Grandes Nomes da Ciência: Katherine Johnson

Emprego de anestesia pode afetar estrutura cerebral de crianças e seu QI
Pesquisa estuda como "fabricar" membros em laboratório

Os brilhantes sapatos engraxados pisam com certo cuidado pelo assoalho. Um leve ajeito na gravata, o polegar e o indicador vão aos óculos de aros grossos, como era moda, na época, cabelos engomados e firmes como as camisas bem passadas. Os dois jovens engenheiros foram até a senhora já entrando na meia idade, cabelos bem arrumados e um olhar inquisitivo. Aqueles engenheiros tinham a mais moderna tecnologia, os mais avançados computadores, mas eles confiavam mais naquela senhora.

Katherine Johnson foi a mulher por trás de levar e trazer de volta os homens da Apollo 11. Uma das maiores matemáticas que a NASA já teve.

Katherine Coleman seria mais uma moça como tantas outras moças nascida em fins da segunda década do século XX. Jovem menina Johnson nasceu em 26 de agosto de 1918 em um lugar maneiríssimo chamado White Sulphur Springs, no estado norte-americano de Virginia Ocidental, filha de uma professora e um fazendeiro. Logo de nascença as coisas ficaram bem claras que a vida de Katherine não seria lá muito fácil. Afinal, ser negra e mulher não dava muita margem para expectativas, certo? A vida pode ser surpreendente, ás vezes.

Papai Coleman mudou-se com a família para um lugar de nome esquisito chamado "Institute". Por que alguém coloca um nome assim numa comunidade, eu jamais irei entender, mas Shakespeare deixou claro que não ia discutir sobre nomes, e eu deixo isso terminar por isso mesmo.

Menina Katherine gostava de contar as coisas. Quantos passos dava na estrada durante seu percurso normal até o colégio, quantos talheres tinha em casa, qualquer coisa que pudesse ser contada, Katherine contava. Ela adorava Matemática. Seu pai sempre lhe ensinou que ela não era inferior a ninguém, que se outros podiam fazer uma coisa, ela também podia. Mas, ele advertiu, ela não era melhor que ninguém. Podia ser tão boa quanto qualquer um naquela cidade, mas não era melhor.

Aos dez anos estava no colégio e sua professora de Matemática, Miss Turner ensinou Geometria, tendo sido uma grande incentivadora de seus alunos, num tempo que estes não estavam tentando matar os professores, coordenadores não ameaçavam professores e diretores não demitiam professores só por fazerem o seu trabalho, pouco importando se fendiam as crianças ao fazê-las estudar.

Aos 15 anos, Katherine Coleman concluiu o Ensino Médio e, com o apoio dos pais, entrou para West Virginia State College (Atual Universidade Estadual de West Virginia). onde Johnson oscilou entre Inglês, Francês e Matemática. Preferiu Matemática e Francês, se formando com Summa Cum Laude em 1937.

Katherine se tornou professora de Ensino Fundamental na área rural de Virgínia Ocidental, o que em lá pelos fins da década de 1930 não era algo que alguém tenha muito orgulho, mas não se pode fazer muito sendo mulher, negra e de família pobre. O lance era continuar sendo professora até morrer, certo?

Miss Coleman havia se casado com James Goble em 1939, com quem teria 3 filhas, e já estava meio de saco cheio de ser professora. Ela queria mesmo era fazer contas, muitas contas! Assim, começou a procurar por empregos que necessitassem de um matemático. Numa reunião de família, daquelas bem chatas, ainda mais que estamos no início dos anos 1950, um parente de Johnson do mencionou o Comitê Nacional Consultivo para Aeronáutica, de sigla NACA. Aquele era o embrião do que seria o que hoje chamamos de Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço: NASA.

Na época havia duas coisas: o começo das manifestações pelos direitos civis dos negros. Como a NACA não tinha essa de "branco é melhor", além de entender que nada melhor do que estimular as pessoas, a administração estava procurando especificamente por as mulheres afro-americanas para trabalhar como "computadoras" no seu Departamento de Orientação e Navegação.

Isso vem por vários motivos. Primeiro, porque mulheres já tinham se mostrado mais eficientes que homens em várias ocasiões, desde as Computadoras de Pickering, até as Garotas Calutron,que ficavam responsáveis por monitorar o que os ciclotrons da Caltech (chamado de Calutrons) no secretíssimo Y-12, onde se fabricava urânio enriquecido para o Projeto Manhathan. Segundo lugar, mulheres, negros e, principalmente, mulheres negras eram marginalizadas. Assim, é um grande estímulo um grande órgão do Governo apostar nessas pessoas, que fariam de tudo para mostrar que eram tão competentes quanto homens WASP. Além disso, os EUA perceberam pós-guerra que seu querido país tinha poucos cientistas de nascença, sendo a maioria "importados", e se não fosse por Wernher von Braun, os russos teriam chegado na Lua primeiro (assim como fizeram tudo antes primeiro). Ok, a bem da verdade, os filhos de Stalin conseguiram isso porque colocaram toda a Academia de Ciências trabalhando sobre os documentos deixados pelos krauts.

Em 1953, a então srª Katherine Goble foi convidada a trabalhar e ela aceitou imediatamente. Ela começou trabalhar com outras mulheres, fazendo cálculos matemáticos, estando mais feliz que pinto no lixo. Uma de suas tarefas era ler os dados das caixas-pretas de aviões e realizar outras tarefas matemáticas precisas. Então, um dia, Katherine foi destacada temporariamente para ajudar a equipe de pesquisa formada apenas por homens, que muito provavelmente torceram a cara quando ela chegou, mas quando a ilustre miss Goble comia Geometria Analítica com farinha e pimenta, todo mundo passou a respeitá-la, a ponto de não devolvê-la para o departamento feminino.

As palavras de seu pai soavam ainda nos ouvidos de Katherine. Ela não era inferior a ninguém, assim insistiu em fazer parte das reuniões executivas. Havia racismo nos EUA? Katherine não deu a menor bola, e por respeito ao seu trabalho, deixaram-na participar. Ninguém até hoje se arrependeu dessa decisão. Em 1953, James Goble faleceu, deixando uma viúva que tinha que sustentar a família. Em 1959, Katherine se casou com o tenente James A. Johnson, de cujo sobrenome Katherine ficou mais famosa, passando a assinar Katherine Johnson, voltando a ser professora.

Mas as cabeças pensantes da NASA sabiam muito bem de uma coisa: Se era em cálculos que Katherine era boa, que se dane, deem contas para ela fazer! Assim, em 1961, já na Era Espacial, quando Allan Shepard, o qual ficou conhecido como primeiro americano a ir ao Espaço e por ter rezado ao Senhor para não permitir que ele estragasse tudo, alçou voo na Freedom 7, foi Katherine Johnson quem calculou a trajetória. Tá vendo seu relógio no pulso? Katherine contava com um poder computacional menor que ele.

Enquanto o pessoal estava encafifado calculando como mandar Shepard para determinado local, Katherine chegou e disse "me digam onde e quando vocês querem que ele pouse, eu direi quando e de onde lançar". Acharam por bem fazer do modo dela. Bem, Allan Shepard foi ao Espaço e, melhor ainda, voltou para depois falecer, não por cair com a cara no solo a 300 km/h numa bola de fogo, e sim de leucemia, aos 75 anos de idade, em 1998.

O segredo de Katherine tinha passado desapercebido pelo pessoal da NASA: a rotação da Terra. Por isso os cálculos não batiam.

Mais voos foram necessários, mais cálculos eram feitos, quase todos por Katherine Johnson. Os milhões de dólares em tecnologia estavam sendo empregados nas mais modernas ferramentas. Ferramentas que nem existiam, ferramentas e tecnologias que tinham que ser criadas do zero. Ninguém sabia se aquilo poderia resultar num desastre. Se soubessem, talvez, não teriam feito. Às vezes, a ignorância é uma bênção.

Quando chegou a vez de John Glenn ir e orbitar a Terra, a NASA já tinha os modernos (pra época, engraçadinho) computadores. Os técnicos correram até a sala de Katherine Johnson e mui respeitosamente solicitaram que ela conferisse TODOS os cálculos feitos pelo computador.

Katherine Johnson se aposentou definitivamente em 1988. Ela ainda vive, de forma confortável, em Hampton, Virgínia. Seu legado é que as pessoas de camadas pobres ou em condições inferiores socialmente podem fazer milagres, podem se destacar, não precisando de vales qualquer-coisa. precisam ter seus valores reconhecidos e postos para trabalhar em condições iguais, sem favores. Um simples reconhecimento de igualdade que se muitos puderam, aqueles também poderão.

Por mais que você tenha seu smartphone, computador, tablet etc, ainda o engenho humano superará tudo isso, pois nada apagará que no final das contas, haverão pessoas por trás dos seus mimos eletrônicos e na hora que os problemas surgem, outros carregarão para pessoas como Katherine Johnson, um dos Grandes Nomes da Ciência, verificar tudo e descobrir se tem algum erro.

Abaixo, uma entrevista com Mrs. Katherine Johnson, a mulher que calculou como levar e trazer em segurança o Homem ao Espaço.

"Matemática é apenas isso… Ou você está certo ou você está errado. E é por isso que eu a adoro!"
– Katherine Johnson

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • NestorBendo

    Textos como esse, e a carta do Dr. Ernst Stuhlinger me fazem cada vez mais fã do ceticismo.net.

    Parabéns e obrigado!

  • Marcelo Paz

    E sem necessidade de cotas, diga-se de passagem.

    Paulo Bernardi respondeu:

    (…) a administração estava procurando especificamente por as mulheres
    afro-americanas para trabalhar como “computadoras” no seu Departamento
    de Orientação e Navegação.

    Parece cotas pra mim.

  • Narciso L. Junior

    Ela é um ponto fora curva… em qualquer curva que você tente enquadra-la!

  • Kawê A.

    Que história fantástica. Uma mulher que tinha tudo e mais um pouco pra desistir, mas conseguiu aquilo que queria.

  • Emanuelle Lebeau

    Phobosophando: “teu maior inimigo é aquele madafoca que te olha olho no olho todos os dias no espelho”.