Moscas explicam o que acontece quando temos medo e fugimos do perigo

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Você deve ter ouvido a máxima “antes um covarde vivo do que um herói morto”. Por bilhões de anos de evolução biológica, seres vivos aprenderam que tem uma hora que o melhor a ser feito frente ao perigo é ralar peito dali o mais rápido possível. Notadamente, qualquer animal tem 3 tipos de reação frente ao perigo: Lutar, ficar imóvel e rezar para não ter sido avistado e meter sebo nas canelas, picando a mula de uma vez.

A questão que fica é: como o cérebro decide por estas três alternativas? É o que uma pesquisa recente procura responder.

A drª Maria Luísa Vasconcelos é Investigadora Principal na Champalimaud Research e procura entender quais os estímulos que podem ser usados para influenciar o comportamento animal, bem como as respostas desses animais frente ao perigo, estudando como isso pode ser aplicado aos seres humanos, também. Dessa forma, doutora Maria estudou o animal mais próximo que tinha disponível: Drosophila melanogaster , também conhecidas como mosca de fruta (sim, aquela mosquinha que fica enchendo o saco se tem alguma fruta exposta por algum tempo).

Quando os pesquisadores começaram a trabalhar nas questões que o cérebro se vê envolvido numa tomada de decisão frente a uma ocorrência de perigo, a maioria das pessoas acreditava que as moscas só escapavam dali. Entretanto, a observação detida e atenciosa mostrou algo um tanto quanto diferente. Sendo assim, Doutora Maria e seu pessoal resolveram prestar mais atenção na base neural do comportamento defensivo, de forma a saber o que aconteceria se expusessem as mosquinhas xexelentas a uma ameaça em uma situação em que elas não poderiam simplesmente fugir.

Os resultados mostraram que quando as moscas foram colocadas em um prato coberto e as expusemos a um círculo escuro em expansão (que é como uma ameaça parece uma mosca), as mosquinhas congelaram. Pararam de vez, assim como os mamíferos. Elas ficaram imóveis por vários minutos fingindo que não estavam ali, não era com elas, nothing to see here.

Entretanto, isso não aconteceu com todas as moscas. Algumas colocaram vinte no veado e ralaram peito dali. Outra coisa que os pesquisadores descobriram foi que a resposta das moscas dependia de sua velocidade de caminhada no momento em que a ameaça apareceu. Se a mosca estivesse se movendo lentamente, ela congelaria, mas se estivesse se movendo rapidamente, fugiria da ameaça.

Depois da observação, a computação! Usando ferramentas genéticas de última geração, a equipe encontrou um único par de neurônios importantes para os comportamentos defensivos das moscas. Dentre centenas de milhares de neurônios no cérebro da mosca – algo um pouco maior que comentaristas de portais de notícia –, os pesquisadores descobriram que a “parada total” da mosca era um sistema defensivo gerenciado por apenas dois neurônios idênticos, um de cada lado do cérebro.

Quando a equipe “desligou” esses neurônios, as moscas não congelavam mais, mas tratavam de escapar da ameaça. Mas o que foi ainda mais notável foi o que aconteceu quando eles ligaram os neurônios (sem a presença de uma ameaça): as moscas davam “parar tudo” de uma maneira que dependia de sua velocidade de caminhada. Se estivessem andando depressa, elas procuravam escapar.

Péra. Eu tenho mais de dois neurônios.

Sim, talvez. Eu creio. Mas a pesquisa não disse que a mosca era uma perfeita demonstração do que acontece com mamíferos ou mesmo seres humanos. É uma nova porta para pesquisa comportamental, de forma a entender porque enfrentamos nossos medos, ou porque congelamos frente ao perigo, ou simplesmente fugimos. Não é que as moscas dependiam de estar andando rápido ou devagar para caracterizar o que fazer em situações de risco. É a relação do comportamento de neurônios frente a ações que são afins e, por isso, são gerenciadas pelos mesmos neurônios. É o que acontece com a gente? Eu não sei responder e nem o grupo de pesquisa, mas diferente de mim, eles têm muito material para se debruçar e trabalhar em cima, pesquisando outros tipos de animais.

Ah, e se você se interessou, a pesquisa publicada no periódico Nature Communications está com acesso aberto.

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Sobre André Carvalho

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