Lagartixas que caminham sobre a água. Amem, Sáurios!

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Lagartixas têm poderes. Além de escalar poderes graças aos milhares de estruturas semelhantes a pêlos (dane-se o acordo ortográfico), elas ainda conseguem matar as pessoas de susto por serem geladas (ok, não são exatamente “geladas”). Não só isso, elas foram agraciadas com o gene de Jesus e podem andar sob a água, que nem o Jesus Lizard (o nome é esse mesmo).

Então, pesquisadores de Oxford resolveram pesquisar como lagartixas caminham sobre a água, mesmo sabendo o porquê.

Versão TL;DR: tensão superficial. Maiores informações abaixo, se quiserem. Não estou mais me importando.

O dr. Ardian Jusufi é professor da Faculdade Internacional de Pesquisa Max Planck para Sistemas Inteligentes. Ele também é professor associado no Centro ETH de Sistemas de Aprendizagem e lidera o Grupo de Pesquisa Max Planck para Locomoção em Sistemas Somáticos e Biorrobóticos. Não, ele não estuda lagartixas por serem engraçadinhas (porque não são) e sim pelo que de útil elas podem oferecer em sistemas robóticos.

A rigor, todo mundo sabe o que faz as lagartixas e similares caminharem pela água: tensão superficial, o fenômeno físico que faz com que as moléculas criem uma espécie de “membrana” apesar de não ser exatamente uma membrana. Quem fala isso faz apenas uma analogia, mas é um fenômeno superficial formado entre duas fases químicas. Essas moléculas empacotadas, uma comprimindo a outra, agem como uma membrana, mas em nível molecular. As forças intermoleculares (entre as moléculas, DUH!) formam uma força que mantém as moléculas unidas, ou elas se desprenderiam para a atmosfera facilmente. Isso por causa de como as moléculas se arranjam no espaço.

A água, por exemplo. Sua geometria espacial angular faz com que ela seja líquida à temperatura ambiente. O motivo disso são as ligações de hidrogênio que as moléculas de água estabelecem entre si. Superficialmente, isso faz com que ela apresente o fenômeno de tensão superficial.

Um experimentinho simples de tensão superficial. Peguem um pedaço de plástico sob a forma de filme (uma sacola de supermercado, por exemplo). Passe um pano úmido numa parede e coloquem o pedaço de plástico lá. ele vai ficar lá um tempão e não vai cair. Por que não funciona com pedaços maiores? Por causa da força da gravidade que será mais forte que a força da tensão superficial.

Jusufi estava fazendo trabalho de campo em Cingapura durante a estação das monções. Daí ele foi surpreendido (acho que ele nunca viu documentário do David Attenborough) pelo vídeo de uma lagartixa correndo por sobre a água para escapar de um predador. Os outros millenials do laboratório também ficaram estupefatos. Esse pessoal não vê documentário, não? Daí foram ver o que, como, onde e por que acontecia aquilo

Jusufi e seu pessoal criaram orifícios de entrada e saída em uma grande caixa plástica para fazer um tanque de água e então construíram duas rampas de madeira para que seu grupo de lagartixas da espécie Hemidactylus platyurus pudesse entrar e sair da água facilmente. Um par de câmeras de alta velocidade foi colocado acima e para o lado em ângulos retos para capturar o movimento. As lagartixas foram colocadas na rampa de entrada, e os membros da equipe tocariam de leve suas caudas para surpreendê-los a nadar para longe. O resultado foi isso aqui:

O que os pesquisadores perceberam é que as lagartixas desenvolveram um conjunto de mecanismos complicados próprios para andar sobre a água. Não é uma questão de usar a tensão superficial. Isso é óbvio. A real questão é: como!

Praticamente, assim como o Jesus Lizard, as lagartixas procuram manter o corpo erguido, usando apenas os pés para tocar a superfície da água. Não apenas isso, a cadência ca marcha faz com que a película de empacotamento das moléculas na superfície não se rompa, sem falar que a rapidez também ajuda. Não, você não conseguiria fazer isso, porque sua morfologia não permite que você execute os movimentos, já que você é pesado e tem duas pernas apenas. Desiste, você não é o Chiun.

Um dos objetivos desta pesquisa é melhorar o design de robôs bio-inspirados. Mas eu creio que vai demorar muito. É preciso um sistema rápido, ágil e flexível para isso. Não significa, é claro, que não se deva pesquisar, mas tipo… sério que eles ficaram surpresos?

A pesquisa foi publicada no periódico Cell Biology.

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Sobre André Carvalho

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