monkey in the Mirror, Harcourt, 2002.


COM-04: Evolução não explica a homossexualidade

Alegação:

A evolução não explica a homossexualidade. Características evoluem como o resultado de sucesso reprodutivo, e homossexuais não podem reproduzir.

Resposta:

Homossexuais podem ter filhos. Se a homossexualidade tiver causa genética, ela pode ser propagada até pelos homossexuais mais radicais, pois até eles podem querer ter filhos. E o gene da homossexualidade pode estar presente em heterossexuais também. Homofóbicos homens mostraram mais atração por imagens homossexuais do que heterossexuais não homofóbicos (Adams et al. 1996). Além disso, a condenação social aos homossexuais pode forçá-los a agir como heterossexuais, propagando os genes.

Genes da homossexualidade podem ser benéficos como um todo. Em chimpanzés bonobos, interações homossexuais são uma forma de cimento social. É possível que a homossexualidade tenha evoluído para servir a funções sociais nos humanos também (Kirkpatrick 2000), afinal de contas, coesão social também é uma das funções do sexo em seres humanos, e não apenas reprodução.

E não apenas nos homens e nos bonobos existem homossexuais, mas de fato em mais de 1500 espécies de animais, entre eles leões, baleias, golfinhos, patos, gansos, girafas, etc. Para esses animais, a homo e a bissexualidade tem várias funções, entre elas as de união social, resolução de conflitos, para assegurar lealdade, etc. Encontros entre espécies diferentes de golfinhos podem ser bastante violentos, mas é comum a tensão ser aliviada através de uma “orgia sexual”. O que os pesquisadores tem descoberto é que muitos animais, assim como os humanos, não fazem sexo apenas para procriar, mas simplesmente porque eles querem fazê-lo.

Referências:

Adams, H. E., L. W. Wright Jr. and B. A. Lohr, 1996. Is homophobia associated with homosexual arousal? Journal of Abnormal Psychology 105(3): 440-445.

Bagemihl, Bruce, 1998. Biological Exuberance: Animal Homosexuality and Natural Diversity. New York: St. Martin Press.

Corna, F., A. Camperio-Ciani and C. Capiluppi, 2004. Evidence for maternally inherited factors favouring male homosexuality and promoting female fecundity. Proceedings: Biological Sciences 271: 2217-2221.

Haynes, J. D., 1995. A critique of the possibility of genetic inheritance of homosexual orientation. Journal of Homosexuality 28(1-2): 91-113.

Kendler, K. S., L. M. Thornton, S. E. Gilman and R. C. Kessler, 2000. Sexual orientation in a U.S. national sample of twin and nontwin sibling pairs. American Journal of Psychiatry 157(11): 1843-1846.

Kirk, K. M., J. M. Bailey, M. P. Dunne and N. G. Martin, 2000. Measurement models for sexual orientation in a community twin sample. Behavior Genetics 30(4): 345-356.

Kirkpatrick R. C., 2000. The evolution of human homosexual behavior. Current Anthropololgy 39(1): 385-413. (technical)

Wright, Robert, 1994. The Moral Animal: The new science of evolutionary psychology. New York: Pantheon, pp. 384-386.


COM-05: Evolução não explica a moralidade

Alegação:

A evolução não explica a moralidade, principalmente o altruísmo. Adaptações evolucionárias são egoístas, porque os indivíduos ganham ao beneficiar a si mesmos e a sua prole.

Resposta:

Essa alegação ignora o que acontece com organismos que vivem em sociedade. De fato, muito da moral pode ser explicada pela evolução. Como os humanos são animais sociais, eles se beneficiam com as interações uns com os outros, e a seleção natural favorece os comportamentos que permitem os seres a viverem melhor com si mesmos.

Justiça e cooperação tem grande valor ao lidar com pessoas repetidamente (Nowak et al. 2000). Emoções desse tipo podem ter evoluído quando humanos viveram em pequenos grupos (Sigmund et al. 2002).

A seleção natural pode explicar comportamentos altruístas facilmente com relação aos parentes, porque eles partilham muitos dos genes e, portanto, aumentam a chance de perpetuação da espécie. Em sociedades, altruísmo com estranhos beneficia o doador porque outros, ao verem alguém agindo com bondade para os outros, eles são mais propensos a agir com bondade com ela também (Wedekind and Milinski 2000). Essa é a base da regra de ouro, e pode ser explicada facilmente pela evolução.

Vale lembrar que a evolução não precisa ser adaptativa 100% do tempo. Algumas características que beneficiam alguma coisa podem ser prejudiciais para outra. Altruísmo pode ser benéfico em alguns casos, mas também ser um risco de vida em outros, assim como o egoísmo pode ser benéfico ou prejudicial dependendo do caso.

Referências:

Fehr, Ernst and Simon Gächter, 2002. Altruistic punishment in humans. Nature 415: 137-140.

Hauert, C., S. De Monte, J. Hofbauer and K. Sigmund, 2002. Volunteering as Red Queen mechanism for cooperation in public goods games. Science 296: 1129-1132.

Nowak, M. A., K. M. Page and K. Sigmund, 2000. Fairness versus reason in the ultimatum game. Science 289: 1773-1775.

Wedekind, C. and V. A. Braithwaite, 2002. The long-term benefits of human generosity in indirect reciprocity. Current Biology 12: 1012-1015.

Wedekind, C. and M. Milinski, 2000. Cooperation through image scoring in humans. Science 288: 850-852. See also Nowak, M. A. and K. Sigmund, 2000. Shrewd investments. Science 288: 819-820.

Netting, Jessa, 2000 (20 Oct.). Model of good (and bad) behaviour. Nature Science Update,http://www.nature.com/nsu/001026/001026-2.html

Sigmund, Karl, Ernst Fehr and Martin A. Nowak, 2002. The economics of fair play. Scientific American 286(1) (Jan.): 82-87.

Vogel, Gretchen, 2004. The evolution of the golden rule. Science 303: 1128-1131.

Wright, Robert, 1994. The Moral Animal New York: Pantheon Books.

Henrich, Joseph. 2006. Cooperation, punishment, and the evolution of human institutions. Science 312: 60-61.

Nowak, Martin A. 2006. Five rules for the evolution of cooperation. Science 314: 1560-1563


COM-06: Evolução não explica religião

Alegação:

A evolução não explica a religião, e que todos os povos tenham a necessidade de crer um ser superior.

Resposta:

Na verdade o surgimento das religiões se encaixa perfeitamente na teoria da evolução. Alguns dos seus componentes provavelmente são anteriores à própria humanidade. Por exemplo:

·    O medo da morte tem óbvias vantagens evolucionárias, e é provavelmente tão antigo quanto as emoções. Quando o intelecto evoluiu a ponto da imaginação ser possível, começou a se pensar em alternativas;

·    Humanos e outros primatas vivem em sociedades com hierarquias. Uma estrutura social com seres “superiores” e “inferiores” faz parte de nossos genes. Podemos facilmente considerar os outros animais como inferiores, mas seres superiores requerem algo menos óbvio;

·    Com o surgimento do pensamento simbólico (que a linguagem requer), os seres superiores abstratos puderam tomar forma de termos mais específicos;

·    O medo do desconhecido tem uma grande influência na criação de deuses. Terremotos, vulcões, furacões, tempestades e outros fenômenos que ainda não tinham explicação científica eram facilmente interpretados como sendo a fúria ou dádiva dos seres superiores;

·    Com a linguagem, pode-se falar sobre os deuses. A partir daí, a religião pode se desenvolver via evolução cultural. Usando o medo do desconhecido, algumas pessoas podem usar sacrifícios e orações para aplacar a ira dos deuses, podendo dar a impressão de possuírem alguma influência ou poder de intersessão nos eventos;

·    O ensino e a obediência servem para manter e propagar a religião. A seleção natural favoreceu os filhos que aprendem e obedecem as ordens dos pais, para se manterem longe do perigo. Obedecendo aos conselhos dos pais, os filhos se mantêm longe de ameaças como lagos profundos ou predadores. A obediência cega pode ser benéfica em alguns casos, mas não diferencia conselhos bons de conselhos inúteis, como sacrifícios e cerimônias, o que ajudou a difundir as religiões.

Referências:

Cullen, B. 1998. Parasite ecology and the evolution of religion. In Heylighten, F. (ed.), The Evolution of Complexity.http://pespmc1.vub.ac.be/Papers/Cullen.html

Gottsch, J. D. 2001. Mutation, selection, and vertical transmission of theistic memes in religious canons. J Memetics 5. http://jom-emit.cfpm.org/2001/vol5/gottsch_jd.html

Boyer, Pascal. 2001. Religion Explained. New York: Basic Books.

Burkert, Walter. 1996. Creation of the Sacred: Tracks of biology in early religions. Cambridge, MA: Harvard University Press. (It concentrates on early cultural aspects of religion but still has some relevance to religion’s origin.)

Dunbar, Robin. 2003. Evolution: Five big questions: 5. What’s God got to do with it? New Scientist 178(2399) (14 June): 38-39.

Konner, Melvin. 2002. The Tangled Wing: Biological constraints on the human spirit, New York: Henry Holt and Co.

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