Por que não vou rezar pelo Haiti

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Aviso: não vou rezar, mas à minha maneira manifesto meu total pesar pela tragédia do Haiti e minha intenção de ajudar como puder em termos de solidariedade humanitária. Não preciso de religião para demonstrar meus pêsames e solidariedade.

Depois do terrível terremoto que devastou o Haiti esta semana, os meios de comunicação e os clérigos cristãos estão pedindo para que rezemos pelo Haiti. Que rezemos para que “Deus” acuda e ajude os sobreviventes e receba com carinho os mortos, estimados entre 45 mil e 100 mil. Mas, por motivos óbvios – embora não óbvios para cristãos, embora eu sinta muito pela tragédia e, se puder, vá ser solidário à minha maneira com a população haitiana, não vou rezar nada.

Pelo contrário, manifesto ainda mais condenação a essa religião que nos manda orar para uma ilusão que elas criaram, chamada Deus, que dizem que não deixa uma folha cair de uma árvore contra sua vontade mas é incapaz de impedir um terremoto que matará milhares e milhares de seres humanos e animais de outras espécies.

É claro que não culpo o cristianismo pelo terremoto, mas evidencio mais esse vexame da fé cristã, que se mostra crente num deus comprovadamente incompatível com a realidade, e minha repulsa pela atitude dessa religião de, apesar de todas as evidências em contrário, insistir em “ensinar” às pessoas que a divindade é onipotente, bondosa, protetora, o bem absoluto, características que, para serem refutadas, não precisaram de nenhum ateu da estirpe de Richard Dawkins, mas apenas o mero desenrolar dos fenômenos da Natureza. E deixo claro todos os motivos por que não vou rezar pelo Haiti, avisando que falo aqui como se “Ele” existisse.

Não vou rezar porque não vai ser agora, depois de décadas ignorando todo o duradouro sofrimento do povo haitiano, mergulhado em miséria extrema, ditaduras sangrentas e instabilidade política por anos e anos e dependente de ajudas humanitárias e intervenções de forças militares de paz para não cair no caos absoluto, que “Deus” vai fazer algo que preste lá.

Por que ele, que por tanto tempo deu as costas para quem sofreu com a tirania de Papa Doc e Baby Doc, ignorou os apelos do mundo para que a pobreza fosse erradicada ou ao menos aliviada ali, fez vistas grossas para a destruição ambiental que grassa por ali há muito tempo e permitiu cerca de 50 mil mortes (segundo estimativas da Cruz Vermelha) e milhões de desabrigados no terremoto, só agora é que vai passar a ser bom com o Haiti, coisa que nunca foi? Por que quem ignorou orações por décadas só vai passar a atendê-las depois de múltiplas catástrofes seguidas já terem acontecido?

Jesus estava errado. No mínimo dois versículos da Bíblia contendo falas dele…

E Jesus lhes disse: Por causa de vossa pouca fé; porque em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e há de passar; e nada vos será impossível. (Mateus 17:20)

Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus. (Mateus 18:19)

…falharam totalmente.

Primeiro, o que nos levaria a acreditar que ninguém no Haiti, nenhum dos mortos ou desabrigados, tinha fé em Deus? O que nos induziria a crer que nenhum mísero indivíduo entre os cerca de 95% cristãos da população daquele país tinha fé suficiente para incitar o “Senhor” a dar sua mão divina àquela tão pobre nação?

Segundo, se duas pessoas são atendidas ao pedirem a Deus a mesma coisa em termos de bons desejos, o que nos faria acreditar que não havia ao menos dois indivíduos orando pela paz e recuperação no Haiti? A estimativa é que nada menos que milhares ou milhões de pessoas estavam engajadas nessa oração pelo país, mas não foram atendidas em momento algum. Pior, foram “contempladas” depois de tudo por um terremoto que danou destruição e empurrou aquele país muitos passos para trás no processo de reabilitação socioeconômica e política.

Coroando esse momento “Fé Cristã FAIL”, vemos o caso da benfeitora brasileira Zilda Arns, católica devota, cuja morte se deu em circunstância emblemática. Ela morreu no terremoto, imagine, dentro de uma igreja lotada de gente religiosa. Seu filho disse que sua fatalidade se deu enquanto ela discursava para aquelas pessoas, com palavras de esperança, solidariedade e autêntico amor ao próximo. A Pastoral da Criança, por sua vez, afirmou que sua morte aconteceu depois do discurso, mas ainda assim dentro da igreja lotada.

O que teria feito Deus matar (ou permitir a morte de) Zilda e mais tanta gente em situação tão catastrófica? A missão dela na Terra não tinha terminado, muito pelo contrário – ela estava em pleno ofício, trabalhando a todo vapor. Por que o final de sua vida teve de ser tão inconveniente – numa tragédia, no meio de muitas outras pessoas e no meio de seu vigoroso trabalho?

Ela e aquelas pessoas eram religiosas devotíssimas, e mesmo assim não foram merecedoras da proteção de Deus que a religião cristã afirma existir e pela qual tantos oram todos os dias. Nem gente tão fiel e temente a Deus, como Zilda Arns, mereceu sua guarda, sua preservação do mal trágico. Por que, de entidade que não deu a mínima para a população e para as orações de todo o planeta e abriu as portas para a catástrofe, ele mudaria de caráter e de ideia agora? Por que só agora, depois de permitir tanta desgraça a despeito das preocupações de todo o mundo, ele passaria a nos ouvir?

Apesar de todas as evidências, no entanto, infelizmente não só vão insistir para que oremos, como irão usar os velhos subterfúgios da fé sem lógica: “Deus sabe o que faz” (desprezar um país, permitindo que seja abalado pela mais ampla variedade de tragédias e problemas e deixar para trás um cenário com milhares de corpos espalhados e destruição e desespero reinando absoluto é tudo o que ele sabe fazer?), “Zilda será recebida com festa no céu” (como se uma tragédia fosse motivo de festa!), “Deus vai amparar essas pessoas” (como se tudo o que ele permitiu de ruim e deixou de fazer de bom até hoje não valesse mais)…

Por tudo isso, minha resposta a quem pedir para eu e outras pessoas rezarem pelo Haiti será: não, não vou rezar. Por tudo que expliquei acima, não faz a menor lógica rezar. Não vou insistir nessa pueril fantasia religiosa que foi devastadoramente desmitificada pelas forças da Natureza. Se a esperança em Deus nada mais foi que uma ilusão para o Haiti até hoje, agora é que não faz mais sentido nenhum.

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