Grandes Nomes da Ciência: Sophie Germain

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A saia farfalha enquanto o som dos sapatos soam pelo assoalho. O corpo empertigado, bem modelado pelo espartilho, lhe dá aparência altiva, mas sua altivez vai mais além. O verdadeiro mérito vem do que está acima do corpo, dentro da cabeça. Os passos levam a ilustre dama a virar à esquerda, depois, á direita. Ao chegar, foi recebida tanto como espanto, como admiração. Ela era simplesmente a primeira mulher a pisar por seus próprios méritos, e não como acompanhante, na mais prestigiada instituição francesa: O Institut de France.

Essa é a história da responsável por grandes feitos, desde o entendimento dos números até a construção da Torre Eiffel. Seu nome é Sophie Germain.

Marie-Sophie Germain nasceu na Cidade Luz em 1º de abril de 1776. Não era uma mentira, não era uma galhofa. O bebezinho carequinha e sorridente iria trazer um pouco de luz ao mundo dos números. Ela não era de família pobre, pobre, pobre, de marré deci. Pelo contrário! Era filha de um rico comerciante, e o fato de ele não ter um título nobiliárquico não fez a menor diferença, pois ele continuou sendo rico e, mais importante, com poder; e nas palavras de Francis Underwood "Dinheiro é mansão no bairro errado, que começa a desmoronar após dez anos. Poder é o velho edifício de pedra, que se mantém de pé por séculos".

O dinheiro de papai Germain (que não tem nada a ver com o suposto conde e suas luzes violeta) era muito e sua influência política maior ainda. O problema é que Sophie teve a ousadia de nascer com o sexo errado em sua época. Sendo mulher fêmea do sexo feminino, as portas estavam fechadas, ainda mais que papai achava que Universidades não eram lugar para uma dama. Entretanto, papai Germain tinha uma vasta biblioteca e Sophie devorou aquilo tudo (vantagens de ser obrigada a ficar em casa o dia inteiro… se é que isso é vantagem).

Dando uma fuçada na biblioteca, Sophie (em grego: a Sabedoria) encontra o volume Histoire des Mathématiques, de Jean-Étienne Montucla, que se você tiver curiosidade, poderá ler AQUI. Este livro era abrangente e falava desde Arquimedes e seus trabalhos até analisar Cálculo, Teoria dos Números, os trabalhos de Leonhard Euler e até um certo inglês chamado Isaac Newton. Sophie fez jus ao nome e queria saber mais, muito mais. Entretanto, nada de Universidade. Ela poderia virar uma Messalina.

O que uma mulher que se revolta contra um sistema faz?

1) Espalha textão no Facebook.
2) Xinga muito no Twitter.
3) Diz que o intercurso sexual entre homens e mulheres é estupro, mesmo com a mulher consentindo.
4) Mimimi a propaganda de cerveja me ofendeu
5) Estuda pra cacete e mostra que ela tem capacidades acima de qualquer homem mané que acha que mulheres têm que ficar em casa lavando, passando e cozinhando.

Sophie começou a estudar mais e mais Matemática, a ponto de seus zelosos pais pensarem que ela estava se tornando uma desavergonhada, uma meretriz, vagabunda, cachorra, preparada, discípula de Tati Quebra-Barraco entre outras coisitas mais. Assim, ciosos de seus deveres paternos, mandaram remover as roupas de frio de Marie-Sophie e não deixar lenha para sua lareira, de forma que ela fosse para cama cedo, que era o lugar de mocinhas. O problema foi que no dia seguinte deram com ela sentada à escrivaninha, enrolada na coberta e, segundo alguns biógrafos, "a tinta congelada sobre o papel" (acho que isso já era exagero, mas beleza). Papai e Mamãe Germain viram que isso estava fora de controle e voltaram com a ideia absurda de deixar sua filha quase morrer de hipotermia

Na época de Sophie não tinha internet e o pessoal chato não ficava torrando a paciência dos outros. Dessa forma, ela tentou ingressar na prestigiada École Polytechnique, onde foi educadamente chutada, pois ela não tinha algo que todo mundo decente deveria ter para poder frequentar seus salões e estudar: um cromossomo Y.

Só que não contavam com a astúcia de Marie-Sophie, e da brecha que a École Polytechnique abriu. Eles começaram a disponibilizar as notas de aula a qualquer zé ruela que solicitasse. Algo como entrar no YouTube e assistir a uma aula do MIT. Sophie pegou todas as notas, estudou, fez alguns comentários e começou a mandar o whatsapp da época: cartas. Foram cartas para gente burra e pouco conhecida, como Lagrange, Bezout e um camarada que ficou conhecido como O Príncipe dos Matemáticos: Carl Friedrich Gauss. O problema é que uma senhora escrever para homens no século XVIII não era bem visto. Assim, ela assinava suas missivas (alguém ainda fala assim?) como Monsieur Antoine-August LeBlanc.

Lagrange era um dos professores da École e ficou bem impressionado com M. LeBlanc pela argúcia de suas observações, instando-o a ir ter com um dos maiores matemáticos da França. Quando "LeBlanc" surgiu e Lagrange – aquele que lamentou a morte de Antoine Lavoisier diendo que bastara alguns segundos para rolar aquela cabeça e nem em mil anos apareceria outra – viu que se tratava de Marie-Sophie, ele riu e a cumprimentou, pois era um homem íntegro e não dava pitombas se ela usava saia ou não, tratando-a como uma igual, pois reconhecera a genialidade de Marie-Sophie.

A princesa da Sabedoria ainda escreveu para um camarada chamado Legendre, que muito provavelmente você nunca ouviu falar. Adrien Marie Legendre era matemático, e se pês a estudar a Teoria dos Números.

Teoria dos Números é uma teoria matemática que fala sobre números. O conceito envolve todas as peculiaridades e características dos números. Sim, eu sei que parece algo como "meh, faz continha", mas lembre-se: as "continhas" ajudam a entender o mundo e expressar nossas ideias. Isso já era bem entendido pelos antigos gregos, sendo um dos principais deles um camarada chamado Diofanto de Alexandria, também chamado "Pai da Algebra", apesar de não ter sido ele que deu este nome. Para os gregos, tudo era Geometria, e "Geometria" sobreviveu como sinônimo de "Matemática" por muitos séculos, abrangendo tudo o que dizia respeito à ciência dos números. Isso porque Geometria significa "Medir o Mundo".

Diofanto, como bom matemático, era dado a algumas gracinhas. Assim, ele mandou que se escrevesse em seu epitáfio:

Caminhante! Este é o túmulo de Diofanto. Os números dirão a duração da sua vida, cuja sexta parte foi ocupada por uma doce juventude. Decorreu mais uma duodécima parte da sua vida até que o seu rosto se cobriu de pelos. Passou ainda um sétimo da vida antes de tomar esposa e cinco anos depois teve um belo filho que, infelizmente, viveu apenas metade do que o pai viveu. Seu pai sobreviveu-lhe, chorando, quatro anos. Diz, caminhante, quantos anos tinha Diofanto quando a morte o levou?

Você aí que passou pelo ENEM. Mata a charada sem recorrer ao Google.

A forma como os números são trabalhados, suas propriedades, características etc são bem estudados pela Teoria dois Números, e foi bem esmiuçado na obra Essai sur la théorie des nombres, publicado em 1798 por Legendre. Marie-Sophie, ou melhor, M. LeBlanc fez observações e comentários tão pertinentes que Legendre adicionou-os à segunda edição com seu próprio comentário "Muito Engenhoso".

Em 1804, o Príncipe dos Matemáticos, Gauss, escreve Disquisitiones Arithmeticae (sim, é um PDF. Me processe), em que se foca num dos maiores enigmas da Matemática até pouco tempo: o Último Teorema de Fermat. M. LeBlanc dá os seus palpites, mas seus cálculos ainda precisavam amadurecer. Não obstante, se já tinha a curiosidade de Gauss, acabara-lhe de despertar a atenção.

Em 1806, os exércitos Napoleão, em seu curso de expansão do território francês, já tinham ocupado a cidade alemã de Braunschweig, Marie-Sophie Germain, usando um pouco da influência de seu pai, deu uma carteirada e escreveu para o general Pernety, que era amigo da família Germain, demonstrando sua preocupação com a segurança de um dos maiores matemáticos de todos os tempos. Aquela era uma época que homens cultos e sábios eram respeitados. O general Pernety enviou um batalhão para verificar se Gauss estava bem e seguro. Este ficou meio confuso com a menção do nome de Sophie. A maior matemática de sua época então revelou que ela era o inteligentíssimo M. LeBlanc.

Gauss podia ser um maluco e fanático religioso, mas não era tão tosco a ponto de levar as palavras de Saulo de Tarso ao pé da letra. Assim, foi dessa forma que Carl Friedrich Gauss, o Príncipe dos Matemáticos, se referiu a Marie-Sophie:

Como posso descrever o meu espanto e admiração ao ver o meu estimado correspondente M. Leblanc metamorfosear-se em esta celebrada pessoa… Quando uma mulher, por causa de seu sexo, os nossos costumes e preconceitos, encontra infinitamente mais obstáculos do que os homens para familiarizar-se com problemas complicados, ainda supera esses grilhões e penetra o que é mais escondido, ela, sem dúvida, tem a mais nobre coragem, talento extraordinário, e gênio superior!

I beg your pardon, feministas. O que vocês acham ruim, mesmo? Ver banner de comercial de cerveja? Fiquem aí com seus chiliques, outras mulheres deram de tudo para se destacarem em um meio que sequer lhes era permitido aparecer abertamente.

O tempo passou e Marie-Sophie enveredou por outras estradas. Saiu da Matemática Pura e passou a estudar outras propriedades. Seus estudos foram fundamentais para que Henri Eiffel pudesse construir a sua torre. A torre que é o legado de muitos trabalhos, mas que a menção a Sophie-Marie Germain fosse calada. Mas matemáticos do mundo todo sabem de sua importância.

Dos seus trabalhos sobre corpos elásticos vieram as Leis das Molas. De seus estudos sobre o Teorema de Fermat, o entendimento das peculiaridades da Álgebra. Seus estudos sobre Filosofia e Psicologia foram elogiados por Augusto Comte.

Ela estudou Física, Química, Matemática, Filosofia, Engenharia, Geometria Diferencial e fez a diferença em todas essas áreas, mostrando que mulheres têm poder, não de ficar fazendo topless como culto ao próprio ego. E ainda que as instituições em toda sua burocracia não reconhecessem o mérito da Grande Matemática do século XVIII, assim não pensavam os grandes homens de sua época, que lhe reconheciam talento e admiração. Gauss, seu máximo fã, fez de tudo para que a Universidade de Gottingen, na Alemanha reconhecesse o trabalho daquela mulher fenomenal, mas quando veio, era tarde.

Marie-Sophie, que nunca se casou, dedicando sua vida à Matemática, falecera antes, em 27 de junho, 1831, por causa de um fatídico câncer no seio. Seu legado, entretanto, persiste até hoje.

Gosto de pensar que nos éons do espaço-tempo, a mente prodigiosa de Marie-Sophie Germain, um dos Grandes Nomes da Ciência, volita e observa a tudo que acontece em várias dimensões. Ela vê essas garotas de Tumblr chilicando por causa de anúncio de cerveja, cena de novela, participação de Big Brother e comentários tresloucados em redes sociais. Um meio-sorriso abre-se e pensa: "Tanto desperdício de tempo e energia, quando poderiam estudar e ser algo mais do que eu fui. Tanto desperdício…"

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • NestorBendo

    A melhor série deste blog, de longe. E essa distinta dama eu não conhecia. Grato pela informação, que transformarei em conhecimento.

  • Heartless

    Excelente artigo (coisa que, aliás, já é rotina). É legal saber que a história da matemática é tão intrincada/interligada.

    Adorei o enigma também. Resolve-se com uma simples equação, mas é um bom exercício.

  • Ana Lúcia

    Só lembrando que as coisas não precisam ser excludentes…

    Pryderi respondeu:

    Do que você está falando?

  • Contato Ferreira

    Ótima análise da história. Com uma linguagem simples, bem humorada e que mesmo assim não deixou a desejar na narração. Parabéns ao Blog