Deus e Ciência no mundo atual

Isso soa tremendo, até que você pára para refletir sobre a idéia por um instante. Então você se dá conta de que a presença de uma divindade criativa no universo é claramente uma hipótese científica. De fato, seria difícil imaginar uma hipótese mais momentosa em toda a ciência. Um universo com um deus seria um universo de tipo totalmente diferente de um universo sem deus, e a diferença seria científica. Deus poderia acabar com a dúvida a seu favor a qualquer momento, encenando uma demonstração espetacular de suas forças, capaz de satisfazer os padrões exigentes da ciência. Mesmo a infame Fundação Templeton reconheceu que Deus é uma hipótese científica. Apesar de esforços bem financiados, ainda não apareceu nenhuma evidência que comprove a existência de Deus.

Para enxergar a hipocrisia insincera das pessoas religiosas que se dizem adeptas do NOMA, imaginemos que arqueólogos forenses, devido a algum conjunto improvável de circunstâncias, descobrissem evidências em DNA que demonstrassem que Jesus nasceu de mãe virgem e não teve pai. Se os entusiastas do NOMA fossem sinceros, eles deveriam desconsiderar imediatamente o DNA encontrado pelos arqueólogos: “É irrelevante. As evidências científicas não têm valor algum para questões teológicas. É o magistério errado.”

Alguém imagina seriamente que eles diriam alguma coisa remotamente semelhante a isso? Pode apostar o que você quiser que não apenas os fundamentalistas, mas também todos os bispos e todos os professores de teologia do país alardeariam as evidências arqueológicas até os céus.

Ou Jesus teve pai, ou não teve. A questão é científica, e evidências científicas seriam usadas para resolvê-la, se as houvesse. O mesmo se aplica a qualquer milagre –e a criação proposital e intencional do universo só poderia ter sido a mãe e o pai de todos os milagres. Ou ela aconteceu, ou não aconteceu. É um fato, de uma maneira ou de outra, e, em nosso estado de incerteza, podemos atribuir a ele uma probabilidade– uma estimativa que pode se modificar à medida que forem chegando mais informações. A melhor estimativa que a humanidade pode fazer quanto à probabilidade da criação divina se reduziu drasticamente em 1859, quando foi publicado “A Origem das Espécies”, e vem caindo constantemente nas décadas subseqüentes, à medida que a evolução foi se consolidando, de teoria plausível no século 19 para fato estabelecido, hoje.

A tática Chamberlain de aconchegar-se com a religião “sensata”, de modo a apresentar uma frente unida contra os criacionistas (os proponentes do design inteligente), é ótima se sua preocupação central é a batalha pela evolução. Essa é uma preocupação central válida, e eu saúdo aqueles que a defendem, como é o caso de Eugenie Scott em “Evolution versus Creationism” (Evolução versus criacionismo). Mas, se você se debruça sobre a questão científica estupenda de se o universo foi ou não criado por uma inteligência sobrenatural, as linhas divisórias seguem um traçado totalmente distinto. Sobre essa questão mais ampla, os fundamentalistas se unem à religião “moderada” em um dos campos, e eu me vejo no outro.

É claro que tudo isso pressupõe que o Deus do qual estamos falando seja uma inteligência pessoal, como Jeová, Alá, Baal, Wotan, Zeus ou Krishna. Se, com “Deus”, você se refere ao amor, à natureza, à bondade, ao universo, às leis da física, ao espírito da humanidade ou à constante de Planck, nenhuma das anteriores se aplica. Uma estudante americana perguntou a seu professor se ele tinha uma opinião formada a meu respeito. “É claro”, respondeu o professor. “Ele diz que a ciência positiva é incompatível com a religião, mas fala em tom de êxtase sobre a natureza e o universo. Para mim, isso é –religião!”. Bem, se é isso que você opta por indicar quando fala em religião, ótimo, isso faz de mim um homem religioso. Mas se seu Deus é um ser que projeta universos, escuta orações, faz milagres, lê seus pensamentos, se preocupa com seu bem estar e faz você se reerguer depois de morto, é pouco provável que você se satisfaça. Como disse o respeitado físico americano Steven Weinberg: “Se você quiser dizer que ‘Deus é energia’, então poderá encontrar Deus num pedaço de carvão.” Mas não espere que congregações inteiras lotem sua igreja.

Quando Einstein disse: “Deus teve uma opção ao criar o Universo?”, ele quis dizer: “Poderia o universo ter começado de mais de uma maneira?”. “Deus não joga dados” foi a maneira poética encontrada por Einstein para colocar em dúvida a teoria da indeterminância de Heisenberg. Einstein se irritou, num caso que se tornou célebre, quando os teístas interpretaram erroneamente o que ele dissera, considerando que ele falava de um Deus pessoal. Mas o que ele esperava? A sede de interpretá-lo erroneamente deveria ter sido evidente para ele. Os físicos supostamente religiosos geralmente revelam sê-lo apenas no sentido einsteiniano: são ateus dotados de disposição poética. Eu também o sou. Mas, em vista do anseio muito amplo por esse grande equívoco de interpretação, confundir deliberadamente o panteísmo einsteiniano com religião sobrenatural é um ato de alta traição intelectual.

Aceitando, então, que a hipótese da existência de Deus é uma hipótese científica válida cuja verdade ou falsidade nos é oculta pela ausência de evidências, qual deve ser nossa melhor estimativa da probabilidade de que Deus existe, dadas as evidências hoje disponíveis? Bastante baixa, na minha opinião, e eis o porquê.

Para começar, vários dos argumentos tradicionais em favor da existência de Deus, de são Tomás de Aquino em diante, são fáceis de se demolir. Vários deles, como o argumento da primeira causa, funcionam criando um regresso infinito, para cuja conclusão se convoca Deus. Mas nunca nos é dito porque Deus é magicamente capaz de pôr fim a regressos, sem dar qualquer explicação dele mesmo. É claro que precisamos, sim, de algum tipo de explicação da origem das coisas. Físicos e cosmólogos estão trabalhando duro sobre esse problema. Mas, seja qual for a resposta – uma flutuação quântica aleatória, ou uma singularidade de Hawking/Penrose, ou seja que nome acabarmos por lhe dar – , ela será simples. Coisas complexas e estatisticamente improváveis, por definição, não acontecem, simplesmente – elas exigem uma explicação. Elas são impotentes para encerrar regressos, de uma maneira que coisas simples não são. A primeira causa não pode ter sido uma inteligência _o que dirá uma inteligência que atende a orações e tem prazer em ser adorada. Coisas inteligentes, criativas, complexas e estatisticamente improváveis chegam ao universo com atraso, como produtos da evolução ou de algum outro processo de escalação gradativa a partir de origens simples.

Elas chegam ao universo tarde; logo, não podem ser responsáveis por tê-lo projetado.

Seus expoentes mais radicais chegam a ansiar por uma guerra mundial, que identificam como o armagedon que deve ser o presságio do retorno de Cristo à Terra. Em seu novo livro curto “Letter to a Christian Nation” (carta a uma nação cristã), Sam Harris, como de costume, acerta o alvo em cheio:

“Não constitui exagero, portanto, dizer que, se a cidade de Nova York fosse repentinamente substituída por uma bola de fogo, uma porcentagem significativa da população americana enxergaria um aspecto positivo na nuvem atômica subseqüente, já que esta sugeriria a essas pessoas que estaria por acontecer a melhor coisa possível: o retorno de Cristo.

Imaginem-se as conseqüências se uma parcela significativa do governo americano acreditasse de fato que o mundo está prestes a acabar e que seu fim será glorioso. O fato de que quase metade da população americana aparentemente acredita nisso, puramente com base em dogmas religiosos, deve ser visto como emergência moral e intelectual.”

Meus colegas cientistas têm razões adicionais para declarar estado de emergência. Os ataques ignorantes e absolutistas às pesquisas com células-tronco representam apenas a ponta de um iceberg. O que temos aqui não é nada menos que um ataque global à racionalidade e aos valores iluministas que inspiraram a fundação desta primeira e maior das repúblicas seculares. O ensino de ciências – logo, todo o futuro da ciência neste país – se encontra sob ameaça. Temporariamente derrotada num tribunal da Pensilvânia, a “inanidade estarrecedora” (na frase imortal do juiz John Jones) do design inteligente continuamente ressurge em incêndios florestais locais [alusão ao juiz que proibiu em 2005 uma escola de ensinar o design inteligente porque isto seria inconstitucional].

Apagar esses incêndios é uma responsabilidade que consome muito tempo, mas é importante, e os cientistas estão finalmente sendo arrancados de sua complacência. Durante anos eles trabalharam tranqüilamente com sua ciência, lamentavelmente subestimando os criacionistas que, sendo tampouco competentes ou interessados na ciência, se ocuparam com o trabalho político sério de subverter os conselhos locais de ensino. Os cientistas, e os intelectuais de modo geral, agora estão despertando para a ameaça representada pelo Talebã americano.

Os cientistas se dividem entre duas linhas de pensamento quanto à melhor tática com a qual fazer frente à ameaça. A escola de “conciliação” de Neville Chamberlain focaliza a batalha pela evolução. Conseqüentemente, seus integrantes identificam o fundamentalismo como sendo o inimigo e se esforçam ao máximo para conciliar com a religião “moderada” ou “sensata” (uma tarefa que não é difícil, na medida em que bispos e teólogos rejeitam os fundamentalistas tanto quanto o fazem os cientistas).

Já os cientistas da escola Winston Churchill vêem a luta pela evolução como apenas uma batalha em uma guerra mais ampla: uma guerra que se aproxima entre o sobrenaturalismo e a racionalidade. Para eles, bispos e teólogos se enquadram no campo sobrenatural, lado a lado com os criacionistas, e não se deve procurar conciliar com eles.

Um artigo recente de Cornelia Dean no “New York Times” cita o astrônomo Owen Gingerich como tendo dito que, ao advogar simultaneamente a evolução e o ateísmo, “o dr. Dawkins sozinho provavelmente atrai mais convertidos para o design inteligente do que qualquer dos mais destacados teóricos do design inteligente”. Não é a primeira, nem a segunda, nem mesmo a terceira vez que se apresenta esse argumento insuperavelmente destituído de bom senso (e mais de uma réplica a ele já citou, com muita conveniência, Uncle Remus: “Por favor, Irmão Raposa, não me atire naquela horrível moita espinhosa”).

Os seguidores de Chamberalain costumam citar o “NOMA” (“nonoverlapping magisteria”), do falecido Stephen Jay Gould. Gould afirmava que a ciência e a religião verdadeira nunca entram em conflito, porque existem em dimensões de discurso totalmente separadas:

“Para afirmá-lo em nome de todos meus colegas e pela décima-milionésima vez (desde sessões de bate-papo universitário até tratados eruditos): a ciência simplesmente não pode (por seus métodos legítimos) adjudicar a questão da possível superintendência de Deus sobre a natureza. Nós nem a afirmamos, nem a negamos; simplesmente, como cientistas, não podemos comentá-la.”

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12 respostas para "Deus e Ciência no mundo atual"

  1. 1. melo dirce disse:

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    Li, num site evangélico Não sei o que lá Gospel), que a lua está se afastando do planeta Terra a não sei quantos cent´metros por ano(?)e,asssim, há 4 bilhões de anos a lua estaria tão próxima que as placas tectônicas estariam quebradas e afundadas no magma o que não permitiria o surgimento da vida.
    Gostaria de saber se a Lua está se afastando da Terra .Também gostaria de saber se você (André) e os cientistas sabem que a vida, há 4 bilhões de anos,sem a atmosfera, oceanos ainda sem ter conhecida a sua composição,não poderia ter começado a evoluir a partir dali( ver na escala geológica do tempo em qual época a espécie de vida aparece.O ancestral do homem aparece no Pleistoceno,não é?

    Administrador André respondeu:

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    Respostas:

    1) Sobre a Lua: http://ceticismo.net/ciencia-tecnologia/evolucao-vs-criacionismo/evolucao-vs-criacionismo-parte-v/2/

    2) Num tindi o que vc quis perguntar.

    melo dirce respondeu:

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    @André, Como no site gospel está escrito que a vida não poderia ter surgido a 4 (quatro) bilhões de anos por conta da explicação que deram sobre a proximidade da lua.Gostaria de saber,André,é de a Teoria da Evolução fala sobre a evolução da vida ter se iniciado há quatro bilhões de ano,quando eu sei que ainda não havia atmosfera como a atual e nem oceanos apropriados à evoluão da vida.Mais: a lua está se afastando da Terra?
    Obrigada pela atenção sei que o seu tempo é precioso,mas não sei onde está escrito isso sobre a lua estar se afastando da terra.
    O site que li dos crentes foi:http://notícias.gospemais.com.br em 24/02/2011.
    Gracias.

    Administrador André respondeu:

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    1) Evolução cuida de como surgiram as espécies e não como surgiu a vida.

    2) Sim, a Lua está se afastando.

  2. 2. melo dirce disse:

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    Li no site evangélico citado que o atual Papa afirmou que a TEORIA DA EVOLUÇÃO É MUITO SÉRIA E QUE FOI DEUS QUEM CRIOU O MUNDO E A VIDA PARA EVOLUIREM DESSE MODO COMO TEM PROVADO A TE.
    Daí os crentes dizem: que a católica, se arrependeu de ter perseguido Galileu de que a terra girava em torno do sol inclusive contrariando a bíblia1?
    André,não dá para ler a Bíblia toda,Parei,aos 15 anos em Gênesis,portando se puder me explique se na b´blia tem escxrito que a terra girava em torno do sol.

    Administrador André respondeu:

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    A ICAR nunca perseguiu Galileu por ele dizer que a Terra girava ao redor do Sol. A questão é que ele se achou no direito de interpretar a Bíblia melhor que os doutores escolásticos. Isso no meio da Guerra dos 30 anos.

    A Bíblia não diz explicitamente que a Terra gira ao redor do Sol ou vice-versa. Pelo texto, depreende-se que o Sol começou DEPOIS da terra, junto com a Lua e outros luzeiros (sim, eu sei). Só que isso não tem nada a ver com evolução das espécies.

  3. 3. melo dirce disse:

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    O site citado é o http://notícias.com.br acessado em 24/02/2011.
    Notícias:
    1-O papa afirma que o Big Bang aconteceu e foi obra de Deus.
    2-criacionismo ou evolução

    melo dirce respondeu:

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    @melo dirce,
    O site saiu errado.è o seguinte: http://notícias.gospemais.com.br

  4. 4. melo dirce disse:

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    André,
    mais uma : se o Papa afirma que o Big bang aconteceu e foi obra de Deus,além do que a vida evolui segundo a séria Teoria da Evolução,como é que fica a definição disso: criacionismo ou evolucionismo católico?
    Grata.

    melo dirce respondeu:

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    @melo dirce, errado : a vida evolui segundo a séria Teoria da Evolução que segue as diretrizes da evolução criadas por Deus.

    melo dirce respondeu:

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    @melo dirce, melhor explicando: segundo o site crente, o papa afirmou que a TE é muito séria e que Deus criou a vida para evoluir segundo as descobertas da TE.
    PERGUNTA:agora não poderíamos mais chamar isso de criacionismo `Poderia ser por exemplo teoria da evolução segundo a igreja católica?
    Desculpe-me a confusão de antes.Obrigada pela atenção,seu site é muito bom e Você muito sério estudioso,disposto a divulgar a verdade científica.Muito bom!!!

    Administrador André respondeu:

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    Desespero.

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