Ih, acabou a Internet…

Tiroteio comeu no concurso de caricaturas de Maomé. Adivinhem onde
Pesquisa estuda diferença entre nossos avôs e avós

Foi o caos quando se instaurou. De repetente, as pessoas no Brasil inteiro ficaram sem Internet. O desespero, a dor e o sentimento de impotência veio como o anjo da morte, silenciosa e implacavelmente. Da noite pro dia o acesso à Internet se resumia a um rodapé da história. As pessoas começaram a pirar. Elas estavam desnorteadas, não sabiam o que fazer. A vida, tão complicada, ficou um verdadeiro inferno.

Aqueles que se distraíam ouvindo músicas, ficaram desoladas, pois o Spotify não funcionava. Os que adoravam vídeos, ficaram sem o YouTube. Os que se amarravam em séries e programas para crianças, não, nenhum sinal da Netflix. Era a decadência humana!

Aqueles que tinham as trocentas abas já abertas ainda tinham um porto, um ponto de apoio. Passaram a ler linha por linha, letra por letra. Não para degustar melhor o texto, mas porque os leitores de telas e o Google Translator usados para ler o que estava lá já não funcionavam, e as pessoas tinham desaprendido a ler. Os que ainda sabiam não conseguiam mais pegar os *.pdf e ePub da Internet, que já não mais existia. Nisso, o tio Ariovaldo, ainda com um grosso livro sobre o colo, lia tranquilamente na varanda da casa, enquanto seus sobrinho perguntavam como ele conseguia ler debaixo do Sol, sem regular a luminosidade. Como ele fazia para fazer buscas e pular logo pro final do livro? Que coisa estranha!

Dona Hemengarda andava tranquila pela casa e preparava o almoço, enquanto as filhas estavam desoladas pois não tinham como mostrar para as amiga — que elas efetivamente não sabiam sequer o nome — o almoço delicioso que elas iam dizer que estava horrível, para depois posarem de biquínis sumaríssimos dizendo o quanto estavam feias. Dona Hemengarda não tinha problemas com receitas, estava tudo na sua mente, que as filhas desdenhavam pois estava tudo na Internet de outrora. Dona Hemengarda comentou o caso com a dona Edviges, que sacudia a cabeça comentando do livro da Dona Benta. Nisso, as "amigas" das filhas da dona Hemengarda, que também não sabiam-lhes os nomes, não tinham como postar fotos seminuas dizendo que os homens deviam vê-las sem ser como um pedaço de carne.

Com o YouTube fora do ar, milhares de pseudocelebridades perceberam que teriam que efetivamente trabalhar; o problema é que não tinham estudado suficientemente. O McDonald’s se encheu de gente atendendo os clientes gritando "FALAAAAAAAAAAAA GALERAAAAAAAAAA!!!!!!!" Os que tinham canais ensinando tudo a todo mundo se viram incapazes de fazer uma soma sem auxílio de calculadora e não conseguiram emprego nem como caixa de supermercado. Dona Janice, antes faxineira, foi promovida a caixa, já que sabia as quatro operações que aprendera no finado Mobral. O pessoal vlogger começou a trabalhar como faxineiros, mas logo foram dispensados pois gritavam alucinadamente. A pobre dona Janice voltou a ser faxineira, já que nem varrer chão as outrora celebridades sabiam fazer.

Com o fim da Internet, os podcasts deixaram de existir. Os casters correram para trabalhar em rádios, mas sequer foram aceitos. Os podcasters ficaram irritados ao saber que eles tinham que falar ao vivo, não tinham edição de som de forma a deixar sua fala compreensível, não podiam errar milhares de vezes, não podiam parar para consultar as coisas sobre as quais iam falar mas que não sabiam nada sobre, não podia falar besteiras fora do assunto, não sabiam falar sem palavrões, não sabiam ser sucintos, pois não podiam depender dos cortes, não tinham impostação de voz, não tinham dicção nem conseguiam falar sem parecer retardados. Ofertaram servir cafezinho, mas não sabiam como fazer café, pois não tinha como consultar tutorial no YouTube.

Sem a Internet, não tinha como usar Waze, GPS etc. Diminuiu o índice de mortes por motoristas irem parar desavisadamente em favelas perigosíssimas. As pessoas passaram a respeitar as leis de trânsito, pois não sabiam onde ia ter blitzes e a polícia começou a capturar marginais com mais eficiência. O índice de criminalidade caiu muito, pois os bandidos não tinham como dar informações falsas pelas redes sociais, fazendo com que as pessoas pegassem caminhos alternativos, caindo em ciladas. O bom e velho guia rex foi novamente usado e as pessoas chegavam aos seus destinos com mais rapidez e segurança.

Pessoal que escrevia em blogs percebeu que não teria mais como viver de adsense. Resolveram tentar emprego como escritores. Na primeira confusão entre "mas" e "mais" foram demitidos. Seu Antenor, o porteiro do prédio, enquanto folheava a revista, ficava sem entender como essa gente nova, recém saída de colégio não conseguia nem conjugar os verbos direito. O ato reflexo é que ninguém mais comentava notícias, pois não sabem como se posta uma carta. Xingamentos, acusações contra partidos políticos em notícias sobre o nascimento de bebês panda diminuíram sensivelmente.

Celebridades deixaram de ficar expostas e suas fotos sem roupa pararam de vazar. O ultraje e alívio se equilibraram, e muitas delas ficaram sem emprego, pois tinham que contar apenas com seu talento, mesmo. Humoristas de portais ficaram desempregados, pois efetivamente nunca foram engraçados. Os últimos entravam pelos fundos de bares e faziam suas piadas berrando sobre o trânsito de São Paulo e as favelas do Rio. Quase todos prestaram concurso para lavadores de pratos, mas eles estavam acostumados a deixar a pia suja enquanto iam fazer piadas no que se conhecia como Internet.

As televisões começaram a ser vistas e ninguém mais assistia apenas para reclamar. Seu Jurandir e dona Mariza estavam calmos, vendo a programação que sempre viram, no tempo que sempre estiveram acostumados, e os cinemas esvaziaram, pois só quem realmente gostava dos filmes ia ver, já que não havia motivo ver algo que não se gosta sem poder tirar o recalque depois e xingar muito.

Professores sempre foram professores e para eles nada mudou. Os que faziam biscate de ensino, copiando e colando da Internet viram que não tinham condições nem de ensinar a uma tartaruga e procuraram outras paragens, deixando os professores de verdade trabalhando. O Ensino melhorou muito, já que os alunos efetivamente faziam os trabalhos, ao invés de pegarem qualquer porcaria pela Internet afora e colocarem no papel. O nível educacional melhorou muito, melhorando também a qualidade de vida. Dava-se pra pagar as contas no banco, enviar cartas etc. As falsas amizades desapareceram, stalkers diminuíram. O Brasil ficou um país excelente para se viver.

No dia seguinte da pane geral da Internet, o estagiário da Embratel tirou o plugue da cafeteira da tomada, religou o D-Link, a Internet brasileira voltou a funcionar e tudo voltou ao que era antes.

Infelizmente.

Tiroteio comeu no concurso de caricaturas de Maomé. Adivinhem onde
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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • Ernando Cabral

    “O Dia em que a Terra Parou”

    kenji respondeu:

    Ou seria o dia em que “a Terra voltou a se mover”?

  • Almeida

    Primeiro a negação, depois o desespero logo em seguida o suicídio em massa :mirgrren:

  • Se a internet acabar eu arrumo um emprego para vender “Barsa”… vou ficar ryyyyco! Belo conto!

  • Carlos Henrique

    Falou dos blogueiros que tentaram virar escritores e não conseguiram, mas eu achei que este está realmente muito bom, um dos melhores textos satíricos (humorísticos?) do site, junto com aquele do time de futebol da Igreja.

  • Rodrigo

    Maldito estagiário, quem mandou religar o D-link?

  • Narciso L. Junior

    Catarse semanal, a internet deveria ter deixado as informações relevantes ao acesso de todos mas foram cobertas por um montanha de lixo, mas afinal a maioria nunca esteve realmente interessado em ciência, politica e sociedade, com internet ou sem as pessoas continuariam com seus gostos duvidosos seja na tv ou em revistas como era antes, eu queria mesmo é o fim da praga dos celulares, as pessoas tem medo de sair na rua sem eles agora, os alunos não desligam por que ”vai que recebe uma ligação importante”, ta bom ate parece….

  • ramofits

    Professor, quase consigo vê-lo sentado em uma mesa(cadeira), com uma grande fila à frente, esperando por assinaturas suas, conhecidas também como autógrafos. Gosto muito de ler contos, e este foi sensacional.

  • Marcelo Paz

    Tem um episódio de south park onde ocorre uma escassez de internet nos USA, ep over logging. Inspirou-se nele, AndreZÃAON.

    Pryderi respondeu:

    Para falar a verdade, nunca assisti South Park. O presente artigo foi por causa de gente falando besteiras ontem, no Twitter.

    Julio Cesar Ferranti respondeu:

    Só por curiosidade: Algum assunto especifico ou a besteiras genéricas de sempre?
    PS.: Não uso o Twitter!

  • EiligKatze

    A parte mais plausível do texto é a do estagiário desligando o único roteador da internet brasileira, considerando a “banda larga” que temos por aqui…………..

  • Agora com essa história de limitar Internet, pode ser que tudo isso realmente aconteça.

    E para os vlogueiros não restará muito. Todos virarão chapeiros.

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