Encarnação e Ceticismo

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Em uma discussão pelo Twitter com dois ou três defensores do espiritismo – o que me supreendeu, não imaginava que tantas pessoas alfabetizadas dessem bola pra esse tipo de bobagem – um dos meus oponentes, afirmando incautamente que o fenômeno da encarnação de espíritos já havia sido pesquisado de maneira séria por um graduado cientista, disse-me para procurar saber a respeito de um senhor de nome Ian Stevenson.

Minhas previsões a respeito do que iria encontrar nesta pesquisa se mostraram corretas. E os resultados da busca, risíveis.

Entre os vários dos resultados que surgiram no Google, boa parte deles tratava de deixar bem claro que algumas personalidades notoriamente bem vistas e famosas no mundo da ciência consideravam respeitável a pesquisa do psiquiatra canadense, entre eles Arthur C. Clarke e Sam Harris. O nome mais citado entre os que teriam dado aval a estas pesquisas é, sem sombra de dúvida, Carl Sagan. Será?

Levantei a sobrancelha, duvidando da afirmação. Teria mesmo Carl Sagan, um homem que durante toda sua vida se esforçou para divulgar o pensamento cético, dado trela a algo tão dúbio quanto as reencarnações espíritas? Ao pesquisar por “Ian Stevenson Carl Sagan“, descubro a resposta para o enigma: a verdade é que a opinião de Sagan a respeito de estudos na área da percepção extra-sensorial pertence ao livro “O mundo assombrado pelos demônios” (um ótimo manual cético de detecção de mentiras), foi tirada de contexto e, ao contrário de endossá-la, levanta muitas dúvidas sobre a validade dos mesmos. Reproduzo o trecho do livro abaixo:

No momento em que escrevo, acho que três alegações no campo da percepção extra-sensorial (ESP) merecem estudo sério: (1) que os seres humanos conseguem (mal) influir nos geradores de números aleatórios em computadores usando apenas o pensamento; (2) que as pessoas sob privação sensorial branda conseguem receber pensamentos ou imagens que foram nelas “projetados”; e (3) que as crianças pequenas às vezes relatam detalhes de uma vida anterior que se revelam precisos ao serem verificados, e que não poderiam ser conhecidos exceto pela reencarnação. Não apresento essas afirmações por achar provável que sejam válidas (não acho), mas como exemplos de afirmações que poderiam ser verdade. Elas têm, pelo menos, um fundamento experimental, embora ainda dúbio. Claro, eu posso estar errado. SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios. Tradução de Rosaura Eichemberg. Companhia das Letras: São Paulo, 2006. P. 343.

Não acredito que tais hipotéticos estudos a que se referem Sagan (e no livro ele não cita nenhum pesquisador em especial; talvez em algum outro documento ele tenha dado nomes aos bois) tenham realmente chegado às suas mãos para uma correta apreciação. Caso isso tenha acontecido, é muito provável que ele tenha deixado em seu escaninho para ler mais tarde e tenha se perdido em meio à papelada de seu escritório, entre tantos outros estudos mais sérios e úteis à humanidade. Se Sagan de fato leu algum estudo sério na área, não tenho pudores ao afirmar com toda certeza do mundo que este estudo não era de Ian Stevenson.

Apesar de achar uma grande baboseira tudo o que encontrei a respeito dos estudos do psiquiatra, um dos textos me chamou mais a atenção: esta entrevista que ele teria concedido em 1972 ao Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas. Recomendo a leitura, é um material de qualidade duvidosa porém de muito valor humorístico, que poderia facilmente ser utilizado como exemplo de como não se deve conduzir uma pesquisa. Para resumir, elencarei aqui alguns dos principais equívocos encontrados. Provavelmente esquecerei algum, por isso peço aos leitores deste blog que apontem o que acharem necessário.

  1. O doutor afirma que recordações de vidas passadas costumam aparecer em crianças a partir dos dois anos de idade e somem a partir dos seis. O doutor também esquece que, geralmente, esta é a idade em que as crianças não têm muita noção da realidade, inventam amigos imaginários e, claro, mentem. Algum estudos sugerem que as crianças começam a mentir por volta dos seis meses (!) de idade. É muita ingenuidade pensar que crianças são seres cândidos incapazes disso.
  2. Stevenson alega a existência de casos em que o nascimento de alguém foi anunciado antes de ocorrer a gravidez. Ele cita que esses eventos teriam acontecido entre índios no Alaska, na Tailândia e no Brasil. Predizer um nascimento em alguma região afastada, numa comunidade supersticiosa, que possivelmente não faz uso de métodos contraceptivos é fácil, não?
  3. Conforme os estudos conduzidos, se uma criança demonstra habilidades acima da média, ou facilidade de aprendizagem, não é porque ela tem talento, é superdotada, e muito menos fruto de seu esforço – é sinal de que ela encarnou algum espírito que foi muito inteligente em outra vida e não passa de um títere. Mesmo que ela não se recorde de vidas passadas, a presença da habilidade é considerada uma evidência disso.
  4. O psiquiatra cita um caso de um casal birmanês que teve filhos com traços europeus. Segundo ele, o nome que se dá a este fenômeno é reencarnação genética. Eu prefiro chamar de chifre, mesmo.
  5. Quando perguntado sobre o que considera ser uma prova científica de reencarnação, Ian Stevenson afirma que um relato de um menino é um exemplo disso. Mesmo diante da possibilidade de mentira deslavada e sem vergonha e do chamado relato anedótico. Após isso, ele é perguntado sobre o que a “ciência oficial” (preste atenção ao termo utilizado) considera como prova, e ele admite que a ciência de verdade não tem interesse no assunto, afinal cientistas de verdade devem ter coisas muito mais importantes para fazer do que ouvir historinhas inventadas por meninos do interior.

Volto a afirmar: se Carl Sagan tivesse mesmo lido algum artigo produzido pelo citado estudioso, teria utilizado o papel em que o mesmo foi impresso para… bem, fins menos nobres. Alguém duvida?


Publicado originalmente no blog Megalopolis.

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