Grandes Nomes da Ciência: Otto von Guericke

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Os cavalos de batalha estavam alinhados. Dois grupos, de oito cavalos. Seus mestres mal estavam conseguindo contê-los. Eles estavam ali, prontos! A um coando e o Rei veria o poder do homem à sua frente. A multidão estava ansiosa. Os cavalos relinchavam, batiam as patas, as correias retesadas, as correntes se esticando.

O homem balança a cabeça para os mestres dos cavalos. Os cavalos usam toda a sua força muscular, as correias ficaram mais retesadas ainda, as correntes. Os chicotes estalavam, mas nada acontecia, pois um imenso poder estava ali atuando, o poder invisível, o poder que nos esmaga diariamente, e mal percebemos. O poder da atmosfera.

Esta é a história de Otto von Gericke, o diplomata-cientista que dominou a atmosfera!

Otto von Gericke (ou Guericke, com um "U" ali depois do "G"), como muitos cientistas de antigamente não era de família pobre. Ele nasceu em 20 de novembro de 1602, o mesmo ano em que Kepler publicou Sobre os fundamentos mais seguros da Astrologia. Mas de astrologia não falaremos aqui.

A terra-natal de Guericke era Magdeburg, no que hoje seria a Alemanha, mas naquela época era um principado, uma cidade-estado, com autonomia própria, pouco se importando com a vizinhança. Só que isso não ia durar. Na Europa, o Protestantismo Luterano crescia e a ICAR resolveu chamar os sith os jesuítas e iniciou-se a Contra-Reforma. O clima andava meio tenso entre católicos e protestantes, que sempre viveram se estranhando, apesar de rezarem pro deus que pedia calma e mansidão. O resultado desse "estranhamento" foi a Guerra dos Trinta Anos, em 1618. Mas Guericke, apesar de uma criança genial, não podia prever o futuro; e foi por isso que em 1617 ele entrou para a Universidade de Leipzig e começou o curso de… direito, já que ser Médico, Engenheiro e Advogado sempre foram sinal de status. A Guerra dos Trinta Anos começou e ele acabou se mudando para Jena, e depois iria se mudar para Leyden, onde estudaria Matemática, Engenharia (não falei?) e o que hoje conhecemos como Física, mas não havia ainda essa carreira ainda. Kepler e Galileu inventaram-na.

Guericke só voltou a Madgeburg em 1626 e deu de cara com uma cidade ameaçada. Ele foi eleito vereador, que diferente daqui do Brasil, realmente trabalhava pela cidade. O problema é que o pessoal não gostou muito com Guericke dando as caras lá, e ele acabou preso. Pagaram uma vultuosa fiança pra ele e em 1627, Otto fugiu de Madgeburg, porque, sendo protestante, não seria muito bem visto pelo exército do Sacro Império Romano, o qual sitiou Madgeburg em 1631, o qual, sob os auspícios do Príncipe da Paz, 20 pessoas foram assassinadas. Tão cristãos quanto os soldados, mas não eram cristãos de verdade.

Um ano depois da chacina, Guericke voltou Quando finalmente pôde voltar e deu de cara com uma cidade devastada, dominada pelos "alemão" (desculpem, não resisti), com tanta independência quanto uma criança de 2 anos. Guericke conseguiu o cargo de supervisor da reconstrução de Madgeburg, e estabeleceu um plano de reconstrução da cidade, usando todos os seus conhecimentos. Galgou até o cargo de prefeito, em seguida; cargo esse que manteve por uns 25 anos, mais ou menos.

Como o pessoal gostava muito de Guericke, fizeram dele o representante diplomático da cidade e mandaram-no pra outros recantos negociar com seus guardiões", pra ver se livrava a cidade do julgo dos outros. Ele conduziu as negociações com maestria,mas havia algo que o incomodava; ele não podia se dedicar à sua paixão: A Ciência!

Guericke adorava os conceitos de ar e pressão. Ele tinha grana, o que dava condições a ele de encomendar seus apetrechos, como bom,as recipientes de bronze etc. Essas coisas não eram nada baratas.

Em 1648, Otto von Guericke, o Cientista Diplomata fechou o Tratado de Paz da Westfália, o tratado que deu fim à Guerra dos Trinta Anos. Ele era um homem bem respeitado nesta ocasião e Madgeburg ganhou a sua autonomia.

Mas isso não durou.

Um ano depois, Nuremberg resolveu que Madgeburg ficaria bem mais legal sob seu domínio, e lá foi doutor Otto resolver as pendengas burocráticas e discutir no balé diplomático. Como as negociações estavam beeeeeeeeeeeeeem lentas, Guericke aproveitou as longas pausas para estudar mais sobre problemas que realmente lhe interessaram.

Guericke jamais faria sucesso lá pelo meio da Europa, que ainda puxava o saco de Aristóteles. Guericke detestava blábláblá, pois assim como Bacon, ele defendia que a ciência era experimentalista.Enquanto isso, Guericke tinha que aturar outro tipo de conversa mole: o burburinho dos diplomatas, que acabou com Bradenburg metendo a mão grande e dizendo que eram eles quem mandavam em Madgeburg. Guericke ficou de saco cheio e voltou pra sua cidade para trabalhar em algo que fazia sentido: o ar.

Nessa época já haviam bombas de água, muito comuns em combater incêndios. Mas a imaginação de Guericke girava entorno do vácuo, do vazio e do espaço que ficava entre as estrelas e a Terra. O que era o vácuo? Bem, vamos produzir isso, pensou Guericke. Tio Otto tentou produzir vácuo, tirando a água de um barril de madeira. O problema é que um barril assim não é hermeticamente fechado, e o ar conseguia entrar no dito cujo pelas frestas. Uma bosta, né? Bem, Guericke percebeu que o lance era construir todo o aparato do zero, e usando metal. Foi assim que ele idealizou a bomba de vácuo abaixo:

 

Com isso, o cientista-diplomata conseguiu produzir vácuo. Guericke pegou uma esfera de metal com vácuo produzido em seu interior e o pesou. Depois, deixou o ar entrar. Com isso, ele pôde demonstrar que ar possui massa, o que é um feito e tanto. Mas ele não se contentou. Usando duas semi-esferas, Guericke mandou seus auxiliares tentarem separá-las, mas não conseguiram.

Guericke leu tudo oque se produzia na época, desde os trabalhos de Evangelista Torricelli, Galileu Galilei e Blaise Pascal. Com seus conhecimentos sobre pressão, Guericke direcionou sua atenção para o tempo. Pascal já tinha observado que a pressão atmosférica variava com os dias. Guericke achou que isso estava direcionado com o tempo, se ia fazer chuva ou sol, e começou a fazer previsões do tempo, com uma bela taxa de acerto, diga-se de passagem!

O que não foi dito até agora, é que Guericke adorava aprontar das suas. Como selfies ainda não eram moda, ele tinha que bolar algo para chamar a atenção do povo para a Ciência, cujo potencial Guericke adorava mostrar, começando a fazer verdadeiros espetáculos, mas com explicações sobre o que estava acontecendo. Era uma espécie de Cosmos da Idade Moderna, se me compreendem. A população adorava, mesmo porque, não tinha TV a Cabo, Internet e muito menos Facebook. A vida era meio chata e qualquer novidade era muito bem-vinda.

Guericke produzia vácuo em campânulas e observava o que acontecia ao se colocar uma vela acesa (apagava) ou um cachorro. O cachorro, claro, morreu, mas como não era um beagle, ninguém se importou. Mas o experimento mais importante de sua carreira como cientista foi o que mais tarde ficou conhecido como Experimento de Madgeburg.

Em 8 de maio de 1654, Otto von Guericke fez uma suntuosa demonstração. Ele conseguiu a presença até do Rei Ferdinando III e um grande número de pessoas da Baixa Saxônia vieram assistir. O que ele fez ali escreveu seu nome nos livros de História da Ciência. Ele pegou duas semi-esferas que se encaixavam perfeitamente, sendo que uma delas tinha uma saída de ar, dotada de uma válvula. A imagem acima é uma réplica do dispositivo que Otto von Guericke criou. As peças se encaixavam perfeitamente, formando um dispositivo que se fechava hermeticamente. Este dispositivo foi chamado "Hemisférios de Madgeburg" e o que ele fez foi demonstrar o grande poder do ar à nossa volta.

Guericke usou uma nova bomba pneumática que ele mandara construir (e não foi barato) para retirar o máximo de ar que podia de dentro da peça com os dois hemisférios encaixados. Virou uma bola oca, com vácuo dentro. De forma teatral, 16 cavalos entraram na arena, preparada exclusivamente pra isso. O rei estava inquisitivo e a população já estava perdendo a paciência.

Os cavalos foram separados em 2 grupos de oito animais, e a cada grupo foi amarrado um dos hemisférios. Os dois grupos de cavalos foram posicionados em direções contrárias e todo mundo pensou "Meh, eles vão arrastar aquela porcaria ali". Mas mais poderosa é a Pressão Atmosférica. Ao ser dada a ordem, os dois grupos começaram a puxar com toda a força que os animais podiam. O resultado foi… Nada! As semi-esferas não se soltavam nem que o Yoda aparecesse ali. E por mais que puxassem, nada acontecia. Que raio de feitiçaria é essa?

Claro, todo mundo pensou que Guericke havia colado as duas peças. Ele, ainda de modo teatral, mandou parar o esforço dos animais, chegou perto do dispositivo e abriu a válvula. PLOFT! Os hemisférios de Madgeburg se soltaram! Foi uma comoção! Como bom divulgador científico, Otto von Guericke explicou a todos o que ocorreu e publicou um livro relatando seus experimentos com a pressão e vácuo. O livro se chama "Experimenta Nova", e você pode muito bem dar uma olhada nele, graças aos sacrossantos poderes da Internet, clicando AQUI.

Mas e o experimento de Madgeburg Você gostaria de tentar? Experimente fazer com dois desentupidores e pia ou aquelas ventosas de pegar piso. Mas não é a mesma coisa que o que Guericke fez, né? Pôxa, ver 16 cavalos puxando os hemisférios é muito maneiro, né? Ok, veja o vídeo abaixo. De nada!

Nós não percebemos os poderes da pressão atmosférica. Nós nascemos num oceano de ar, e este ar nos envolve em todas as direções, 24h por dia. Não sentimos os efeitos, porque dentro de nós existe ar, seja nos pulmões, na corrente sanguínea, não importa. E se o ar faz pressão de fora para dentro, este mesmo ar faz força de dentro pra fora. Se formos jogados numa sala sem vestimenta apropriada, e de lá for retirado todo o  ar, explodiremos com a força da pressão atmosférica. Mas isso porque somos um mero saco de tecido molenga, certo?

Mais do que tudo isso, Guericke deduziu outra coisa. Ele sabia que quanto mais se subia num monte, menor é a pressão atmosférica. Logo, a conclusão óbvia é que cada vez que se sobe, menos ar tem. Isso iria até uma altura em que não haveria mais atmosfera. Seria o espaço, e daí estaria o vácuo. Hoje, essa linha divisória entre fim da atmosfera e início o Espaço, chamamos de Linha de Karman.

O vácuo absoluto não existe, pois o nada não existe. Não importa entretanto. Os experimentos de Guericke, que chegaram a ser um propelente de projéteis que seria o tataravó das pistolas de ar-comprimido e até pistões movidos por meio de pressão atmosférica, que seriam fundamentais na criação das primeiras máquinas a vapor. Guericke, o cientista-diplomata é mais que um showman da ciência. Foi um pesquisador, cientista, divulgador, educador e muito mais.

Em 1678, ele se aposentou do cargo de prefeito, Em janeiro de 1681, como medida de precaução contra um surto de peste, que mais tarde afetaria Magdeburg, o Cientista-Diplomata e sua segunda esposa mudaram-se para a casa de seu filho Hans Otto, em Hamburgo. Lá, Otto von Guericke, um dos Grandes Nomes da Ciência, faleceu em paz, aos 11 dias do mês de maio, no ano de 1686, o ano que nasceu o físico Gabriel Fahrenheit, o criador da escala termométrica Fahrenheit.

Diplomata, engenheiro, advogado, negociador, patriota, cientista, educador, divulgador da Ciência. Otto von Guericke não é uma figura esquecida.A Universidade Otto von Guericke de Magdeburg homenageia o grande homem, que com alguns cavalos, uma esfera de metal e o "nada" encantaram as pessoas pobres de uma cidadezinha pequena, com o mesmo encantamento que você pode causar com dois desentupidores de pia. O que lhe impede?

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • cloverfield

    Essa é com certeza a melhor série do site.
    Obrigado, André, com esses tipos de artigos vou ficando cada vez menos burro.

  • leoaraujo

    Eu já conhecia o “milagre” mas nunca tinha ouvido falar sobre a história do “santo”, e o cara era um bom marketeiro, chamou até o rei pra fazer sua apresentação, só para impressionar a população, se tivéssemos mais cientistas com esse empreendedorismo tenho certeza que o mundo seria mais “inteligente”.