Grandes Nomes da Ciência: Simon Stevin

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O homem com roupa estranha e gola esquisita está de pê, no campo molhado. O vento faz farfalhar sua capa. Os pés molhados não esfriam seu ânimo. Olhando a construção, e sentindo que o vento é seu amigo, mas o barulho ensurdecedor de madeira batendo agride sua autoestima, seu bom gosto e sua técnica.

O homem sabe que pode resolver aquilo. Ele resolve, usando talvez a mais inútil de todas as coisas à primeira vista. Ele com seu cérebro, o homem usa os poderes frios dos números para fazer milagres.

O homem é Simon Stevin, e se Simon diz pros números "Ajudem-me", os números fazem o que Simon mandou.

Não se sabe a data exata do nascimento de Simon Stevin nem onde ele nasceu. Isso porque ele era um filho ilegítimo, ou seja, papai saiu pro recreio com mamãe de Simon antes de bater o sinal e largou de mão, depois. Sabe-se que ele nasceu no glorioso ano de 1548, embora esta data também seja discutível. Não havia certidão de nascimento nessa época, sabem? Quer dizer, havia, mas não para filhos ilegítimos. pobre que se ralasse, como sempre.

Aceita-se que ele nasceu em Bruges, na região de Flandres no que é a atual Bélgica, mas na época pertencia à coroa Holandesa. Por isso, dizem que ele era flamengo, mas não é não o time de futebol. "Flamengo" nesse caso se refere ao gentílico, e música flamenca (com C) não tem nada a ver com isso. Simon era filho de um certo Anthonis Stevin e Catelyne van der Poort. A mãe era uma burguesa que não morava em Bruges (já que uma palavra não é derivada da outra), filha de uma família com certas posses, enquanto o pai era filho do prefeito, o que já mostra que os políticos já f… deixa pra lá.

Mamãe "Stevin", que não tinha este sobrenome, já que se casara com algum cara endinheirado que era comerciante, criou Simon com todo mimo que o dinheiro podia pagar, além de uma sólida educação. Como era de praxe naquela época, ele aprendeu Latim e Grego. Junto com Retórica, Oratória, Geografia, História e Matemática.

De acordo com suas obras, Simon Stevin parece ter viajado muito, desde o Norte da Europa até a Polônia, sem precisar de nenhum tanque. Em 1583, Stevin matriculou-se na recém-fundada Universidade de Leiden, na qual ele fez uns amiguinhos pouco influentes, como um tal de William d’Orange.

William d’Orange (ou Guilherme de Orange, como é traduzido em alguns livros de História) era descendente de Maurício de Nassau e herdeiro do principado de Orange. Não é Orange em alusão ao laranja do uniforme da seleção holandesa de futebol. Orange era o nome do principado, como era normal naquela época: um monte de principados e um rei que metia a mão na grana de todo mundo.

Willliam foi o IX Conde de Nassau e responsável pela independência dos países baixos, a começar pelas províncias da Holanda e Zelândia, que depois o conclamaram Stadtholder, e o título de Conde da Holanda e Zelândia, fazendo dele o Grande Manda-Chuva dos Países Baixos, mas William recusou. Em 1584, Willem de Zwijger – ou William o Taciturno – foi assassinado e assim termina-se a história de uma importante personagem, pelo menos aqui.

Quando William foi assassinado, Maurício de Nassau tomou o poder e como ter conhecimento com gente importante nunca foi algo ruim, Stevin se tornou conselheiro de Maurição, dando-lhe o cargo de autoridade em Obras Públicas, a partir de 1592, e intendente-geral do exército do Estados Gerais Unidos, para depois fundar uma escola de engenharia na Universidade de Leiden.

Como vocês devem saber, os ´Países Baixos são países baixos, isto é, estão numa depressão que faz com que se alaguem com muita facilidade. A Holanda sempre usou moinhos de vento não só para moer grãos, mas para bombear água para fora nas plantações. E Stevin achou que havia algo errado. O som ensurdecedor e a trepidação mostravam que algo estava muito errado. Então, Stevin fez algo que até então achavam impossível: usar a Matemática de forma realmente útil. Não que engenheiros não existissem, mas assim como hoje havia gente que dizia que Ciência não servia pra nada.

Stevin não inventou os moinhos de vento. Eles já eram usados desde cerca do ano 1200, mas o primeiro registro dos moinhos de torre (o clássico moinho holandês) sendo usados para drenagem data de 1414. Antes daqueles dias, os moinhos serviam apenas para moer grãos, mesmo, em especial os grãos de milho.

Como vocês podem ver, ele usa o famoso Parafuso de Arquimedes, que é um parafuso criado por Arquimedes para levar água de locais mais baixos para o alto de elevações. O conjunto de engrenagens ligava o eixo horizontal das pás do moinho até  a roda que servia para girar o eixo do parafuso. O plano inclinado fazia o resto.

Usando matemática, Stevin analisadas tanto as noras que as usinas utilizavam para remover a água e as engrenagens que as moviam. Em Van de Molens (Sobre os moinhos de vento), ele propôs a abrandar as revoluções e torques das engrenagens, melhorando o desempenho, de modo que os dentes das rodas se encaixassem perfeitamente na outra engrenagem. Havia, assim, pouca trepidação e barulho, aumentando a eficiência. Infelizmente, o projeto de Stevin estava além da capacidade dos artesãos de sua época, e não conseguiram reproduzi-lo.

Stevin era um ás com a matemática. Ele conseguiu deduzir sozinho os trabalhos de um certo Báskara, encontrando a solução para as equações quadráticas. Também deduziu a influência da Lua sobre as marés, criou carros movidos a vela e projetar fortificações, como esta aqui:

Esta é apenas uma seção da verdadeira fortificação. Havia vários desses cantos em forma de estrela, e o formato inteiro era…


Projeto para a cidade de Heusden, na província de Brabante do Norte

Infelizmente, um projeto assim era caro e ficou arquivado. Só mais tarde é que países europeus usaram as ideias de Simon Stevin, que não só entendia de Matemática Aplicada, como provou como bobagens tipo motos perpétuos eram besteira, como o diagrama a seguir:

A cadeia de bolas é acondicionada em uma rampa dupla, e foi tida como uma invenção "maravilhosa", demonstrando as potencialidades do moto perpétuo. As bolas cairiam pelo lado mais íngreme, fazendo mover toda a corrente. Stevin sacudiu a cabeça, e como todo chato que se baseia em fatos, mostrou conclusivamente que essa geringonça nunca iria funcionar. Com o que eu posso imaginar ter sido com um risinho cínico, Simon disse: "a maravilhosa máquina não é tão maravilhosa assim."

A Stevin deve ser feito justiça, pois muito do que sabemos hoje começou na sua mente brilhante.Ele escreveu livros sobre Estática, dando continuação aos trabalhos de Arquimedes, Hidrostática, antes de Pascal e Bernoulli, pois Stevin já havia dito que a pressão de um líquido independe da forma do recipiente, depende apenas da altura da coluna líquida, estudou o princípio do paralelogramo das forças, intuiu a Lei da Queda dos Corpos antes de Galileu, calculou a declinação magnética, traduziu obras gregas, projetou eclusas e barragens, comentou a Astronomia Copernicana, discutiu direitos civis e escreveu artigos até sobre escalas musicais e se ele estivesse vivo em 1985, iria numa farmácia, compraria plutônio e faria um capacitor de fluxo.

É uma pena que num país como o nosso, que acham que Ciência é algo sem importância, que o melhor é jogar Xadrez, que nomes como Newton, Galileu e tantos outros são muito pouco mencionados, porque temos que perder tempo com besteiras como Ensino Religioso, Filosofia e outras coisas inúteis (sim, Filosofia é inútil. Não gostou? Vá ler o site do Olavo de Carvalho e suma daqui!). Pessoas como Hattie Alexander, Phineas Gage e Michel Siffre, junto com o grande Simon Stevin sempre terão um lugar aqui. Simon Stevin faleceu em Haia (crê-se) em 1620.

Stevin é homenageado na Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade de Tecnologia de Eindhoven. Uma homenagem mais que merecida para alguém, em cujo lugar, tanto ele como vários outros, serão sempre homenageados pelo que realmente são: Grandes Nomes da Ciência.


Para saber mais:

Brevíssima introdução à linguística gerativa (oi Chomsky!)
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Sobre André Carvalho

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