Papagaios são espertos e neurociência comprova

As Aparições
Poliomielite vem aí, olê-olê-olá

Algumas aves são muito espertas. Certas aves são tão espertas que sabem que não devem ser cuzonas a ponto de postar mensagens racistas em rede social (eu nunca disse que não ia dar uma espetada). Um exemplo disso são araras, papagaios e outros psitaciformes que apresentam habilidades cognitivas de fazer inveja a quaisquer mamíferos, primatas e aquelas coisas que gravam vídeos no YouTube. Qualquer um que grava vídeo no YouTube deveria entrar na porrada.

Araras não gravam vídeo pro Tubo, o que já faz delas animais superiores. Mas de onde vem esta inteligência?

O dr. Cristian Gutierrez-Ibanez é pesquisador do Departamento de Psicologia da Universidade de Alberta, no Canadá, que conheceria a Luísa se este meme já não tivesse caído em desuso e nem eu mesmo sei porque estou citando agora.

Sua pesquisa estuda a origem da capacidade cognitiva das araras, papagaios e primos. O que ele descobriu, de forma simples, é que estas aves desenvolveram um circuito telencefálico-mesencefálico semelhante aos dos primatas.

Nos mamíferos, de uma maneira geral, a evolução das habilidades cognitivas complexas está associada ao aumento do tamanho do telencéfalo e do cerebelo, bem como dos núcleos pontinos, que conectam essas duas regiões.

NÃO, CALMA! Já vou explicar!

O telencéfalo é a região do cérebro que forma a maior porção do encéfalo. Ele compreende os dois hemisférios cerebrais, direito e esquerdo, que estão separados, mas unidos. Eles são separados pela fissura longitudinal, e na base desta fissura encontra-se um espesso feixe de fibras nervosas, chamado “corpo caloso”, o qual fornece um elo de comunicação entre os hemisférios.

Já o cerebelo é a parte do encéfalo responsável pela manutenção do equilíbrio, pelo controle do tônus muscular, dos movimentos voluntários e aprendizagem motora; e os núcleos reticulares pontinhos transmitem sinais excitatórios descendentes para a medula espinhal através do trato reticulo-espinhal pontino. As fibras desta via terminam nos neurônios motores anteriores mediais responsáveis pela excitação dos músculos axiais do corpo, os quais sustentam o corpo contra a gravidade, isto é, os músculos da coluna vertebral e os extensores das extremidades. Em outras palavras, os núcleos pontinhos são os que ligam o telencéfalo ao cerebelo e aos demais nervos.

Psitaciformes têm telencéfalos relativamente grandes que não fazem feio se comparados com os dos primatas. Eles têm dois núcleos pontinos do tronco cerebral que se projetam para o cerebelo e recebem projeções do telencéfalo; mas, ao contrário dos mamíferos, as aves também têm um núcleo pretectal que liga o telencéfalo ao cerebelo: o núcleo espiriforme medial (SpM, em inglês). O que Gutierrez-Ibanez e seu pessoal descobriram é que esse núcleo espiriforme medialestá num tamanho anormalmente aumentado em papagaios e familiares, e seu tamanho relativo está significativamente correlacionado com o tamanho relativo do telencéfalo em todas as aves. Isto sugere que a via telencéfala-SpM-cerebelar das aves pode desempenhar um papel análogo às vias cortico-ponto-cerebelares dos mamíferos no controle de habilidades motoras finas e processos cognitivos complexos.

Hummmm, tá. E daí?

Daí muita coisa. Nos primatas isso fe uma incrível diferença: a capacidade de produzir e usar ferramentas. Os controles finos dos movimentos ajudaram a desenvolver o cérebro, que ajudou a ter maior controle nos movimentos delicados. Experimente pegar um parafusinho ou um simples clipe de papel sobre a mesa. Sabe o movimento de pinça que você faz com os dedos, conseguindo pegar a pequena peça? Pois é, isso demanda muita evolução cognitiva para você conseguir realiza-la. Por isso que golfinhos são muito espertos, mas jamais conseguiriam proezas muito maiores que caçar com estratégia, já que eles não possuem membros que pudessem trabalhar e interagir com o mundo. Golfinhos não são tão inteligentes quanto os marqueteiros do Flipper fazem crer.

Por outro lado, pássaros conseguem interagir com o mundo usando seus bicos e suas cabeças bem sustentadas pelos músculos das costas demandam uma bela quantidade de processamento cerebral para isso. Papagaios são plenamente capazes de usar ferramentas, e inclusive fazer contas. Sim, aquele papagaio que não gosta de você e vive te xingando cada vez que você passa não é tão estúpido assim. Ele só reconhece que você tem mais é que ser xingado, mesmo!

Aqui um papagaio resolvendo problemas:

Como isso é ciência e não palpitaria, ele precisou estudar diretamente as aves. Fazendo experimentos com 98 aves, desde galinhas e aves aquáticas até papagaios e corujas, Gutierrez-Ibanez estudou os cérebros dos pássaros, comparando o tamanho relativo do SpM ao resto do cérebro. Sim, os psitaciformes possuem um SpM muito maior que o de outros pássaros.

A conclusão da pesquisa do dr. Gutierrez-Ibanez é que o SpM é fundamental para entender o papel das vias telencéfalo-cerebelares na evolução de habilidades cognitivas complexas em aves, mas não é só isso. Os resultados sugerem que os cérebros dos psicitaciformes podem ser únicos entre as aves em ter um núcleo expandido que conecta o pálio associativo com o cerebelo: o tal núcleo espiriforme medial. Isto sugere que, como nos primatas, as vias telencéfalo-cerebelares desempenham um papel importante no controle de comportamentos complexos. Uma limitação importante em nossa compreensão da função das vias telencéfalo-cerebelares em aves é a falta de informações detalhadas das conexões e organizações desses circuitos neurais em aves. Aprender sobre como aves são espertas talvez nos faça mais espertos sobre como entender nossa própria esperteza.

A pesquisa foi publicada no periódico Scientific Reports.

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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