As falcatruas de um Banco nada santo e uma santa rica sem santidade

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Madre Teresa de Calcutá foi uma das figuras mais abomináveis do catolicismo do século XX, pertencendo a uma religião cheia de figuras abomináveis. Sobre ela, eu já falei de como era uma maníaca psicopata que obrigava todo mundo a viver na penúria, enquanto era amiguinha de ditadoras e passeava por todo canto de primeira classe, ficando nos melhores hotéis e vendendo a ideia que era pobrezinha. Não era. Segundo uma pesquisa apurada, ficou-se sabendo o que todo mundo sabia, só não tinha certeza: tia Teresa tinha uma bela soma de dinheiro guardadinha no Banco do Vaticano. Tão bela que se tivesse sacado tudo o Banco do Vaticano teria se ferrado lindamente.

Mas o mais abominável ainda é a história do próprio Banco do Vaticano.

Gianluigi Nuzzi é um jornalista investigativo italiano. Ele adora esmiuçar as cagadas que a turminha da ICAR apronta durante as suas mil e uma confusões. Em um de seus livros, Nuzzi publicou documentos particulares de Bentão 16 entre outros materiais que gerou um escândalo que demonstrou a existência de uma ampla rede de corrupção, nepotismo e favoritismo com relação a alguns contratos com preços superfaturados. Esse escândalo ganhou o apelido Vatileaks. Uma das fontes de Nuzzi era o ex-mordomo de Bento 16, Paolo Gabriele, que foi para cadeia com a pena de três anos de reclusão, que acabaram sendo reduzidos para 18 meses por causa de alguns atenuantes. Gabriele não tinha antecedentes criminais, havia trabalhado para o Vaticano e reconheceu ter traído a confiança do pontífice.

Ah, sim. Bento 16 deu perdão digno ao cargo de chefe de Estado que ele tinha na época, já que o Vaticano é um país reconhecido e independente, sendo o Papa o cabeça de tudo, num reinado absolutista, sem ser chamado propriamente de rei, mas é o que ele de fato é. Dessa forma, no uso de suas atribuições, Bento 16 perdoou o sujeito e ficou por isso mesmo.

Nuzzi expôs como o Istituto per le Opere di Religione (Instituto para as Obras de Religião), mais conhecido como Banco do Vaticano, atuava na lavagem de dinheiro de forma a mascarar as obras escusas da Santa Sé, contando com a ajudinha de políticos e até da máfia. É uma história… interessante.

O Banco do Vaticano foi instituído durante o governo de Benito Mussolini anos depois de quando foi assinado o Tratado de Latrão (sem trocadilhos, por gentileza). Este tratado colocava fim ao que foi chamado de Questão Romana, que nada mais era que uma briga de vizinhos numa disputa territorial.

O que você entende hoje como Itália não existia propriamente antes da segunda metade do século XIX. Eram diversas cidades-estado que viviam às turras entre si, que nem acontecia com as cidades gregas, até que o Império Romano tomou aquela bagaça na mão grande e montou o que eles mesmos chamavam de Magna Graecia. Em 1860, começou a haver a formação do que viria ser a Itália. O problema é que os terrenos pertencentes à Igreja Católica estavam espalhados em diversos locais. Alguns terrenos tinham sido dados por Pepino, o Breve, outros conseguidos na mão grande pelos exércitos papais. Sim, exércitos papais! E isso fora os grupos paramilitares como a fundada por Ignacio de Loyola: a Companhia de Jesus, que começou com a obra pia de livrar o mundo dos protestantes durante a Contra-Reforma, de preferência das piores maneiras imaginadas.

Depois do Tratado de Latrão, ficou definido o espaço que a Santa Sé poderia usar para montar seu país com blackjack, prostitutas e velhotes de saia, e este lugar foi chamado de Vaticano. Claro, sendo um país independente, ele precisa ter um sistema econômico e outro para regular este sistema, bem como administrar a vasta fortuna que a ICAR vem acumulando desde que Constantino deixou uma grana preta para o papa Silvestre I, mas de uma forma bem displicente. E quando eu falo “blackjack e prostitutas”, não é apenas uma citação ao Futurama. O Vaticano realmente explorou prostituição, jogo e pornografia. O problema é que isso fica meio feio e é preciso esconder tudo isso, lavando, enxaguando, secando a grana desse montando, passando a ferro de espada qualquer um que se metesse.

O problema é que Constantino morreu em 337 EC, e não é preciso ser nenhum gênio para imaginar que essa grana duraria para sempre. Por isso, a ICAR hipster precisou conquistar territórios antes do War ser modinha. Manter exércitos sempre foi custoso e, por isso, o Império Romano NÃO PAGAVA os seus soldados. Era na base do “tá vendo aquele pessoal ali? Bem, vamos conquistar aqueles biltres. Depois, vocês ficam com os espólios de guerra, escravos, tesouro ou o que quer que seja”. A alternativa era, para cada dia de batalha não vencida, 1/10 da tropa era morta a porrada (daí veio o termo “dizimar”). Passam-se anos e a ICAR precisava sustentar guerras e pedia ajuda a príncipes aliados, mas daí vinha outro tipo de dívida. Os esbanjadores Papas financiavam suas luxúrias em verdadeiros lupanares dentro de Roma, mas não era só isso. Temos que admitir que eles fizeram muito pelas artes, financiando também arquitetos, construtores e artistas, e a própria Capela Sistina foi caríssima, começado com um Papa e terminando no reinado de outro.

Aliás, falando de Capela Sistina, Sisto IV foi quem encomendou a obra (inicialmente, Rafael Sanzio que tirou o cu da reta e sugeriu Michelangelo, que não era pintor, mas escultor). Sisto IV foi o Papa que achou uma belíssima ideia abraçar a Inquisição, ainda mais porque o Vaticano estava precisando de dinheiro e a Espanha que estava se formando ali tinha de sobra… ou quase.

Em meio a gastos extravagantes, desfalques, roubos e safadeza descontrolada, os débitos levaram a Igreja católica a abraçar lindamente a Inquisição, inventada por Isabel de Castela e reafirmada por Fernão de Aragão, que casou com Isabel num imenso Golpe do Baú. Sisto IV não estava muito a fim de participar disso, mas a Espanha estava fortificada por ter vencido a Guerra da Reconquista, quando expulsaram os árabes da Península Ibérica. Isso levou a Espanha a pensar seriamente em como ficar com o dinheiro dos outros, principalmente estrangeiros (a rigor, os poucos árabes que ficaram e principalmente os grandes mercadores judeus). Enquanto Castela tinha a grana, Aragão tinha exército, e Roma não tinha como discutir com eles, com Torquemada pulando feliz da vida para eliminar todos aqueles judeus. Tava ali a chance de denunciar um monte de ricaço (maioria sendo judeus) como bruxos, queimá-los na fogueira e ficar com os seus bens. Daí veio o interesse da Espanha em mandar Colombo para o Novo Mundo para ver se trazia algum ouro nos porões dos navios que a Espanha NÃO DEU, mas mandou que os irmãos Pizon dessem a Colombo, fazendo com que os Pizon ficassem muito irritados. Sisto IV morreu e deixou as obras encomendadas para seu sucessor, Inocêncio VIII, pagar, e este começou a se apropriar dos bens de muita gente. Os custos estavam pulando e se acumulando.

Chega Leão X, um maníaco em todos os sentidos, e leva o Vaticano à falência mais uma vez. Como eles precisavam de dinheiro, tiveram a maravilhosa ideia de vender indulgências. A roubalheira era tão absurda que um certo cônego ficou bolado, e pendurou uns papeis com uns princípios que ficaram conhecidas como as 95 Teses. Em outras palavras, se houve uma Reforma Protestante, com todos os vieses futuros, agradeçam a Leão X. Depois disso, cresce a influência da ICAR, ora sendo afrontada por um ou outro ditador/imperador/etc., ora sendo suportada por outro ditador/imperador/etc.

Vem o século XIX e a Era Contemporânea. Começa a Revolução Industrial. Dinheiro começou a circular nas mãos de certas pessoas, e a ICAR não estava alheia a isso. Conseguiu ter seu próprio terreno, cercado e fortificado numa monumental obra que ficou conhecida como Praça de São Pedro, com um belo muro inexpugnável. Só que chega a um momento que precisa de alguém para montar um sistema bancário de forma a organizar as falcatruas, já que o mundo estava mudando.

Em 1929, o Vaticano nomeou Bernardino Nogara como seu novo consultor para corrigir as cagadas nas finanças da ICAR, cujo investimento de US$ 92 milhões (1,135 bilhão hoje) feitos por Mussolini se transformou em quase US$ 1 bilhão (12,3 bilhões) pouco depois. Como? Bem, não foi vendendo doce pelos sacristãos. Além disso, seguindo a Regra de Aquisição Ferengi nº 34 (Guerra é bom para os negócios), o Banco do Vaticano teve um outro momento histórico muito influente na sua criação: A Segunda Guerra Mundial. À medida que os Aliados impuseram restrições às contas bancárias à Itália, ficou bem mais difícil mover dinheiro da alta cúpula política fascista que estava ralando peito dali. Nogara criou o banco, que foi oficialmente fundado em 27 de junho de 1942, e para não dar na vista que era um banco propriamente dito (apesar de sê-lo), deu-lhe o nome Instituto de Obras Religiosas, à guisa de disfarçar as suas reais intenções, dando a entender que era apenas uma forma de manter a Igreja católica e como ela faz seu serviço pastoral. A realidade era bem diferente, já que sua criação era para evitar que as transações financeiras fossem rastreadas através dos bancos ocidentais.

Por estar sediado na Cidade do Vaticano, um território soberano e com leis próprias, o Instituto de Obras Religiosas estava isento de todas as restrições de guerra e tornou-se “o melhor banco offshore do mundo”, sendo amado por todos os corruptos, criminosos, mafiosos e gente sem escrúpulos que tinha grana suficiente para comprar o sigilo, com garantia plena de segredo. Suíça é pinto perto do Banco do Vaticano, que é muito, mas muito mais seleto. Você jamais vai ter conta lá, lamento informar.

Quando um tal de Albino Luciani ordenou uma devassa no Banco do Vaticano em 1978, aquilo poderia não acabar nada bem. E não acabou: ele morreu 33 dias depois de assumir o papado com o título João Paulo I. O laudo “oficial”, pero no mucho, foi de embolia pulmonar, mas você acredita no que quiser; ainda mais que não foi feita autópsia, pois a Lei Canônica a proíbe. A verdade é que ninguém sequer sabia quem diabos era esse Albino Luciani, que nunca foi nada expressivo e o que se tem em mente é que ele foi eleito no conclave mais rápido dos últimos anos apenas para que ele fosse um pau-mandado da ala mais conservadora entre os mais conservadores da Santa Sé. Como a disputa estava acirrada entre vários, e cada um era ferrenho inimigo do outro, não era de interesse que qualquer um desses fosse eleitos; assim, tascaram o Luciani para o Trono de Pedro, de forma a calçar “as sandálias do pescador”, achando que ele seria facilmente manipulado. Bem, ele não foi e chegou logo metendo o pé na porta.

O arcebispo norte-americano Paul Marcinkus – o então diretor executivo do Banco do Vaticano, tendo sido nomeado pelo Papa Paulo VI em 1970 – foi exonerado imediatamente e assim começou o barata-voa. A exoneração expôs diversas negociatas com a Máfia Italiana e até mesmo a Maçonaria. Alguns alegam que havia ligações com a KGB, mas aí já é teoria de conspiração demais!

Vários livros tentam deslindar o que aconteceu e como aconteceu. O que todos concordam é que a morte de João Paulo I não foi um mal súbito, e a ICAR tem um longo histórico de papas que têm a desventura de morrer logo quando assumem o papado. Ser papa dá azar desde que São Pedro foi pendurado para secar de cabeça pra baixo (se bem que conta-se que ele que escolheu esta posição e eu não estou aqui para discutir taras alheias).

De acordo com os documentos levantados por Nuzzi, durante a gestão de Marcinkus, as contas da Madre Teresa receberam um grande aporte de dinheiro. De onde veio este dinheiro é que é o problema, já que está tudo lavadinho e nem registro da origem da grana se tem. Como tudo fica compartimentalizado no Vaticano, ninguém quer mexer nisso, pois não há interesse nenhum. Com a subida de Bento 16, tudo ficou mais encoberto ainda, e quando o Papa Francisco chegou, ordenou mais uma verificação no Banco do Vaticano e também mandou dar um faxinão.

Em julho de 2014, Papa Chicão deu bilhete azul para o presidente do Banco do Vaticano e mais quatro funcionários, todos eles acusados de liderar praticamente uma organização criminosa lá dentro, com mais uma torrente de escândalos de corrupção. Foram bloqueadas na época 18 mil contas suspeitas. Com o cancelamento dessas contas e outras devassas nas devassidões, o lucro do Banco do Vaticano caiu estupendos 97% em 2014!

NOVENTA E SETE PORCENTO!

Só o saldo de Madre Teresa era tão absurdo que se ela tivesse retirado toda a grana de lá, o Banco do Vaticano teria falido de vez, e só a sua existência mostra como Marcinkus se metia nos assuntos da Santa Sé. Segundo Nuzzi, Marcinkus volitava entre os poderosos do Vaticano, que apesar de ser um regime absolutista, tem as suas intrigas palacianas. O Papa governa sozinho, mas nunca tão sozinho quanto se faz crer.

Nisso, o imenso número de fiéis ainda venera uma instituição corrupta e assassina. Eu até imagino que Francisco I tenha boas intenções e tente limpar aquilo tudo, mas João Paulo I também tinha, só que ele não dispunha de um mundo conectado como o de hoje, em que fica fácil um jornalista ter acesso a documentos e compartilhá-los. Ainda virá gente aqui e em vários veículos defender a Igreja católica Apostólica Romana e um imenso número, mesmo entre não católicos, ainda acham que Madre Psicopata Teresa é um exemplo de pureza e abnegação. Sua imensa fortuna não teria acabado com a pobreza, mas teria aliviado o sofrimento de muita gente. Sua influência entre ditadores poderia ter diminuído o sofrimento desse povo? Claro que não, pois sua influência vinha em exatamente aprovar este sofrimento, sendo assim a maneira como adquiriu sua vasta fortuna.

Não se sabe como irá terminar esta história. Muito provavelmente, em nada. Os tentáculos estão muito profundos e mesmo que se finalize o Banco do Vaticano, outro terá que tomar o lugar, movendo as peças, mas o jogo será o mesmo. Pensem nisso quando virem uma comunidade pobre, com uma única igreja, com padres tentando levar conforto a famílias miseráveis que a única salvação será acreditarem num Paraíso depois que morrerem, enquanto temos padres no Twitter e no Facebook bancando os lacradores, morando bem e se alimentando melhor ainda.

Jesus conhecendo a sua malícia, disse: “Por que me experimentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo”. E eles lhe apresentaram um dinheiro. E Jesus diz-lhes: “De quem é esta efígie e esta inscrição?” Dizem-lhe eles: “De César”. Então, Jesus lhes disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

Mateus 22:18-21


Fontes:

Ensino Público de São Paulo terá Empatia e Criatividade. Ai, ai ♥
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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • o/

  • Mas é sempre bom lembrar que o apego excessivo a bens materiais e ao dinheiro, também conhecido como avareza, é pecado capital.

  • Silvio Soares da Silveira

    o/

  • NestorBendo

    Dr. André, eu sei que é uma bosta comentar algo assim numa thread totalmente nada a ver feito esta, mas lá vai:

    Tá acontecendo algo por aí que esteja bagunçando com o seu servidor/provedor/caralho-a-quatro-que-mantém-o-ceticismo.net-no-ar? Eu estou sofrendo com bloqueios constantes de links que eu costumava acessar rotineiramente do seu site, fica aparecendo esta mensagem de “too many redirects”. Eu já tentei limpar os cookies, e isso tá acontecendo em todos os aparelhos onde tento acessar o site.

    Tem como saber se é problema aí ou aqui? Eu acesso no celular, no notebook, no desktop, em diversas redes WiFi de provedores situados em cidades diferentes, e testei num computador isento do meu login no Chrome, no trabalho, usando o Firefox, e ainda assim não acessa.

    Será que enfrentaremos a escassez do nosso site preferido?

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    Pryderi respondeu:

    É do seu provedor. Já passei por isso. Tenta abrir em janela anônima