Jesus e o tempo
Em sua “Vida de Jesus”, Strauss diz: “Poucas coisas são certas, nas quais os ortodóxos se apoiam de preferência ‘as milagrosas e as sobrehumanas’, as quais jamais aconteceram. A pretensão de que a salvação humana depende da fé em coisas das quais uma parte é certamente fictÃcia, outra sendo incerta, é um absurdo, que em nossos dias nem sequer devemos nos preocupar, refutando-o”. Ernest Havet, comparando Jesus com Sócrates, diz que Sócrates é um personagem real, enquanto Jesus é apenas ideal. Homens como Platão e Xenófanes, os quais conviveram com Sócrates, deixaram o seu testemunho a respeito do mesmo. Em seus escritos relatam tudo sobre Sócrates: a vida, o pensamento, os ensinamentos e a morte. E nada do que lhe diz respeito foi adulterado, e, portanto, é autêntico, verdadeiro e indiscutÃvel. Quanto a Jesus, não teve existência real, e aqueles aos quais se atribui escritos e referências em relação a ele, uns foram adulterados em seus escritos, outros não existiram.
Pilatos, que teria autorizado seu sacrifÃcio, omite o fato quando relata os principais acontecimentos de seu governo. Por acaso mandaria matar um deus e não saberia? Assim, quem descreveu Jesus apenas imaginou o que ele teria sido, não foi sua testemunha. Renan disse em sua “Vida de Jesus”: “Nossa admiração por Jesus não desapareceria nem mesmo quando a ciência nada pudesse decidir de certo, e chegasse forçosamente à s negações”. Termina dizendo que o divino encontrado pelos cristãos em Jesus é o mesmo que a beleza de Beatriz, que apenas resultou do pensamento de Dante ou de seu gênio literário. Da mesma forma, as belezas de Cristina residem nos sonhos religiosos dos hindus.
As maravilhas de Jesus e a beleza de Maria são produtos do gênio inventivo da liderança oradora dos mitos Jesus e Maria. Se de ambos apenas se diz o bem, há sinal que eles não tiveram existência real. Jesus Cristo é uma criação do homem, o qual esteve em cena apenas para realizar as profecias dos primários profetas judeus. Esta é também a opinião de Didon, exposta em seu livro “Vida de Jesus”. Diz ele que é suspeita a sonegação de quase trinta anos da vida de Jesus à história evangélica. “Nós apenas sabemos um nada da vida de Jesus”, escreveu Miron.
Os redatores dos Evangelhos e os primeiros autores eclesiásticos, recolhendo as tradições correntes na comunidade cristã, podem ter adquirido alguns fragmentos da verdade; mas como assegurar que, entre tantos elementos mitológicos e legendários, haja algo de verdade? Assim, a vida de Jesus em si é impossÃvel. Acontece com Cristo o mesmo que acontece com todos os entes legendários: quanto mais os buscamos, menos os encontramos. A tentativa feita até aqui de colar na História, de arrebatar à s trevas da teologia, um personagem que até a idade de trinta anos é absolutamente desconhecido, e que depois da referida idade aparece fazendo “os milagres” humanos impossÃveis é absurda e ridÃcula.
Labanca, em “Jesus Cristo”, impugna a possibilidade de uma biografia cientÃfica de Jesus, baseando-se na inautenticidade dos Evangelhos, uma vez que os mesmos não tiveram finalidade histórica, mas somente religiosa e propagandÃsta.
Jesus não está nos Evangelhos por causa de sua esquisita divindade, mas porque isso convém aos seus propagadores e aos que ainda hoje vivem do seu nome, como lucrativo meio de vida.
Próximo capÃtulo: Jesus Cristo nos Evangelhos
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