O absurdo medo ludita da Inteligência Artificial

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No alvorecer da Revolução Industrial (você aprendeu isso no colégio), o mundo mudou a forma como encarava os sistemas de comércio e produção. O que você não estudou foi como isso mudou a vida dos trabalhadores, que já não era lá essas coisas, mas ficou muito pior. Surgiu algo que já se conhecia há muito tempo, mas começou a se espalhar: A Automação. Surgiu, então, a figura de Ned Ludd, a quem se atribuiu o ataque a uma fábrica de meias, destruindo as máquinas. Todos os ataques desse gênero ficaram conhecidas como obra de seus seguidores: os luditas. Hoje, o termo "ludita" é relacionado a pessoas que têm aversão à tecnologia. Qualquer tipo, já que "tecnologia" não quer dizer "computadô", meus pobres ignorantes.

A bola da vez é a Inteligência artificial (IA). Um monte de gente mostrando-se preocupadas com o advento do que poderia ser um Skynet ou algo semelhante. Curiosamente, não o seu Manoel da padaria, mas pessoas que estão intimamente ligadas às modernas tecnologias. Afinal, o que temos a temer?

Resposta: o seu próprio medo (DSCLP, Churchill Roosevelt).

Esses dias eu vi o filme Ex Machina, e dá um vislumbre de como seria a Inteligência Artificial (claro, se eu fosse o personagem que efetivamente conseguiu construir uma IA, eu ia pra Estocolmo e não ficar escondido numa montanha). O final é e não é surpreendente (se quiser saber, vá até o final do artigo).

Voltou? Não reclame de spoiler, então. Eu avisei.

Um monte de gente está preocupado com o advento da Inteligência Artificial e eu nem sei porque, já que não existe isso hoje. Mas o conceito de IA já existia para um camarada chamado Alan Turing. Aliás, no filme O Jogo da Imitação, tem um diálogo muito interessante entre ele e o guarda. Provavelmente, não existiu, mas ainda assim é muito bem escrito.

– Máquinas podem pensar?
– Então, você leu alguns dos meus trabalhos publicados?
– O que faz você dizer isso?
– Bem, porque eu estou sentado em uma delegacia, acusado de pedir a um jovem para tocar meu pênis, e você acabou de me perguntar se máquinas podem pensar.
– Bem, elas podem? As máquinas poderiam pensar como seres humanos pensam?
– A maioria das pessoas diz que não.
– Você não é a maioria das pessoas.
– Bem, o problema é que está fazendo uma pergunta idiota. É claro que máquinas não podem pensar como as pessoas. Uma máquina é diferente de uma pessoa. Portanto, pensam de modo diferente. A questão interessante é: só porque alguma coisa pensa diferente de você, significa que ela não pensa? Nós concordamos que os humanos divergem uns dos outros. Você gosta de morangos, eu odeio patinação no gelo, você chora com filmes tristes, eu sou alérgico a pólen. Como explicar gostos diferentes, preferências diferentes, senão dizendo que nossas mentes trabalham de modo diferente, que pensamos de modo diferente? E se podemos dizer isso um do outro, por que não podemos dizer o mesmo de mentes construídas de cobre, arame e aço?

Criticam os perigos da IA, mas esquecem dos perigos de nossas próprias mentes, como autocratas sanguinários, psicopatas, maníacos, políticos corruptos e o seu vizinho que recebeu a sua encomenda no seu lugar e não o avisou. O que poderíamos temer? Ultron, que viu que o melhor para o mundo é mandar a Humanidade para a vala? Mas e se ele estiver certo?

Em 2009 (sim, o tempo voa) eu abordei a questão das máquinas e seus sensos éticos. Usei o experimento do bonde, como exemplo.

Você tem um bonde desgovernado. 5 pessoas estão amarradas no trilho, depois de uma bifurcação. Você fica no papel do controlador e, através de um botão, pode desviar o bonde antes que ele atinja as pessoas. O problema é que no outro trilho tem uma pessoa amarrada. Você aperta o botão para desviar das 5 pessoas, mesmo que mate aquela outra pessoa? Ou a outra pessoa vale mais que as 5? Afinal, o que determina o valor ético?

A máquina iria pelo conceito "mal menor, bem maior"? Ou ela perceberá que o cara amarrado no trilho descobriu a cura do câncer e só ele tem a fórmula, preferindo salvá-lo? Mas qual é a SUA opinião em que, nesse mesmo caso, uma das cinco pessoas amarradas é seu filho?

Em Eu, Robô, Isaac Asimov disse que um sistema assim levaria um robô à loucura, pois estaria violando a 1ª Lei da Robótica: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal. Uma reescrita de forma ampla daria na Lei Zero: Um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal.

Ainda assim, o robô enlouqueceria. Nós, seres humanos, estamos acostumados a decisões que possam matar um ser humano, mesmo que salve vários outros. Foi o que Frederick Forsyth chamou de A Alternativa do Diabo. Será que Ultron não estaria correto? Olhando o noticiário vemos o quanto os seres humanos se dão bem em todas as partes do mundo.

Stephen Hawking diz que a IA pode ser o fim da raça humana. Bem, não seria pior do que um pedaço de pedra de zilhões de toneladas caindo na cabeça dos dinossauros. Espécies sempre são extintas de um jeito ou de outro, nem que seja por outra espécie. Seres humanos não são santinhos e já mandamos muitas espécies para a vala evolutiva. Elon Musk parece muito preocupado e até Bill Gates mostra reservas, mesmo quando o chefe de pesquisas da propria Microsoft discorda.

No caso do Stephen Hawking, eu tenho plena convicção que ele já morreu faz tempo e quem fala conosco é a cadeira dele, que adquiriu consciência, que nem Wall-E; e talvez este seja o detalhe faltando. Porque inteligência e consciência são duas coisas diferentes. Além disso, existem outros detalhes. Golfinhos são inteligentes, mas como não possuem mãos ou patas, nunca conseguiram desenvolver tecnologia. Já chimpanzés "pescam" cupins usando ferramentas. Fora Kanzi, que aprendeu a dominar o fogo. Nenhum deles é uma ameaça. Será que um sistema de IA poderia? Bem, poderia desligar o sistema de telefonia e internet, mas nossas operadoras já fazem este favor, e eu tenho sérias dúvidas se existem criaturas com inteligência artificial lá. Mais fácil ser burrice natural.

Esse medo é perigoso, pois está vindo de gente influente, antenada com as mais avançadas tecnologias e projetos de engenharia. Não é uma retardada no interior do Kansas, que faz festa do sarampo porque não acredita na Ciência. O público leigo vai pensar "se o Bill Gates pensa isso, só pode dar merda, mesmo". E os maiores leigos estão nas posição de poder, como legisladores e poderes executivos. Já basta nosso Aldo Rabelo, Ministro da Ciência e Tecnologia, que além de ser negacionista do Aquecimento Global, corou-se como autor de projeto de lei que proíbe a adoção de inovações tecnológicas em órgãos públicos. Ou seja, enceradeira, computadores e até elevador que dispensa ascensorista são proibidos à luz dessa lei.

Acho realmente que os robôs nunca serão nossos maiores inimigos… O pessoal de Stanford está bem satisfeito com a ajuda que a IA está dando a eles.


Spoiler

Em Ex Machina, a robôa dá uma volta nos dois manés, mata um deles e foge do complexo, deixando o outro preso num apartamento totalmente fechado, para morrer de fome, e indo dar um rolé na cidade. Não é pior que a esposa do dono da Yoki fez.

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • EiligKatze

    Eu acho que vai acontecer algo parecido com a história de “Era Metalzóica” (quem não conhece, procure, é muito bom), onde houve guerras e tudo o mais, só que o principal motivo dos robôs tomarem conta do planeta foi que eles se adaptaram muito melhor e mais depressa que novos ao novo ambiente…….