Ideia imbecil da semana: Encher o Saara de usinas eólicas para salvar o mundo

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Eu gosto de soluções mágicas. Elas funcionam no mundo maravilhoso que aquele problema é único e não refletirá em mais nada. Assim, resolvesse o galho e todo mundo cavalga em direção ao pôr-do-sol ao som de Enio Morricone. O problema é que a realidade caga e anda pra isso e tudo o que se faz tem impacto, de um jeito ou de outro. Só quem não sabe disso são os jêneos que resolveram como melhorar o mundo: Encher o Saara de fazendas eólicas e solares de forma a suprir as necessidades energética do mundo inteiro.

Yan Li, Eugenia Kalnay e Safa Motesharrei resolveram se debruçar sobre a ideia de transformar o grande deserto do Saara numa imensa fazendona de energia alternativa. De início, a proposta faz sentido: olha que maravilha aquele espação mal utilizado? Bem que poderíamos transformar tudo em fazendas de energia eólica e solar na faixa, né? Sim, lindo no papel, mas papel aceita até merda.

Segundo a pesquisa feita pelos pesquisadores que pesquisaram as implicações desse tipo de proposta, a faixa de terra conhecida como Sahel, uma faixa de mais de 5 mil quilômetros, que vai do Oceano Atlântico até o Mar Vermelho e que limita a fronteira entre a zona desértica do norte da África e onde começa a savana africana, acabaria por se tornar mais úmida, com mudança de microclima da região. Isso significa dizer que a implantação de usinas eólicas e solares acabaria por mudar o clima nessa região e, por conseguinte, surtir efeitos no norte da África também.

SHOW! NADA DE DESERTO, ENTÃO!

É, pois é. Só que não é bem assim que a banda toca! Primeiro porque o deserto do Saara não é tão deserto quanto você pensa. Em segundo lugar, ele não está num sistema isolado do resto do planeta.

Li, Kalnay & Motesharrei simularam o efeito de adicionar uma fazenda eólica com capacidade de geração de energia de três terawatts de energia. Uma grosseria, já que nem mesmo o atual consumo de eletricidade do mundo todo não é isso. Em seguida, eles adicionaram 79 terawatts de fazendas solares. O uso global de energia de todos os tipos (incluindo combustíveis) é de cerca de 18 terawatts hoje, então este é um cenário onde todo o combustível que um mundo em crescimento pode querer são produzidos no Saara, e a água potável da África provavelmente é dessalinizada. Ou seja, um mundo lindo, mágico e… IMPOSSÍVEL. Mas vamos continuar com a brincadeira.

Para conseguir isso, seria preciso uma área equivalente a nove milhões de quilômetros quadrados cobertos por fazendas eólicas e solares. Para você ter uma ideia, a área total do Brasil é de 8,516 milhões km². Tá bom pra você? Calma que piora! Por enquanto estamos só no pesadelo logístico de ter material para as peças e organização de construir esta bagaça toda. Ainda tem mais a ser levado em conta!

Fazendas eólicas são incríveis, mas, segundo o modelo, elas tiveram o maior impacto climático. Sim, energia verde meu rabo! Tudo tem impacto ambiental. Aves são mortas, o barulho é ensurdecedor e eu ainda não cheguei num ponto que você ainda não se atentou, mas daqui a pouco vou dizer.

Com essas fazendas todas, a temperatura média na região aumentaria (sim, AUMENTARIA!) em cerca de 2ºC, principalmente porque, como falei, haveria maior umidade. Com maior umidade, SURPRESAAA!!!, o microclima da região será afetado, com o vapor d’água retendo mais calor. Se agora as temperaturas do Saara caem abruptamente, às vezes até abaixo de zero, durante à noite, com as fazendas eólicas isso seria muito menos pronunciado. A precipitação, por sua vez, quase dobraria!

Uma simulação de modelo com apenas as fazendas solares mostrou um aquecimento de cerca de 1ºC, desta vez principalmente devido às altas temperaturas da tarde, que ficaria mais quentes, além de um virtual aumento de 50% nas chuvas. Com ambas as fazendas eólica e solar no modelo, os efeitos da chuva combinados tem um aumento de 150%, enquanto a temperatura subiria em cerca de 2,7ºC. O Sahel ficaria um pouco mais frio.

Tá ruim? Calma, porque isso é apenas os efeitos locais. Sabem que iria sofrer também? A região Sudeste do Brasil. É, pois é.

Ventos alísios são responsáveis em levar toneladas de areia com riquíssimos sais minerais para a Amazônia. Planta não gosta bem de matéria orgânica. Quem gosta são agentes decompositores. Eles decompõem (D’Oh!) a matéria orgânica e os restos da decomposição são sais minerais, que a planta usa para sintetizar seu alimento.

A Amazônia recebe este manjar dos deuses direto do Saara, e quando as plantas lá estão lindas e maravilhosas, perdem toneladas de água por evapotranspiração, o que acarreta nos chamados Rios Voadores, os quais eu expliquei AQUI. É por causa desses rios voadores que chove no Sudeste. Se dependêssemos só da água vinda do mar, estaríamos ferrados!

Como os três pesquisadores só pesquisaram a respeito do Saara, esquecendo de fazer uma pesquisa pesquisando o que aconteceria no mundo todo, acharam uma excelente ideia, mas é um festival de sandices.

Como disse antes, eu não ia tocar no pesadelo logístico que seria construir estas usinas e instalá-las. Mas achar que tudo ficará lidinho, com um clima mais ameno no Saara, com a volta do verde, animaizinhos felizes, pandas e unicórnios saltitantes, acho melhor tomar uma bela dose de simancol! O mundo não é apenas meia dúzia de tribos espalhada pelo norte da África e em regiões subsaarianas. Alegar que colocar geração de energia renovável no Saara em escala absurda de enorme acabara com o impacto climático global do nosso sistema energético, bem como inundaria o Saara e o Sahel com chuva é pior que pensar ridiculamente pequeno. É mostrar uma ignorância estúpida, caindo na vala da imbecilidade de achar eu nada de tamanho monte terá impacto no mundo todo.

Quando você é cientista de escrivaninha, sem nunca ter saído do seu gabinete com ar-condicionado, é fácil achar que todo o mundo não tem problemas. Soa muito com aqueles conceitos de carros esquisitos feitos por designers, incapazes de entender que as pessoas passam no supermercado e fazem compras.

Melhor ficarem só nas modelagens por computador, pessoal. Parece que é só disso que vocês entendem, mesmo.

A pesquisa foi publicada no periódico Science, abertinho para você ler e cair na gargalhada.

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Sobre André Carvalho

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